Part III. Package Management
Chapter 15. Package Management with RPM
15.2. Using RPM
Desde o período colonial a formação de autóctones representou uma lacuna. As missões evangélicas e católicas sempre se empenharam para oferecer escolas aos nacionais, mas a formação de lideranças foi negligenciada. Não esteve na lista de prioridades.
Conforme já abordado no primeiro capítulo, uma das razões pode ser a norma vigente nos tempos coloniais de que um negro não poderia estudar além do primeiro grau, e conseqüentemente, tornava-se desleal sua concorrência com o branco para uma posição de liderança. As próprias igrejas da cidade eram para brancos, conforme podemos ler na bibliografia e ouvir na entrevista da sra. Inês: “O preconceito racial era tão saliente, de maneira que os negros não tinham acesso às igrejas, principalmente as igrejas que se localizavam na cidade. E com a saída dos portugueses poucos pastores encontravam-se formados...”.264
Com exceção da Igreja Católica que sempre teve boas escolas para preparar seus candidatos, ou facilidades de envio para o exterior, nas Igrejas Evangélicas as condições eram sofríveis. Houve um equívoco histórico quando nestes anos o país apostou em projetos, mas sem pessoal qualificado para assumi-los (fig. 12/17).
Felizmente, as igrejas tomaram consciência da importância de preparar seus quadros. A Igreja Batista quanto mais definia a sua práxis pastoral de ser um sinal histórico do Reino e se comprometia com o desenvolvimento comunitário, mais entendia que carecia de equipe habilitada para se engajar no trabalho, fazer diferença e transformar realidades. Castro em seu texto discorre sobre a inserção dos cristãos na comunidade e apresenta algumas definições de pastoral que vêm ao encontro de nossa posição:
Pastoral é, no contexto deste livro, entendida como a ação do povo de Deus na realidade cotidiana, onde, na relação tempo e espaço, o ser humano se encontra. A preocupação básica da pastoral é a eficácia e a relevância da fé cristã. Pastoral é também responsável pela inserção do povo de Deus no espaço público... É fruto do
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esforço missionário da igreja que busca mudanças, vislumbrando novos tempos na perspectiva do Reino Messiânico de Deus.265
Em entrevista concedida para esse trabalho, o Sr. Quintino também comenta a importância de preparar líderes aptos a dar assistência integral: “O propósito do Seminário Batista ou de qualquer um outro seminário que esteja em Angola é formar líderes e a missão de um líder é assistir integralmente um ser humano, do ponto de vista social, espiritual e econômico”.266
Na sua Assembléia anual de agosto de 2000, a CBA (Convenção Batista de Angola) decidiu que uma das suas diretrizes estratégicas para os próximos anos era investir efetivamente no preparo de líderes e escolheu o Seminário Teológico Batista do Huambo para ser o seu centro de formação. A denominação tinha um instituto teológico em Luanda, um no Uige e um no Lobito, mas o critério de escolha para Huambo foi em decorrência das suas infra-estruturas, corpo docente e localização estratégica, no centro do país. Houve muita polêmica nesta reunião e os contrários argumentavam que não era viável um centro de formação na região do epicentro da guerra. E algo surpreendente aconteceu, pois o Seminário se converteu numa das melhores escolas de Angola, como pode confirmar, mais uma vez, as palavras do Sr. José Julio dos Reis, representante da ONU para acompanhar as eleições presidenciais:
Após estar mais familiarizado com o país e visitar todas as suas 18 províncias, inclusive Huambo, pude ver a verdadeira dimensão do trabalho (...) preparando jovens para a divulgação do evangelho de Cristo e dando um testemunho de amor e fé a um sofrido e abandonado povo. O Seminário Batista de Huambo, hoje uma grata realidade, é um verdadeiro marco da presença evangélica brasileira em Angola267,
265 CASTRO, Clovis P. Por uma Fé Cidadã, p. 105.
266 QUINTINO, Osvaldo. Entrevista concedida a Margareth Roth, na cidade de Luanda em 5/12 de 2004, p. 225. 267 REIS, José Júlio. Entrevista concedida a Raquel Nascimento por e.mail em agosto de 2004, p. 184.
139 e também o Sr. Quintino:
A contribuição do Brasil para Angola é muito vasta... Os missionários brasileiros, nem todos ficaram na capital em Luanda... Se analisarmos onde estavam e se pensarmos também que o melhor Seminário que Angola tem, neste momento, é o dos batistas em termos de formação de líderes ou teólogos , foi criado por brasileiros... Só através da obra do Seminário podemos imaginar qual é o alcance da contribuição que os brasileiros tiveram para os angolanos...268
Algo paradoxal acontecia, ao mesmo tempo em que o Seminário estava numa região assolada pela guerra, era também um “oásis no deserto” naquela cidade. Era um dos prédios mais bonitos da cidade, uma ex-fábrica abandonada, que, com o apoio de doações, foi comprado, reabilitado e adaptado para ser Seminário e centro de alfabetização de adultos. Entretanto, poucas pessoas acreditaram neste projeto não só pela situação de guerra, mas pela dimensão do empreendimento, como também podemos sentir nas palavras de Brighenti: “Só abrem novos caminhos os que teimam em reinventar o passado. É necessário nunca perder de vista a experiência, seja ela marcada por conquistas, seja por fracassos, sob pena de não dispor da base necessária para, sobre ela, edificar o novo”.269
O Seminário fechou suas portas por duas vezes em situações de extrema crise para servir a população: na ocupação da cidade pela Unita, onde marcou sua presença no hospital central atendendo aos feridos e no final da guerra em 2002 visitando os centros de acantonamentos para socorrer os ex-combatentes e suas famílias.
No decorrer dos anos, se transformou num centro de convívio, um “oásis de vida”, um ponto de encontro de jovens e pessoas que não se resignavam mais àquela situação de marasmo e pessimismo da guerra, mas queriam exercer sua diaconia. Queriam sinalizar o Reino. Queriam dar sua contribuição para a transformação da sociedade.
268 QUINTINO, Osvaldo. Entrevista concedida a Margareth Roth, na cidade de Luanda em 5/12 de 2004, p. 226. 269 BRIGHENTI, Agenor. Reconstruindo a Esperança, frase extraída da contra capa do livro.
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