Part III: Red Hat Desktop Workstation
Chapter 11: The Shell
Ainda que não utilize o conceito das três dimensões do poder, Pierre Bourdieu é responsável por importantes formulações a respeito do poder, descrevendo mecanismos de poder consistentes com a visão tridimensional desenvolvida por Lukes (2005). Dessa forma, esta seção irá lidar com o pensamento deste autor, considerando-se sua contribuição para o desenvolvimento de uma melhor compreensão da visão tridimensional. Não somente, utilizar- se-á sua formulação para produzir um quadro mais completo a respeito de como o poder é exercido dentro de contextos sociais, preenchendo-se desta maneira a lacuna entre a noção de capacidade, que se encontra bem desenvolvida na abordagem do pensamento de Lukes, e o efetivo exercício de tal capacidade.
Lukes (2005) trata de Bourdieu no capítulo terceiro de seu livro, que trata especificamente do poder tridimensional (ou seja, ele não foi abordado na versão original, pois o capítulo terceiro foi acrescentado na segunda edição). Para ele, o trabalho de Bourdieu é central para a compreensão da forma pela qual os atores no processo social introjetam forças culturais que lhe são estranhas. Assim, cumpre entender como “os dominados aplicam categorias construídas sob o ponto de vista do dominante em relação à dominação, dessa forma, fazendo-as parecer naturais.” (BOURDIEU, 2001 apud LUKES, 2005, p. 139), o que deve ser compreendido por meio da noção de violência simbólica, isto é, por mecanismos sutis que muitas vezes passam desapercebidos pelos atores sociais, ainda que em funcionamento, os quais Bourdieu define como o habitus, ou seja, disposições corporificadas que fornecem “sentido prático” e organizam as visões de mundo do ator social abaixo dos níveis da consciência em formas resistentes à articulação, reflexão crítica e manipulação; os agentes sociais são dotados de habitus que as experiências passadas inscrevem em seus corpos (LUKES, 2005). Para Carvalho e Vieira (2007), o habitus corresponde a estruturas incorporadas pelos seres humanos, em relação com os campos sociais, que são estruturas objetivas nas quais os agentes sociais realizam disputas em torno do poder simbólico, buscando impor sua visão de mundo e, desta forma, obter posições mais vantajosas nesse campo; de acordo com esses autores, para Bourdieu os atores sociais incorporam o habitus de tal forma que nem mesmo tem consciência dele. As estruturas presentes no habitus, de acordo com Cappelle, Melo e Brito (2005) tomam a forma de esquemas mentais e corporais de percepção, compreensão e ação.
A força simbólica é exercida sem o recurso à violência física, isto é, trata-se de uma forma de poder exercida sobre os corpos de maneira quase “mágica”, incrustando-se nestes como disposições executadas nos diferentes “campos”, ou seja, nos espaços sociais estratificados em que os indivíduos disputam recursos (ou “capitais”) desigualmente distribuídos; estas disposições constituem o habitus e estão afinadas com a ordem social, levando o ator social a percebê-la como naturais e autoevidentes (LUKES, 2005). O conceito de habitus, de acordo com Bourdieu (1989), indica que se trata de um conhecimento adquirido e de um capital (um haver). Cada classe possui um habitus característico (BOURDIEU, 1989). O habitus, conforme Miceli (2009), permite interiorizar estruturas exteriores – ou seja, naturaliza e normaliza as disposições estranhas que o dominado acaba considerando como suas. Dessa maneira, o habitus se aproxima da visão do poder em sua terceira dimensão.
