Part II: Basic Setup
Chapter 7: Setting Up a Local Area Network with Red Hat
A visão bidimensional deriva dos trabalhos de Bachrach e Baratz (1962, 1970 apud LUKES, 2005). Conforme esses autores, a teoria unidimensional do poder falha ao não incorporar o que Schattschneider (1975) chamara de capacidade de mobilização de vieses, ou seja, a possibilidade de uma organização política mobilizar-se na busca da resolução de um conflito, enquanto que outras questões permanecem sem discussão – algo que este autor considerava ser a mais devastadora estratégia política. A primeira dimensão do poder refere- se à capacidade do ator A em participar das decisões que afetam B; a segunda, à capacidade de
A de afetar e modificar o sistema político de modo que somente questões que lhe sejam
relativamente inócuas – ou seja, A consegue evitar que B traga à baila aquelas questões que não deseja tratar (BACHRACH; BARATZ, 1970 apud LUKES, 2005). De acordo com Bachrach e Baratz (1962), tanto os sociólogos quanto os cientistas políticos falham em reconhecer a existência dessas duas dimensões; concentrar-se na primeira dimensão seria o erro, observa Lukes (2005).
A importância do trabalho de Bachrach e Baratz reside no fato de que eles trazem à discussão essa questão da mobilização de vieses, definida como o conjunto de valores predominantes, crenças, rituais e procedimentos institucionais que sistemática e consistentemente operam em benefício de alguns grupos às custas de outros (LUKES, 2005). Para Gaventa (1982), a capacidade de mobilizar vieses representa um recurso adicional de poder à disposição dos atores no processo decisório; os recursos e mecanismos presentes na visão unidimensional estão devidamente presentes neste caso, devendo-se, portanto, analisar também de que forma o ator social consegue empreender essa mobilização em seu favor, retirando ou incluindo questões na discussão. A visão bidimensional, então, refere-se à situação em que um ator é capaz de evitar conflitos por meio do impedimento da discussão de certas questões, mesmo quando os subordinados possuem visões potencialmente conflitantes. Gaventa (1982), por sua vez, chama a atenção para o fato de que, na visão bidimensional, o poder se exerce não somente sobre os participantes de um processo decisório, mas também no sentido de excluir alguns participantes em potencial, bem como determinadas questões.
Para Lukes (2005), Bachrach e Baratz utilizam o conceito de poder em dois sentidos distintos: em primeiro lugar, “poder” refere-se a todas as formas bem sucedidas de controle de
A sobre B, ou seja, as formas que aquele usa para conseguir a obediência deste; o segundo
sentido consiste especificamente numa dessas formas, qual seja, a ameaça de impor punições ou sanções. Este uso constitui-se em uma dificuldade, de acordo com Lukes (2005), pois, em sua visão, o segundo uso deveria ser simplesmente tratado como coerção, reservando-se o termo “poder” para o primeiro. Além disso, segundo ele, é preciso distinguir entre diferentes conceitos (o que Bachrach e Baratz não fazem): influência, em que A, sem recorrer a ameaças ou sanções, faz com que B mude sua forma de agir; autoridade, em que B reconhece que o mando de A é razoável em termos de seus próprios valores; força, em que A retira de B a possibilidade de escolher entre obedecer ou não; manipulação, que é um tipo especial de exercício de força, em que B não consegue definir com precisão qual é a natureza da demanda que A impõe sobre ele (LUKES, 2005).
A incorporação de uma segunda dimensão do poder leva à discussão não somente de situações que envolvem a tomada de decisão, mas também a não-decisões. Para Bachrach e Baratz (19702 apud LUKES, 2005), é fundamental determinar quais são as questões potenciais que se evita discutir e, portanto, são transformadas em não-decisões. Numa tentativa de identificá-las, Howlett e Ramesh (2003) consideram que as não-decisões são situações em que opções que se desviam do status quo são sistematicamente excluídas, ou seja, situações em que o debate em torno das políticas permanece centralizado no status quo porque as alternativas não são consideradas ou debatidas. Existem diferentes formas de excluir essas questões do debate político; de acordo com Gaventa (1982), a força, a ameaça de aplicação de punições ou sanções, a manipulação de vieses dentro do sistema sociopolítico e a modificação desses vieses, dando-lhes significados simbólicos diferentes, são formas de conduzir o sistema a situações de não-decisão.
