Apanhados no torvelinho desse tempo de guerra, informados de maneira unilateral, sem distanciamento das grandes mudanças que já ocorreram ou estão para ocorrer e sem noção do futuro que se configura, ficamos nós mesmos perdidos quanto ao significado das impressões que se abalam sobre nós e quanto ao valor dos julgamentos que formamos.
Sigmund Freud, Considerações atuais sobre a guerra e a morte, 1915
O termo e o conceito de imperialismo como exposto anteriormente têm uma relação direta com a chamada “era imperialista”, referência comum para os historiadores. Essa periodização tem como parâmetro o final do século XIX, com início não antes de 1870 e nem posterior a 1885 até, invariavelmente, 1914. O segundo marco é autoevidente e se refere à Primeira Guerra Mundial (até então a Grande Guerra), quando são comuns às menções, de contemporâneos e estudiosos, ao fim de uma era e de toda uma concepção de mundo.28 No
entanto, o primeiro é mais aberto a discordâncias e depende da compreensão sobre o início do imperialismo como um fenômeno novo.
Em geral, predomina o entendimento expresso por John Hobson no início do século XX, de que a década de 1870 é um indicativo do início do imperialismo, mas que só alcança seu auge em meados da década seguinte:
Though, for convenience, the year 1870 has been taken as indicative of the beginning of a conscious policy of Imperialism, it will be evident that the movement did not attain its full 28 Ainda que esta ideia de ruptura seja relativizada, ela é importante por corresponder a uma concepção bastante difundida por aqueles que a vivenciaram. Esse tema será retomado na análise das fontes, muitos autores compreenderam o período da Guerra como o ocaso da Europa e a consequente “hora americana”.
impetus until the middle of the eighties. The vast increase of territory, and the method of wholesale partition which assigned to us great tracts of African land, may be dated from about 1884.29
Essa periodização compreende a política imperialista como algo novo em sua lógica e funcionamento diferente da antiga expansão imperial, ao estilo de Roma, e também distinto do colonialismo europeu existente desde o século XV. Seguindo este entendimento, Hannah Arendt destaca que, ao contrário da conquista colonial que visava a pilhagem temporária ou assimilação duradoura, o imperialismo aparecia como política em que a expansão é seu objetivo supremo e permanente. A política imperialista implica não apenas a conquista de outros territórios em si ou sua colonização, mas sua incorporação sistemática na ordem econômica da grande potência, ocasionada pela necessidade gerada pelos exorbitantes excedentes do crescimento econômico industrial e do capital financeiro. Para autora, é somente a partir de 1884 que se pode falar do imperialismo enquanto política expansionista, desdobrada do colonialismo, e orientada “pela incompatibilidade do sistema de Estados nacionais com o desenvolvimento econômico e industrial”30.
Essa incompatibilidade teria derivado da incapacidade do Estado-nacional de dar vazão à grande quantidade de capital supérfluo (capital remunerando capital) que precisava ser reinvestido, culminando na necessidade de expansão. Se por um lado, não havia força política e material dos grandes oligopólios para fazer valer seus interesses e os aparatos do Estado pareciam sua melhor possibilidade sucesso, por outro, o risco também parecia iminente para os Estados, pois havia uma tendência em se misturar os negócios das companhias com a política governamental, colocando-se em risco a própria poupança dos negócios de Estado. Sendo assim, de acordo com Hannah Arendt: “Só a expansão dos instrumentos nacionais de violência poderia racionalizar o movimento de investimentos no estrangeiro e reintegrar na economia da nação as desenfreadas especulações com o capital supérfluo (...).”31
Grosso modo, o período de profundas transformações do capitalismo no último terço do século XIX, quando os interesses do capital monopolista se convertem em sistemática política de Estado, é o que caracteriza a “era dos impérios”. No entanto, a face visível e mais assombrosa é a expansão e domínio das potências europeias sobre a maior parte do mundo, com exceção do continente americano. No decorrer do século XIX o avanço é vertiginoso. Se, 29 HOBSON, op.cit., p.19.
30 ARENDT, Hannah. Prefácio de 1967. In: Origens do Totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989 (1ªed. 1951), p.147.
em 1800, os Estados europeus detinham 35% da superfície do globo, em 1878 atingiram 67% e, em 1914, quando do início da Grande Guerra, se aproximavam de 85%. Composto por colônias, protetorados e outros domínios32, o que na África representava quase a totalidade do
continente (com exceção de Etiópia, Libéria e uma parte do Marrocos).
