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The K Desktop Environment:

Part III: Red Hat Desktop Workstation

Chapter 9: The K Desktop Environment:

Ainda que Lukes (2005) reconheça na visão bidimensional um importante avanço em relação à unidimensional, ela não o satisfaz como recurso para a análise do poder. É importante considerar que o exercício de poder, para Lukes, não é simplesmente o que se corporifica e aparece em situações concretas – trata-se de algo mais sutil, e Hägstrom (2005) define essa sutileza quando afirma que, na visão tridimensional, A pode exercer poder sobre B por meio de controle, manipulação ou autoridade, sem que este (e até mesmo A) perceba tal exercício. Os vieses, afirma Lukes (2005), não são apenas aqueles que transparecem dos atos dos indivíduos, pois são produzidos também pelos padrões de comportamento social e culturalmente construídos pelos grupos, bem como pelas práticas institucionais – ambos, padrões e práticas, podem ser construídos tanto pela ação quanto pela inatividade dos atores; de fato, uma das críticas que Lukes (2005) faz à visão bidimensional está no enfoque excessivamente centrado no comportamento de atores individuais. Dessa forma, nota Heyman (2003), o poder assume uma dimensão estrutural, pois envolve a moldagem de estruturas sociais e culturais utilizadas pelas pessoas em posição subalterna para definir seus desejos, interesses e capacidades de ação.

Uma vantagem da visão tridimensional de Lukes, de acordo com Hägstrom (2005), reside no fato de que esta permite trabalhar com os mecanismos sutis que os atores utilizam para moldar as percepções, a cognição e as preferências uns dos outros de modo que estes aceitem seu lugar na ordem das coisas; outro aspecto importante (ainda que possa ser

submetido a fortes críticas quando de sua aplicação empírica) apontado pelo mesmo autor consiste na distinção feita por Lukes entre os interesses revelados (que são os mesmos estudados nas visões uni e bidimensional) e os reais, ou seja, aqueles que o ator apresentaria em situações de autonomia ou independência em relação ao poder de outrem. A visão tridimensional, aponta Lukes (2005), envolve uma crítica ao behaviorismo das duas visões anteriores, excessivamente individualistas, e a consideração de situações em que questões de política são postas de lado pela ação de indivíduos ou pela operação de forças sociais ou práticas institucionais. Assim, se, de um lado as visões uni e bidimensional do poder centralizam sua atenção no comportamento de atores individuais no processo de decisão política, a visão tridimensional incorpora questões como estruturas sociais, instituições e organizações que, mesmo feitas de indivíduos, não podem ser reduzidas a eles: “[...] o poder que exercem não pode ser conceituado simplesmente em termos de decisões ou comportamento individuais.” (LUKES, 2005, p. 26).

Para Lukes (2005), quando Bachrach e Baratz criticam o behaviorismo, sua crítica ainda é excessivamente “qualificada”, isto é, ainda se encontra excessivamente determinada pelo próprio behaviorismo, pois focaliza no comportamento “aberto” (visível) dos atores. Para ele, as decisões refletem escolhas entre alternativas, consciente e intencionalmente feitas por atores, enquanto que a mobilização dos vieses no processo decisório pode ocorrer de formas não escolhidas conscientemente; além disso, podem não ser o resultado intencionalmente pretendido pelos atores quando estes fazem suas escolhas (LUKES, 2005). Dessa maneira, a visão tridimensional trabalha com a perspectiva de analisar não somente as ações identificadas no exercício de poder, mas também com aspectos subjetivos (GAVENTA, 1982). Além disso, ao analisar o conflito nas relações de poder, não é suficiente trabalhar com conflitos reais e observáveis: para Lukes (2005), a autoridade e a manipulação são situações em que há exercício de poder sem que haja conflito real entre as pessoas, e, mais importante,

A pode exercer poder sobre B tanto conseguindo que este faça algo que não queria fazer,

quanto influenciando, modelando e definindo seus próprios desejos e necessidades. Em suas próprias palavras:

[...] O exercício supremo de poder não seria conseguir que outro(s) possua(m) os desejos que você quer que eles tenham – ou seja, assegurar sua obediência ao controlar seus pensamentos e desejos? (LUKES, 2005, p. 27).

