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Neste capítulo desenvolvo um debate sobre a agroecologia no contexto das cidades. Na

primeira seção, teórica, apresento a emergência do movimento agroecológico no Brasil a partir

dos seus marcos históricos mais importantes; no segundo segmento abordo como a

agroecologia chega nos meios urbanos e suas contribuições; na terceira apresento uma

discussão sobre a agroecologia urbana e a constituição de outras formas de ocupação das

cidades ao refletir sobre a produção de subjetividade e políticas; na última seção construo uma

apresentação a partir de dados empíricos, do contexto cenário da agroecologia e agricultura

urbana na cidade do Rio de Janeiro.

Com isso, busco compreender como a agroecologia e mais especificamente a

agroecologia urbana que se constitui a partir dos movimentos sociais de agricultores familiares

impacta e modifica o fazer político, a formação de redes e a experiência de cidade.

A emergência do movimento agroecológico no Brasil

No período após a 2ª Guerra Mundial, dá-se a emergência de novos temas nas pautas

sociais e políticas globais, entre eles a pauta ambiental que ganha força a partir da percepção

dos efeitos da atividade capitalista com o aumento da poluição, contaminação dos solos, da

água e do ar, acidentes radioativos, desmatamento e a extinção de espécies de plantas e animais.

social provocada pelos sistemas socioeconômicos vigentes, a diferença no acesso aos recursos

naturais e ao conhecimento.

Em 1962, Rachel Carlson publica seu famoso livro Primavera Silenciosa, no qual

questiona o modelo agrícola convencional e sua crescente dependência do petróleo como matriz

energética. Já em 1972, é realizada a Conferência Internacional sobre Meio Ambiente de

Estocolmo que marca a entrada da temática ambiental na agenda internacional.

Um dos maiores marcos dessa emergência refere-se ao lançamento do informe do Clube

de Roma em 1972, “Os limites do crescimento,” que foi responsável por mudar a direção dos

debates ambientais que vinham se desenvolvendo na esfera internacional até então, trazendo à baila pela primeira vez o conceito de “desenvolvimento sustentável”, o qual discutiremos detalhamente ao longo do capítulo. Já na década de 1980, os movimentos ecológicos vão

contribuir para levar a crítica ao capitalismo industrial à esfera pública e promover um ideário

emancipatório que muda os rumos da história política do campo ambiental.

No Brasil, temos como marco inicial do movimento ecológico na décadas de 1970, em

setores específicos da sociedade, como trabalhadores de organizações civis e, ainda, na esteira

de movimentos de contracultura e comunidades alternativas. Nos anos de 1980, assiste-se ao

crescimento do movimento de Agricultura Alternativa no país que ganha força com a realização

de três Encontros Brasileiros de Agricultura Alternativa (EBASS), nos anos de 1981, 1984 e

1987. Segundo Bernal e Martins (2015), os dois primeiros EBASS concentram-se no debate

acerca dos aspectos tecnológicos e na degradação ambiental provocada pelo modelo agrícola

trazido pela Revolução Verde, o que se refletia nas diversas correntes de agricultura alternativa

que surgiram naquela época: agricultura orgânica, agricultura biodinâmica, agricultura natural,

agricultura biológica etc.

Já o terceiro encontro privilegiou o debate sobre as condições sociais da produção

partir do terceiro EBAA, foram realizados diversos Encontros Regionais de Agricultura

Alternativa (ERAAA), nos quais os problemas ambientais decorrentes da produção

convencional de alimentos passaram a ser associados ao sistema capitalista. Os aspectos

socioeconômicos, juntamente com os aspectos ecológicos e técnicos, passaram a compor a

pauta do debate sobre a produção de alimentos em todo o mundo (Airton Pianna, 1999).

Ainda nos anos de 1970/1980, vemos a retomada dos movimentos camponeses e das

lutas sociais no campo, a partir da abertura democrática. Surgem importantes movimentos como

o MST, é criada a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e há a implantação das Comunidades

Eclesiais de Base (CEBs), gestando um novo Sindicalismo no qual se discutia, de maneira

crítica, as transformações que ocorriam no campo e uma proposta para uma agricultura

alternativa à revolução verde. O movimento ambientalista brasileiro ganha um caráter ainda

mais combativo, popular e sindical a partir do Movimento Seringueiro que, através da liderança

de Chico Mendes18, vai lutar pela criação de reservas extrativistas pautando a importância da proteção ambiental para a reprodução dos povos da Amazônia.

