B. Automating the installation using preseeding
B.2. Using preseeding
Hoje em dia os clubes recrutam jogadores cada vez mais jovens. Este facto obriga a que cada vez mais cedo o jovem jogador se tenha que separar ou passar muito pouco tempo com os seus pais. O caso mais complicado é quando o jogador vai morar para a academia/centro de estágio do clube onde só pode estar com os pais de vez em quando. Mas mesmo que o jogador continue a morar em casa vai passar pouco tempo com os pais, porque quando sai da escola, geralmente tem que ir para o treino.
O E4 menciona que: ―O viver longe dos pais obriga-te também a amadurecer um bocadinho mais cedo‖.
Nestes casos o praticante vê-se obrigado a amadurecer muito cedo, porque não tem uma presença tão vincada dos pais (falta de referências comportamentais e falta de apoio familiar) como deveria de ter nessa fase do seu crescimento.
As exigências que o jogador tem que cumprir para chegar ao topo fazem com que este tenha que renunciar aos prazeres da adolescência.
Como relata o E10: ―No fundo abdiquei, por completo, da minha juventude em prol do futebol‖.
Desta forma, o praticante vê-se, desde muito cedo, privado de fazer as coisas que gosta e que são normais características da juventude.
O nível de exigências da preparação desportiva de alto nível compara frequentemente o praticante com a necessidade de se dedicar, por vezes em exclusivo, à sua carreira desportiva num determinado período da sua vida (Pataco, 1997).
A carreira de jogador é muito controlada. Há uma série de requisitos que jogador tem que começar a cumprir desde muito cedo.
Segundo o E7: ―Temos que ter horários, temos que ter uma boa alimentação, temos que controlar determinados instintos que quando somos novos gostamos de os ter‖.
Esses requisitos são, de alguma forma, contra a natureza do ser humano. Porque se é verdade que para se atingir alguma coisa na vida é preciso sacrifício e dedicação, também não é menos verdade que os momentos de alegria e diversão fora do trabalho são fundamentais para uma existência em harmonia.
Para cumprir as exigências que fazem parte da carreira, o jogador, em muitas ocasiões, tem que recusar fazer coisas que são do seu agrado, porque estas não são compatíveis com o estilo de vida de um jogador que aspira a excelência.
Na perspectiva de E4: ―Abdiquei de muitas coisas dessas, jantares com os amigos, saídas a noite, concertos, espectáculos, essas coisas que um
jovem normal, um jovem na sua adolescência vai fazendo normalmente. E eu não fiz. Abdiquei de tempos livres com os meus colegas, visitas de estudo, viagens de finalistas, essas coisas que a gente leva da nossa vida, que são as grandes recordações da escola, universidade‖.
Estas cedências vão criar um grande vazio na vida do praticante, já que as suas lembranças da juventude serão muito curtas em comparação aos seus colegas que desfrutaram cada momento da juventude.
Estas exigências, renúncias e proibições retiram muitos anos de vida ao praticante, ou seja, a exclusividade que o futebol exige ao jogador faz com que este perca várias vivências que qualquer pessoa necessita para um crescimento completo.
Tal facto é evidente nas palavras de E9: ―Conciliar a minha vida profissional com a minha vida pessoal foi muito difícil, com muito sacrifício. Perdi muitos anos da minha vida‖.
Em suma, a vida de futebolista é cheia de sacrifícios e constantes abdicações de situações motivadoras e positivas para a vida do ser humano, mas que não são compatíveis com as exigências da modalidade.
Além do jogador passar pouco tempo com a família, também passa pouco tempo com os amigos. Isto prejudica o seu rendimento, porque se os praticantes sentem que o desporto está em conflito com o desenvolvimento social fora do desporto, o seu compromisso e motivação pelo desporto decrescem (Patrick, Ryan, Alfred-Liro, Fredericks, Hruda & Eccles, 1999).
A convivência do praticante com os amigos é algo que fica muito condicionado. Porque nos momentos livres, da escola, em vez de passar tempo com os amigos, o jogador tinha o seu tempo preenchido com treinos e jogos.
O E6 indica que: ―No final do ano os meus colegas iam de ferias e eu nunca ia de ferias com eles. Nunca ia para as viagens de final de ano. Não ia porque tinha treinos, torneios, estágios da selecção‖.
Enquanto que os seus colegas se iam divertir, o praticante tinha que se dedicar à sua carreira. Ao contrário do jogador, os amigos conseguiam desanuviar o stress e ansiedade acumulados ao longo do ano. Ao invés desse
relaxamento (típico das férias), o praticante tinha que se submeter a mais stress e ansiedade gerados pela competição.
Ao contrário do que aconteceu com o nosso entrevistado, as férias devem fazer parte do crescimento do jogador. Porque o tempo livre pode oferecer aos adolescentes uma vida mais relaxada em termos físicos e psíquicos, desta forma eles são capazes de encarar a prática desportiva de uma maneira mais descontraída (Côté et al., 2003; Côté e Fraser-Thomas, 2007).