Existe um espaço social em que agentes e grupos se distribuem em diferentes posições, que, embora se aproximem umas das outras, não se sobrepõem (ou seja, vigora a “exterioridade mútua”), e são determinadas por dois princípios de diferença, quais sejam, a posse de um capital econômico ou de um capital cultural; a cada classe de posições corresponde um habitus, produzido pelos condicionamentos sociais associados a cada posição e um conjunto de bens e propriedades. Os atores sociais distribuem-se no espaço por meio de diferentes volumes (quantidades) e estruturas (combinações) dos capitais econômico e cultural (BOURDIEU, 2010). Este espaço, ao qual se fez referência anteriormente, é o campo social, que na visão de Bourdieu (1989) representa um conjunto de relações de força impostas a todos os entrantes, forças estas que são irredutíveis às posições individuais; ou seja, pode-se ver que as relações de poder entre os membros do campo social são determinadas por posições coletivas, de grupos. Tal noção auxilia na compreensão da passagem de uma relação individualizada de poder, como se nota no trabalho de Lukes (2005), para uma relação que se constrói também entre grupos sociais.
O poder deve ser investigado em termos de quem o detém e para quem se dirige; Bourdieu (1989) emprega o conceito de campo de poder para definir as relações de forças entre posições sociais que conferem a seus ocupantes uma quantidade de capital suficiente para participar nas lutas pelo monopólio do poder; essa noção, para ele, equivale à de classe dominante. O campo de poder se configura dentro de um espaço social em que diferentes atores interagem e procuram fazer prevalecer seus interesses (CARVALHO; VIEIRA, 2007). O poder simbólico, de acordo com Bourdieu (1989) é um poder que existe à medida que aquele que se sujeita a ele crê que exista – ou seja, somente se pode falar em poder simbólico se quem o “sofre” reconhecer em quem o exerce a existência dele. Carvalho e Vieira (2007) observam que o campo do poder não deve ser visto como algo estático: as posições dos atores se modificam de acordo com a quantidade e o valor de capital simbólico de que dispõem, e que pode ser transformado em poder. Deve-se, agora, aclarar mais a noção do capital simbólico.
Dentre os vários tipos de capital existentes dentro da sociedade contemporânea, encontra-se o simbólico, que fornece aos seus detentores o poder de impor à sociedade os valores mais adequados aos seus e garante-lhes o monopólio sobre as instituições que formam e reproduzem uma hierarquia social (LUKES, 2005); dentro de um grupo social, o poder busca construir tal grupo impondo princípios de visão comum que lhe estabeleçam uma
identidade (BOURDIEU, 1989). Um conceito de capital simbólico pode ser encontrado em Bourdieu (2010, p. 149):
Chamo de capital simbólico qualquer tipo de capital (econômico, cultural, escolar ou social) percebido de acordo com as categorias de percepção, os princípios de visão e divisão, os sistemas de classificação, os esquemas classificatórios, os esquemas cognitivos, que são, em parte, produto da incorporação da estrutura de distribuição do capital no campo considerado. [...] O capital simbólico é um capital com base cognitiva, apoiado sobre o conhecimento e o reconhecimento.
Dentro do campo, a relação entre os dominantes e os dominados deve ser compreendida não somente por meio dos mecanismos visíveis, pois, como nota Bourdieu (1989), todos os agentes (dominadores e dominados) contribuem para o exercício da dominação por meio da relação entre suas atitudes (que o autor associa às condições sociais de produção) e suas expectativas e interesses inscritos em sua posição no campo. Produções simbólicas acabam por integrar as classes dominantes, distinguindo-as das demais, legitimando a ordem social estabelecida e as distinções entre essas classes (CAPPELLE; MELO; BRITO, 2005). No campo de poder, estabelecem-se relações de força entre os capitais econômico e cultural, e os agentes dotados de maior quantidade de um dos dois tipos lutam uns contra os outros na busca do domínio (BOURDIEU, 2010). Busca-se impor uma visão de mundo legítima, e cada ator possui poder em quantidade proporcional ao seu capital simbólico, ou seja, ao reconhecimento que recebe de um grupo (BOURDIEU, 1989). O poder simbólico, para este autor, pode ser entendido como poder de fazer ver e de fazer crer; segundo Carvalho e Vieira (2007, p. 28), o poder simbólico deve ser encarado como “[...] o poder de fazer ver o que não é visto, de consagrar o que existe, ou mesmo de criar, com o poder do discurso legitimado pelos atores.”