Nos anos seguintes, na década de 1990, surgem diversas ONGS que objetivam pensar

formas alternativas de trabalho agrícola em todas as regiões do país, como o Projeto

Tecnologias Alternativas-FASE (PTA-FASE), os Centros de Tecnologia Alternativa (CTA) e

a Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA). No mesmo período,

em 1992, é realiza no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente

e o Desenvolvimento, também conhecida como Eco-92, Cúpula da Terra ou Rio-92. Essa

conferencia vai colocar a pauta ambiental no centro da agenda política internacional com o

Brasil assumindo um lugar de protagonista nesse processo.

18 Líder do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, no Acre, do qual foi presidente até seu assassinato em

Aos poucos, a agroecologia vai se estabelecer também como campo científico e substituir a agricultura alternativa enquanto estratégia produtiva “sustentável”. Em 1989, cria- se o Consórcio Latino-Americano de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável

(CLADES). No final dos anos 90, surgem a Rede Ecovida de Agroecologia e a Articulação no

Semiárido Brasileiro (ASA). Inicia-se no Brasil, a partir dos anos 2000, os Encontros Nacionais

de Agroecologia e a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), espaço de articulação entre

redes e organizações voltadas para a promoção da agroecologia, além dos Congressos

Brasileiros de Agroecologia (CBA) realizados a partir de 2003, promovidos por instituições de

ensino, pesquisa e extensão rural, sendo criada em 2004 a Associação Brasileira de

Agroecologia (ABA).

Ainda no início dos anos 2000, os movimentos sociais passam a se apropriar

sobremaneira dos discursos e práticas da agroecologia, em especial os movimentos de luta pela

terra ligados à Via Campesina, como o MST, o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA)

e o MMC, que entendem a agroecologia como uma estratégia de luta em prol da justiça

socioambiental, sendo essa uma de suas principais bandeiras de luta. Para Felipe José

Comunello (2012) o protagonismo dos movimentos sociais no campo da agroecologia

corresponde a um quarto momento do movimento ecológico no Brasil.

Com a invasão dos transgênicos no mercado de sementes agrícolas e a expansão do

modelo agroexportador baseado no domínio das multinacionais sobre as sementes e insumos

agroquímicos, há um aumento do desmatamento das florestas com a expansão da fronteira

agrícola, fazendo com que o Brasil se tornasse líder mundial no consumo de agrotóxicos

(Carneiro et al., 2015). A adoção de modelos de produção ambientalmente insustentável e

socialmente injusta tem, dessa forma, levado à exaustão dos recursos naturais disponíveis e a

resistência dos movimentos socioambientais a partir da reivindicação do modelo camponês e

agroecológico de produção e de gestão da vida.

Podemos dizer que existem no Brasil pelo menos dois campos e entendimentos

majoritários sobre agroecologia: o campo técnico-científico e o dos movimentos sociais. Essa

polissemia reflete a abrangência desse debate, que gradativamente vem ganhando espaço

também no que se refere às discussões na esfera ética e política (Luiz Antonio Norder et al.,

2016).

Nas últimas duas décadas a agroecologia brasileira foi caracterizada pela questão

ambiental (tecnologias produtivas e de manejo dos recursos de baixo impacto), pela justiça

social, pautando a economia solidária e o acesso à terra, e pela institucionalização em forma de

políticas públicas. A primeira lei brasileira sobre a agricultura ecológica data de 1999 e, poucos

anos depois, em 2003 o termo agroecologia é incluído como parte dos sistemas orgânicos de

produção na Lei nº 10.831 que dispõe sobre o sistema orgânico de produção agropecuária.

Na esfera global, a FAO e a Organização Mundial de Saúde (OMS) vêm pautando, cada

vez mais o debate da agroecologia como uma questão de saúde e de segurança alimentar.