A visão tridimensional, ao contrário da bidimensional, que exige o conflito para que se verifique o exercício de poder, considera que evitá-lo é o uso mais efetivo de poder que se pode imaginar (LUKES, 2005). Neste sentido, enquanto Bachrach e Baratz consideram que a inexistência de queixas e reclamações sobre políticas é uma indicação de consenso, Lukes (2005) a interpreta como um sinal de que o poder está sendo exercido de maneira eficiente no sistema, pois pode ser o resultado da manipulação das pessoas cujas demandas não tem sido apresentadas no processo decisório. Analisando essa questão, Gaventa (1982) conclui que, na visão bidimensional, o poder, ao impedir que determinadas questões sejam objeto de discussão no processo decisório, busca restringir o conflito, ao passo que na tridimensional o poder “esvazia” e evita o conflito ao moldar concepções e padrões de não-conflito no sistema sociopolítico. Isso não significa que o consenso não seja observável na visão tridimensional; pelo contrário, de acordo com Gaventa (1982), o consenso pode resultar indiretamente da própria posição subordinada, de ausência de poder, daqueles que são “objetos” da relação de poder, e diretamente da determinação, feita pelos poderosos, da consciência dos demais.

No que diz respeito à relação entre os interesses e o poder, como visto anteriormente, Lukes (2005) afirma que, na visão tridimensional, há um ponto de vista radical. O autor observa que a noção radical esposada pela visão tridimensional considera que as necessidades e desejos das pessoas podem ser o produto de um sistema que opera contra seus interesses, devendo-se identificá-los com o que as pessoas efetivamente desejariam e prefeririam caso tivessem a oportunidade de fazê-lo (LUKES, 2005). Assim, os desejos e crenças podem ser objeto de modificações advindas do exercício de poder, levando pessoas a agirem contra seus próprios interesses (LUKES, 1986). Além disso, é preciso considerar que as preferências e interesses podem tanto ser revelados, como nos tratamentos que derivam da teoria econômica, quanto ficarem mais ou menos ocultos, parcialmente articulados (ou mesmo completamente não articulados) devido à cultura predominante ou aos vieses do sistema; formas alternativas de conceber os interesses dizem respeito às condições que as pessoas necessitam para viver satisfatoriamente, o que quer que signifique essa condição, ou aquilo que constitua seu bem estar (LUKES, 2005). De acordo com Mackenzie (2011), Lukes tencionava evidenciar que as preferências dos atores estão, muitas vezes, determinadas por estruturas fundamentais, e a interação entre os atores na esfera social ajuda a definir essas preferências de modo nem sempre consciente; as estruturas fundamentais tipicamente servem aos interesses de alguns, não de outros. Na visão tridimensional, o poder pode ser visto como uma forma de alguém

obter efeitos significativos promovendo seus próprios interesses e/ou afetando positiva ou negativamente os de outrem (LUKES, 2005).

Na visão tridimensional, a expressão “exercer poder” precisa ser trabalhada cuidadosamente; em primeiro lugar, o exercício de poder não deve ser considerado como algo individualista e intencional em todas as vezes que ocorre, pois nem sempre as pessoas envolvidas tem a percepção de que se trata de uma situação de poder (LUKES, 2005). Assim, o poder deve ser sempre concebido como uma capacidade, e não necessariamente como um exercício. Além disso, é preciso distinguir entre dois sentidos:

a) Em primeiro lugar, há que se considerar o sentido operativo do exercício de poder, ou seja, existem situações em que as ações isoladas de dois atores diferentes (A e A1) podem

levar um ator B a desempenhar uma ação que, de outra forma, ele não realizaria. Neste caso, supondo-se que ambos ajam simultaneamente, não há como determinar quem exerce poder sobre B, sendo necessário considerar que ambos o fizeram. Ambos exerceram poder suficiente para fazer com que B agisse, mas nenhum deles pode afirmar que foi o principal responsável pelo resultado;

b) O sentido efetivo do exercício de poder é aquele em que a ação de A é crucial para que B realize a ação que A espera que ele desempenhe. Assim sendo, o curso normal dos eventos é modificado pela intervenção do agente A. Dentro deste caso, é possível falar-se de um exercício efetivo bem sucedido de poder somente se a ação realizada por B efetivamente corresponder aos desejos de A, ou seja, este é capaz de controlar o comportamento daquele (LUKES, 2005).

O poder, então, é exercido quando A age (ou não age) de uma determinada forma, e B realiza algo que, de outra forma, ele não faria: supondo-se que A deseje que B realize a ação x, mas B deseje realizar a ação y, então, em condições normais, B preferiria realizar y; no entanto, se B realizar x, então se pode falar de exercício de poder (LUKES, 2005). Para o autor, a escolha por não exercer poder obrigatoriamente reconhece a existência ou a disponibilidade de poder do agente (afinal, só pode escolher entre ir de carro ou de ônibus para o trabalho o indivíduo que possui um carro e que dispõe de linhas de ônibus ligando sua casa ao local de trabalho). O autor sustenta que, para cada situação em que o poder é exercido, deve haver uma demonstração contrafatual: ou seja, para que se possa reconhecer na ação x realizada por B o exercício de poder por parte de A, deve-se demonstrar que B pretendia

realizar a outra ação; isso, Lukes (2005) reconhece, nem sempre é fácil de fazer, embora seja possível.

