A ação dos intelectuais a partir das redes de sociabilidade que se fortaleceram na década de 1920 tem no meio universitário um seus locus mais importantes de desenvolvimento. No século XX, a universidade ganha relevo como ambiente privilegiado para ação política da juventude, essa ascendência é permeada por elementos como o relativo aumento do acesso universitário em finais do século anterior; uma nova noção de intelectual, um maior alcance do pensamento de matriz socialista/anarquista, que ganha espaço no repertório dos homens de letras da América Latina e todo o conjunto de modernidade, tecnologia e comunicação que aturdiu o mundo a época.1
Algo que possa ser entendido como “ensino superior”, um extenso período de dedicação ao conhecimento especializado, contempla inúmeras e antiquíssimas formas de ensino e aprendizado, sobretudo na sua conformação mais básica (mestre e discípulo). Todavia, as origens ocidentais da concepção moderna de universidade remontam à universitas medieval, palavra que servia para designar “grêmios, corporações ou fraternidades integradas pelos mestres (magistri) e aprendizes (discipuli)”2, termo que, ato contínuo, serviu também para
denominar a instituição em si e pressupõe a outorga de títulos e seu reconhecimento pelo poder constituído “universal”.3 Na Espanha e, como desdobramento, em suas colônias no
1 Chamada de Revolução Científico-Tecnológica, que se concentra mais drasticamente nos Estados Unidos e na Europa, não impacta apenas pela variedade de produtos, processos e equipamentos, listados pelo historiador Nicolau Sevcenko, mas pela sua relação direta o dia-a-dia de seus contemporâneos: “Mas desse ponto em diante, quando o impacto da Revolução Científico-Tecnológica se faz sentir na sua plenitude, alterando tanto hábitos e costumes cotidianos quanto o ritmo e intensidade dos transportes, comunicação e do trabalho, o mundo que então se estabelece já nos parece francamente familiar.” E tem relação direta com as condições de possibilidade da relação entre cultura e império, permitindo a experiência histórica do império como algo partilhado em comum de forma global e simultânea, como um “(...) impulso extraordinário que ela deu para a consolidação da unidade global do mercado capitalista, nos quadros daquela dinâmica expansionista a que se referia o professor Hobsbawm.” SEVCENKO, Nicolau. Introdução. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso. In: SEVCENKO, Nicolau. (org.) História da vida privada no Brasil. República: da Belle Epoque à era do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.11.
2 TÜNNERMANN BERNHEIM, Carlos. La universidad ante los retos del siglo XXI. México-DF: UDUAL, 2003, p.24.
3 Como é possível imaginar, essa conformação institucional da universidade é bem menos linear do que nossa afirmação denota, mas são fortes os indícios que remetem à esta caracterização já em seus inícios. Considerada a mais antiga universidade europeia, a Universidade de Bolonha teve sua Authentica habita, documento imperial que garantia, pela primeira vez regras, direitos, liberdades e privilégios específicos da universidade no ano de 1155. E, apenas cinquenta anos depois, como demonstra Lydia Schumacher em seu livro, os graduados pela Universidade de Paris eram investidos de direitos específicos advindos de sua formação. Características estas, o regramento específico da “cidade universitária” e o direito de ofício outorgado com a integralização do
Novo Mundo, o poder de constituir universidades era real ou pontifício, mas sua validade dependia de dupla autorização, com precedência da autoridade monárquica. Mesmo instituída por bula papal 1538, mas oficializada por decreto real só em 1558, a Universidade Santo Tomás de Aquino (Santo Domingo) perde o título de mais antiga da América para a Universidad Nacional Mayor de San Marcos, no Peru, decretada em 1551 e outorgada pelo papa vinte anos depois.4 De qualquer modo, o histórico de fundação de universidades e
instituições de ensino superior na América colonial espanhola é bastante antigo e data da primeira metade do século XVI, tendo significativa expansão por todo o continente após as independências.5
Em inícios do século XX, quando ocorrem as primeiras formas de organizações estudantis mais sistemáticas e propositivas, sobretudo em questões relativas aos padrões de ensino e de autonomia universitária, permeadas por uma noção de coletividade americana de origem hispânica. Como aquela que expressa pela Asociación de Estudiantes de Montevideo ao convocar e realizar o “Primer Congreso Internacional de Estudiantes”, em 1908, e que contou com delegados da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Cuba, Guatemala, Paraguai e Peru:
