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9.3 Hardware

9.3.7 Hardware products with speech output or throughput

No presente capítulo tenho como objetivo mapear os discursos que permeiam os

conceitos de gênero, mulheres e feminismos no cenário da agroecologia. Para tanto, partirei dos

resultados e análises dos documentos que fazem referencia a tais conceitos. Esta seção foi

organizada em duas partes. Na primeira, apresento os resultados gerais da análise e as principais

categorias com as quais irei trabalhar. Na segunda, exponho o primeiro eixo de discussão (1)

Organismos internacionais: Gênero, agroecologia e o debate da ONU onde discuto o histórico

de aproximação desses organismos com o debate da agroecologia e meio ambiente e apresento

os principais sentidos sobre a participação das mulheres na agroecologia e como tais discursos

impactam na efetivação de projetos em organizações não governamentais; no segundo eixo (2)

Movimentos e construção das políticas de agroecologia e gênero onde abordo os discursos dos

movimentos sociais envolvidos na ANA e em consonância com a política e os programas de

agroecologia no Brasil e as matrizes narrativas que são mobilizadas.

Segundo Carol Adamns (2012), as articulações entre o movimento feminista e o

movimento ecológico tem como marco inicial o período que é conhecido como primeira onda

do feminismo13 com as discussões sobre direito dos animais e da natureza dentro do movimento

sufragista no final do século XIX. Entretanto, como argumentam Maria Mies e Vandana Shiva

(1993), as mulheres sempre estiveram à frente das mobilizações contra a destruição ambiental,

sendo impossível apontar um marco temporal preciso. Para as autoras, ao examinar diferentes

13 Não utilizamos nesta tese a classificação dos feminismos em ondas, por considerar que essa narrativa apaga

outros feminismos construídos fora do Ocidente, da academia e por mulheres não-brancas. No entanto, algumas vezes faremos referência às ondas para marcar discursos, movimentos e períodos históricos específicos.

lutas ecológicas históricas em defesa dos territórios em todo o mundo, encontramos à frente

mulheres organizadas criando laços de solidariedade com outras mulheres e povos –

especialmente nas lutas construídas no Sul global por povos originários, comunidades

tradicionais e em contextos não-urbanos – mesmo que muitas vezes não ocupem o papel de

lideranças ou tenham a mesma visibilidade externa em relação aos homens nos movimentos.

Por isso, é difícil delimitar tais marcos, onde se dá início a atuação das mulheres nas lutas

sociais, especificamente no movimento ambiental.

É importante trazer à tona essas críticas e reflexões para não recairmos no perigo de

deslegitimar importantes processos de luta que muitas vezes são colocados à margem da história

por serem construídos por pessoas em posição de subalternidade. No presente tópico

pretendemos construir uma narrativa que parte de outros marcos históricos e temporais e de

outras ideias e concepções de luta para pensar os discursos, políticas e movimentações das

mulheres dentro da agroecologia, a partir do reconhecimento e da sua emergência enquanto

sujeitas políticas nesse cenário, entendendo que uma das principais questões colocadas pelas

mulheres do movimento agroecológico é justamente o seu protagonismo ancestral não

reconhecido no que se refere às práticas dentro do arcabouço da agroecologia.

Com a análise dos documentos elaborados pela Articulação Nacional de Agroecologia,

a política e os planos nacionais de produção orgânica e documentos produzidos pela FAO,

construiu-se uma sistematização dos discursos produzidos acerca da relação entre gênero e

agroecologia para entender quais narrativas e ações então sendo construídas nesse campo.

Diversas correntes teórico-políticas vão chamar atenção para o impacto do modelo de

desenvolvimento capitalista em curso na vida das mulheres e para a inter-relação entre o

fenômeno da degradação do meio ambiente. Na esfera da agroecologia, enquanto prática,

movimento e modelo político, foram identificadas três teorias centrais que vão ser reivindicadas

feminismo liberal – presente em boa parte dos documentos produzidos por agências e

programas internacionais de fomento, políticas de Estado e o mercado capitalista – o feminismo

marxista e o ecofeminismo – linhas teóricas usadas de forma recorrente por parte dos

movimentos sociais organizados.

É importante ressaltar que, muitas vezes, essas teorias não são diretamente referenciadas

nos discursos, entretanto elas surgem de forma mais ou menos explícita a partir do uso de

determinados conceitos, expressões e leituras sobre questões específicas que podem ser

identificadas dentro dessas linhas discursivas. Em outros momentos vemos o uso de conceitos

que remetem a linhas teóricas que dialogam entre si, e outras onde existem ainda contradições

ou questões não debatidas.

Com ajuda do software QDA Miner e a leitura extensiva dos documentos, foram gerados

três códigos que dizem respeito às matrizes discursivas mais gerais que conformam os

documentos e subcódigos que foram analizados como sentidos mobilizados nos documentos.

Os sentidos também foram classificados de acordo a esfera onde foram produzidos, quais sejam,

movimentos sociais, políticas institucionais e organismos internacionais.

A Tabela 7 mostra os eixos temáticos, os códigos a eles associados e uma breve

descrição dos mesmos.

Tabela 7

Apresentação dos eixos de análise dos documentos

Movimentos Sociais

- ANA

Matrizes discursivas Sentidos

Perspectiva relacional de gênero

Igualdade

Mulheres surgem em um discurso de desvantagens e passividade

Equidade no acesso aos bens comuns Uso da categoria de gênero

Feminismo marxista

Divisão sexual do trabalho Protagonismo das mulheres

Ecofeminismo

Construção de saberes a partir do olhar das mulheres Corpo-território Interrelação mulher-natureza Ética ambiental Feminismo Interseccional

Construção de feminismos plurais Categoria raça

Políticas

Matrizes discursivas Sentidos

Debate relacional de gênero

Protagonismo das mulheres Construção de conhecimento Empoderamento

Agências Internacionais

Matrizes Discursivas Sentidos

Feminismo liberal Empoderamento

Desenvolvimento das mulheres - desenvolvimento econômico

Mulheres em relação de passividade Sistema sexo-gênero

Para construção da categorização entre as principais matrizes interpretei as sentenças

que fazem referência à gênero, feminismo/feminismos, mulher/mulheres à luz dos referenciais

teóricos e construíu-se um quadro de associação entre os códigos que constavam nos

documentos e os debates com quais se relacionam.

Ao analisar os documentos, percebe-se que a ocorrência da categoria “gênero” (n=7) é

proporcionalmente menor em documentos produzidos pelos movimentos sociais do que os

documentos relativos às polítcas (n=11). Por outro lado, a categoria mulher/mulheres aparece

de forma constante em todos os documentos, seja no âmbito dos documentos dos movimentos

(n=47), das políticas (n = 72) e dos organismos internacionais (n=1292).

A categoria feminismo teve cinco ocorrências entre os documentos produzidos pelo

dos organismos. Expressões como sexualidade e diversidade sexual não apareceram em

nenhum documento.

Outras expressões que aparecem com frequência são igualdade, empoderamento e

protagonismo das mulheres. Entretanto, como discutiremos no presente capítulo, nem sempre

essas categorias possuem os mesmos sentidos nos documentos. Na sequência do capítulo

discuto com maior aprofundamento tais sentidos e matrizes discursivas a partir dos sujeitos

coletivos que os mobilizam.