Localmente, percebe-se durante os governos do presidente Luis Inácio Lula e da presidenta

Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores e com a emergência dos governos de esquerda

em toda a América do Sul que a agroecologia passa a estabelecer-se enquanto política de Estado

e seus militantes a compor quadros governamentais e de instituições públicas.

Essa institucionalização da agroecologia vem sendo vista com cautela por movimentos

de base com o uso dos saberes agroecológicos na perspectiva do uso técnico para os interesses

do capital. Em entrevista cedida ao site do MST19 em 2015, Peter Rosset, liderança da Via

Campesina internacional, frisou que a questão agroecológica vive um cenário de disputa com

19 Disponível em: http://www.mst.org.br/2015/06/26/via-campesina-critica-apropriacao-da-agroecologia-pelo-

dois processos distintos: o da institucionalidade a partir dos simpósios da FAO em que a aposta

é consolidar uma agroecologia comercial; e o dos movimentos sociais, composto por uma série

de saberes entre diferentes setores da sociedade, tais como os povos originários e trabalhadores rurais que “buscam alcançar o consenso de uma agroecologia transformadora, de resistência e de luta popular” (n.p.).

Nesse sentido é notório que nos últimos anos a economia verde tem se apropriado do

discurso agroecológico como estratégia de expansão de mercado a partir da maior

conscientização da população sobre as questões ambientais. A economia verde é definida pelo

Programa das Nações Unidos para o Meio Ambiente (PNUMA) como uma economia que

promove a melhoria do bem-estar humano e a igualdade, e, ao mesmo tempo, reduz os riscos

ambientais e a escassez ecológica, ou seja, a economia verde é uma forma de desenvolvimento

empreendido pelo poder público, organismos e agências internacionais e setores empresariais

que defendem a possibilidade de conciliação entre desenvolvimento econômico e conservação

ambiental, o que também dá-se o nome de desenvolvimento sustentável (Rede Jubileu Sul

Brasil, 2012).

A economia verde (ou desenvolvimento sustentável) tem sido chamada por diversos movimentos de esquerda, ambientais e pelo movimento agroecológico de “capitalismo verde” pela mercantilização dos recursos naturais que ela pressupõe. Para Sevilla Guzmán e Gonzalez

Molina (2005):

A única solução para o problema socioambiental que atravessamos está num manejo ecológico dos recursos naturais, em que apareça a dimensão social e política que traz a agroecologia e que esteja baseada na agricultura sustentável que surge do modelo camponês em sua busca por uma soberania alimentar (Guzmán & Molina, 2005, p. 11).

Nesse sentido, o movimento agroecológico vai apontar para a necessidade de pensar

outras formas de lidar com a questão socioambiental para além do modelo de desenvolvimento

Assim, vemos que o movimento agroecológico surge no Brasil em meio a um debate

maior sobre a questão ambiental e vai ganhando diversos contornos na medida que diferentes

atores sociais entram em cena. A complexidade de temas, atuações e estratégias contempladas

pela agroecologia abre espaço para novas formas de viver a questão ambiental não só no que se

refere à produção agrícola no meio rural, mas também sobre como incorporar a agroecologia

na esfera urbana, pensando a produção de alimentos, mas também redes de comercialização,

integração comunitária e formas de ocupação urbana como veremos no próximo tópico.

Os caminhos da agricultura familiar de base agroecológica nas cidades

Para Lara Oliveira (2016), a dificuldade de compreender o funcionamento da agricultura

familiar deve-se ao seu caráter essencialmente complexo e multifuncional, não sendo apenas

uma forma de produção, mas um modelo de reprodução da vida. Sua heterogeneidade pode ser

atribuída, em certa medida, à capacidade dessa agricultura reinventar-se e adaptar-se às novas

configurações nos territórios.

Em termos gerais, podemos dizer que a agricultura familiar constitui-se como um modo

de produção onde trabalho, terra e família encontram-se intimamente relacionados. Nas duas últimas décadas ocorreram mudanças em termos de políticas públicas para a agricultura familiar

no Brasil. Em síntese, de acordo com Catia Grisa e Sérgio Schneider (2015), num primeiro

momento, essa forma social passa a ser vista como relevante na produção de alimentos e na

geração de empregos, mas ainda sob o referencial agrícola predominante. No segundo

momento, a partir de reivindicações dos movimentos sociais e sindicais sobre a diversidade

dessa agricultura, é criada uma série de programas cujos referenciais são sociais e assistenciais,

voltados para o enfrentamento à pobreza rural. A terceira geração das políticas públicas para a

como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação

Escolar (PNAE), e reconhece o papel da agricultura familiar na segurança ambiental e na

sociobiodiversidade. Nessa última, tem destaque a participação de atores vinculados à

segurança alimentar e à agroecologia, gestores públicos e representantes de movimentos sociais

e sindicais.