Los estudiantes de América debemos sentirnos hermanos en el presente, hermanos por la doble fraternidad de las tradiciones y de los ideales, como se sintieron hermanos nuestros abuelos, en las horas de hierro de nuestro pasado, hermanos por la doble fraternidad del dolor y de la gloria. 6
curso, que se tornariam definidores do conceito de universidade. Schumacher esclarece os inícios deste processo de formalização da instituição universitária: “Just prior to the appearance of [Cardial Stephen] Langton’s commentary - more specifically, in 1200 - the University of Paris came into semi-formal existence when King Philip II of France issued a charter that represents the first extant grant of privileges to masters who had gathered in the city. In 1215, the guild of masters was formally recognized and statutes laid down to endow them with specific rights and privileges proper to their status as a universitas magistrorum et scholarium. These rights, which were reinforced by Pope Gregory IX in the 1231 bull Parens scientiarum - the so called ‘Magna Carta’ of the University of Paris - solidified the work that had been done by independent masters in Paris from the latter half of the twelfth century and gave new momentum to efforts to standardize the pedagogical practices and method of education deployed there.” SCHUMACHER, Lydia. Early Franciscan Theology. Between Authority and Innovation. Cambridge-UK: Cambridge University Press, 2019, p.15
4 O surgimento das universidades europeias e sua posterior implantação no território americano espanhol é abordado de forma detalhada por Tünnermann Bernhein. Cf. TÜNNERMANN BERNHEIM, op.cit., 2003. 5 A colonização portuguesa submeteu sua colônia americana a um padrão distinto, com a implantação apenas de cursos para engenheiros-militares, com a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, no final do século XVIII, e a abertura da primeira instituição de ensino superior, com a Escola de Cirurgia da Bahia, em 1808. As primeiras universidades brasileiras foram criadas no início do século XX.
6 MIRANDA, Héctor. Invitación al Congreso - La Asociación de los Estudiantes de Montevideo á sus compañeros americanos. Evolución, Montevideo, n.21-24, mar./1908, p.2. Neste número condensado de Evolución foram reunidas quase quatrocentas páginas de documentação sobre o congresso de 1908.
Nos anos seguintes, se realizaram mais duas edições, em Buenos Aires (1910) e Lima (1912), periodicidade que seria suspensa em virtude da Grande Guerra.7 A profusão de
grupos e associações universitárias nacionais e a realização de outros congressos internacionais nos anos seguintes, também foi acompanhada pela rápida ampliação do escopo de ação política sobre as questões sociais que caracterizou a geração universitária pós-1918.
Desde allí [Córdova] franqueó sus límites, se extendió primero a todo el país, asumió luego bríos americanos y se instaló, durante más de una década, en todo el continente.8
Essa narrativa triunfante, escrita por Juan Carlos Portantiero, sobre o movimento universitário de 1918, corresponde à abordagem predominante sobre o tema: o início de um processo contínuo, contagiante e implacável que varreria a juventude universitária latino-americana por uma década, a chamada Reforma Universitária. Portantiero e o também argentino Dardo Cúneo reuniram, em suas coletâneas sobre a Reforma, dezenas de documentos produzidos por movimentos e federações universitárias da América Latina até 1930. Na leitura de ambos, há a atribuição de uma filiação de todos eles ao movimento argentino, mesmo que em parte considerável dos documentos ela não esteja explícita, e mais, à concepção de que se trata de um único evento, a Reforma Universitária em seus mais de dez anos de duração.
Contestando a tese da “influência direta” do movimento cordovês nas insurgências estudantis do período, Fabio Moraga Valle aponta, por um lado, para o histórico destas
7 O historiador Fabio Moraga Valle analisa algumas associações estudantis fundadas na década de 1910, especialmente as representações estudantis do Uruguai, Argentina, Peru e México. Esta última, além de ser a fundada mais tardiamente, depois da estabilização política do país, até então imerso em guerras civis pós-revolução, diferente da maioria das outras, constituiu-se muito próxima ao governo central, especialmente após José Vasconcelos assumir a Secretaria de Educação do México, em 1921. MORAGA VALLE, Fabio. Reforma desde el sur, revolución desde el norte. El Primer Congreso Internacional de Estudiantes de 1921. Estudios de Historia Moderna y Contemporánea de México, nº47, 2014.
