4ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989 (1ªed. 1951), p.147.
A palavra da qual todos esses significados se desdobraram faz parte de um conjunto de neologismos que eram incomuns até meados do século XVIII: aqueles com o sufixo grego -ismo.5 Esse sufixo, que designa a substantivação e “generalização do significado do
vocábulo primitivo”6, foi acoplado ao antigo substantivo proveniente do latim, império. E
passou a ser utilizado na cena política europeia a partir de meados do século XIX, no início relativo apenas à política expansionista de Napoleão III. E nesta acepção, de forma pouco elogiosa, é empregado por Karl Marx em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852), no qual aparece três vezes, com significações levemente variadas, mas todas negativas.7 A
primeira delas, com a expressão “imperialismo dissimulado”, serve para qualificar o “nacionalismo francês” (grifo no original) dos adeptos do grupo político National, opositores de Luís Filipe; outro uso relativo à força e estupidez da massas camponesas como “imperialismo” estimulado pela própria burguesia; e a última, sobre a “paródia do imperialismo” das idées napoléoniennes e seu exército “defendendo a sua nova possessão contra os de fora, glorificando a sua nacionalidade recém-conquistada, pilhando e revolucionando o mundo”.8 No geral, em 18 de Brumário, as inserções de imperialismo
parecem destacar um suposto caráter de ostentação dissimulada que Marx registra na política francesa do período, tema do livro, e notadamente, relacionada à deplorável exaltação da nacionalidade.
Para não nos restringirmos à palavra, mas atentarmos às compreensões possíveis de Marx sobre o tema, podemos perceber o grande interesse do autor alemão sobre questões relativas a um termo correlato, o colonialismo. Expulso da cidade de Colônia, Marx se radica em Londres e, na década de 1850, dedica vários artigos ao tema do expansionismo inglês. Redator internacional para o New York Daily Tribune, Marx, em artigo publicado em 11 de julho de 1853, acompanha com interesse a utilização da empresa Companhia das Índias
5 Nesse caso, a terminação -ismo está em português (que também é correspondente para espanhol), mas foi adaptada com o mesmo radical de acordo com a ortografia das línguas de alfabeto latino, -ism em inglês, -isme em francês, -ismus em alemão e etc. De acordo com o filologista Gianastacio, incialmente, o sufixo tinha seu uso mais comum em palavras relacionadas com religiosidade, desde seu mais antigo registro em batismo, e outros vocábulos que indicam adesão, como cristianismo, paganismo, sebanistianismo e ainda aqueles que indicam “ação em progresso”, como ostracismo. Especificamente em português, há o registro de 30 mil vocábulos sufixados com -ismo durante o século XIX, em comparação com apenas 10 mil vocábulos existentes antes deste período. GIANASTACIO, Vanderlei. A presença do sufixo -ismo nas gramáticas da língua portuguesa e sua abrangência de valores semânticos, a partir do Dicionário da Língua Portuguesa Antônio Houaiss. Dissertação (Mestrado em Filologia e Língua Portuguesa). São Paulo: USP, 2009.
6 RIBEIRO, Julio. Grammatica Portugueza. 2ªed. São Paulo: Teixeira & Irmão, 1885, p.159.
7 Corresponde a Imperialismus, no original em alemão, Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte. Sendo assim, é imprecisa a informação trazida por Eric Hobsbawn, em A era dos impérios, de que a palavra imperialismo “não figura nas obras de Karl Marx, falecido em 1883”. Cf. HOBSBAWM, op.cit., p.103.
8 MARX, Karl. O 18 brumário de Luís Bonaparte. Trad. Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011 (1ªed. 1852). Os trechos estão nas páginas 40, 145 e 148-149.
