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Cross-Section Measurements

4.3 Cross-Section on Water and the Water to Scintillator

O Tema Geral “Medicalização na Educação” foi formado pela união dos Temas Específicos: Vulnerabilidade – Educador e Fluxo na Escola.

Vulnerabilidade do Educador

Tema específico, formado pelo código [VULNERABILIDADE_EDUCADOR], com 41 citações. Apesar de ter ficado claro, nos itens 5.2 e 5.3, que os professores entendem que o não aprender a ler, escrever e interpretar é um processo socialmente construído e não problema individual do educando, a vulnerabilidade que fragiliza o ser professor, muitas vezes, leva o mesmo a criar rótulos para o aluno, provavelmente reflexo de uma negação desse contexto, ou para justificar o não alcance dos objetivos traçados para o processo de ensino-aprendizagem. Assim, transformam-se problemas sociais em individuais, e favorece-se o processo conhecido como medicalização na educação.

“Às vezes, eu acredito que o professor tá tão cansado. O dia-a-dia do professor é tão cansativo que as vezes até um certo comportamento do aluno, a gente já pensa, já diz que o aluno é temperativo, já diz que o aluno é hiperativo, que ele não para, que ele tem problema e por isso não aprende” (E02).

“Também temos problemas, perdemos a paciência com o aluno na sala de aula, e achamos que o aluno está dando problema, falamos logo para encaminhar” (E04).

“A gente acaba fazendo uma comparação. Ritmo da turma e aqueles que não entram no ritmo da turma” (E06).

“Seria importante até para o professor conversar com outro professor, ver como é que está, conversar com o diretor...que nem isso a gente consegue, a gente não tem tempo. É importante falar a dificuldade que está tendo na sala de aula. Porque até a aula atividade, cada professor tem o seu dia e é um separado do outro, então é mais fácil colocar a culpa no aluno e mandar para as meninas do AEE” (E04).

Mesmo sabendo que o desenvolvimento do aluno é influenciado por um complexo sistema que pode ser representado pela Teoria Unificada de Sameroff (2009;2010), e que os professores reconhecem a interferência multifacetada dessa questão, a baixa autoestima e a falta de apoio entre os professores e na própria escola os levam a responsabilizar a criança pelo não desenvolvimento escolar, individualizando até mesmo questões pedagógicas e favorecendo a medicalização na educação. No entanto, eles reconhecem, como visto nas falas apresentadas,

suas fragilidades e a “fuga” desse problema, muitas vezes de ordem pedagógica e estrutural da escola, ao responsabilizar o aluno.

“Outra coisa é uma boa relação do professor com as crianças e entre eles, acho que uma coisa que a gente tem que ter muito firme é um aperfeiçoamento psicológico para lidar com elas, porque acho que a gente tem que ter isso para ajudar a criança nesse aprendizado, às vezes é tão difícil, às vezes é mais fácil dizer que o menino tem problema” (E08).

Sameroff (2009), ao discorrer sobre o modelo de regulação, aponta a influência que o ambiente e os fatores psicológicos têm no desenvolvimento do indivíduo, sendo a auto regulação amplamente influenciada pelas experiências com o outro e com o meio, logo, apesar de ter convicções claras sobretudo que envolve o aprender do aluno, a forma de olhar o outro influencia a conduta do professor. Servalho (2008), apresentando a vulnerabilidade na perspectiva social, mostra situações nas quais a população enfrenta opressão e lutas cotidianas pela conquista da autonomia, mas reconhece sua fragilidade frente à coletividade, como mostrado nas falas.

Fluxo na Escola

Em relação ao fluxo e aos encaminhamentos para o setor saúde, fatores que motivaram o interesse pelo estudo, pois os registros na ficha de avaliação global eram alarmantes, esses encaminhamentos ficam, na maioria das vezes, restritos às fichas e/ou à escola.

Apesar de haver na ficha de avaliação global a marcação em que o professor identifica a “dificuldade de aprendizagem”, a definição desse termo para os professores inclui o que se define como “fracasso escolar”, no momento em que eles apontam fatores familiares, políticos, sociais, estruturais e pedagógicos (como já apresentado). Dessa forma, o aluno só é encaminhado para os serviços de saúde fora da escola após uma abordagem pedagógica e em conjunto com a família, pois esse não aprender a ler, escrever e interpretar é visto como uma resposta a um sistema que deve ser avaliado sob vários prismas.

