2.4 Validation de l’´ecoulement dans le canal
2.4.2 Validation de l’installation exp´erimentale
Quando falamos de ações voluntárias de indivíduos no campo da doação de dinheiro, bens materiais ou tempo (através do trabalho voluntário) não é tão simples –como geralmente se supõe –traçar fronteiras claras entre assistencialismo e política, entre caridade cristã e solidariedade social. Isto porque as motivações e as representações que delas fazem os seus agentes permitem muitos arranjos entre lógicas de reciprocidade (humanitárias ou religiosamente motivadas) e a lógica da cidadania.
Regina Reyes Novaes (s/d:1) Santos (1997: 80) afirma que em seus primórdios o Espiritismo alcançava somente a classe alta, especialmente em função da ausência de tradução das obras e pelo analfabetismo da maior parte da população. Mas, já no século XX, esta religião se expandiu
Roger Bastide (apud Stoll, 2002: 366) afirma que para cada classe social existe ênfase em determinada característica da doutrina: na classe alta, mais intelectualizada, no aspecto científico; nas classes médias, no aspecto religioso; nas classes populares, no lado da cura. Nesse “lado médico” do Espiritismo há um enorme cabedal de publicações de caráter psicológico ou psiquiátrico (como a série Por que adoecemos?60; Elucidações Psicológicas à luz do Espiritismo61 ou A Loucura Sob Novo Prisma62) e ocorrem todos os anos congressos de médicos espíritas63.
Por esta face compreendemos que o Espiritismo Kardecista foi precursor do associativismo democrático no Brasil ao realizar de forma independente do Estado suas obras sociais. Desde seus primórdios a assistência social espírita esteve ligada à cura quando começou a atender os pobres recorrendo à homeopatia mediúnica. Nela os espíritos (segundo a crença espírita) receitam aos encarnados (ou vivos, os pobres atendidos) através dos médiuns remédios homeopáticos para a cura de suas doenças. Foi através da assistência social como expressão de sua máxima, a caridade, que o Espiritismo Kardecista conquistou legitimidade para atuar no espaço público sendo a Assistência aos Necessitados da FEB, fundada em 1890, a primeira atividade assistencial de que se tem notícia. Isso fez Emerson Giumbelli (1998: 131) apontar o associativismo espírita como um “universo
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SOUZA, Roberto Lúcio Vieira de; PAULO, Jaider Rodrigues de; MOREIRA, Osvaldo Hely (organizadores). Porque Adoecemos, Novos Horizontes do Conhecimento Médico Espírita. 2ª Ed. Belo Horizonte: Editora Espírita Cristã Fonte Viva, 1996.
61ÂNGELIS, Joanna, psicografia de Divaldo Pereira Franco. Elucidações Psicológicas à Luz do Espiritismo.
Geraldo Campetti Sobrinho e Paulo Ricardo A Pedrosa (Org.). Salvador: Livraria Espírita Alvorada, 2002.
62CAVALCANTI, Adolfo Bezerra de Menezes. A Loucura Sob Novo Prisma (estudo psíquico-fisiológico).
12ªEd. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Bezerra de Menezes é denominado pelos espíritas médico dos pobres, nasceu em 1831 e faleceu em 1900, teve carreira política como vereador do município do Rio de Janeiro e deputado do Império, foi por duas vezes presidente da Federação Espírita Brasileira. O sobrenome materno “Cavalcanti” é pouco conhecido e foi descoberto em estudo recente organizado por Luciano Klein Filho (2001).
63 Como o II Congresso Nacional Universitário Espírita que ocorreu em período subseqüente a V Semana
Universitária Espírita de Minas Gerais no salão Nobre da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais do dia 1 a 7 de agosto de 2005.
predominantemente mais antigo” em relação às demais formas de associativismo presentes em nossa sociedade.
Regina Reyes Novaes ao analisar uma pesquisa sobre hábitos de doação na população brasileira relata que, das pessoas que fizeram doação em dinheiro para instituições 53,7% freqüentam algum culto religioso uma ou duas vezes por semana, e que desses, os espíritas lideram o ranking de doações: Espíritas: não doaram 20,5%, doaram bens 43,5%, doaram dinheiro 35,9%; Evangélicos: não doaram 45,8%, doaram bens 34,5%, doaram dinheiro 19,8%; Católicos: não doaram 52,3%, doaram bens 28,1%, doaram dinheiro 19,6% (Landim & Scalon, Pesquisa Doações e Trabalho Voluntário no Brasil –2000). E é importante assinalar que a maior parte das doações dos espíritas vai para entidades dedicadas a assistência social ou obras sociais (organizações filantrópicas, sem fins lucrativos, que prestam algum tipo de assistência à população) e não aos centros espíritas (entidades religiosas constituídas em torno de atividades tais como reuniões, estudos, sessões de atendimento, palestras, cursos, etc) (Novaes). Por isso Novaes diz “Os espíritas kardecistas: poucos adeptos, todos doadores”.