O fim da era imperialista não é explicado por um alteração na lógica monopolista do capital (cuja vigência costuma marcar seu início) ou pelo fim do domínio colonial dos impérios; o maior deles, o inglês, só começaria a ser desfeito no pós Segunda Guerra e, apenas no último quarto do século, a descolonização portuguesa na África. Desta afirmação decorre, e é importante reafirmar, que a “era dos impérios” não compreende a inteireza do imperialismo, tanto como avanço expansionista ou como conceito político. Estes imperialismos não estão sujeitos a datações tão exatas, seja seus difusos inícios, como trabalhamos neste capítulo e menos ainda, o seu (bastante discutível) fim.
Quanto à era dos impérios, a noção de que havia chegado o seu fim é a mesma que caracteriza o ocaso do “longo século XIX” e a crença inabalável no progresso, o desenrolar catastrófico da Primeira Guerra e a percepção de que “os métodos da barbárie se tornaram parte integrante e esperada do mundo civilizado”33. É uma percepção que faz ruir a torre do
orgulho civilizacional, na metáfora de Barbara Tuchman, que se sustentava na crença inabalável no progresso contínuo e irrefreável:
Quando esses esforços terminaram, as ilusões e os entusiasmos que se tinham tornado possíveis em 1914 mergulharam lentamente no mar da mais profunda desilusão. Pelo preço que pagou, o maior benefício da Humanidade seria a penosa conclusão de suas limitações. A torre do orgulho, construída através da grande época da civilização europeia, era um edifício de grandeza e de paixão, de riqueza e de beleza e também de caves escuras.34 O fim da era dos impérios, em 1914, é assim considerado pois “foi sentido como o fim de uma era em seu tempo”35, é marcado pelo medo e pela ideia de derrocada civilizacional,
32 SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia de Bolso, 2011 (1ªed. 1993), p.40.
33 HOBSBAWM, op.cit. p.504.
34 TUCHMAN, Barbara. A Torre do Orgulho: um retrato do mundo antes da Grande Guerra (1890-1914). Trad. João Pereira Bastos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990 (1ªed. 1962), p.619. Como demonstra Peter Gay em O cultivo do ódio, a eclosão do confronto foi saudado em seus primeiros meses por políticos e intelectuais e por populações embaladas pelo chauvinismo nacionalista, louvando a força e a masculinidade e ancorada numa literatura bélica de grande sucesso e tradição. Em seu artigo Gedanken im Kriege [Pensamentos na Guerra], publicado em novembro de 1914 na revista Neue Rundschau, o escritor alemão Thomas Mann escreveu sobre a sensação de alívio trazida pela Guerra: “Como poderia o artista, soldado no artista, deixar de louvar a Deus pelo colapso de um mundo pacífico de que estávamos fartos, tão extremamente fartos.” apud. GAY, Peter. A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud. Vol. 3 - O cultivo do ódio. Trad. Sérgio de Paula; Viviane Noronha. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (1ªed. 1993), p.517.
mas, simultaneamente, por esperanças tanto no futuro do capitalismo como em seu fim pela via revolucionária.
Este sintético mapeamento semântico sincrônico e diacrônico do termo imperialismo objetiva embasar o estudo de uma compreensão mais acurada de seu uso pelos autores sobre os quais nosso estudo se debruça. Uma vez que, segundo nossa hipótese, o imperialismo e sua antítese, o anti-imperialismo, podem ser considerados como fundantes da militância política e das concepções identitárias assumidas por parte deles. Ao mesmo tempo, as disputas políticas em torno do conceito de imperialismo nas décadas de 1920 e 1930 informam parte dos seus usos no pós-guerra, o que, como argumentaremos posteriormente, é uma noção imprescindível para os estudos político-identitários da América Latina em todo o século XX.
Consideramos que as três acepções distinguidas acerca da noção de imperialismo são relevantes neste estudo, entretanto, não se confunde inteiramente com nenhuma delas. A era do imperialismo, findada em 1914 e que se refere a mudança de paradigma que tem na Guerra seu evento mais notório, é importante para a intelectualidade latino-americana. Não apenas na já citada “hora americana” como renovação civilizacional no Ocidente, mas também internamente, com a reivindicada demarcação de modernidade de uma geração sobre a anterior. O vocábulo imperialismo, com significado aproximado ao de expansão e domínio, também é uma palavra-chave de uso constante e renovado durante o século XX. E o conceito de imperialismo como fenômeno político é pesquisado, instrumentalizado e refletido pelos autores em sua luta política.