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Dedicada aos problemas do capitalismo moderno, a profícua produção intelectual de John Atkinson Hobson, inglês de filiação política liberal e reformista, ganhou um novo direcionamento após a experiência do autor como correspondente especial do periódico Manchester Guardian na África do Sul. Quando fez a cobertura jornalística da sangrenta Segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902).21 Após ver em primeira mão a atuação da “política

imperialista” britânica, Hobson deu novo rumo aos seus trabalhos22. Sistematiza assim o

19 KOHN, Margaret; REDDY, Kavita. “Colonialism”. The Stanford Encyclopedia of Philosophy. ZALTA, Edward N. (org.), 2017:https://plato.stanford.edu/archives/fall2017/entries/colonialism/

Acesso: 28/05/2019.

20 Estimativa referente ao início do século XX. FERGUSON, Niall. Empire: The Rise and Demise of the British World Order and Lessons for Global Power. London: Allen Lane, 2002, p.202.

21 John A. Hobson (1858-1940) economista, jornalista, filiado ao Labor Party, defendia a drástica diminuição dos excedentes financeiros dos grandes monopólios e a redistribuição de renda por meio da tributação de seus lucros. Em sua autobiografia, no qual aborda seus cinquenta anos de pensamento econômico, Hobson qualifica a si mesmo como um “economista herético”, segundo ele, não por bravata, mas por ter buscado, desafiando a ortodoxia, um “olhar humano” sobre os fenômenos econômicos e sobre termos como “valor”, “custo” e “utilidade”. HOBSON, John A. Confessions of a Economic Heretic - Autobiography. London: Unwin Brothers, 1938. Algumas das obras de Hobson, anteriores a Imperialism: The Physiology of Industry (em parceria com Albert F. Mummery), 1889; Problems of Poverty, 1891; e Evolution of Modern Capitalism, 1894.

22 Em seu artigo logo após a sua viagem à África do Sul, The War in South Africa: Its Causes and Effects (1900), Hobson concluía que a hiperconcentração do capital financeiro e seu investimento nos empreendimentos imperialistas como uma conspiração judaica. Segundo Hannah Arendt, os financistas judeus perderam prontamente a importância no investimento imperialista e isso fôra percebido por Hobson antes da publicação de Imperialism - a study, que nesta obra não faz nenhuma menção ao tema. ARENDT, op.cit., p.165; Cf. HOBSON, John A. The War in South Africa. It’s causes and effects. London: James Nisbet & Co., 1900.

primeiro estudo dedicado a compreender o imperialismo como um fenômeno complexo, no qual procura estabelecer aquelas que entendiam como sendo suas causas e efeitos.

Em Imperialism - a study, publicado em 1902, Hobson subdivide seu argumento em duas partes. Uma delas investiga a teoria e a prática imperialista a partir da sua autoproclamada “missão civilizatória sobre povos inferiores” e reflete sobre suas implicações políticas e morais. E a outra, responsável pela grande repercussão de seu livro, foi dedicada às origens econômicas do fenômeno e é densamente substanciada por dados e estatísticas sobre a hiperconcentração de capitais e agudização do monopolismo industrial e financeiro. Processo multifacetado que, para o autor, derivava em uma excrescência perniciosa do capitalismo: o imperialismo.

No prefácio, Hobson justifica o tom condenatório do imperialismo e a falta da isenção da qual poderiam acusá-lo, dizendo que não há outra forma de abordar uma “patologia social”, que se manifestaria de forma maligna. De acordo com o autor:

Those readers who hold that a well-balanced judgment consists in always finding as much in favor of any political course as against it will be discontented with the treatment given here. For the study in distinctively one of social pathology, and no endeavor is made to disguise the malignity of the disease.23

Hobson não inaugura a tradição pejorativa do termo, conforme já abordamos, mas a marca de forma indelével e, mais importante, estabelece as bases para aquela que viria a ser a leitura mais difundida do imperialismo: como um fenômeno político de natureza econômica. Dessa forma, a obra do autor inglês, que agrega elementos das leituras que lhe são contemporâneas, é percebida nos estudos sobre imperialismo como uma virada semântica. O assunto e o termo que, como diz o próprio Hobson, já estavam “nos lábios de todo mundo”24,

receberam essa viragem que seria essencial para o paradigmático trabalho de Lenin anos depois.25 A escolha de destacar Hobson nesta análise se explica de forma evidente pelo

23 HOBSON, John A. Imperialism - a study. New York: James Pott & Co., 1902, p.VI.

24 “This study of modern Imperialism is designed to give more precision to a term which is on everybody’s lips and which is used to denote the most powerful movement in the current politics of the Western world.” HOBSON, John A. Imperialism - a study. New York: James Pott & Co., 1902, p.VI.