A não participação, afirma Schattschneider (1975), pode ser o resultado da constatação de que o processo não incorpora alternativas de decisão adequadas às necessidades e desejos da pessoa. Ou seja, é possível considerar que no processo político, existam pessoas que optem por não fazer parte por acharem que não terão benefícios com isso, o que abre uma nova frente de possibilidades de estudo na tomada de decisão política. Para lidar com este problema, parafraseando o título do livro de Lasswell (“Politics: Who gets what, when and how”), Bachrach e Baratz (1963 apud GAVENTA, 1982) consideram que o estudo da política envolve determinar não somente quem ganha o quê, quando e como, mas também quem fica
de fora, e como; são duas questões que, de acordo com esses autores, precisam ser consideradas como interrelacionadas.
Mas, se for considerada a efetiva participação de um ator no processo, é preciso diferenciar as formas que ela assume. Para Bachrach e Baratz (1962), a participação no processo é diferente em cada dimensão do poder: enquanto que na primeira dimensão, A participa abertamente do processo tomando decisões, na segunda ele participa de maneira velada, buscando sustentar os valores e regras de procedimento que o ajudem a manter certas questões fora do domínio público. Assim:
É claro que o poder é exercido quando A participa na tomada de decisões que afetam B. Mas o poder também é exercido quando A devota suas energias para criar ou reforçar valores sociais e políticos e práticas institucionais que limitam o escopo do processo político à consideração pública somente daquelas questões que são comparativamente inócuas para A. Até o limite em que A seja bem sucedido ao fazê-lo, ele evita que B, para todos os fins práticos, traga a baila quaisquer questões que possam ser prejudiciais ao conjunto de preferências de A ao serem resolvidas. (BACHRACH; BARATZ, 1962, p. 949).
Bachrach e Baratz (1962) criticam Dahl porque sua abordagem seria incapaz de distinguir entre o tomador de decisão e o agente que inicia a discussão de uma questão política, de um lado, e aquele que pode ser indiretamente responsável por evitar que questões potencialmente perigosas sejam levantadas; para eles, Dahl enfatiza indevidamente a importância de iniciar, decidir e vetar no processo decisório. Tanto quanto trabalhar com quem domina quanto com quem exerce poder, é importante investigar quem mobiliza os vieses em uma organização (BACHRACH; BARATZ, 1962). Mas, se os dois autores foram além de Dahl em sua análise do poder, não chegaram a esgotar as possibilidades: de acordo com Gaventa (1982), a visão bidimensional não esgota as possibilidades de controle sobre a definição de questões.
Lukes (2005) compara as visões de Dahl e Bachrach e Baratz, concluindo que, para o primeiro, uma questão pode ser considerada política quando chama a atenção de um segmento expressivo do estrato político, enquanto que, para os outros dois, é igualmente importante identificar questões potencialmente políticas que possam ser retiradas da discussão por meio de não-decisões. Embora diferentes, as visões se aproximam, para o autor, quando se considera a questão do conflito, aberto ou velado; na visão unidimensional, o poder se manifesta apenas quando há conflito, ao passo que na bidimensional ele também está presente
nos casos de não-decisão. Bachrach e Baratz afirmam que, se não existir conflito explícito, não se pode falar em não-decisão (LUKES, 2005). Embora reconheça que a visão bidimensional representa um avanço em relação à unidimensional em sua crítica ao behaviorismo presente nesta, Lukes (2005) considera essa crítica “qualificada” pelo fato de que assume a não-decisão como um processo decisório, portanto, não escapa da necessidade de estudar o comportamento real, observável, dos atores nas situações de não-decisão.
Conforme Mackenzie (2011), para Lukes o poder opera da forma que Dahl, por um lado, e Bachrach e Baratz, pelo outro, sugerem, mas há uma terceira forma que esses autores não consegue captar, em que se busca “manufaturar consensos”; esta terceira forma consiste na terceira dimensão, a ser vista a seguir.