Os mecanismos de poder, de acordo com Gaventa (1982), são menos compreendidos na visão tridimensional do que nas demais, pois há grande variedade de mecanismos a trabalhar: mitos sociais, linguagem, símbolos, formas de transmissão de informação, meios de legitimação, ou seja, formas pelas quais o poder se imiscui na construção social de significados e padrões que levam B a agir da forma que A deseja. Esses mecanismos incluem também as formas pelas quais o agente que exerce poder modifica e molda as crenças do outro, ou seja, a adaptação psicológica deste à situação de impotência ou ausência de poder; frequentemente derrotado em suas aspirações no processo decisório, B pode mudar suas demandas, internalizar os valores do ator A, optar por não participar ou não reconhecer A como responsável pela sua situação subordinada (GAVENTA, 1982). Há que se observar que possuir mecanismos de poder não é a mesma coisa que ser poderoso: para Lukes (2005), observar o exercício de poder indica sua posse, e os recursos de poder dão uma ideia de sua distribuição, mas deve-se considerar que “[...] o poder é uma capacidade, e não o exercício ou veículo dessa capacidade.” (LUKES, 2005, p. 70).

À dificuldade de apresentar-se uma demonstração contrafatual, Lukes (2005) acrescenta outra: a visão tridimensional possui algumas características que complicam a realização de pesquisas empíricas, quais sejam:

a) O exercício de poder ocorre tanto pela ação quanto pela inatividade;

b) Nem sempre o agente está consciente de que exerce um poder, seja porque desconhece os reais motivos da ação (ou inatividade), seja porque não tem consciência de como os outros interpretam suas ações, seja porque não conhece as consequências da ação de alguém; c) Por fim, há a dificuldade de trabalhar com o poder exercido por coletividades, como as

classes sociais, grupos ou instituições, pois a tarefa de definir a distinção entre a determinação estrutural e o exercício de poder não é propriamente simples. Para Lukes (2005), essa distinção reside na capacidade – ou poder – do ator em agir diferentemente, o que, no caso de um grupo de pessoas, envolve combinações ou organizações dentro de tal grupo para agir de outra forma.

Lukes (2005) tenta sobrepujar essas dificuldades, e um dos aspectos que aborda refere- se à relação entre poder e dominação; para ele, o poder se refere à dominação quando favorece ou, no mínimo, não prejudica os interesses do poderoso, fazendo-o às custas dos

demais, ou quando restringe significativamente os desejos ou as capacidades de ação dessas pessoas. O poder deve ser capaz de gerar resultados significativos, portanto, pode se valer da dominação, mas não se pode reduzi-lo somente a essa característica. Além disso, deve-se considerar que a dominação, na visão tridimensional, envolve interesses não conhecidos pelos atores, mas a eles imputados (LUKES, 2005). Outra questão se refere à manipulação; de acordo com o autor, é possível deduzir da visão tridimensional que o poder envolve obrigatoriamente o uso da manipulação, mas isso se distancia da realidade – pensar desta forma implica em desconsiderar o fato de que o poder pode funcionar de maneira não intencional, como mencionado anteriormente. Por fim, Lukes (2005) estuda a acusação de que sua visão tridimensional recorre ao conceito de “falsa consciência”; para ele, este conceito deve referir-se a um tipo especial de poder cognitivo, qual seja, o poder de iludir (mislead), em vez de relacionar-se a uma “verdade especial”, acessível somente a poucos. Uma pessoa, para o autor, pode ao mesmo tempo consentir no exercício de poder e ressentir-se dele.

Lukes (2005) reexamina criticamente seu conceito de poder no intuito de mantê-lo e responder aos críticos, concluindo que é preciso tomar cuidado com alguns aspectos-chave: os interesses, por exemplo, não devem ser vistos sob uma perspectiva unitária, pois são múltiplos e variados em cada agente; a noção de dominação, central para a compreensão de sua visão tridimensional do poder, não pode ser considerada como a única face do poder; o poder não deve ser visto como uma relação binária, e sim como uma intrincada rede de relações. Mas, de todo modo, tendo-se estabelecido as três dimensões do poder, é preciso verificar de que modo essa capacidade pode ser exercida (ou não) dentro de um sistema social. Porém, antes de passar para os recursos de poder disponíveis, é preciso avaliar o pensamento de Lukes.