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Standard Partitions using parted

Part II. File Systems

Chapter 12. Managing Disk Storage

12.1. Standard Partitions using parted

Descrever o que a guerra e as ocupações causaram à cultura angolana é uma tarefa custosa. Paul Hiebert define cultura como: “Os sistemas mais ou menos integrados de idéias, sentimentos, valores e seus padrões associados de comportamento e produtos, compartilhados por um grupo de pessoas que organiza e regulamenta o que se pensa, sente e faz”.129 No caso

de Angola, onde aconteceu tantas intervenções ao longo de sua formação histórica que, no âmbito desta dissertação, tenho os limites de centrar minhas reflexões sobre as práticas e o cotidiano relacionado às comunidades com as quais estabeleci maior proximidade. Essa é uma porta de entrada na complexa cultura angolana, como afirma Clifford Geertz:

A Cultura de um povo é um conjunto de textos, eles mesmos conjuntos, que o antropólogo tenta ler por sobre os ombros daqueles a quem eles pertencem ... Entretanto, qualquer que seja o nível em que se atua, e por mais intrincado que seja, o princípio orientador é o mesmo: as sociedades, como as vidas, contêm suas próprias interpretações. É preciso apenas descobrir o acesso a elas.130

Angola foi marcada por uma história de tragédias e crises constantes que vieram contribuir para um processo de fragmentação ou descaracterização da cultura angolana, e são estes componentes que indubitavelmente deixaram maiores marcas e que, por sua vez, vêm a se configurar numa “cultura de guerra”, manifestada especialmente, na desesperança e em uma nova ética para a sobrevivência.

129 HIEBERT, Paul. O Evangelho e a Diversidade das Culturas, p. 30. 130 GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas, p. 321.

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Com o recrudescimento e o prolongamento da crise, o povo foi aperfeiçoando sua criatividade “inventando” novas maneiras de viver. Essas “manobras” da população na luta pela sobrevivência, foi paulatinamente fragmentando a cultura. Schubert fala que esta luta pela sobrevivência “criou uma ‘cultura da pobreza’, com formas próprias de vida”.131 Os

antigos costumes e valores agora eram repensados. Era preciso se adaptar a novas rotinas, novas regras e nova ética. A tendência à relativização era crescente, enquanto a solidariedade ou o ter “as coisas em comum” ia sendo deixado de lado. Esta troca de valores, se é que podemos assim denominar os recursos a que recorrem pessoas em situação de luta pela vida, é tratada como a Cultura da Morte ou Cultura da não-Cultura por José Imbamba:

Uma das causas principais desse mal-estar generalizado tem sido a guerra com toda a seqüela de horrores que a nutrem... A vítima privilegiada é sempre o povo. Por conseguinte, com a guerra, instalou-se na sociedade angolana a cultura da morte, da insensibilidade, da violência, do vandalismo... da miséria, do mau exemplo etc... Enfim, instalou-se a cultura da não-cultura...132

A situação de transitoriedade que a vida na guerra impõe, desenvolve uma “cultura do provisório”. A falta de perspectiva fortalece a desesperança. E, na ausência de esperança, o altruísmo e a solidariedade dão lugar a comportamentos insensíveis e egoístas. O ser humano passa a representar só uma estatística – ou dos sobreviventes, ou dos que morreram ou ainda no caso dos homens, o mais importante – mais um número para reforçar as fileiras dos combatentes.

Essa vivência forasteira, vida fragmentada trazia grande conflito sobretudo para a juventude, pois sem opção, era levada para as frentes de batalha. As temidas “rusgas”133

aumentavam o clima de pânico e insegurança no seio das populações. “Cada vez menos os

131 SCHUBERT, Benedict. A Guerra e as Igrejas, p. 181.

132 IMBAMBA, José M. Uma Nova Cultura para Mulheres e Homens novos, p. 110.

133 Rusga – Era o nome que o povo dava às operações militares de busca aos jovens, com o objetivo de aumentar

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jovens respondiam voluntariamente aos recrutamentos anuais para o serviço militar; o governo só conseguiu manter o efetivo necessário do exército graças a rusgas despiedadas”.134

Neste sentido, diariamente, a igreja desempenhava um papel solidário e subversivo sob a ótica da guerra, pois procurava de várias maneiras dificultar a ida para o front dos jovens vocacionados para o ministério de servir a Deus.