Orientais pelo governo britânico para avançar sobre o território indiano. A posse da coroa britânica sobre a Índia só se oficializaria em 1858, entretanto, alguns anos antes, Marx havia feito um histórico dessa relação. Apontando o que para ele configurava tanto a hipocrisia dos ingleses e a tentativa de camuflar o empreendimento colonial via Companhia das Índias, quanto o esforço de querer fazê-lo sem que incorresse em responsabilidade para o governo e/ou para os ingleses. Conforme Marx:
This, then, is the first reason of the India question’s having failed to become a great political question, since and before 1784; that before that time the East India Company had first to conquer existence and importance; that after that time the Oligarchy absorbed all of its power which it could assume without incurring responsibility. (...) As to its exterior, India was now finished. It is only since 1849, that the one great Anglo-Indian Empire has existed. Thus the British Government has been fighting, under the Company’s name, for two centuries, till at last the natural limits of India were reached. We understand now, why during all this time all parties in England have connived in silence, even those which had resolved to become the loudest with their hypocritical peace-cant, after the arrondissement of the one Indian Empire should have been completed. Firstly, of course, they had to get it, in order to subject it afterward to their sharp philanthropy. From this view we understand the altered position of the Indian question in the present year, 1853, compared with all former periods of Charter [de concessão] renewal.9
Segundo Koebner e Schmidt, em Imperialism: The Story and Significance of a Political Word, este continuou a ser o tom no qual a palavra aparecia nos debates dos parlamentares britânicos na Câmara dos Comuns. Como uma expressão usada com desdém por aqueles que se opunham à política colonial inglesa e associado a um galicismo político, portanto, visto como impróprio para os ingleses:
In the first chapter of this study we showed how the term imperialism became associated in the British mind with the despised regime of Napoleon III and we pointed out (...) how the term occasionally recurred to denounce an alien form of government that made use of direct appeals to the multitude, false military splendour [sic], adventures abroad, Empire expansion, and practised arbitrary despotic rule; it all fitted so perfectly with what the Liberals felt Disraeli represented, the fraud, the charlatan, as Punch [satírico periódico londrino] called him (...).10
9 É importante atentar para o tópico a respeito da “responsabilidade”, pois será importante na especificação de imperialismo frente a colonianlismo que faremos adiante. MARX, Karl. The East Company - Its History and Results (Londres, 21/06/1853). New York Daily Tribune, New York - EUA, 11/07/1853, p.6, grifo no original. Outros artigos, fragmentos de obras e cartas de autoria de Marx e de Engels, escritos a partir de 1850, sobre o tema, podem ser encontrados na coletânea On Colonialism. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. On Colonialism. Moscou: Progress Publishers, 1974 (1ªed. 1959).
10 KOEBNER, Richard; SCHMIDT, Helmut Dan. Imperialism: The Story and Significance of a Political Word, 1840-1960. Cambridge: Cambridge University Press, 2010 (1ªed.1964), p.147. Benjamin Disraeli, Conde de Beaconsfield, romancista e político, foi primeiro-ministro britânico duas vezes pelo Partido Conservador, no qual redefiniu importantes linhas de atuação, como a deliberada identificação do partido com o imperialismo. Disraeli esteve comprometido diretamente, como primeiro-ministro e líder da oposição, nas questões relativas à política colonialista, envolvendo, por exemplo, o Canal de Suez, a proclamação da Rainha Vitória como Imperatriz da Índia e também foi líder da delegação britânica no Congresso de Berlim (1877).
Mesmo que a noção de império e suas possessões ultramarinas, como demonstra Edward Said, fizesse parte do repertório de ingleses e franceses oitocentistas, sendo “um grande tema de atenção cultural sem que houvesse qualquer constrangimento”11, uma gama de
implicações dessa política provocava dissenso entre os britânicos. Questionava-se sua conformação, se deveria ou não avançar formalmente sobre “raças” não-brancas; sobre sua forma de governança, se deveria se dar através de administração direta ou por meio do controle de governos autóctones; sobre seu custo moral e até mesmo sua viabilidade econômica (posicionamento capitaneado por Adam Smith)12, pois não eram poucos aqueles
que consideravam que as colônias causavam prejuízo e corrompiam o espírito inglês.13
Com mais de dez anos de domínio inglês oficializado sobre a Índia, os debates parlamentares sobre as questões relativas às possessões imperiais se transformam. Abre-se espaço para que o imperialismo fosse paulatinamente, ainda sob críticas, convertido a política de Estado. Em 1872, o então líder da oposição na Câmara, o conservador Benjamin Disraeli, proferiu seu discurso Conservative and liberal principles14, que ficaria marcado como sua
profissão de fé para com o império britânico e como um discurso fundacional do “Novo Imperialismo”.15 Nesta fala, Disraeli defende o império britânico e acusa os liberais de
separatismo, numa tentativa de vincular a política externa imperial ao seu grupo conservador, apelando ao orgulho britânico de construir uma poderosa nação imperial com uma missão e uma plataforma política:
It is whether you will be content to be a comfortable England, modelled and moulded upon continental principles and meeting in due course an inevitable fate, or whether you will be a great country, - an imperial country - a country where your sons, when they rise, rise to paramount positions, and obtain not merely the esteem of their countrymen, but command the respect of the world...16
11 SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia de Bolso, 2011 (1ªed. 1993), p.42.
12 Sobre a crítica pensamento liberal britânico, e de Adam Smith em particular, acerca do imperialismo Cf. PITTS, Jennifer. A turn to empire: the rise of imperial liberalism in Britain and France. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2006.
13 Cf. Touching the imagination of nations [Capítulo 1] In: UNDERWOOD, Jonathan Allen. From empire to Empire: Benjamin Disraeli and the Formalization of the British Imperial Social Structure. Dissertação (Mestrado em História). Raleigh-NC (USA): NC State, 2006.
14 DISRAELI, Benjamin. Conservative and liberal principles. In: Elected Speeches of the Late Right Honourable Earl of Beaconsfield. KEBBEL, T.E. (org.). Vol. 2. London: Longmans, Green, & Co., 1882, p.523-535.