Como o praticante não pode estar com os amigos é lógico que comece a surgir um certo distanciamento entre eles. Cada um segue o seu caminho, o que faz com que se vá perdendo o contacto. Desta forma, são muito poucos os amigos que o jogador mantém desde os seus tempos de infância.
Esta falta de amizades duradouras é um sinal muito claro da dedicação excessiva que o praticante deve ter para com a sua carreira. Já que não tem disponibilidade para manter uma relação de amizade durante muito tempo. Isto pode causar um sentimento de solidão no jogador. Sentimento este que prejudica a estabilidade mental do próprio.
Outra diversão que fica de fora do horizonte do jogador é sair até altas horas da noite.
Esta limitação afasta ainda mais os amigos do praticante. Porque enquanto estes saem à noite para se divertirem, o jogador tem que ficar em casa.
Segundo o E10: ―Hoje em dia tenho muito poucos colegas de infância, se calhar não tenho nenhum, porque fui perdendo o contacto com eles, por causa da minha actividade profissional, na qual não me podia expor (…) Ao longo da minha carreira privei-me de muita coisa, de sair a noite com os meus colegas (…) Todos os meus colegas foram e o meu pai não me deixou ir, achava que não devia ir, porque a minha vida não permitia que saísse à noite‖.
Neste sentido, o E7 também diz que: ―Chegava ao sábado a noite ou a sexta-feira a noite e os meus amigos saiam normalmente. Isso ficou fora do meu horizonte, porque se queria ser alguém no futebol tinha que o fazer‖.
Este é mais um vazio que se cria nas vivências extra-futebol do praticante. Vazio este que prejudica o desenvolvimento do praticante, porque como refere Lima (1985), para se obter uma posição de mérito no desporto de alto rendimento é necessário tempo para viver fora do desporto.
As actividades desenvolvidas devem também possibilitar um espaço de “diversão” e de convivência social, de forma a facultar um desenvolvimento estável, assim como uma adequada incorporação no seio do grupo (Brito et al. 2004).
As saídas limitadas são resultado da preocupação extrema que o jogador deve ter com o seu descanso nos momentos que antecedem os jogos.
Na perspectiva de o E8: ―Quando havia campeonato a partir de quinta- feira já não saia, isso era impensável‖.
Assim, a intensidade que o jogador deve ter no jogo faz com que este não possa usufruir da diversão nocturna. Algo que os seus amigos (fora do futebol) fazem com frequência.
Em suma, a carreira de futebolista é extremamente disciplinada.
Tal facto é evidente nas palavras de E7: ―Sempre fiz uma vida bastante regrada porque realmente tinha que ser‖.
Este excesso de rigidez inibe o praticante de ter uma vida dita normal (com poucos momentos de diversão extra-futebol).
Um dos factos que diminui a possibilidade do jogador conviver com pessoas fora do mundo do futebol é a falta de coincidência entre os dias livres, já que, durante o campeonato, o jogador não tem fins-de-semana livres.
O E6 menciona que: “Durante a semana só falavam no fim-de-semana, mas para mim o fim-de-semana não existia, porque tinha treino ao sábado e jogo ao domingo‖.
Assim, quando os amigos vão passear ou simplesmente vão a uma festa o jogador tem que estar concentrado na competição, e quando o jogador tem um dia livre os seus amigos estão a trabalhar.
As preparações para os jogos retiram muito tempo aos jogadores. Quando os estes se têm que concentrar em estágios tudo fica limitado, já que estão num sitio fechado e com o controlo constante do líder da equipa. A
preocupação passa a ser única e exclusivamente centrada na preparação para o(s) jogos(s).
Segundo o E8: ―No que toca a minha ligação entre a vida pessoal e a vida de jogador posso dizer que na altura em que ia a selecção estava mais privado de fazer algumas coisas, porque tinha mais estágios‖).
Estes estágios privam o jogador de passar algumas datas importantes com os seus familiares.
Na perspectiva de E2: ―São estágios, passar natais longe da família, passar aniversários sem a família‖.
Nestes casos as privações têm um grau de dificuldade maior (há uma carga emocional muito grande), e consequentemente, um desgaste superior no praticante.
Dada a exclusividade que o futebol requer do jogador, desde muito jovem, este vê-se obrigado a passar os estudos para segundo plano, e em muitos casos dá-se mesmo o abandono escolar.
Tal facto é evidente nas palavras de E9: ―Nem na escola consegui ter uma continuidade‖.
Neste sentido, o E10 também indica que: ―Deixei os estudos aos 15 anos, mal, mas deixei, porque na altura tinha contrato profissional e estava na selecção‖.
O abandono escolar pode ser resultado da especialização precoce. Por isso, para os desportos de especialização tardia, a especialização antes dos 10 anos de idade não é aconselhada, já que isto pode contribuir para o esgotamento precoce, a reforma do treino e da competição e para o abandono escolar (Harsanyi, 1985). Aliás, existem já evidências que apontam que o abandono escolar é um claro padrão da especialização precoce (Côté, Baker & Abernethy, 2003; Côté & Fraser-Thomas, 2007; Hill, 1988; Hill & Hansen, 1988; Wiersma, 2000).