25 Duas décadas antes, em 1883, o historiador inglês John Robert Seeley publicou um sucesso de vendas, The Expasion of England. No livro de Seeley a palavra imperialism aparece apenas três vezes e em referência apenas a avanços militares. SEELEY, John Robert. The Expansion of England. Two courses of lectures. London: Macmillan and Co., 1914 (1ªed.1883). O livro Discovering Imperialism - Social Democracy to World War I, organizado por Richard Day e Daniel Gaido, traz vários artigos sobre o imperialismo antes da publicação de Lenin (em 1917). O revolucionário russo é o parâmetro para os autores pois a coletânea é dedicada a autores marxistas, mas, serve de referência sobre a ampla discussão do imperialismo anteriores não apenas a Lenin, mas também a Hobson. O artigo mais antigo desta coletânea é Modern English Imperialism, de novembro de 1897 e de autoria do marxista australiano Max Beer. In: DAY, Richard B.; GAIDO, Daniel (org.). Discovering Imperialism: Social Democracy to World War I. Leiden: Brill, 2012. Outros livros também haviam sido publicados por marxistas antes de Lenin e ele mesmo os referencia em seu livro: Rudolf Hilferding (1910), Rosa

pioneirismo de seu estudo sobre imperialismo e sua conceituação enquanto fenômeno político.

O trabalho de Hobson é referência fundamental para a mais notória obra sobre o tema, o livro Imperialismo, estágio superior do capitalismo: ensaio popular, de Vladimir Lenin, de 1917.26 Diferente do intelectual inglês, para quem o imperialismo é um desajuste no

capitalismo, Lenin o considera como uma conclusão esperada da acumulação monopolista própria da ordem do capital. Em sua pesquisa, Lenin se preocupa em demonstrar como a livre-concorrência, vigente no capitalismo até meados da década de 1870, havia sido subvertida de forma a ocasionar a hiperconcentração, seja de força de trabalho, de matérias primas e, sobretudo, de poder financeiro, nas mãos de corporações cada vez maiores e em menor número. A imensa quantidade desse capital financeiro/rentista que monopolizado esterilizava-se dentro das fronteiras nacionais, encontrou no potencial de violência institucional do Estado seu escape. A guerra é entendida como conclusão inequívoca desta luta do capital financeiro por esferas influência, como Lenin resume no prefácio a edição de 1920:

No livro [Imperialismo, estágio superior do capitalismo], prova-se que a guerra de 1914-1918 foi, de ambos os lados, uma guerra imperialista (isto é, uma guerra de conquista, de banditismo e de rapina), uma guerra pela partilha do mundo, pela divisão e nova partilha das colônias, das “esferas de influência” do capital financeiro etc.27

A compreensão de Lenin sobre o imperialismo será retomada outras vezes neste trabalho, não porque seja a definição correta, mas por ser a principal interlocução sobre o tema para a maioria dos autores estudados. A concepção leninista de imperialismo foi central para o debate da intelectualidade latino-americana nas décadas de 1920 e 1930 que se debruçava sobre esta questão no continente. Os trabalhos de Lenin, de forma geral, e o Imperialismo, em particular, são referências obrigatórias para grande parte deles, tanto a fim de corroborar

Luxemburgo (1913), Nicolai Bukharin (de 1915 e prefaciado pelo próprio Lenin) e a quem direciona suas mais pesadas críticas, Karl Kautsky (1914).

26 As pouco mais de 100 páginas que compõem a versão final do livro, adequadas às exigências da censura da Rússia czarista, derivam de uma extensa pesquisa de Lenin, publicados como 50 cadernos de estudo escritos pelo autor e que contêm anotações extraídas de 148 livros e 232 artigos em alemão, em francês e inglês. RUDAKOVA, Iskra. Sobre a Obra de Lénine “O Imperialismo Fase Superior do Capitalismo”. Moscou: Progresso, 1986, p.8.

27 LENIN, Vladimir Ilitch. Imperialismo, estágio superior do capitalismo: ensaio popular. São Paulo: Expressão popular, 2012 (1ª ed. 1917), p.26. Quando da publicação da primeira edição de Imperialismo, em 1917, Lenin e os bolcheviques tinham como uma de suas principais plataformas tirar a Rússia da Grande Guerra, considerada um conflito alheio ao país, pois fruto do imperialismo, e que lhe custava recursos e milhares de vidas. Sua condenação, no entanto, era direcionada à guerra imperialista, salvaguardando as revolucionárias: “(...) nem todas as guerras são iguais, existem também as guerras revolucionárias (...).” p.29, trecho também referente ao Prefácio de 1920.

quanto de contestar e procurar sua melhor aplicabilidade para entender o que chamavam de realidade regional. Mesmo porque o imperialismo aparece nas análises divulgadas na Europa e em suas conceituações relativas à expansão capitalista europeia a Oeste (África e Ásia) e marginalmente em relação aos Estados Unidos e à América Latina (topônimo bem pouco utilizado até então).

Nesse sentido, além de compreender melhor a inserção e o repertório da intelectualidade americana do entreguerras na discussão sobre imperialismo, na qual a interpretação leninista tem grande relevância, ainda poderemos perceber se e como esses intelectuais atuaram nas percepções sobre o imperialismo, sobretudo no âmbito da América Latina.