Nesta primeira etapa (Etapa I) da pesquisa, dispusemos de um montante de informações a partir dos dados coletados e contabilizados, juntamente às observações realizadas nas visitas virtuais que tornaram possível traçar um apanhado inicial sobre os espaços educativos virtuais presentes em sites de museus brasileiros. Como resultado das observações in loco, constatamos: os espaços educativos virtuais são, na sua maioria, formatados de modo a apresentar as atividades educativas desenvolvidas pelo museu no seu prédio, bem como as informações sobre o agendamento das escolas e de grupos de visitantes. Esse tipo de divulgação relacionado às atividades educativas presenciais recebe destaque nos sites.
Observamos que a maior parte das informações é especialmente direcionada a professores, da mesma forma que é possível dizer que há uma lacuna de informações para os jovens e para o público em geral. Os materiais didáticos para download são frequentes, além de outros materiais com conteúdos museais (131 registros na amostra de 274 sites pesquisados). É uma prática, portanto, o acesso pelo meio virtual de materiais de cunho educativo para professores.
Com relação aos recursos de interação e educacionais, há uma nítida disposição dos museus observados em usar vídeos para difundir conteúdos. Os dados demonstram a presença significativa do recurso no levantamento dos interativos. Houve 166 sites que dispunham desse recurso entre os 274 pesquisados, correspondendo a 60% dos sites observados que possuem vídeos em suas páginas, mesmo sendo um recurso com características de comunicação unidirecional dos conteúdos museais.
Os espaços de participação são pontuais, mas existem. A seguir, elencamos alguns exemplos significativos de usos mais participativos dos recursos interativos com fins educativos que foram encontrados nas visitas virtuais aos sites de museus.
São exemplos de práticas educativas online que permitem uma participação ainda limitada. Os exemplos encontrados de recursos que possibilitam uma interação mútua com fins educativos encontravam-se em ambiente fechado (AVA - Ambiente Virtual de Aprendizagem) que necessitavam de senhas para participação, por isso não foram considerados.
Redes educativas
Nessa fase da investigação, registramos a presença de duas plataformas educacionais com uma série de recursos educativos embutidos. São recursos educacionais que contemplam as potencialidades para uma cultura participativa, juntamente com convergência midiática. Pode-se afirmar que esses espaços constituem os Ambientes Virtuais de Aprendizagem, sobre os quais Santos (2002, p. 425) observa: "Um ambiente virtual é um espaço fecundo de significação onde seres humanos e objetos técnicos interagem, potencializando, assim, a construção de conhecimentos, logo, a aprendizagem".
O olhar de Santos sobre o AVA é amplo e permite que muitos ambientes encontrados nos ciberespaços possam ser compreendidos como ambientes de aprendizagem, sobretudo se esses espaços são relacionados às possibilidades de agregar recursos de interação em um mesmo ambiente, notadamente os relacionados com a Web 2.0, como fóruns, redes sociais e blogs. Ressaltamos como característica desses espaços AVA a intencionalidade educativa. Eles são propícios a uma aprendizagem dialógica entre os participantes, podendo contemplar contribuições de vários sujeitos no mesmo ambiente ou uma conversa comum entre educador e educando.
Como exemplo desse tipo de site que conta com AVA, temos o Museu Expandido, uma rede de conteúdos do Museu das Minas e do Metal. A plataforma da rede contém textos, imagens, vídeos, áudios e links correlacionados a conteúdos que são postados pela equipe educativa do museu e por colaboradores, com espaço para comentários. A midiateca do ambiente é organizada por categorias temáticas e se utiliza de um espaço colaborativo que pode gerar conexões e agregar outros conhecimentos. Para utilizar o ambiente, o internauta precisa se cadastrar e o acesso é permitido, desde que ele esteja vinculado a uma escola, universidade, empresa ou associação e faça o acesso pelo site do museu.
Outro destaque é a Rede Educativa Inhotim, que está claramente em sintonia com uma cultura participativa e com uma plataforma que contém vários recursos de interação, permitindo e agregando a contribuição do público na construção do conhecimento. São ações direcionadas para a formação de professores (cursos), estudantes e grupos comunitários. Para participar, o interessado precisa fazer um cadastro e habilitar uma senha.
Figura 22: Rede Educativa do Instituto Inhotim
Fonte: Site da Rede disponível em: <http://redeeducativa.inhotim.org.br/imr/>. Acesso em: 30 04.
2018.
As plataformas AVA estão contidas nos espaços educativos dos museus, mas são necessárias senhas para participar das atividades online, por isso não consideramos como um recurso disponível para todos os públicos, como é uma característica das práticas educativas presentes nos sites de museus.
Blogs
Os blogs podem ser poderosos instrumentos de participação, contudo, quando associados aos museus, sofrem com o problema da atualização. Dos 13 blogs educativos encontrados na pesquisa a partir do recorte de 274 sites, apenas 5 tinham postagem do ano de 2018. Além disso, os blogs servem especialmente para divulgação das atividades presenciais e possuem baixa adesão dos visitantes- usuários para comentários.
