Chapitre 3 : Les sociétés locales
1. Un projet charitable ou une mode bourgeoise
Para melhor contextualização da TALP, é importante entender as bases sobre as quais se encontra fundamentada. Por esta razão, faz-se em seguida uma contextualização do constructo do conhecimento social e da sua interação com a área da psicologia.
De acordo com Durkheim (1984), a sobrevivência da sociedade, é garantida pela homogeneidade e a diversidade de cada indivíduo que a compõe. De acordo o autor, este
44 pensamento estaria manifesto na constituição da própria natureza humana, uma vez que cada sujeito é resultado da dicotomia de dois seres distintos, a saber, um constituído de estados mentais particulares, individuais, permeados de acontecimentos da vida pessoal e o outro seria a expressão de um sistema de ideias, sentimentos e hábitos, não exclusivos, resultado das influências dos grupos aos quais este indivíduo pertence. Deste modo, de acordo com Durkheim, a combinação destes dois seres diferentes, forma o ser social.
Sobre estas interações entre a formação do indivíduo e a sociedade, torna-se de extrema relevância considerar as publicações de Serge Moscovici a respeito do processo de construção do conhecimento partilhado e de senso comum, bem como suas reflexões a respeito das representações sociais, o que torna este autor uma referência no âmbito das ciências da sociologia e da psicologia (Oliveira, 2004)
Moscovici (1988) afirma que a sua perspetiva sobre as representações sociais é diferenciada porque pela primeira vez estas construções são investigadas dentro das particularidades do comportamento humano e suas realidades. O autor afirma ainda que as representações ocorrem como uma rede de interação de conceitos e imagens em contínua evolução, dependentes da complexidade/velocidade da comunicação e dos meios disponíveis para tal; a sua caracterização social seria então o efeito das interações entre indivíduos e grupos. Abric (2011) faz uso do pensamento de Moscovici para descrever que a teoria das representações parte do princípio de que não há distinção entre o exterior e o interior dos indivíduos, de modo que aquilo que um sujeito diz a respeito de um objeto ou situação, de certa forma constitui o próprio objeto e o determina. O autor diz, ainda, que o sistema de avaliação utilizado por um sujeito para definir um objeto consiste na reconstrução deste, o que torna o objeto inexistente, ou seja, este somente existe para o indivíduo e ou um grupo em relação com eles (sujeito-objeto).
A teoria das representações sociais possui uma dinâmica estrutural que organiza e significa os seus elementos de forma particular, onde a organização é definida pela hierarquização desses elementos e também determina que toda representação é organizada ao redor de um Núcleo Central, constituído por um ou vários elementos responsáveis por sua significação (Abric, 2011; Lahlou & Abric, 2011; Sant’Anna, 2012).
De acordo com Sá (1993), a referida estruturação, denominada de Teoria do Núcleo Central, foi elaborada por Abric, com o objetivo de explicar o funcionamento das representações. Sá (1993) refere, ainda, que este funcionamento é regido por um por um sistema interno duplo, com funções específicas, mas também mutuamente complementares. Os sistemas são definidos como sistema central (constituído pelo Núcleo Central) e periférico (constituído
45 pelos demais elementos). O primeiro caracteriza-se pela memória coletiva, estabilidade, resistência às mudanças, ou seja, elementos que garantem a continuidade da representação; o segundo reflete as experiências pessoais, abrange as contradições, ajusta-se às mudanças imediatas do contexto, ou seja, é flexível e tem como função integrar o sistema central à realidade concreta (Abric, 2011; Sá, 1993; Sant’Anna, 2012).
Dentro desta conjuntura, emergem as bases para o entendimento de que a Teoria das Representações Sociais (TRS), é um constructo de abordagem psicossocial, uma vez que parte do conhecimento produzido pelo senso comum e é também uma dimensão simbólica advinda da interpretação e conceituação da realidade e do quotidiano, realizada particularmente por cada sujeito (Jodelet, 2007; Zavalloni, 1973). Deste modo, de acordo com as mesmas autoras, como o sujeito não é concebido como um ser isolado, consequentemente as interpretações particulares tendem a inter-relacionar-se no ambiente social. Desta forma, compreende-se que a análise e compreensão do funcionamento da TRS terá sempre um enfoque duplo, baseado na interação de dois elementos (particular e social).
Rouquette (2005) também corrobora com esta definição, pois diz que o pensamento social toma por objeto a realidade social em que este pensamento se insere e considera que esta realidade social não apresenta limites que possam de alguma forma dissociar o indivíduo (nos aspetos biopsicossocial) da sociedade em que o faz parte.
