iSBX I/O Bus
4.2 LOGICAL DESCRIPTION OF THE ISBX BUS
4.3.1 Address and Chip Select Lines
Da diferença entre os dois sistemas de imagens, o da consciência e o da ciência, idealismo e realismo deduzirão suas teses fundamentais. O desafio que não foram capazes de resolver reduz-se à impossibilidade que tinham em passar de um sistema ao outro. Entre a consciência e a ciência, havia um abismo. Por isso o filósofo da duração é o pensador das variações insensíveis. Ele permite pensar a passagem, a extensão que pulsa em profundidade sob a película da percepção. Aí jaz a dificuldade do realismo e do idealismo: para eles o real é cindido entre a coisa e o percebido. O idealismo subjetivo, cujo principal representante é
Berkeley, mas se poderia pensar também em Fichte, fazia derivar o sistema da ciência do sistema da percepção, considerada o fundamento, para a qual todas as imagens variam na consciência. Se quisesse, todavia, levar em consideração a ciência, teria de abandonar sua posição fundamental e reconsiderar cada imagem em função de si mesma, atribuindo o rigor científico a uma derivação simbólica do real, ou a uma harmonia preestabelecida entre as coisas e o espírito (BERGSON, 1999, p.24). O realista, por sua vez, cuja figura mais simbólica é Descartes, parte do universo governado por suas leis imutáveis, em que não há centro. Para o realista contemporâneo, que reduz tudo à matéria, torna-se um desafio pensar a percepção, esse conjunto de imagens infinitamente variáveis que não seguem qualquer rigor matemático. Para pensá-la, evoca uma consciência epifenômeno (BERGSON, 1999. p.23), uma fosforescência que acompanha as trocas físico-químicas do cérebro, sendo a percepção um acidente, um mistério, e o salto entre os sistemas um salto brusco e ininteligível. Em ambas as teses, a impossibilidade de pensar a passagem de um sistema ao outro é dada por postularem uma percepção alicerçada a uma consciência que apenas contempla, um eu que é o sujeito da percepção. A percepção, por conseguinte, teria apenas um interesse especulativo, um puro fenômeno do conhecimento.
Com efeito, é este o paradigma contestado por Bergson neste capítulo (BERGSON, 1999, p.24). Segundo Barbaras (1994, p.55), é por invalidar este pressuposto epistemológico, que o filósofo não precisa explicar o nascimento da representação no interior do cérebro. E visa desmenti-lo através da análise da própria estrutura do sistema nervoso, mostrando que a percepção deve ser pensada do ponto de vista da vida (organismo), do movimento. Tal demonstração terá, assim, uma consequência psicofisiológica e metafísica, como veremos no decorrer deste trabalho. Para Bergson, a forma como a filosofia e a ciência abordavam a questão obscurecia profundamente o tríplice problema da matéria, da consciência e sua relação (ibid.). De que forma o paradigma que duplica a consciência os obscurece? À medida que, através dele, se retira da matéria a qualidade; da consciência, sua operação de seleção no seio desta matéria; e, da relação entre ambas, a possibilidade do contato, em suma, a possibilidade da metafísica.
Ao analisar a estrutura do sistema nervoso na série animal, Bergson conclui que o cérebro não deve ser outra coisa que uma espécie de central telefônica, cujo papel é efetuar a comunicação dos estímulos do ambiente que impressionam os nervos sensoriais aos mecanismos motores da medula espinhal, ou fazê-los aguardar (BERGSON, 1999, p.26), deixando à livre escolha dos mecanismos motores uma grande diversidade de movimentos possíveis para uma única excitação. O desenvolvimento do sistema nervoso se relacionaria,
assim, a esta crescente diversidade de possibilidades motoras. A matéria viva, por exemplo, ainda em estado rudimentar de massa protoplásmica, é irritável, isto é, sofre estímulos e a eles responde de forma imediata. Conforme se torna mais complexo o organismo, esta resposta se modifica, e o corpo tende a dividir o trabalho fisiológico (BERGSON, 1999, p.25). A resposta à excitação se torna mais variada, e com isso, à mesma proporção, a possibilidade crescente de esperar frente ao estímulo ambiental.
O estímulo periférico, em vez de propagar-se diretamente para a célula motora da medula e de imprimir ao músculo uma contração necessária, remonta em primeiro lugar ao encéfalo, tornando depois a descer para as mesmas células motoras da medula que intervém no movimento reflexo. O que ele ganhou portanto nessa volta, e o que foi buscar nas células ditas sensitivas do córtex cerebral? Não compreendo, não compreenderei jamais que ele obtenha aí o miraculoso poder de transformar-se em representação das coisas, e inclusive considero essa hipótese inútil, como se verá em seguida. Mas o que percebo muito bem é que estas células das diversas regiões ditas sensoriais do córtex, células interpostas entre as arborizações terminais das fibras centrípetas e as células motoras do sulco de Rolando, permitem ao estímulo recebido atingir à vontade este ou aquele mecanismo motor da medula espinhal e escolher assim seu efeito (BERGSON, 1999, p.26).
Os órgãos perceptivos enviam o prolongamento da excitação dos objetos ambientes ao cérebro, que elabora inumeráveis vias motoras possíveis, nascentes. Seu papel, assim, é transmitir e repartir movimento, e não produzir conhecimento. Os centros do córtex e da medula são responsáveis por esboçar uma pluralidade de ações possíveis (BERGSON, 1999, p.27), limitando-se o cérebro, portanto, a receber excitações e montar aparelhos motores, que se tornam mais numerosos, conforme é mais desenvolvido na escala evolutiva. Mais aparelhos motores significam, e isto é crucial, um maior número de pontos distantes no espaço relacionados ao corpo, através de uma maior potencialidade de ação. O desenvolvimento da massa cinzenta, com isso, aponta para o corpo como um centro de indeterminação crescente, uma imagem cada vez mais desvencilhada da necessidade que rege a matéria, ao mesmo tempo que, como indeterminação, é concomitante de uma maior latitude de ação, de um maior número de objetos iluminados no ambiente. Tudo se resume a esta afirmação do filósofo: se se considerar o sistema das imagens solidárias umas às outras, que compõe o todo, e, em seu interior, centros de ação real (a matéria viva)
afirmo que é preciso que ao redor de cada um desses centros sejam dispostas imagens subordinadas à sua posição e variáveis com ela; afirmo consequentemente que a percepção consciente deve se produzir, e que, além disso, é possível compreender como essa percepção surge. (BERGSON, 1999, p.28)
A partir disso, Bergson enuncia uma lei rigorosa que vincula a intensidade de ação do ser vivo à extensão da percepção consciente; maior é a hesitação do corpo frente ao estímulo, maior a distância no espaço e a multiplicidade dos objetos que se intercalam para o animal.
Em outras palavras, o desenvolvimento da zona de indeterminação permite deduzir, assim, a quantidade e a distância das coisas a ela relacionadas, de onde esta lei: “a percepção dispõe
do espaço na exata proporção em que a ação dispõe do tempo” (BERGSON, 1999, p.29).
Perguntaremos: de que forma esta relação do organismo com os objetos do ambiente caracteriza uma percepção consciente? Sobretudo, em que sentido esta percepção significa consciência?