Se não houver vontade política e determinação em investir na juventude, esta será uma geração perdida em todos os aspectos. Até dois anos atrás, quando terminou a guerra, os jovens não tinham ideal nem esperança. As palavras de Imbamba têm a mais perfeita tradução do que se viu e ainda se vê na juventude angolana:

Esta é uma crise que está a fustigar de maneira espetacular as gerações jovens, as quais encontraram-se a crescer numa sociedade que não tinha mais uma cultura a transmitir...Os jovens, vítimas privilegiadas desta catástrofe cultural, fisicamente passaram a fazer parte duma sociedade desagregada, desfigurada ... com todas as suas instituições desfeitas, sem forma; interiormente esvaziada...135

Na guerra não temos planos, nem agenda, nem prognósticos. Simplesmente esperamos pelo fim da guerra ou o nosso próprio. Imbamba se refere ao homem anônimo, produto de uma cultura de guerra que o mutila, que neutraliza que o esvazia: “Não é ele mesmo, os outros esvaziaram-no do seu ser”.136

Um tema que fica para reflexão e merece um estudo à parte é: Para onde caminha a cultura angolana – Um resgate da verdadeira identidade, depois de quase 500 anos de ocupação portuguesa, duas guerras que assolaram o país por mais de três décadas e 16 anos de um regime Marxista-Leninista bastante centralizador. José Carlos Venâncio, em seu livro “O facto Africano: Elementos para uma Sociologia de África”, ao comentar os processos de aculturação em África, destaca o colonialismo como um grande fator de mudança social. Ele

134 SCHUBERT, Benedict. A Guerra e as Igrejas, p. 164.

135 IMBAMBA,José M. Uma Nova Cultura para Mulheres e Homens Novos, p. 151. 136 Ibid., p. 111.

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fala de uma perspectiva cultural que “... tenta estudar os mecanismos de defesa que os africanos desenvolvem perante a inevitável integração nos espaços econômico-políticos gerados pelo colonialismo. É que uma tal integração traduz quase sempre, perda da identidade...”.137

Venâncio nos apresenta em seu texto a “Teoria Atlântica”, a tese de que os Estados que não se deixaram influenciar e não se envolveram diretamente com os Europeus, preservaram muito mais a sua soberania e se fortaleceram: “Os Estados que, durante o período mercantilista, mantiveram contato direto com os europeus rapidamente enfraqueceram”.138

O processo de aculturação139 em Angola remonta ao período colonial, onde para

alcançar a categoria de assimilado, ou seja, deixar de ser um simples indígena, na concepção do colono, o autóctone precisava assimilar a sua cultura, começando por dominar a língua portuguesa, passando por um processo de identificação/assimilação, que culminava com a obtenção de um bilhete de identidade que vinha oficializar seu novo atributo de civilizado. “Somente quem tinha assumido suficientemente a cultura portuguesa, ganhava a cidadania. O ‘Bilhete de Identidade’ certificava que alguém estava assimilado”.140 O natural da colônia que

não falava a língua de Portugal e ainda por cima mantinha costumes autóctones, era considerado um ser inferior, como nos descreve Alexandre: “... pior ainda era o batuque, ‘esta

vergonha usança gentílica, imprópria de pessoas civilizadas’, praticado sobretudo na ocasião

de funerais”.141

O uso da língua, que é uma das marcas mais características de uma cultura, também era o alvo do desmanche promovido pelo poder colonial. O famoso “Decreto 77”, assinado em

137 VENÂNCIO, O Facto Africano: Elementos para uma Sociologia de África, p. 48. 138 Ibid., p. 38.

139 Aculturação – “É a fusão de duas culturas diferentes que, entrando em contato contínuo, originam mudanças

nos padrões da cultura de ambos os grupos” (MARCONI, Marina; PRESOTTO, Zélia M. Antropologia: Uma

Introdução, p. 65).

140 SCHUBERT, Benedict. A Guerra e as Igrejas, p. 43

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1922 proibia o emprego das línguas nacionais nas missões religiosas142. Até hoje,

principalmente para os jovens, não falar uma língua nacional é sinônimo de modernidade, intelectualismo e de progresso.

Com o advento da paz, os desafios são apresentados quanto a uma análise e interpretação de uma autêntica cultura Angolana. Em seu discurso proferido em Bruxelas, “A reconciliação passa pelo terreno econômico”, publicado pelo Jornal de Angola em 29 de setembro de 1995, p.4, o Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos fala da necessidade de se resgatar certos valores na cultura, principalmente, a confiança e a dignidade:

... A desagregação do seu tecido social é a conseqüência mais visível e nefasta. Não

apenas ao nível da situação econômica, mas, sobretudo, em termos de perda de valores morais e de confiança das pessoas em si próprias e na Nação como um todo. Perderam-se muitas referências sólidas de conduta social, entre elas a do indispensável respeito pela vida e dignidade humanas....143

Torna-se um assunto delicado tentar responder atualmente as perguntas: qual é a genuína cultura Angolana? A cultura da guerra foi assimilada ou será abolida paulatinamente? Será que estamos diante de uma crise da cultura ou de uma inevitável mudança?