Este é o primeiro passo para o futebolista se apartar da sociedade, porque no momento em que deixa a escola também deixa de ter contacto com pessoas que estão fora do mundo do futebol. É através deste afastamento que o jogador restringe os seus amigos ao grupo do futebol.
O abandono escolar retira a possibilidade do praticante se instruir. Esta falta de instrução diminui a capacidade de resolver os eventuais problemas que surgem com o desenrolar da carreira. Desta forma, o jogador não tem solução para os problemas que lhe possam surgir ou então acaba por ter más soluções para esses problemas.
Outra lacuna provocada por esta rotura com a escola é o reduzido número de saídas profissionais que o jogador pode abranger quando acabar a carreira (resultado da baixa escolaridade).
Infelizmente não é só a escola que sofre com estas imposições desmedidas. Já que o praticante, durante a formação, também se vê privado de participar noutras especialidades desportivas.
Como refere o E9: ―Durante a minha formação foi-me impossível praticar outra modalidade‖ (E9).
Esta dedicação absoluta a uma só modalidade priva o jogador de outro tipo de experiências, isto é, não permite que o jogador tenha uma formação rica em variabilidade. Desta forma, o praticante não tem uma preparação abrangente que lhe permita, no futuro, responder a situações diferentes.
Añó (1997), realça que a especialização, para além de não suceder de forma súbita, necessita de cumprir determinados requisitos para que seja produtiva, nomeadamente evitar a especialização desportiva precoce, a qual anula a possibilidade de um desenvolvimento posterior em outros desportos, modalidades ou postos específicos
As sequelas da especialização precoce estão resumidas em limitações que podem acontecer para se chegar ao nível mais alto do desporto (Nadori, 1990; Marques, 1991).
Tendo em conta a exclusividade ao futebol que foi relatada pelos nossos entrevistados, e o facto de não terem referido outra experiência desportiva além do futebol, partimos do princípio que só conseguiram praticar uma modalidade durante a sua formação.
Este facto vai contra aquilo que nos é referido pela literatura, onde Balyi (2001) refere que os desportos de especialização tardia, como o ciclismo, o atletismo, o remo, os desportos de combate, os desportos colectivos e os
desportos de raquetes, solicitam um enfoque generalizado no começo da formação. Nestes desportos, a ênfase da formação deve ser o desenvolvimento dos objectivos gerais, dos fundamentos motores e das habilidades técnico-tácticas.
Assim, podemos afirmar que é favorável a participação em mais do que uma modalidade, de modo a permitir uma aprendizagem adequada ao praticante e rica em diferenciação Brito et al. (2004)
Também Matvéiev (1990) reforça esse pressuposto ao mencionar que a especialização desportiva não exclui o desenvolvimento múltiplo do praticante. Segundo este autor, somente através de um desenvolvimento geral das possibilidades funcionais do organismo e do desenvolvimento múltiplo das possibilidades físicas e psicológicas é possível atingir um maior progresso numa determinada modalidade desportiva.
Nesta linha de pensamento, Côté, Baker e Abernethy (2003) explicam que o envolvimento em muitas actividades de jogo/brincadeira deliberada, durante os primeiros anos, dá aos atletas jovens a oportunidade de se aplicarem em actividades intrinsecamente reguladas e que podem, subsequentemente, ajudá-los a tornarem-se mais auto-determinados e comprometidos com a sua participação futura no desporto.
Neste sentido, Kirk (2005) sugeriu que a diversidade do desporto abarca e estimula, desde cedo, uma qualidade de aprendizagem de experiências e percepções de competências, as quais se transformam em motivação para a participação contínua.
Assim, a diversificação em baixas idades ajuda o desenvolvimento da competência física, o prazer e a contínua motivação da participação desportiva (Côté e Fraser-Thomas, 2007; Kirik, 2005).
A participação numa larga gama de desportos também deve ser incentivada. Esta ênfase no desenvolvimento motor irá formar atletas com uma melhor rentabilidade para o desenvolvimento a longo prazo em desportos específicos (Balyi, 2001).
Mesquita (1997) salienta que o desenvolvimento multilateral do praticante no início da sua formação constitui uma condição imprescindível
para a obtenção de elevados níveis de rendimento no futuro.
Côté, Baker e Abernethy (2003) comentam, ainda, um estudo de Knop (1996), demonstrando que, segundo este autor, embora os desportos se tenham tornado mais organizados e institucionalizados nos últimos anos, a primeira experiência no desporto dos atletas de excelência de desportos colectivos, continua a estar relacionada com a importância de brincar e experimentar novos e diferentes meios de executar habilidades, mais do que atingir uma meta.
Bedoya (1995), consolida essa opinião ao alertar-nos para a necessidade de se evitar, em regra geral, uma especialização excessivamente acentuada num só desporto antes dos doze anos.
Aliás, Lima (1981) lembra-nos que nesta etapa ainda não se deve tender para um domínio profundos das técnicas específicas de uma determinada modalidade, visto que o desenvolvimento e o crescimento das crianças e adolescentes poderão alterar as suas opções desportivas.