8 PORTANTIERO, Juan Carlos. Estudiantes y política en América Latina. El proceso de la reforma universitaria (1918-1938). México: Siglo XXI, 1978, p.13. Em Estudiantes y política en América Latina, Portantiero traça uma linha evolutiva dos universitários revolucionários, “de Mella a Fidel”, e dos reformistas, naquilo que, em sua leitura, constituiriam setenta anos de “rebelião estudantil” que nasce, precisamente, no movimento cordovês em 1918: “Si el continente americano tiene tras de sí sesenta años de rebelión estudiantil, el mensaje ideal que de allí se prolonga sólo pudo encontrar realización efectiva en un país en que la reforma, para ser tal, tuvo que ser, primero revolución. Y esa intuición, dolorosamente adquirida luego con la sangre de infinitas jornadas de lucha, había comenzado a germinar en el continente en el lejano 1918, cuando un grupo de jóvenes estampaba esta frase balbuceante: ‘creemos no equivocarnos, las resonancias del corazón nos lo advierten: estamos pisando sobre una revolución, estamos viviendo una hora americana.’” PORTANTIERO, op.cit., p.128, grifo no original.
intervenções universitárias, iniciadas pelo menos uma década antes de Córdova, e uma cultura estudantil propensa a rediscutir os parâmetros positivistas de ensino. E, por outro, o alheamento e até a negação desta filiação cordovesa por grupos subsequentes. No entanto, não basta descaracterizar essa interpretação ou classificá-la como “(...) un mito historiográfico que ha sido reproducido acríticamente por muchos historiadores (...).”9, mas
compreendê-la, no caso dos autores citados, a conjuntura destes trabalhos no âmbito do latino-americanismo anti-imperialista pós 196010 e também, como uma representação
fomentada em grande medida pelos próprios contemporâneos, como tratamos a seguir.
Em 1918, a Universidade de Córdova, a mais antiga das universidades argentinas (de 1613), reunia cerca de mil dos 12 mil universitários do país, dos quais 80% se concentravam em Buenos Aires. O movimento, que viria a ser chamado de Reforma Universitária, se iniciou com um pequeno tumulto, no final de 1917, entre os estudantes de engenharia, pois havia o descontentamento com a forma de ordenamento dos docentes e, entre os estudantes de medicina, predominava a indignação pelo fechamento do internato do Hospital de Clínicas. A situação se agravou quando, nos primeiros meses do ano seguinte, o Consejo Superior decidiu “no tomar en consideración ninguna solicitud de los estudiantes”. Sem se darem por vencidos, os estudantes instalaram o Comité Pró Reforma e prosseguiram com os protestos, impedindo o funcionamento da universidade. Em abril, sem conseguir debelar a greve de “Los jóvenes huelguistas, firmes en su empeño revolucionario y de franca rebeldía (...).”11, o
reitor, Julio Deheza, proibiu a entrada nas dependências da universidade e suspendeu todas as atividades acadêmicas. O desespero do reitor e a situação caótica na Universidade de
9 MORAGA VALLE, op.cit., p.159-160.
10 Em Portantiero, a militância política não é residual, é constituinte de seu trabalho intelectual, jornalístico e docente, passando pela filiação ao Partido Comunista e pelo exílio durante a ditadura militar argentina na década de 1970. A extensa trajetória político-intelectual de Portantiero foi relembrada por Lanzaro quando da morte do sociólogo argentino, em 2007. Cf.: LANZARO, Jorge. Juan Carlos Portantiero (1934-2007): o intelectual e a política. Trad. Renata Rufino. Dados, Rio de Janeiro, vol.50, nº4, 2007. Dardo Cúneo, de geração anterior, partidário do socialismo, atuou na campanha presidencial de Arturo Frondizi (deposto pelo golpe de 1962), exerceu a militância socialista sobretudo por meio do periodismo, em mais de setenta anos de carreira. Cf. HERRERA, Carlos Miguel. El intelectual como partido: Dardo Cúneo y la experiencia de Acción Socialista. Archivos - Revista de historia del movimiento obrero y la izquierda, nº3, septiembre de 2013.
