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Estimation of Uncertainties

6.2 Detector Uncertainties

Quando o grupo foi questionado sobre as soluções projetadas que não foram realizadas, e o motivo de só os alunos até o 3º ano participarem das atividades do cantinho da leitura, foram apresentadas pelo grupo as Fragilidades no contexto da escola, tema geral que foi suscitado pela união dos temas específicos: Pouco interesse pela leitura e Desorganização do Sistema Educacional.

Pouco interesse pela leitura

Tema específico, gerado por meio de dois códigos da base de dados: [FALTA DE INTERESSE DOS MAIORES]; [SOBRECARGA DE CONTEÚDOS], com 10 citações que construíram a fala do grupo:

Grupo Focal “Os alunos dos 4os e 5os anos têm uma densidade da carga horária e de conteúdos muito

grande, além disso, a escola teve avaliação do quarto ano, teve aquela avaliação Brasil. Mas, acho que não participam porque estão com a cabeça mais voltada, coisa de pré-adolescente, com a cabeça mais voltada para música, para TV, não ligam muito para leitura e nem para livros não, é a própria fase, porque pré-adolescente não está ligado nessas coisas, gostam mais dessas coisinhas voltadas para televisão, de filme, não gostam muito de leitura não. Nós trabalhamos isso em sala de aula, mas é porque tem aluno que não gosta mesmo de estar lendo não. Os pré-adolescente passam por essa coisa mesmo, porque os maiores são muito influenciados pela TV, muito mesmo. E o que eles assistem? Eles assistem a novela, um programa, sei lá...Malhação, não é nada de educativo, e nós só estamos com eles 4 horas, então o resto é influência da TV, do rádio, porque as meninas gostam de tá se pintando, maquiando, falando de namorado, só querem saber de dançar. Coloque uma música ali, coloque um MC para você ver(risos)”.

Muito se fala das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) como ferramentas para melhorar a aprendizagem, no entanto, quando o sistema educacional não tem estrutura para atender esses alunos do século XXI fica uma competição “injusta”. Logo, é necessário entender as mudanças e ter investimento no sistema educacional possibilitando que o ensino se torne mais atrativo diante desse novo público. Pois a leitura, para conquistar, precisa ser atrativa, sobretudo quando a cultura do ler não foi desenvolvida.

Os pares, segundo Sameroff (2009) também fazem parte do modelo contextual e influenciam o desenvolvimento, logo, a identificação e a busca das crianças por músicas, filmes, hábitos que permeiam aqueles grupos estão sempre em modificação e proporcionam a regulação e novas representações, podendo ser proporcionadas pela escola formas criativas de uso da tecnologia para melhorar a interação do aluno, sobretudo com a leitura. No entanto, para isso, a escola precisa de investimentos financeiros, além de investimento em formação continuada, visto que o uso de tecnologia, apesar de ser de fácil uso pelos jovens, que nasceram no mundo tecnológico, apresenta limitações e resistências daqueles que viram o nascer dessa tecnologia. Apesar da rede de ensino ter disponibilizado mesas interativas, tablets e conexão com a internet, a capacitação para o uso não foi estimulada. Estudo realizado com professores mostra que, apesar de conhecer a importâncias das TICs, o docente não se sente inserido na era digital quando associada à prática docente, além de temer por sua autoridade perante os alunos, tendo assim uma relação conflituosa (AZEVEDO; BERNARDINO JÚNIOR; DARÓZ, 2014).

Desorganização do sistema educacional

Tema específico, gerado por meio de quatro códigos da base de dados: [VULNERABILIDADE DOS PROFESSORES]; [ROTATIVIDADE DE PROFESSORES]; [INTERESSE POLÍTICO]; [FRAGILIDADE DA RAPS], com 20 citações.

Grupo Focal “Quanto ao fluxo das crianças com dificuldade de aprendizagem, é de forma pedagógica e pessoal. Nós ainda temos a ajuda das meninas do AEE, quando o professor identifica que o aluno não aprende, que tá com muita dificuldade, principalmente na questão da leitura, de ler, então a gente conversa com as meninas do AEE e elas chamam, apesar de não ser a função delas, mas elas chamam os pais, conversam com os pais, juntamente com um professor e eles encaminham para os locais que elas conhecem e tem contatos. Mesmo que seja identificado algo, na escola, não temos muito aparato, até o apoio em sala é muito difícil, são estagiárias, pessoas muitas vezes que não tem nenhuma formação para estimular a criança. Como temos esse apoio das meninas do AEE, que cobram dos pais quando fazem o encaminhamento, não temos muitas crianças com laudo aqui não. Mas, as vezes eu acho que tem criança sem laudo, mas seria um laudo era para todo o contexto, porque tem muitas coisas que prejudicam, e a aprendizagem fica estacionada”.

Apesar de buscar a interação com a família, fica claro na fala do grupo que a escola ainda tem um discurso de cobrança. Será que a relação de poder tão estabelecida no modelo biomédico e que vem favorecendo a medicalização na educação está passando a ser da escola sobre as famílias? Será que o contexto de vulnerabilidade social no qual as famílias estão inseridas está sendo considerada? Oliveira e Marinho-Araújo (2010) colocam que a relação família-escola está permeada por um movimento de culpabilização, no lugar de uma responsabilização compartilhada, e isso constitui-se um desafio para o processo educativo.

