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Ao construir seu discurso, seu texto, a MTV parte da visão que tem do seu target, de sua audiência. Isto pressupõe uma intenção anterior ao ato de construção do enunciado. Pressupõe a pré-existência de uma ideologia, uma intencionalidade que começa antes mesmo da sua construção. “[...] a todo e qualquer discurso subjaz uma ideologia, na acepção mais ampla do termo” (KOCH, 1984, p. 19). De fato, uma vez que a construção de um discurso dependa da ação do interlocutor, na escolha dos discursos pré-existentes que irão compor o seu novo enunciado, na estética, nas relações políticas que irão determinar o teor do seu dizer, até na escolha de uma palavra em detrimento de outra, neste caso não se pode considerar Discurso, sem que este conceito esteja intrinsecamente relacionado à idéia de Ideologia.

Alguns estudos da linha de jornalismo e comunicação utilizam bastante essa fatia teórica da ACD, na medida em que têm por objetivo desvelar as intenções por trás do texto jornalístico divulgado como neutro, como imparcial. Estes trabalhos defendem a idéia de que não é possível que se estabeleça um discurso neutro.

Neste sentido, recorrem a ferramentas de análise mais preocupadas com as marcas textuais, como por exemplo, as apresentadas por MARCUSCHI (1991), Os verbos

introdutores de opinião e por KOCK (1995), Operadores argumentativos. Em todo caso, esta

preocupação com a construção do texto em si não deixa de lado as teorias da ACD, muito menos representa uma tradição referenciada totalmente na Lingüística Imanente.

O discurso é muito complexo e define muitos níveis de estruturas, todos com umas categorias e elementos que se combinam de mil maneiras. Como já temos visto, quando as ideologias se expressam explicitamente é fácil

detectá-las, mas também aparecem de maneira indireta, implícita, escondida em estruturas do discurso menos óbvias [...] (VAN DIJK, 2003, p. 55).

Esta tradição de pesquisas em jornalismo e ACD é um outro recorte, não o deste trabalho. Apenas auxilia a compreender as relações entre ideologia e discurso. Neste projeto, tais definições são importantes, uma vez que se considera que o discurso da MTV é construído a partir de uma estrutura que é carregada de ideologia.

O ideológico está presente num texto pelas marcas ou traços que estas regras formais de geração de sentidos deixam na superfície textual [...] Uma parte do ideológico também transparece num texto sob a forma de preconstruídos, que são inferências e pressuposições que o coemissor deve fazer para suprir as lacunas e dar coerência à interpretação que faz, interligando as frases e partes do texto e ligando-o a um mundo (PINTO, 2002, p.41).

É preciso especificar quem é este jovem a quem a MTV direciona a sua programação. A própria emissora, através do seu departamento de ‘Pesquisa de Audiência’, contratando órgãos de pesquisa especializados, publica em seu site9 o perfil deste jovem e compara o nível de audiência que mantém em comparação a outras emissoras de televisão. Partir-se-á então, para definir a qual perfil de jovem a MTV pretende atingir, dos dados que a própria emissora divulga10 como seu target, ou sua principal audiência.

Em primeiro lugar, a emissora apresenta qual o perfil geral11 da sua audiência em três critérios: Sexo, classe social e idade.

Perfil de Audiência - Sexo

51% 49%

Homens Mulheres

9 Informações retiradas do site www.mtv.com.br/publicidade. 10 Idem 1.

Perfil de Audiência - Classe

Social

55% 33%

12%

Classe AB Classe C Classe DE

Perfil de Audiência MTV - Idade

0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35 anos ou + 30 a 34 anos 25 a 29 anos 20 a 24 anos 15 a 19 anos 10 a 14 anos

Em relação à divisão da audiência em sexo, o perfil é equilibrado, praticamente igual, composto 51% pelo sexo masculino e 49% pelo sexo feminino. Quando se divide o perfil por classe social, aparece uma maioria de 55% relativos às classes AB, seguidos por 33% de audiência de classe C e a minoria fica por conta das classes DE, com 12% do total. Apresenta maioria de audiência com maior poder aquisitivo. Isto é justificável uma vez que grande parte do sinal da emissora é transmitido em sinal fechado, ou seja, pago.

