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Part III: Red Hat Desktop Workstation

Chapter 10: Window Managers

Lukes (2005) responde, em seu livro, a uma série de críticas à sua teorização do poder. Mas há uma série de aspectos que precisam ser considerados para verificar-se a adequação de sua teoria ao caso em estudo. Em primeiro lugar, cumpre observar que o pensamento deste autor sobre o poder considera este fenômeno a partir da perspectiva da assimetria, como apontado por Carvalho e Vieira (2007) – ou seja, a capacidade de exercer poder é essencialmente um atributo de alguém, enquanto que outras pessoas não o possuem. Analisando-se a estrutura dos comitês, pode-se afirmar que, ao menos teoricamente, cada

agente teria condições de exercer poder em algum momento – o que leva a qualificar a capacidade de poder como algo que se realiza em determinados momentos, e não em todos. Mas existem outros questionamentos que precisam ser avaliados.

Um dos aspectos que permanece sem solução reside no tratamento dado à relação entre poder e responsabilidade; tendo admitido que o conceito de responsabilidade é bastante complexo e discutível, Lukes (2005) não o desenvolve e deixa a questão em aberto, considerando apenas que todo exercício de poder envolve consequências que devem ser atribuídas a quem o efetua. Mas, antes de utilizar esse conceito, ele analisa o problema da determinação estrutural dos interesses na sociedade por meio de uma síntese do debate entre Poulantzas e Milliband a respeito dos interesses de classe e seu papel na determinação das políticas, concluindo que a concepção de Poulantzas, em particular, falha ao considerar que uma classe só pode agir de acordo com seu próprio interesse, enquanto que sua teoria do poder admite que quem o exerce pode fazê-lo de modo diferente (LUKES, 2005). Em suma, pode-se afirmar que Lukes rejeita a noção de interesses de classe como determinante do poder porque esta não abre a possibilidade de agir diferentemente do que seria tal interesse – uma rejeição um tanto simplista porque não dá conta da complexidade dessa noção tal como desenvolvida pelo próprio Poulantzas.

Ainda que Lukes (2005) observe que não se pode atribuir poder a organizações, coletividades e instituições que possam ser considerados como agentes – já que estes possuem problemas de coordenação de ação – parece não haver espaço em sua formulação para a ideia de que as classes possam atuar como agentes dotados de poder na sociedade. No entanto, convém recordar que essa ideia é crucial; para prová-lo, pode-se recorrer a Dahrendorf (1982, p. 109), que estuda o papel do conflito nas sociedades industriais e afirma: “evidentemente, os protagonistas do conflito são os indivíduos, mas apenas na medida em que o impacto de sua ação é dirigido por condições estruturais e agregados maiores de indivíduos.” Ou seja, é preciso admitir que existem condições sociais – ou estruturas sociais – que determinam (ou ajudam a determinar) o comportamento dos indivíduos em situações de exercício de poder. Não há, aqui, solução para o problema da coordenação da ação dos indivíduos, que Lukes corretamente aponta como relevante, mas pelo menos não há a desconsideração pura e simples de um fenômeno que não pode ser desprezado, qual seja, a influência das organizações e estruturas sociais sobre o comportamento de agentes individuais em situações de poder. Considerando-se que os indivíduos envolvidos nas relações de poder dentro dos comitês de bacia são representantes de entidades e organizações, essa constatação impõe o

uso de formulações adicionais à teoria de Lukes. Uma dessas formulações adicionais pode ser encontrada no conceito de hegemonia de Gramsci, do qual se falará mais a frente.

Existe uma lacuna no pensamento de Lukes sobre o poder: embora ele afirme que suas ideias se apliquem simultaneamente à capacidade de poder de um indivíduo sobre outro quanto de uma organização sobre outra, a forma pela qual uma organização constituiria esse poder não fica suficientemente clara, as fontes e as bases desse poder não são visíveis em sua formulação. Essa questão se reveste de importância especial para este trabalho porque se lida com organizações, isto é, com atores políticos, econômicos e sociais que atuam no comitê como representantes de organizações maiores, com interesses, estruturas de valor, e formas de pensamento próprios, devendo-se então tentar definir como essas organizações moldam sua atuação tentando influenciar as demais na consecução de seus objetivos. Ou seja, é necessário investir na materialidade dos interesses dessas organizações.

Pode-se buscar uma forma de lidar com esse problema usando o pensamento marxista; Marx e Engels (1996) afirmam que as ideias, a consciência e as representações feitas pelos seres humanos estão entrelaçadas nas suas atividades materiais, fazendo com que sejam os homens reais, ativos na produção das condições materiais de vida os responsáveis pela produção do pensamento e da ideologia. E o choque entre esses pensamentos e ideologias deve produzir, naturalmente, uma instituição dominante – que se poderia dizer hegemônica.

Ao estudar o conceito de hegemonia, Lukes (2005) faz uma relação entre ele e a visão bidimensional, considerando que se trata de um recurso a ser usado pelo indivíduo que exerce poder para garantir que as questões que não lhe interessam sejam transformadas em não- decisões. Entretanto, o autor não considera um aspecto importante que poderia fazer a ligação entre as visões bi e tridimensional: o papel desempenhado pelo intelectual na construção da hegemonia. O intelectual pode não somente induzir questões para o território da não-decisão, o que o associa com a visão bidimensional, mas, como será visto na seção seguinte, pode influenciar a atuação de grupos e indivíduos de maneira contrária aos seus interesses, usando para isso a força de seu conhecimento – encaixando-se desta maneira na visão tridimensional do poder. Embora não haja conflito necessariamente entre esse posicionamento de Lukes e a visão marxista calcada nas classes sociais, poder-se-ia apontar uma dificuldade, que seria a de trabalhar a noção de hegemonia junto com a visão de Bourdieu sobre o poder, que será vista a seguir, já que este afirma categoricamente que não existem classes sociais, e sim posições no campo social. No entanto, embora este autor não considere a existência de classes sociais como dados, ele admite que são “coisas a fazer” (BOURDIEU, 2010).

Dito isso, cumpre analisar mais detalhadamente os recursos de poder, que são o objeto da próxima seção. Convém lembrar que, para Lukes (2005), o poder deve ser visto como uma capacidade: exercê-lo indica quem o possui, e analisar seus mecanismos permite compreender sua distribuição entre os agentes sociais.