Pode-se inferir, assim, que a construção de investigações a partir das ciências sociais encontra-se também dentro do contexto da psicologia, uma vez que a perceção das diferentes dimensões sociais dar-se-á a partir do conhecimento que o sujeito tem de si, das suas experiências e valores particulares, onde a visão obtida do outro é também um reflexo da visão particular que o sujeito constrói a respeito de si mesmo (Campenhoudt, 2003).
Neste contexto, neste trabalho optou-se pela utilização da TALP, a qual tem sido associada à TRS desde dos anos 80, embora fosse utilizada em contexto clínico desde o início do século XX (Collares-da-Rocha, Wolter, & Wachelke, 2016; Coutinho & Bú, 2017).
A TALP, também reconhecida como evocação livre, insere-se nas técnicas projetivas de investigação, utilizadas com o objetivo de revelar os aspetos mais particulares dos pensamentos e sentimentos de uma pessoa e caracterizar a essência da sua individualidade (Donoghue, 2000; Ma, 2013; Oliveira, Marques, Gomes, & Teixeira, 2005). Os mesmo autores também afirmam que este tipo de técnica pode fornecer resultados sobre o modo subjetivo que cada indivíduo percebe o mundo e se comporta nele. De modo mais específico, originada no âmbito da psicologia clínica, a TALP ajuda localizar zonas de bloqueamento e recalcamento
46 de um indivíduo, o que permite excluir do campo da consciência as ideias e sentimentos que um sujeito não quer admitir, mas que permanecem como parte de sua vida psíquica (Bardin, 1977/ 2016).
Baseado nestas considerações preliminares e também por ser de mais rápida execução, considerou-se que a utilização da TALP poderia aumentar a abrangência da presente investigação, uma vez que, para além de permitir o estudo de um número maior de indivíduos, propicia a obtenção do conteúdo qualitativo, com acesso também à estrutura interna característica das representações, semelhantemente ao processo das entrevistas (Oliveira et al., 2005).
A aplicação da TALP consiste basicamente na apresentação de um estímulo indutor aos indivíduos e de seguida pedir-lhes que associem, de forma espontânea e imediata, outras palavras que lhes ocorrem ao pensamento (Bardin, 1977/2016; Oliveira et al., 2005). O estímulo indutor utilizado no presente estudo foi uniformizado em duas perguntas, a saber, “O que é para
si envelhecer?” e “Hoje, quando pensa no seu corpo, o que lhe vem à cabeça (mente)?”.
Tal como descrito anteriormente, para além da TALP ter sido utilizada no momento inicial das entrevistas, foi também aplicada de forma isolada a outros sujeitos. Contudo, os padrões de recolha referentes ao local, comportamento do entrevistador frente ao entrevistado e à linguagem, foram mantidos conforme os utilizados para a entrevista, descrito anteriormente. Deve-se, no entanto, considerar que quanto ao aspeto de interação e ambientação dos sujeitos, nesta técnica há um tempo de contato reduzido, motivo pelo qual a entrevistadora procurou promover a maior interação com os sujeitos no momento inicial de preenchimento do questionário sociodemográfico e durante as explicações a respeito da TALP.
Na realização da primeira entrevista piloto (em que também foi aplicada a TALP), notou-se que o participante teve alguma dificuldade em dar respostas objetivas, prolongando o seu discurso ao responderem ao estímulo proposto. Por este motivo, os procedimentos da TALP foram ligeiramente reajustados, optando-se pela utilização de um diagrama impresso, composto por cinco retângulos ajustados lateralmente, que foram sempre apresentados aos indivíduos quando solicitados a dizer as cinco palavras que lhes vinham à mente na sequência do estímulo indutor. Deste modo, tornou-se mais clara a limitação da resposta em palavras, ou em expressões mais curtas.
As respostas foram anotadas pela pesquisadora pela ordem de evocação, sendo considerado o número mínimo de três palavras por indivíduo. Durante as respostas dos participantes, nenhuma sugestão verbal foi fornecida pela pesquisadora, mesmo nos casos em que os participantes demonstraram muita dificuldade em definir uma resposta. Em somente
47 alguns casos, os participantes pediram para que fosse repetido o estímulo ou para visualizarem as palavras que já haviam declarado, o que foi feito pela entrevistadora.
Este instrumento contribuiu assim para promover maior exploração das dimensões que compõe a imagem corporal, haja visto a evocação de pensamentos a respeito da autoimagem através de ideias a respeito de “bom” ou “mau” e por este motivo mostrou-se favorável sua agregação também no procedimento das entrevistas (Openheim, 1996).
Posto isto, considera-se que a associação de técnicas de cunho projetivo e introspectivo, presente nas três abordagens investigativas utilizadas neste estudo apresentam uma complementaridade, ou seja, a entrevista e a TALP permitem a significação de estados internos através da verbalização e análise do comportamento não verbal apresenta-se como uma opção para suprir as limitações da expressividade verbal (Ketele & Roegiers, 1993; Tavares et al., 2014).