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Dossier de téléchargement du Gestionnaire d'installation SOLIDWORKS

Dans le document INSTALLATION ET ADMINISTRATION SOLIDWORKS 2015 (Page 103-107)

Até cerca de 1910, os grandes ensaios que tinham por objeto a América Latina, se propagaram pela intelectualidade do continente, aliando o tradicional formato das narrativas nacionais oitocentistas, fundamentalmente o homem e o meio, com abordagens metodológicas biologistas (Darwin e Spencer), de psicologia social (Le Bon) e psicologia histórica.52 Tratava-se de avaliar os componentes naturais - as características inatas das raças

formadoras dos povos e a influência de seu meio ambiente, e suas trajetórias históricas com o objetivo de, quando possível, prescrever intervenções políticas para sanar os males de origem. Neste período, além do recorte nacional, que mantém sua relevância, a América Latina se configura como importante objeto de estudo e de projetos políticos. Essa interpretação aqui defendida, ainda que ampla e na qual se perdem nuances, pode ser demonstrada com a análise dos sumários (ANEXO 2) de algumas dessas obras de interpretação, como El porvenir de las naciones hispano-americanas (1899), do mexicano Francisco Bulnes:

para nuestros arreglos americanos.” BOLÍVAR, Simón. 30 de maio de 1825, Arequipa (Peru). In: Obras completas. Tomo II. Caracas: Piñango, 1978, p.148.

51 TERÁN, Oscar. El primer antiimperialismo latinoamericano. Punto de Vista. Buenos Aires, out./1981, p.4. Fundada em 1978, com tiragem irregular, por Beatriz Sarlo, Carlos Altamirano e Ricardo Piglia, Punto de Vista era uma revista intelectual de amplo leque temático (crítica literária, teoria política e social, sociologia, história cultural e intelectual dentre outros), alinhada à esquerda e de oposição à ditadura militar argentina. Passaram por suas páginas nomes importantes da intelectualidade e da academia argentina de finais do século XX, como Oscar Terán, José Aricó e Juan Carlos Portantiero. Punto de Vista encerrou suas atividades, após 30 anos, em abril de 2008. Cf. AHIRA, Archivo Histórico de Revistas Argentinas: https://www.ahira.com.ar/revistas/punto-de-vista/.Acesso 20/01/2020.

52 Trabalhamos com as referências bibliográficas mais importantes nos inícios do século XX seguindo os teóricos que Manoel Bomfim e Silvio Romero mais citavam em suas respectivas obras no capítulo “Uma nação por construir: raça e história enquanto problemas” e que são amplamente compartilhadas no período. Cf. OLIVEIRA, op.,cit. Em especial sobre as ideias eugênicas como discurso cientificamente autorizado na América Latina entre os escritores debruçados sobre temas de reforma social e construção das nacionalidades ver STEPAN, Nancy Leys. “A hora da eugenia”: raça, gênero e nação na América Latina. Trad. Paulo M. Garchet. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005 (1ªed. 1991).

Imagem 1 - Índice de El porvenir de las naciones hispano-americanas (1899) - Francisco Bulnes.

Capítulos listados no índice: Las Tres Razas Humanas; La Maldición de la América Latina; Elementos super-orgánicos de la América Latina; El verdadero peligro; El proyecto de salvación; La alimentación en el trópico; Potencia de los elementos extratropicales de la América latina; Elementos industriales de la América latina; La garrulería [relativo a falastrão] latina-americana y la inmigración; La plebefobia; Lasciate ogni

speranza; El canibalismo burocrático e Conclusión.53

Bulnes dedica os primeiros capítulos do livro a caracterizar as “três raças” e a “maldição da América Latina” (sobretudo sua natureza tropical), perpassa também características comportamentais (psicológicas e fisiológicas) e, nas partes finais, o autor se ocupa dos problemas políticos contemporâneos como a industrialização incipiente e as questões relacionadas à imigração.

Em Nuestra América (1903), “ensaio de psicologia social” do argentino Carlos Bunge, o elemento humano é predominante na análise. Na primeira parte, Los españoles, o autor disserta sobre a “arrogância espanhola” e suas consequências na degeneração coletiva de seus descendentes; na segunda, Índios, negros y mestizos, trata dos supostos traços psicológicos dos fatores étnicos não-europeus e as consequências (negativas) da mestiçagem; na parte três, Los hispanoamericanos, trabalha com a ideia da “complexidade étnica do criollo” e suas qualidades psicológicas características, desdobradas das anteriores. E, por último, em Política hispanoamericana e Políticos hispanoamericanos, trata daquelas que seriam as expressões políticas derivadas da análise psicológica das raças que, segundo o autor, se desdobram no caudilhismo característico da política criolla.54

53 BULNES, Francisco. El porvenir de las naciones hispano-americanas - Ante las conquistas recientes de europa y los Estados Unidos. México: Mariano Nava, 1899.