11 DEHEZA, Julio. [Carta] Ao Senhor Ministro de Justicia e Instrucción Pública de la Nación, 03/04/1918. Crónica Universitaria - Documentos oficiales relativos a la intervención de la Universidad. Revista de la Universidad Nacional de Córdoba, Argentina, abr./1918, p.366. Essa revista, publicação oficial da Universidad de Córdoba, foi fundada em 1914 para a divulgação de trabalhos acadêmicos, mas a secção “Crónica Universitaria” tratava do funcionamento administrativo da universidade. Em 1915, Deheza havia sido reeleito pela terceira vez como reitor em Córdova. Cf. BIANCO, José. Universidad nacional de Córdoba. Concepto y significado de la reforma; Antecedentes ilustrativos; Crisis universitaria argentina. Revista de Ciencias Económicas, Córdova, Argentina, mai./1918, p.316. As diferenças políticas não atrapalharam o casamento do principal líder do movimento cordovês, Deodoro Roca, com María del Rosario Deheza, filha do reitor, ocorrido em meio aos tumultos dos reformistas, em novembro de 1918. KOHAN, Néstor. Deodoro Roca, el hereje. Buenos Aires: Biblos, 1999, p.24.
Córdova, que estavam na ordem do dia da imprensa argentina, ganharam contornos vívidos em uma das revistas mais populares do período, o satírico político Caras y Caretas, o qual estampava em página inteira a capa da edição da segunda quinzena de abril de 1918:
Título: La letra con sangre entra
Legenda: Doctor Deheza: -¡Caramba! Lo que es esto, no figuraba en el plan de enseñanza12
Neste momento, os estudantes dão um grande passo para a notoriedade que caracterizaria o movimento cordovês: sua difusão nacional. Em intensa comunicação com as outras agremiações estudantis argentinas, no mesmo dia 11 de abril no qual o presidente Hipólito Yrigoyen nomeava o interventor para UNC, os representantes de todas as universidades nacionais e provinciais do país criaram a Federación Universitaria Argentina (FUA). O interventor, José Matienzo, teve mais sucesso que o reitor Deheza nas negociações com os grevistas, mas a falta de acordo e a resistência de estudantes e professores antirreformistas e ligas católicas estenderam os meses de impasse. Entre outros desdobramentos, detalhados por Carlos Borches, os conflitos e a paralisação das atividades foram até setembro, quando os
12 Descrição: o desenho traz homens lançando pedras contra a fachada da universidade e, em primeiro plano, o reitor com a expressão angustiada e as mãos na cabeça. Desenho assinado por Alvarez. ALVAREZ. Universidad de Córdoba [Caricatura]. Caras y caretas. Buenos Aires: nº1019, 13/04/1918, s/p.
estudantes assumiram a reitoria, tomaram as instalações da universidade e demandaram a volta de um interventor que desse seguimento a todos os termos da reforma. Tarefa esta que Yrigoyen delegou ao próprio Ministro da Justiça e Instrução Pública, José Salinas.13
Em meio a sedição universitária em Córdova, os estudantes lançaram o jornal La Gaceta Universitaria, em 1º de maio imprimiam o primeiro número sob o lema Rara temporum felicitate, ubi sentire quae velis, et quae sentias, dicere licet14. Pouco depois lançaram, na
primeira página da Gaceta, o manifesto A los hombres libres de Sud América, depois conhecido como Manifesto Liminar15, considerado o documento fundacional da Reforma e
que carrega o tom de cruzada civilizacional que caracteriza os escritos políticos do período. São signatários do Manifesto os estudantes que dirigiam a federação de Córdova: Enrique F. Barros, Horacio Valdés, Ismael C. Bordabehere, Gumersindo Sayago, Alfredo Castellanos, Luis M. Méndez, Jorge L. Bazante, Ceferino Garzón Maceda, Julio Molina, Carlos Suárez Pinto, Emilio R. Biagosch (diretor da Gaceta), Angel J. Nigro, Natalio J. Saibene, Antonio Medina Allende e Ernesto Garzón. Entretanto, a autoria é atribuída a Deodoro Roca, conhecido como o principal líder do movimento, mas que não poderia constar nos documentos oficiais como autor, pois o jovem advogado havia se formado alguns anos antes. Nos anos que se seguiram, Deodoro Roca assumiria a luta anti-imperialista em Córdova através do periodismo e das associações, como a ULA (de José Ingenieros), da qual fundaria a filial cordovesa. Organizaria ainda a Liga Argentina Argentina por los Derechos del Hombre, o Comité Pro Paz y Libertad de América, o Comité Pro Exilados y Presos Políticos, entre outras.16
Desde seus primeiros desdobramentos, o Manifesto dá ao levante de Córdova essa característica, que perdura na historiografia sobre o período, de início ou explosão de um
13 Borches explica também que a Universidade de Buenos Aires já havia passado por uma reforma acadêmico-institucional, em 1906, que compreendia os principais pontos demandados pelos cordoveses em 1918, razão pela qual a UBA dificilmente poderia ter sido o epicentro do movimento. BORCHES, Carlos. A 90 años de la Reforma Universitaria - Córdoba se redime. La Ménsula. Revista do Programa de Historia de la Facultad de Ciencias Exactas y Naturales, UBA. Buenos Aires: año 2, nº5, ago./2008.