15 STEMBRIDGE, Stanley R. Disraeli and the Millstones. Journal of British Studies. Vol.5, nº1, nov. 1965, p.122.
16 DISRAELI, op.cit., p.534. Com relação ao referido discurso e a atuação política de Disraeli há, de forma persistente na bibliografia um debate sobre a sinceridade da “fé imperialista” de Disraeli, com base em declarações anteriores sobre as colônias serem “uma mó pendurada no pescoço da Inglaterra”, o acusando apenas de se utilizar de uma retórica oportunista. Além deste trabalho não ser o espaço adequado para essa
Pouco tempo depois, a vitória de Disraeli como patrono da política imperial britânica seria coroada com a aprovação do projeto de lei Royal Titles Act que Disraeli, agora como primeiro-ministro, apresentou ao parlamento britânico, em 1876. Lei que conferia à rainha Vitória também o título de “Imperatriz da Índia” (revogado em junho de 1948). Não sem reação da oposição liberal que, segundo o jornalista T.E. Kebbel, contemporâneo aos acontecimentos, novamente acusou Disraeli de usar um expediente negativo e alheio à cultura da monarquia inglesa, o imperialismo:
On February 17, 1876, Mr. Disraeli introduced a Bill for enabling Her Majesty to adopt a new title for the sovereignty of India. When it became know that the title selected was that of Empress, a violent ferment was raised by the Opposition, who denounced the attempt to introduce ‘a bastard imperialism’ into the English monarchy, and under cover of a new form to insinuate the thin end of the wedge of military despotism.17
O argumento acerca da estranheza do imperialismo à cultura política britânica, embora persistente, foi pouco a pouco suplantada, como observa Lawrence James, no capítulo “The Mission of Our Race: Britain and the ‘New Imperialism’”. A partir de 1880, o orgulho imperial e sua massiva propaganda é predominante na literatura, nas escolas (civis e religiosas), bem como na imprensa.18
Além dos conhecidos aspectos ditos “missionários” e “civilizatórios” dos discursos colonialistas e imperialistas, a noção de imperialismo também foi, desde seus primeiros usos, informada e construída por críticos de todo o espectro político. Entretanto, como argumentam Margaret Kohn e Kavita Reddy, no verbete “Colonialism”, de Stanford Encyclopedia of Philosophy, que abrange também teorias do imperialismo, a justificativa civilizatória do empreendimento imperial não se sustenta simplesmente no liberalismo. Adam Smith, por exemplo, tinha sérias desconfianças de que a sustentação econômica do império pesasse sobre os contribuintes britânicos e afetasse o equilíbrio do livre mercado. Entretanto, esse
discussão, corroboramos com a leitura de Jonathan Underwood sobre este aspecto: “The sincerity with which the British people endorsed and celebrated their imperial construct, and the social constructs that still pervade British society speaks volumes of the importance that Disraeli and the Empire played in shaping British culture between the middle of the nineteenth century and the middle of the twentieth. Disraeli’s promotion of that imperial construct, whether through political gaming or legitimate interest is of little consequence when one considers that the formalization of the British Empire reinvigorated the public’s interest in aligning domestic power structures with foreign ones, redefining the British psyche and spreading a vision of Britishness around the world.” UNDERWOOD, op.cit., p.61-62.
17 Nota explicativa do organizador da coletânea, T.E. Kebbel, ao texto do discurso de Disraeli, Royal Titles Bill (09/03/1876). In: DISRAELI, op.cit., p.231.
18 JAMES, Lawrence. The rise and fall of the British Empire. New York, NY: St. Martin’s Press, 1994. Uma documentação diversificada, reunida por Jane Samson, traz uma coleção de documentos e textos relacionados ao Império Britânico e ao expansionismo, de William Shakespeare a Winston Churchill, passando por Adam Smith e Edward Said. Cf. SAMSON, Jane (org.). The British Empire. Oxford: Oxford University Press, 2001.
ponto é mais bem explicado pela confluência da teoria liberal com a ideia de processo de desenvolvimento histórico, como exposto pelas autoras:
The idea that civilization is the culmination of a process of historical development, however, proved useful in justifying imperialism. According to Uday Mehta, liberal imperialism was the product of the interaction between universalism and developmental history (1999). A core doctrine of liberalism holds that all individuals share a capacity for reason and self-government. The theory of developmental history, however, modifies this universalism with the notion that these capacities only emerge at a certain stage of civilization.19
Por fim, a centralidade dada nesta análise à empresa imperial britânica não responde apenas a sua longa duração, abrangendo pelo menos os séculos XVIII, XIX e XX, ou a sua extensão, que chegou a 25% do território terrestre e uma população de mais de 440 milhões de pessoas - números equivalentes a três vezes o domínio da França e dez vez o alemão20 -,
mas aos elementos discursivos que mobiliza, (in)formando a noção de imperialismo que, a partir da pena de outro inglês, John Hobson, ganhará o mundo enquanto conceito político.