No entanto, o grupo considera que não é o aluno responsável pelo não aprender, não há uma culpabilização da criança, mas todo contexto, sobretudo o familiar é considerado. Dessa forma, há um investimento no aluno dentro da escola, apesar de pouco suporte recorrente de uma RAPS desestruturada, como já apresentado na identificação da situação. Assim como Sameroff (2009;2010), a escola também entende que o modelo de mudança pessoal, o modelo contextual, o modelo de regulação e o modelo de representação possam interferir no não aprender na escola, no entanto, o suporte para estimular esse aprender encontra-se fragilizado.

Grupo Focal “Os professores entram e saem logo; é licença, atestado, férias, outras licenças, os professores já entram faltando, os professores aqui adoecem demais. Às vezes, não é observado as necessidades da turma, acho que o professor não identifica antes, porque na sala tem muita rotatividade dos professores. Tem uma professora maravilhosa e já vai sair, ela nem participou da construção, mas adorou, tá substituindo uma professora, mas também já vai sair, a rotatividade do professor prejudica muito”.

A organização no sentido de promover a saúde do professor é falho e/ou inexistente. No entanto, os professores têm mais risco de sofrimento psíquico quando comparados a outros grupos e as relações entre o processo de trabalho, condições nas quais ele se desenvolve e possível adoecimento físico e mental constituem um desafio (GASPARINE; BARRETO; ASSUNÇÃO, 2005). Saúde e educação são condições primordiais para o desenvolvimento humano e social, logo é necessário cuidar dos professores, sobretudo frente às demandas atuais, nas quais esses profissionais precisam de competência pedagógica, social e emocional para estimular a criança, ao mesmo tempo em que identifica suas limitações e possibilidades (DIEHL; MARIN, 2016).

Mas, ao mesmo tempo que o grupo fala da necessidade de entender a escola, o professor e todo contexto escolar, os participantes colocam que muitas vezes as mudanças só acontecem diante de fiscalizações, como na fala que segue:

Grupo Focal “Muitas mudanças aconteceram por conta da visita do Ministério Público que autuou a escola, mas muitos serviços quem pagou foi a diretora, com o dinheiro dela, para não correr o risco para as crianças. Mês passado eles (o Ministério Público) tiveram aqui e colocaram que das escolas que eles visitaram essa era a pior, eu fiquei horrorizada. Mas, tás vendo essas caixinhas, já colocaram essas caixinhas, em todas as salas, para colocar ar condicionado, já são ligações para ar condicionado, em todas as salas, eles disseram que até 2019 o prefeito disse que terá ar condicionado em todas as salas de todas as escolas, basta saber se vai ter manutenção, porque o da sala da direção mesmo, vive faltando manutenção, se a gente não faz. Mas vai ter eleição, ele bota mesmo, e a manutenção fica para o próximo”

Ao mesmo tempo que a escola apresenta belíssimos resultados por meio do trabalho em grupo, visando melhorar o ambiente escolar, é autuada e informada ser “a pior”, mas “pior em

quê?”. O papel puramente fiscalizador do Ministério Público incomoda por não apresentar soluções reais e favoráveis para a melhoria do processo pedagógico dentro da escola. O reconhecimento do trabalho e a valorização profissional são condições para o desenvolvimento profissional e pessoal, interferindo assim na representação positiva.

No entanto, ações pontuais e sem pactuação com a escola, vem deixando o rastro de como são falhas as condutas realizadas e as políticas impostas, sem uma avaliação da necessidade e sem ouvir os atores inseridos no contexto, como pode ser observado no relato do grupo:

Grupo Focal “O PSE eu nem sei se existe mais, a coordenadora que era ‘graças a Deus’ sumiu do mapa, ela era autoritária demais, você via, o negócio dela era dar ordens. Do PSE não teve nada, desde aquela época que você ainda estava aqui, das confusões que teve, não teve mais nada, ninguém apareceu, mesmo porque em outras escolas continuaram, mas aqui não, aqui não teve nada. Não sei porque o PSE não deu certo, não tem aquela avaliação que iniciou não, não sei o porquê. E a nova ficha de avaliação nem chegou a ter treinamento, e nem foi preciso usar. Sumiu, desde que você estava aqui sumiu, a coordenadora era muito da impositiva, não temos muito apoio de fora não, só os contatos que as meninas do AEE fazem mesmo”.

Apesar da importância de assistir a criança em todas as suas necessidades, os programas existentes que poderiam ser de apoio acabam por desestimular e reforçar o conformismo social. Lembrando que apenas a instituição escolar e a família não podem ser responsabilizadas, muito menos culpabilizadas, pois ambas estão inseridas em um modelo contextual de fragilidade que pode limitar o desenvolvimento infantil, contribuindo no processo e consolidação da alfabetização.

ACABOU? NÃO...NÃO ACABOU! _____________________________________________

Apresento nas páginas que seguem as considerações finais, porém o trabalho em grupo na escola continua, e isso é o que faz a pesquisa-ação ter um gosto diferente...o espiral não para e as lembranças do que foi vivenciado nesses quatro anos ficarão impregnadas nas minhas memórias e nos laços de amizades que foram construídos. Afinal, o alcance foi além dos objetivos da pesquisa, foi minha transformação diante de um choque de realidade que possibilitou meu crescimento e amadurecimento.

“[...] e uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas.”