14 Citação de Tácito que pode ser traduzida por: “Raros momentos de felicidade, aqueles em que pensar o que quiser e dizer o que pensa está permitido.” LA GACETA UNIVERSITARIA. La Gaceta Universitaria. Órgano de la Federación Universitaria de Córdoba. Córdoba, 1918. Segundo Natalia Bustelo e Domínguez Rubio, várias revistas de orientação bolchevique foram impressas pelos reformistas argentinos entre 1918 e 1932, a saber, Bases, Clarín e Insurrexit (de Buenos Aires); Mente (Córdoba); Alborada e Germinal (de La Plata); Verbo Libre, La Antorcha e Germinal [2] (de Rosario). Cf. BUSTELO, Natalia; DOMÍNGUEZ RUBIO, Lucas. Radicalizar la Reforma Universitaria. La fracción revolucionaria del movimiento estudiantil argentino, 1918-1922. Anuario Colombiano de Historia Social y de la Cultura, Vol.44, nº2, 2017, p.35.
15 FEDERACIÓN UNIVERSITARIA DE CÓRDOBA. La juventud argentina de Córdoba a los hombres libres de Sud América: Manifiesto de la F.U. La Gaceta Universitaria. Órgano de la Federación Universitaria de Córdoba. Córdoba, 21/06/1918.
único e grande movimento de sublevação juvenil nas universidades do continente. Entretanto, nossa intenção não é, como Moraga Valle, denunciar historiadores “acríticos”, mas apreender a Reforma Universitária em Córdova como um evento relevante, não por ser supostamente um estopim de um amplo movimento que perpassaria mais de uma década, e sim por ser tomada como um acontecimento significativo por grande parte de seus contemporâneos. Bem como porque o ambiente universitário ganharia cada vez mais relevância no debate do contexto estudado e na própria formação político-intelectual dos intelectuais estudados, como analisaremos a seguir.
O aspecto formativo é esperado de instituições educacionais, mas o que se destaca é a atuação estudantil, e mesmo docente, de se voltar para questões mais amplas, extrauniversitárias e de conhecimento formal (ainda que este também estivesse sob a mira dos estudantes), as sociais, ou seja, alçando para primeiro plano a atuação política no âmbito universitário. Ainda que não se possa dizer que é algo novo com relação à universidade, mesmo no caso latino-americano, estas ações alcançam um volume inaudito quando, neste período, se fundamenta no repertório intelectual de cunho socialista.
Pretendemos, assim, evitar os dois equívocos de interpretação sobre a Reforma apontados por José Alves de Freitas Neto, ou de restringi-la a seus aspectos internos, mais propriamente acadêmicos, ou de inscrevê-la tão somente como uma consequência de conjunturas macropolíticas. Conforme o autor:
Um processo de reforma universitária com alcance continental, como foi o de Córdoba, exige uma abordagem que não cometa dois equívocos. O primeiro é que ele não pode ser analisado de forma restritiva, em que apenas os aspectos acadêmicos mais imediatos possam ser listados como bandeira estudantil, desencadeando mudanças na secular universidade argentina. O outro seria, no extremo oposto, pensar a greve universitária como uma reação às questões internacionais do pós-Primeira Guerra Mundial, a crítica ao imperialismo e a situação política da Argentina que absorvia um grande número de imigrantes e que ampliava os direitos políticos por meio de uma reforma na legislação eleitoral. Entre os dois pontos há demandas imbricadas que se apresentavam antes de 1918 e que tiveram desdobramentos posteriores. Por isso, nossa opção é buscar na história universitária argentina os pontos que nos parecem mais relevantes e contextualizados para compreender os alcances do movimento cordovês.17
É significativo o que Deodoro Roca escreve, no início do Manifesto, “Creemos no equivocarnos: las resonancias del corazón nos lo advierente: estamos pisando sobre una