Part IV. Network-Related Configuration
18.2. Basic Firewall Configuration
Com o término da guerra e a assinatura do acordo de cessar fogo em 4 de abril de 2002, o governo incrementou a política de reconciliação e reconstrução nacional, convocando de início as Organizações não Governamentais (ONG’s), ONU e Igrejas para que se aliassem a ele nesta fase de emergência, na tarefa árdua de prestar as primeiras assistências às áreas antes isoladas nestes anos pelos combates e também aos aquartelamentos274( figura 13).
A Igreja Batista prontamente atendeu ao apelo. Organizou com alguns líderes uma viagem de reconhecimento a um dos acantonamentos na província do Huambo para se inteirar da situação e avaliar as possibilidades de engajamento. A visita surpreendeu bastante não só a Igreja, mas as Nações Unidas e as organizações internacionais que para lá se deslocaram, pois o diagnóstico foi desolador. Eram milhares de ex-guerrilheiros com suas famílias sobrevivendo há mais de um mês em condições precárias, desprovidos de assistência médica e alimentar num acampamento improvisado aguardando que as autoridades instituídas juntamente com o apoio da comunidade internacional dessem um direcionamento para suas vidas, como nos confirma o depoimento da senhora Inês Filipa:
Quando tratou já da questão da assinatura da paz por exemplo a Igreja Batista foi uma das primeiras a visitar os centros de acolhimentos ... e levar ajuda ... muita
273 ROCHA, Georgino. Angola: Reconciliação e Solidariedade, p. 78.
274 Aquartelamento – Termo militar usado para se referir ao local onde estão tropas numa situação de controle
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gente estava dizendo “o momento não é próprio, talvez não seremos aceitos”, mas com insistência as pessoas foram recebidas e receberam assistência social. Muitas dessas pessoas entregaram suas vidas a Cristo e hoje não se cansam de falar daquela missionária branca que um dia foi lá visitá-las, ainda que eles estivessem todos sujos; e eles até disseram, eu me lembro de uma frase que eles disseram ‘agora nós acreditamos que Deus está conosco ao mandar essas pessoas para virem nos visitar’. Então a igreja tem acompanhado muito. O governo também reconhece o papel social da igreja. Então é um trabalho muito bom e eu espero que a igreja não perca essa visão especial que tem para com a população.275
A decisão sobre o que e como fazer provocou uma controvérsia no seio das lideranças dos batistas, porque a maioria julgava que esta tarefa pertencia ao governo e não era uma ocasião propícia para a Igreja se envolver na assistência a este segmento visto que era muito recente o fim das hostilidades. Envolver-se com estes centros de acolhimento tinha uma conotação política, e a Igreja ainda não conseguira se desvencilhar dos fantasmas da repressão do passado. Não só a Igreja estava relutante, mas era geral a desconfiança. Havia muito ressentimento, pois raramente se encontra em Angola alguém que não tenha perdido um familiar na guerra.
Refletindo sobre a missão da Igreja, um grupo obstinado entendeu que era neste momento crucial e de perplexidade que a comunidade batista tinha a oportunidade de ensinar o perdão dando o exemplo e indo até lá. Mas não só o perdão, também demonstrar o amor de Deus por eles que podia ser manifestado naquela iniciativa de ir trabalhar naquelas áreas militares. Houve a adesão do Seminário Teológico Batista e vários jovens se apresentaram como voluntários para o projeto. A Escola foi fechada por uns meses, e todos os alunos foram convocados para este trabalho.
Com a parceria de algumas ONG’s e da ONU, o grupo se revezou em alguns aquartelamentos montando barracas, acampando com eles e criando algumas estruturas para distribuições de roupas, alimentos e realização de atividades diversas desde cursos para formação de alfabetizadores, Projeto Quem Ama Espera com orientações sobre doenças
275 FILIPA, Inês. Entrevista concedida a Sonia Fioranelli, na cidade do Huambo, Angola, 9 de outubro de 2004,
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sexualmente transmissíveis, cultos e visitas de conforto, trabalhos especiais com crianças etc. Uma organização Canadense cedeu todos os equipamentos necessários para que às noites tivessem apresentação de filmes especiais, um evento bastante concorrido para a maioria que viveu nas matas por muitos anos e nunca tinha ido ao cinema. O auditório noturno tinha uma média de cinco mil pessoas.
A Igreja Batista como instituição não conseguiu exercer seu papel profético. Aconteceram fatos pontuais como estes de aquartelamentos, mas a Igreja Católica como organização, durante a guerra, cumpriu sua missão de “continuadora” da obra de Cristo: a missão reconciliadora! Foi para isto que Cristo veio, reconciliar a humanidade com o Pai e uns com os outros.
Schubert em seu livro se refere a uma série de documentos publicados pela CEAST (Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe) nesta fase que provocaram muita polêmica entre as lideranças do governo. Num deles, os padres se colocam como porta-vozes do povo exigindo um fim para o conflito armado, como nos relata o autor:
Na sua mensagem referente à temática ‘O Cessar-fogo e a Paz’, de 11 de novembro de 1989, já no endereçamento os bispos declararam a sua posição:
‘Aos responsáveis políticos do MPLA/PT e da UNITA! Ao povo de Deus em geral!
A todas as pessoas de boa vontade!
...Conscientes da nossa responsabilidade como pastores e unidos em solidariedade com a população sofrida, de quem queremos ser porta-vozes, repetimos o nosso apelo pela paz!’276
Essa manifestação pública durante um regime que restringia os limites da liberdade de expressão, impeliu as comunidades evangélicas a começarem, pelo menos, refletir sobre o seu papel profético e sacerdotal na sociedade.
A Igreja Batista numa postura bem mais retraída, também ousou a pregar dos seus púlpitos mensagens de apelo a paz e reconciliação nacional.
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Em 1998, numa articulação das lideranças batistas, com a cooperação da juventude da denominação, o povo da cidade do Huambo foi mobilizado para a realização de uma “Marcha pela Paz”, um projeto que visava pressionar as partes envolvidas no conflito a sentarem à mesa de conversações. O evento culminou com um culto no ginásio de esportes da cidade, o Petro- atlético, com um forte discurso sobre paz e perdão.
Bonhoeffer (1971 apud BOSCH, 2002, p. 618) escrevendo de uma prisão da Gestapo durante a segunda guerra traz uma reflexão sobre a ação missionária da Igreja Alemã diante desta nova realidade nazista: “Nossa igreja, que, em todos esses anos, tem lutado apenas por sua preservação, como se esta fosse um fim em si, é incapaz de levar a palavra da reconciliação e da redenção à humanidade e ao mundo. Nossas palavras anteriores estão, pois, fadadas a perder sua força e a morrer...”.
A Igreja em Angola não teve uma só voz no meio evangélico. Foram gritos isolados de algumas comunidades ou indivíduos cristãos que influenciaram o processo de reconciliação nacional, como lemos na introdução deste tema a entrevista do Pr. Ntoni Zinga. Mas o povo tinha chegado no limite de sua capacidade para suportar uma dor ininterrupta de anos. Contava com a Igreja como o seu porta-voz. O povo clamava por novos tempos.