Cumpre observar que o capital simbólico é algo atribuído por um agente social a algum tipo de capital (físico, econômico, político, etc.), pois esse agente é capacidade de reconhecer e atribuir valor a tal capital (BOURDIEU, 2010). O capital simbólico, então, pode ser visto como a acumulação de prestígio, de honras, de consagrações, e se baseia na dialética entre conhecimento e reconhecimento (CARVALHO; VIEIRA, 2007); a posse deste capital permite às classes dominantes o exercício de um poder simbólico sobre as demais, o qual as práticas sociais se incumbem de legitimar e disseminar (CAPPELLE; MELO; BRITO, 2005). O papel dos profissionais é discutido por Bourdieu (1989) a partir da constatação de que estes
produzem, de maneira monopolística, formas legítimas de percepção e de expressão política, produção esta condicionada à lógica da conquista do poder.
Se há um capital simbólico, pode-se então falar de um mercado de bens simbólicos, o qual, para Bourdieu (1989), é regido por leis próprias. Abundam em Bourdieu (1989) as menções a operações que lembram a descrição de um mercado de bens econômicos. Por exemplo:
O campo político é o lugar em que se geram, na concorrência entre os agentes que nele se acham envolvidos, produtos políticos, programas, análises, comentários, conceitos, acontecimentos, entre os quais os cidadãos comuns, reduzidos ao estatuto de “consumidores” (grifos nossos), devem escolher, com probabilidades de mal- entendido tanto maiores quanto mais afastados estão do lugar de produção. (BOURDIEU, 1989, p. 164).
Em outro trecho no mesmo trabalho, ele fala em concentração de capital político (que Bourdieu define como uma forma de capital simbólico, um “crédito” firmado na crença e no reconhecimento conferidos por um agente a uma pessoa – ou a um objeto – detentora de um poder que o agente nela reconhece). O mercado político é descrito por Bourdieu (1989) como um dos menos livres que se pode encontrar, e existem constrangimentos na produção de bens políticos que pesam, sobretudo, nas classes dominadas (ou seja, essas classes dispõem de menores possibilidades de apresentar formas políticas de “ver” e de “fazer crer”); a produção e a circulação de bens simbólicos consistem em relações objetivas entre diferentes instâncias que ocupam posições na divisão do trabalho de produção, reprodução e difusão de bens simbólicos (BOURDIEU, 2009).
Para maior clareza sobre esses conceitos pode-se recorrer à definição que o próprio Bourdieu (1989) dá para o poder simbólico, que é o poder exercido por meio da cumplicidade de atores que não querem saber que estão sujeitos a ele, ou não querem saber que o exercem. Esse poder necessita de sistemas simbólicos como a língua, a arte e a religião, sistemas estruturados que exercem poder estruturante na sociedade; esse poder constrói a realidade ao estabelecer uma ordem gnoseológica, definindo concepções homogêneas do tempo, espaço, número, causa, ou seja, conferindo sentido imediato ao mundo e gerando integração social. Trata-se, então, do
[...] poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação
sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, isto é, ignorado como arbitrário. Isto significa que o poder simbólico não existe nos “sistemas simbólicos” em forma de uma “illocutionary force” ( grifo do autor) mas que se define numa relação determinada [...] entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos [...]. O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia [...]. (BOURDIEU, 1989, p. 14 – 15).
Os sistemas de poder simbólico se distinguem conforme forem produzidos e apropriados pelo conjunto do grupo social, ou então pela sua produção por um grupo de especialistas (1989). Relações de comunicação são relações de poder que dependem do poder simbólico ou material acumulado pelos agentes, cumprindo funções políticas de imposição e de legitimação da dominação de uma classe sobre outra – ou seja, de violência simbólica (BOURDIEU, 1989). Por fim, não se pode esquecer que, como notam Cappelle, Melo e Brito (2005), todo esse processo envolve algum tipo de conflito.