Esse tema específico, Fluxo na Escola, foi formado pelo código [FLUXO], com 30 citações, entre elas:

“Quando identifico alguma criança com dificuldade, a gente fala com a direção, a coordenadora pedagógica olha essa criança, primeiro a gente tenta ver com as meninas do

AEE, se dentro da história familiar não tem algo que esteja interferindo, no próprio histórico de família de problema de aprendizado. Aí a gente tenta esse contato, o que pode ser feito com essa criança dentro e fora da escola, e vê a possibilidade de estimular e ajudar o professor em sala” (E07).

“Faço atividade diferente, procuro a coordenação pedagógica que manda para o AEE para fazerem entrevistas, elas chamam a família e, quando elas percebem uma dificuldade, elas encaminham. Mas, na maioria das vezes, são problemas familiares” (E11).

“Quando a gente nota alguma deficiência, geralmente encaminha pra pessoa responsável do AEE, que é responsável por esta área, e aí é feito o acompanhamento, minha preocupação maior é, quando eu chamo os pais pra conversar sobre a criança, eu faço questão de dizer que eu sou professor, que eu sou pedagogo, que eu não sou da área médica” (E12).

“Hoje na minha sala eu já identifiquei, estou passando agora o papelzinho para a pessoa da educação especial, porque eu tenho um aluno que não reconhece as letras, é pré-silábico, escreve ainda com garatujas no terceiro ano, é uma situação bem complexa e é o ano que pode reter” (E13).

O fato da criança estar na fase pré-silábica no 3º ano, não necessariamente indica uma deficiência, podendo ser reflexo do complexo sistema no qual ela está inserida e que dificulta a exploração e manifestação das suas potencialidades, ao mesmo tempo que exalta as dificuldades que são exigidas para aprovação no ciclo de alfabetização.

“Dificuldade de aprendizagem, a gente faz um acolhimento, uma escuta, a avaliação pedagógica é feita por nós, mas junto com o professor, que é a melhor pessoa para dizer porque o aluno está com dificuldade de aprendizagem, e a gente faz o acolhimento aqui, junto com o professor, com o próprio estudante e junto com a família, tem que ser realmente esse trio, a família tem que estar presente, para também dizer como é esse aluno em casa, como é que ele desempenha as atividades em casa, como é que ele escuta uma televisão, como é que ele relata um filme, como é que ele relata uma historinha, a gente também tem que escutar essa família para ver se o que a professora tá sinalizando como queixa, também se tem tudo a ver com a criança em casa, porque a criança em casa tem as atividades da vida diária, então, será que ela sabe dar um recado, será que ela sabe calçar um sapato, será que ela sabe assistir um programa e dizer à mãe o que assistiu? Então, tem toda uma análise que a gente tem que fazer,

antes de realmente encaminhar para a clínica” (E15).

Considerando que o processo de aprender não pode ser visto de forma linear, e diante do contexto apresentado na escola do estudo, no qual os educadores têm entendimento da complexidade para construção desse saber, ocorre uma organização (apesar de não existir um protocolo) na condução pedagógica desses alunos. Logo, apesar do número de crianças tidas como tendo “dificuldade de aprendizagem”, a escola tenta resolver os problemas evidenciados, primeiro com a família e a escola, e só depois encaminhar para uma avaliação nos serviços de saúde. Assim como na escola do estudo de Jou e colaboradores (2010), que apresentou apenas 0,2% nos encaminhamentos, quando em outra escola do mesmo estudo chegou a 51%, nessa, quando a professora levanta essa suspeita, observa-se a criança, conversa-se com os pais ou responsáveis e encaminha-se para os serviços de saúde.

Apesar de entender esse problema complexo, os professores colocam a necessidade de ter apoio dentro dos dispositivos de saúde, na expectativa de mudar a situação dessas crianças, e apontam a necessidade de uma rede estruturada e equipamentos públicos nesse território de vulnerabilidade.

“O que não pode acontecer é a professora ficar sozinha, e dizerem: veja aí como você resolve. Aí eu acho que não resolve, o que resolve é ampliar as parcerias, pra tornar diferente a vida dessas crianças, pelo menos das crianças que são acolhidas na rede” (E13).