É evidente que a luta por direitos empreendida pelos movimentos sociais vem resultando

em mudanças da atitude do Estado no que se refere às políticas públicas agrícolas. Contudo,

apesar dos avanços, essas políticas ainda não contemplam a heterogeneidade de atores e

práticas, menos ainda, quando se trata da agricultura produzida em meios urbanos.

Não são raros os casos de localidades com forte potencial agrícola que foram engolidas

pela crescente urbanização. Com isso, as famílias cujo sustento depende da atividade agrícola

e têm suas propriedades localizadas em área urbana, sofrem diversas ameaças para sua

reprodução, tais como especulação imobiliária, pobreza, desigualdade social, desemprego,

violência, segregação espacial e ausência de mobilidade. Além disso, suas dificuldades são

agravadas por não serem consideradas na formulação das políticas públicas.

Por outro lado, a proximidade com um grande mercado consumidor pode ser vista como

uma oportunidade para garantir a sobrevivência dessa produção. Ademais, a agricultura urbana,

apoiada pelo poder público, pode contribuir para a segurança e soberania alimentar de

comunidades em situação de vulnerabilidade. Entretanto, para a elaboração de políticas

públicas adequadas, é necessário compreender a diversidade de estratégias desenvolvidas por

essas famílias para garantir seu sustento através da atividade agrícola, mas os estudos sobre

agricultura urbana ainda são recentes e escassos.

De acordo com o relatório “Perspectivas da Urbanização Mundial” (World

Urbanization Prospects) produzido pela Divisão das Nações Unidas para a População do Departamento dos Assuntos Económicos e Sociais/United Nacion Division for Economic and

Social Affairs (DESA, 2015), 54% da população mundial vive em áreas urbanas, uma proporção que se espera venha a aumentar para 66 % em 2050. O relatório também aponta para a previsão

de que em 2030, 80% da população urbana estará concentrada em cidades de países em

desenvolvimento, sendo esse processo de urbanização intimamente ligado ao crescimento da

pobreza e da insegurança alimentar.

Atualmente, quase um terço da população mundial vive em favelas e ocupações

informais. Dados da FAO (2009) mostram que os pobres urbanos, em especial mulheres e

crianças por razões que discutiremos à frente, são os mais afetados no que refere a falta de

segurança alimentar, pois dependem quase exclusivamente da compra de alimentos, geralmente

importados ou trazidos de áreas rurais cada vez mais distantes dos centros urbanos, estando

submetidos às variações de preços e de renda, o que compromete o poder de compra, a

variedade, a quantidade e a qualidade dietética, componentes que somados às condições de vida

e trabalho têm contribuído para o aumento da desnutrição e de doenças crônicas. Tais números,

somados ao agravamento das crises climática, energética, alimentar e social, que vem ocorrendo

desde os anos de 1990, evidenciam a insustentabilidade do modelo de gestão ambiental e da

urbanização não planejada em escala global.

Nesse cenário, experiências de produção e consumo sustentável de produtos agrícolas

nas cidades vêm aumentando e ganhando visibilidade em todo o mundo. Para Adriana Aquino

e Renato Assis (2007), a associação quase instantânea que é feita entre agricultura e meio rural

pode levar a uma impressão de incompatibilidade entre agricultura e meio urbano, entretanto,

a AU não é uma atividade recente e sempre se expressou nas áreas urbanas, mesmo que muitas

vezes restrita a pequenos quintais produtivos, hortas em escolas, em associações de moradores,

etc.