54 BUNGE, Carlos Octavio. Nuestra América - Ensayo de Psicologia social. Buenos Aires: Casa Vaccaro, 1918 (1ªed.1903).

Os exemplos se multiplicam, sejam em trabalhos com recortes nacionais mais específicos, como Evolución política del pueblo mexicano, de Justo Sierra (México, 1902) e Raza chilena, de Nicolas Palacios (Chile, 1904),55 sejam proposições mais abrangentes,

como as anteriormente citadas e também A América Latina - males de origem, de Manoel Bomfim (Brasil, 1905); A América Latina, de Sílvio Romero (Brasil, 1906) e Pueblo enfermo, de Alcides Arguedas (Bolívia, 1909).56

Com uma abordagem semelhante à de Carlos Bunge, Manoel Bomfim focaliza a “hereditariedade psicológica e social” das raças formadoras da América Latina e seus efeitos deletérios sobre as sociedades que formaram. O livro de Sílvio Romero surge como resposta à obra de Bomfim. Nele, Romero polemiza com Bomfim não só ao valorizar a herança ibérica e rejeitar as noções de “parasitismo” e a “degeneração” como efeitos hereditários dela, mas também ao discordar quanto a existência de um espaço que possa ser compreendido sob o epíteto América Latina.57

O objetivo não é fazer a síntese dessas obras, mas evidenciar o debate identitário e a convicção entre os autores de que supostamente havia um problema com as sociedades latino-americanas e que, para maioria dos intelectuais, ele era inerente à natureza de seus componentes ambientais e étnicos.58 Entretanto, a centralidade da crítica aos fatores tidos

como elementares da formação latino-americana não exclui, na leitura das questões contemporâneas, as correlações de forças internacionais, sobretudo com os Estados Unidos e a Europa. Nesse sentido, a palavra que estava nos lábios de todo mundo, nos dizeres do

55 SIERRA, Justo. Evolución política del pueblo mexicano. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1977 (1ªed.1902); PALACIOS, Nicolás. Raza chilena. Libro escrito por un chileno y para los chilenos. Valparaíso: Imprenta Alemana, 1904.

56 ARGUEDAS, Alcides. Pueblo enfermo: contribución a la psicología de los pueblos hispanoamericanos. Santiago de Chile: Ed. Ercilla, 1937 (1ªed. 1909). Em Arguedas, o foco do autor é a “enfermidade” boliviana, mas sua análise de psicologia social também considera como prioridade as características biológicas comportamentais que seriam inerentes às raças formadoras dos povos hispanoamericanos e sua mestiçagem. 57 BOMFIM, Manoel. A América Latina – males de origem. 4ª ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005 (1ªed. 1905); ROMERO, Sílvio. A América Latina – Análise do livro de igual título do Dr. M. Bomfim. Porto: Livraria Chardon, 1906. Para a polêmica entre Bomfim e Romero e análise mais detalhada das obras Cf. OLIVEIRA, op.cit..

58 Conforme João Gabriel Ascenso e Fernando Luiz Vale Castro, na Introdução à coletânea “Raça: trajetórias de um conceito”, o repertório intelectual racialista, afirmado ou negado, estava no centro de grande parte das análises dos homens de letras preocupados com o progresso, ou a ausência dele, em seus povos: “No contexto continental [americano], veremos que os argumentos do racismo científico eram, ora referendados e, de diferentes formas, apropriados pela intelectualidade desejosa de ingressar em um patamar de civilização e de progresso; ora questionados e denunciados, fosse através da rejeição do caráter biológico de raça (compreendendo-se a mesma a partir de pressupostos culturais e/ou espirituais), fosse pela própria negação desse conceito como categoria analítica válida.” ASCENSO, João Gabriel da Silva; CASTRO, Fernando Luiz Vale (org.). Raça: trajetórias de um conceito - história do discurso racial na América Latina. Rio de Janeiro: Ponteio, 2014, p.7.

inglês John Hobson, que se referia à Europa, também figurava nos debates obras dos latino-americanos.

As questões relativas ao imperialismo, que também aparecem, por exemplo, como subtítulo da obra de Bulnes – Ante las conquistas recientes de Europa y los Estados Unidos – permeiam, ainda que tangencialmente, as discussões de identidade e formação latino-americano no período. A prospecção feita a seguir é relevante para mapear a formação do imperialismo como campo semântico e sua relação com as questões identitárias na América Latina que, já familiar à intelectualidade, se converteria em cerne da questão latino-americana.

Neste momento, nos interessa sobretudo perceber como, a persistente questão identitária, que neste período gravita em torno dos essencialismos racialistas e fatalismos históricos, compreende também aspectos eminentes da política internacional contemporânea. Os desequilíbrios de poder entre as grandes potências, as europeias e o ascendente vizinho do Norte, com a América hispânica vai encontrando mais espaço e preponderância nas reflexões sociológicas. A seguir, nos aprofundamos nos argumentos que correspondem a estas análises políticas, que sem dúvida são marginais nas propostas gerais das obras, mas oferecem pistas destes deslocamentos. Para tanto, perseguimos as primeiras utilizações e entendimentos de imperialismo entre a intelectualidade.

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