Contrariando o senso comum, o blog do Serviço de Assistência ao Ensino do Museu Nacional do Rio de Janeiro (SAE) é um exemplo de recurso de interação direcionado para estudantes e professores com muita informação sobre as atividades do setor educativo do museu, e aberto a participação. Apesar da característica de ser um espaço de divulgação de atividades, o ambiente não deixa de ser um exemplo proeminente de cultivo de informação e de conteúdos educativos com possibilidade de os visitantes agregarem contribuições.
Figura 23: Imagem do blog da Seção de Assistência ao Ensino
Fonte: Blog da SAE disponível em: <https://saemuseunacional.wordpress.com/>. Acesso em: 29 abr.
2017.
Espaços para interação com o usuário
“Pergunte ao Astrônomo” é um espaço educativo de interação com os visitantes-usuários do Museu de Astronomia. É uma experiência singular, uma vez que poucos são os museus que abrem um recurso que o usuário pode utilizar para solicitar algum serviço ou postar alguma contribuição. Sua apresentação é um exemplo de espaço bem aproveitado, pois estimula o usuário aprendiz a buscar perguntas que não sejam banais para serem levadas ao especialista que as responde. É um espaço de participação, com interação entre dois sujeitos, estimulando o pertencimento com os setores do museu, principalmente na medida
em que o usuário se vê atendido na sua solicitação. Essa mesma prática foi observada em outros museus de ciência.
Figura 24: Pergunte ao Astrônomo
Fonte: Museu de Astronomia disponível em:
<http://www.planetariodorio.com.br/category/astronomia/pergunte-ao-astronomo/>. Acesso em: 30 abr. 2018.
Usos do Facebook
Como recursos de interação, as redes sociais preenchem todos os requisitos para proporcionar uma interação mútua e abrigar práticas educativas online, mas são os usos da ferramenta que a tornam mais ou menos participativa. A seguir, apresentamos dois exemplos de Facebook educativo de museus.
São endereços dessa rede social exclusivamente para uso do setor educativo do museu. Observa-se claramente uma tendência no sentido de postagem com vistas à divulgação das visitas escolares e das atividades de cunho educacional que as instituições têm na sua programação. As interações são limitadas às funções “Curtir”, “Comentar” e “Compartilhar” as experiências postadas. Pressupõe-se que haja outros aproveitamentos que não somente instrumentos de divulgação das atividades do setor educativo desenvolvidas presencialmente. Supomos que há grupos de estudos, grupos para construção de projetos e outras aplicações educativas, cuja análise iria requerer o acompanhamento das postagens durante
algum tempo, para de fato saber da existência e da finalidade dos grupos. Neste trabalho conseguimos registrar o uso das páginas para divulgação. O fato é que os setores educativos estão se apropriando dos recursos da rede Facebook (Figuras 25 e 26) e de outras redes sociais, por isso consideramos relevante um olhar mais detalhado para o Twitter, pois em nossa investigação apenas contabilizamos o número de museus que têm a rede ligada ao seu site institucional. No entanto, inferimos haver experiências educativas originais a partir do uso dessa ferramenta.
Figura 25: Facebook do Educativo MAC
Fonte: Facebook MAC disponível em: <https://www.facebook.com/pg/educativomacce/reviews/>.
Figura 26: Facebook do Setor Educativo do Museu da Inconfidência
Fonte: Disponível em <https://www.facebook.com/educmuseuinc/>. Acesso em: 30 abr. 2018.
Com base nos dados coletados e nas observações realizadas durante a Etapa I do trabalho, surgiram informações sobre haver uma possível tendência no sentido de se promover uma abertura à construção de práticas educativas fundamentadas na participação e na interação que caracterizem uma cultura participativa. Contudo, há de se reconhecer que ainda se trata de algo incipiente.
Nesse sentido, pelo que observamos acima, com exceção das redes educativas, que possuem como princípio a participação e a colaboração, o restante das práticas sinaliza uma interação tímida. Algumas delas espelham o que está sendo desenvolvido presencialmente e não chegam a se configurar como um espaço de aprendizagem, mas de divulgação e participação, de estímulo e pertencimento às atividades do museu. De qualquer maneira, é inegável a transposição e o intercâmbio de informação entre o presencial e o virtual. Isso acontece marcadamente com as práticas educativas que ocorrem presencialmente, tendo no site sua reserva de conteúdo que pode ser utilizada antes ou depois da visita, ou até mesmo sem que haja visita ao espaço expositivo, bastando para isso a realização de um download.
Convém ressalvar que verificamos os sites com mais recursos interativos e provavelmente entre os melhores do segmento museal, que não reproduzem a realidade dos sites dos museus brasileiros, mas apontam intenções de possíveis usos desse instrumento pelas instituições nacionais. Da mesma forma, é preciso que se diga que por si só a presença de instrumentos interativos não garante ambientes participativos. A participação pressupõe outros componentes além das condições técnicas. Contudo, a tecnologia é indispensável para haver participação mediada pelos dispositivos digitais e computadores.
Na próxima fase (Etapa II), seguimos na tentativa de conhecer a opinião dos educadores dos museus sobre o uso do site para fins educativos. Para isso, aplicamos questionários por meio de formulário do Google, e as respostas obtidas encontram-se relatadas no próximo capítulo.