Chamamos atenção para o volume alcançado pelas atividades assistenciais espíritas. Em uma pesquisa do ISER com 110 instituições que se auto-definiram como espíritas no estado do Rio de Janeiro 69,1% disseram ter objetivos assistenciais, mas na realidade, 93,6% delas prestavam algum tipo de serviço assistencial (Giumbelli, 1995). Desses 110 centros 73 deles (80%) tinham departamentos de “assistência social” ou equivalentes. Estimava-se na época que o estado do Rio de Janeiro possuía 864 instituições espíritas e que destas, 97,3% (841 registros) eram formadas por centros espíritas e obras sociais, sendo comum que os centros espíritas mantivessem livrarias e bibliotecas em suas dependências.
No município do Rio de Janeiro estimava-se a existência de 288 centros espíritas e desses 16% eram obras sociais. Fazendo o mesmo levantamento para o universo protestante, as entidades filantrópicas representam 5% do total. Em relação ao catolicismo, são 5,3 entidades filantrópicas católicas para cada espírita, mas a proporção se inverte quando se trata do número de fiéis demonstrando que os espíritas são mais atuantes: 26 católicos para cada espírita no município do Rio de Janeiro (Giumbelli, 1996). Ou seja, o número de instituições espíritas é em termos absolutos menor, mas proporcionalmente maior considerando que se pode concluir da relação de 26 para 1 que os espíritas são mais engajados que os católicos nesse sentido, da mesma maneira que o são também em relação aos protestantes.
Temos em São Paulo, mais um exemplo da centralidade da caridade e do destaque da assistência social entre os espíritas, as Casas André Luiz64. Essas casas são um verdadeiro complexo assistencial contando com atendimento hospitalar em duas unidades na cidade de São Paulo em Guarulhos (1400 pacientes) e com os Mercatudos, lojas que recebem doações de bens para serem vendidos, arrecadando fundos para a instituição com unidades em São Paulo (capital), Sorocaba e Osasco.
Esta matriz, oriunda e coexistente com a matriz católica existiu e existe em combinação com uma concepção tradicional da política no meio espírita, caracterizada por Giumbelli.
Este autor assinala que a matriz assistencial (tradicional) do espiritismo kardecista vincula-se a características tradicionais do “envolvimento espírita com a política”. Giumbelli fornece três características tradicionais do envolvimento do campo espírita kardecista com a política e o Estado, bem como três características emergentes de um
processo de mudança nessa relação no final do século XX. A primeira característica tradicional desenvolvida entre os espíritas kardecistas é o não-envolvimento com a política, “a atividade ‘política’ só é concebida positivamente em um plano individual, [...] no plano institucional não é lícito que nenhum indivíduo atue no espaço público em nome ou como representante do Espiritismo”. A segunda é: atuar na política significa entrar na esfera estatal, atuar no poder executivo ou legislativo. A política é rigorosamente associada somente ao Estado e às divisões partidárias. Em terceiro lugar, a solução dos problemas sociais dependeria da despolitização das questões humanas, necessitando para tanto de uma transformação mais geral, já que implica que as relações obedeçam a uma lógica oposta a que impera na política (Giumbelli, 1998: 161-2).
A matriz assistencial ou inclusiva, assim como a matriz católica que a conduz, também é centrada no valor do sofrimento, pois vê na assistência não a solução, mas a possibilidade de alívio das dores dos pobres necessitados, de inevitáveis e necessários males a serem vividos como resgates de suas dívidas com as leis de Deus. Baseia-se na doutrinação ou evangelização dos assistidos, na doação de roupas, alimentos e na assistência médica gratuita.
É importante ressaltar que já em 1998 Giumbelli anotava uma mudança no discurso de lideranças espíritas a partir de alterações nas abordagens da assistência social espírita. Naquele momento, com a participação de um dos diretores da USEERJ na Campanha Contra a Fome começavam a surgir ligações entre caridade e cidadania. Tal tendência se confirma a ponto de repercutir na alteração do nome a assistência social espírita para Assistência e Promoção Social Espírita, conforme a orientação oficial do Conselho Federativo Nacional de 2007, do que falaremos mais adiante.