A AU tem despertado um crescente interesse, tanto dos urbanistas quanto dos

apresenta como uma estratégia que pode contribuir para o desenvolvimento de cidades

produtivas e ecológicas, que promovam segurança alimentar e nutricional. Para além da questão

alimentar, a prática da AU está relacionada também com o lazer, a saúde, a cultura, a economia

e o reordenamento urbano sustentável (Alain Santandreu & Ivana Lovo, 2007).

Mas afinal, o que caracteriza a AU?

Embora o conceito de AU ainda esteja em construção, já vem sendo utilizado por

organismos internacionais, como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

(PNUD) e pela FAO, além de diversas organizações não governamentais e governos do mundo

inteiro. A questão conceitual da AU passa pelo questionamento sobre o que há de próprio nessa

prática, para que ela seja considerada objeto de investigação e de políticas específicas. De

acordo com Santandreu e Lovo (2007), a AU inclui a produção, a transformação e a prestação

de serviços para gerar produtos agrícolas e pecuários voltados ao auto consumo, trocas e

doações ou comercialização, (re) aproveitando-se, de forma eficiente e sustentável, dos recursos

e insumos locais (solo, água, resíduos, mão-de-obra, saberes etc.), em espaços interurbanos,

urbanos ou periurbanos, estando vinculadas às dinâmicas urbanas ou das regiões metropolitanas

e articuladas com a gestão territorial e ambiental das cidades. É importante destacar que não é

a localização urbana que distingue a agricultura urbana da agricultura rural, senão o fato de que

está integrada e interage com o ecossistema urbano (Aquino & Assis, 2007).

No Brasil diversos atores sociais têm se mobilizado em torno da prática de AU, como o

terceiro setor, associações comunitárias, incubadoras de empreendimentos sociais voltadas para

beneficiários do Programa Bolsa Família, etc., entretanto, como mostra Bruno Prado (2012),

essa agricultura ainda tem sido pouco valorizada, ou até desconsiderada, pelo poder público,

especialmente no que se refere ao reconhecimento das iniciativas de AU como uma forma de

AU20 e pela dificuldade de obtenção da Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), o que inviabiliza a inclusão desses produtores em programas de fortalecimento da agricultura familiar

como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação

Escolar (PNAE), programas estes que com a extinção do Ministério do Desenvolvimento

Agrário (MPA) estão sob ameaça de desaparecer.

Isso acontece porque mesmo se enquadrando no perfil necessário para emissão da DAP,

realizando atividade agrícola de base familiar, o fato desses agricultores estarem mais próximos

à realidade urbana põe em cheque alguns critérios utilizados para acessarem este documento,

em especial naquelas cidades onde o Plano Diretor Municipal não reconhece existência de áreas

rurais.

Diante dessas questões, o conceito de AU vêm ganhando uma força nos últimos anos,

fazendo com que vários produtores se identifiquem como agricultores urbanos e se organizem

em redes de produção, comercialização e beneficiamento, além de reivindicarem o

reconhecimento de suas práticas através de políticas, subsídios e uma legislação específica de

fomento à AU. Ao mesmo tempo esse movimento vem pautando a importância do

desenvolvimento da AU a partir paradigma da agroecologia, levando em consideração a inter-

relação homem - cultivo - animal - meio ambiente e as facilidades da infraestrutura urbanística

que propiciam a estabilidade da força de trabalho e a produção diversificada de cultivos e

animais durante todo o ano, baseadas em práticas sustentáveis que permitem a reciclagem dos

resíduos (Grupo Nacional de Agricultura Urbana [GNAU], 2001).

Desse modo, o sistema de produção orgânico de base agroecológica é considerado

especialmente apropriado para o contexto urbano posto que: a) a baixa dependência de insumos

externos facilita a adoção de agricultura em pequena escala; b) possibilita aumento de renda

20Atualmente um projeto de lei, o PL 906/2015, que busca regular a AU no país está em tramitação na Câmara dos

para as famílias produtoras ao agregar valor aos produtos e ampliar o mercado, facilitando a

comercialização; c) promove a segurança alimentar e a saúde das pessoas envolvidas por

possibilitar a produção e o consumo de alimentos sem agrotóxicos; d) tem a capacidade de

manter e/ou recuperar a biodiversidade dos agroecossistemas do entorno (Aquino & Assis,

2007).

Assim, não apenas a perspectiva econômica e produtiva, mas a noção de