Neste ponto é necessário fazer uma observação. Os dados acima foram transcritos do site da emissora, os gráficos foram recriados a partir dos dados numéricos. Existe uma

informação importante quanto ao terceiro gráfico, ‘Perfil de Audiência – Idade’. Abaixo, uma cópia exata da imagem do mesmo gráfico divulgado no site da emissora:

Enquanto o gráfico reconstruído neste trabalho apresenta apenas os dados específicos, sem nenhuma diferenciação imediata, o gráfico divulgado pela emissora apresenta uma peculiaridade. Três faixas etárias (15 a 19 anos, 25 a 29 anos e 30 a 34 anos) recebem destaque através da separação de cor e de linhas que indicam uma soma da porcentagem total dessas três faixas etárias. Os dados divulgados pelo instituto de pesquisa se limitam às porcentagens separadas por faixas etárias. Existe aqui uma inferência da emissora indicando a soma de três das cinco faixas como que compondo a parcela mais importante ou mais significativa da audiência. Mas por que não escolher qualquer outra seqüência de três faixas etárias? Poderia muito bem ter utilizado o critério das três maiores porcentagens, o que modificaria a seleção para 15 a 19 anos, 20 a 24 anos e 35 anos ou +, que apresentam os valores mais significativos. No entanto, a faixa de 35 anos ou + não foi selecionada.

Existe aqui uma inferência, uma identificação de intenção da emissora em dar atenção a uma faixa específica de sua audiência, de maneira convencional. Não foi utilizado um critério matemático na escolha.

“A linguagem que falamos, o sistema de sinais que emitimos, a miríade de traços, escolhas, omissões e partilhas de que somos compostos, falam de nós. São indicadores da nossa posição peculiar na rede tensa das tendências políticas” (SANTAELLA, 1996, p. 331). Ou seja, esta escolha faz emergir a “posição peculiar” da emissora em relação à importância que dá a determinada parcela do seu público. É um indicador da visão que ela tem da sua audiência e este fator tem muita importância uma vez que a MTV vai construir o seu discurso em cima da visão que faz do alvo deste discurso.

Ao escolher certos elementos que vão compor as características visuais e verbais da sua programação, a MTV parte de uma visão que têm de sua audiência. Seja esta visão mais aprofundada ou não. De acordo com o público destinatário e com as intencionalidades do produtor, a mensagem é construída de forma diferenciada, “[...] a neutralidade é apenas um mito: o discurso que se pretende ‘neutro’, ingênuo, contém também uma ideologia – a da sua própria objetividade” (KOCH, 1984, p. 19).

Tanto é convencional esta opção, este destaque por determinada faixa da sua audiência, que os outros dados de pesquisas apresentados pela MTV vão valorizar essa faixa de público: 15 a 29 anos. O primeiro passo é, a partir desta seleção de audiência principal, efetuar uma comparação da preferência desta audiência em relação a canais concorrentes na TV a cabo e na TV aberta, como no gráfico abaixo12:

Canais de TV Favoritos dos Jovens AS, AB, 15 a 26 anos

26

10

6

6

5

4

4

4

3

3

3

0

5

10

15

20

25

30

Glo bo MTV SB T Dis cove ry War ner Tele Cin e SP OR TV Mul ti S how Car toon Son y Cul tura

A emissora continua a apontar diversos outros tipos de comparações com outras emissoras, a partir do mesmo target. O mais importante, entretanto, é a seleção que a emissora faz inicialmente, dentro das faixas etárias, para em seguida efetuar diversas comparações de nível de audiência com outras emissoras. É como uma declaração de qual o target privilegiado pela emissora, quando da construção da sua mensagem.

Isto justificaria o fato de se encontrar dentro da superfície discursiva dos produtos simbólicos gerados pela MTV brasileira, diversos signos pertencentes ao universo de conhecimento de uma audiência especializada. Não há inocência nestas escolhas.