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Cross-Section Measurements

4.1 Why Cross Sections Are Important

Por tratar-se de uma escola que atende crianças do grupo 4 ao 5º ano do ensino fundamental, ou seja, perpassa o ciclo da alfabetização (1º, 2º e 3º ano), e que também possui turmas dos programas Se Liga (programa emergencial que atua para combater o analfabetismo nos primeiros anos do Ensino Fundamental, tendo como objetivo alfabetizar crianças que repetem de ano porque não sabem ler nem escrever) e Acelera Brasil (programa que possibilita que o aluno vindo do Se Liga volte para a sala regular, porém na idade certa), a dificuldade de aprendizagem/fracasso escolar é identificada quando o aluno ainda não sabe ler, escrever ou interpretar pelos educadores.

4 Planilhas entregues à escola, para que o professor faça uma avaliação de aspectos referentes à saúde do aluno.

Trata-se de um rastreamento para necessidades biológicas do aluno. A partir desse rastreamento, o aluno pode ser encaminhado para um serviço de saúde ou não.

“Aí a professora colocou logo, essa menina tem problema: ela não sabe ler, é algum problema psicológico! E não sei o que lá...porque essa menina já foi acompanhada por alguém, já passou por um especialista” (E02).

“Então, assim, a formação de sílabas, já começa a dificuldade. Em saber diferenciar que sílaba é e formar a palavra, e dali formar uma frase e fazer uma leitura. Na matemática eu vejo que não é tanto, é mais na leitura” (E04).

“A gente começa a fazer o levantamento dos problemas que ela tem, de leitura, de escrita, aí a gente começa a notar se a criança tem dificuldade ou não” (E12).

“É você ter crianças em níveis tão diferentes, que não reconhecem o alfabeto e outros que estão lendo e interpretando com inferência” (E13).

“Eles não conseguem ler, e principalmente identificar as letras” (E14).

“Tem dificuldade principalmente na leitura, meu objetivo maior por enquanto é a leitura, e aí eu peço para ela, porque eu tenho muito aluno que é copista, ele quer copiar, copiar, mas não sabe o que tá copiando” (E20).

Possivelmente, esse foco no ler, escrever e interpretar está atrelado aos aspectos que são cobrados no ciclo de alfabetização por meio da Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) proposta pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Trata-se de uma avaliação externa que objetiva aferir os níveis de alfabetização e letramento em Língua Portuguesa (leitura e escrita) e Matemática dos estudantes do 3º ano do Ensino Fundamental das escolas públicas.

Esses aspectos (ler, escrever, interpretar) são considerados o conhecimento mínimo necessário ao ciclo de alfabetização, porém, não se reduz a eles, sendo a interpretação vista como a função social da língua e necessária para leitura de mundo, que quando não consolidada, pode produzir impacto negativo nas demais áreas de conhecimento.

De acordo com Prioste (2016), as crianças com dificuldades no processo de alfabetização necessitam de apoio pedagógico logo que o problema é identificado, para não propagar traumas que diminuam o potencial de aprendizagem. E, segundo Sameroff (2009, 2010), o impacto no desenvolvimento pode dar-se pela regulação de sistemas dinâmicos, indo

do elementar para o complexo.

Citando ainda Prioste (2016), para que essa regulação seja eficaz, são fundamentais melhores condições de trabalho docente, com diminuição do número de alunos, suporte no preparo das atividades, reuniões para discussão de casos, além de grupos de reforço para as crianças que apresentem dificuldades.

No entanto, o que acontece é o encaminhamento dos alunos ao programa Se Liga ou Acelera Brasil, muitas vezes afastando a criança da escola, pois ao não conseguir o objetivo (leitura), a criança volta para a sala regular, porém com uma diferença grande de faixa etária em relação ao restante da turma, podendo ter interferência na representação dada a construção individual feita pelo aluno, como observado nas seguintes falas:

“Tem dois meninos de 13 anos que ainda não sabem ler, então pensei em colocá-los novamente nesses programas, para eles continuarem no Acelera, mas não vai poder ficar no Acelera, então volta para uma turma que vão se deparar com toda dificuldade, os meninos já leem, os alunos estão em um nível e ele não. Aí vai começar a recuar, a se sentir rejeitado, diferente, a ficar do jeito que era, ou seja, voltamos para a estaca zero” (E08).

“Como a gente tem esse projeto Acelera, agora mesmo eu tenho 2 alunos do Acelera. São alunos que têm dificuldade de aprendizagem, eu tenho um com 13 anos no 4º ano, fora de faixa, mas tava no Acelera, e como ele não avançou, ele volta, eles excluem” (E10).

“Tem mãe aqui que não fala comigo, que diz mil desaforos, fala mal de mim à beça, porque eu convidei para vir na escola para encaminhar os filhos dela, hoje em dia os meninos já passaram pelo Acelera, pelo SE LIGA e não conseguem aprender a ler” (E18).

“O aluno se desmotiva, diz que não consegue, fala que já participou de projetos e não passou. Tem que saber o motivo. Ter essa investigação. Essa ação com a saúde, a família e a escola, os três!” (E04).

Ao analisar as falas, deparo-me com a Teoria Unificada de Sameroff (2009;2010) e continuo a questionar (Será que apenas um direcionamento pedagógico e políticas pontuais são capazes de combater o fracasso escolar? Qual a repercussão desse sucesso ou o fracasso escolar fora da escola, na vida da criança? Qual a representação e consequentemente a auto regulação que a criança faz, quando ainda não atingiu o conhecimento mínimo esperado no ciclo de

alfabetização?) e lembrar que uma problemática apresentada por Maria Helena Sousa Patto no final da década de 1980 ainda é tão presente, quase 40 anos após.

Ao se transformar problemas sociais em biológicos, por uma triagem sem capacitação adequada para o preenchimento da avaliação global, no que diz respeito à “dificuldade de aprendizagem”, há uma isenção da escola e do governo, e se gera a produção da medicalização na educação, por meio da responsabilização do aluno de um problema que está enraizado em uma política pública que busca sobretudo indicadores, o que repercute de maneira negativa na vida da criança também fora do ambiente escolar, o que configura, na verdade, fracasso escolar.

Lembrando que, ao contrário de dificuldade de aprendizagem, fracasso escolar é um processo multifacetado, fruto de uma construção histórica que marginaliza a educação das classes populares na busca de resultados numéricos (indicadores), e não da qualidade do ensino, e desconsidera o contexto do aluno, da família e da escola. Logo, políticas pontuais se tornam apenas paliativos para mascarar um problema sistêmico, e a busca de programas privados, tais como “Se Liga” e “Acelera”, aproximam a iniciativa privada da gestão pública, possivelmente na intenção de privatização, quando levam à impressão de desqualificação dos serviços públicos diante da sociedade.

Além disso, uma formação baseada apenas em indicadores sem considerar-se o contexto, além de pouco atrativa para o aluno que aprende, traz entraves para uma formação crítica e reflexiva, diplomando um sujeito pouco questionador do sistema de ensino no qual foi formado, dificultando a ascensão social, sobretudo com a redução de programas sociais que estamos vivenciando.