perspective: Applying genre theory to the analysis of students’ written productions in
2. Developing a genre-based perspective
2.3. The Ideational Component
A construção do projeto de pesquisa que deu origem a esta tese foi potencializada por inquietações ligadas à minha própria biografia e à minha condição de estrangeira no Brasil. Interessada na área da antropologia da saúde, minha ideia inicial era realizar um projeto que comportasse possíveis articulações de práticas de autoatenção1 em grupos indígenas moradores no contexto urbano.
Inspirada em uma experiência anterior de pesquisa na Colômbia durante o ano de 20072, na qual tive a possibilidade de observar como, frente ao deslocamento forçado de seus territórios tradicionais, 12 grupos étnicos diferentes, agora vivendo em um contexto urbano, encontraram uma forma eficiente de atender a seus problemas de saúde através da convocação dos especialistas em cura que se encontravam também em situação de deslocamento. Esses especialistas se dedicaram a atualizar sua práxis e conhecimentos ao novo contexto para auxiliar, da melhor maneira possível, as necessidades de seus ―parentes‖ em área urbana, apesar das possíveis diferenças conceituais, cosmológicas e práticas do seu saber frente às do ―paciente‖ a ser tratado. Igualmente, os
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pacientes‖ incorporaram novos repertórios e práticas para a atenção da sua saúde, dando lugar a uma rede de atenção e a um processo articulatório muito interessante, o qual, infelizmente, por conta da dinâmica do projeto, não tive a possibilidade de acompanhar de maneira sistemática. Eu reconhecia esse tipo de dinâmica como algo
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Isto é, as ―representaciones y prácticas que la población utiliza a nivel de sujeto y grupo social para diagnosticar, explicar, atender, controlar, aliviar, aguantar, curar, solucionar o prevenir los procesos que afectan su salud [...] sin la intervención central, directa e intencional de curadores profesionales, aún cuando estos pueden ser la referencia de la actividad de auto-atención; de tal manera que la auto atención implica decidir la auto prescripción y el uso de un tratamiento de forma autónoma o relativamente autónoma‖ (MENÉNDEZ, 2003, p. 198).
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Projeto intitulado: ―Estado actual de las condiciones de salud y bienestar y las necesidades de los grupos étnicos en situación de desplazamiento y ubicados en zona de frontera – Estrategias diferenciales de intervención. Ministerio de Protección Social y Universidad del Cauca, 2007.
relativamente comum tanto em grupos étnicos quanto tradicionais e ―leigos‖ na América do Sul, razão pela qual decidi voltar meus esforços para direcionar meu projeto de doutorado em torno dessa temática.
Iniciei, então, a empreitada para articular uma proposta de pesquisa que focasse nessas reapropriações e dinâmicas tecidas ao redor da saúde, doença e bem-estar em populações indígenas que moravam em áreas urbanas, e ao fazer a revisão bibliográfica sobre o tema, comecei também a viajar de forma imaginária pela geografia da América do Sul, tentando mapear alguma localidade interessante para a realização desta pesquisa.
Pensei em várias localidades na Colômbia, em cidades amazônicas no Brasil, em fazer um trabalho comparativo aqui e lá, até que a natureza dessas ―viagens‖ começou a me mostrar que a localização geográfica das cidades imaginadas se restringia, basicamente, à Amazônia (tanto na Colômbia quanto no Brasil) e a algumas cidades colombianas com uma forte população indígena próxima. Constatei que as leituras feitas para tecer meu marco referencial de pesquisa seguiam exatamente o mesmo padrão: relativamente poucos trabalhos no contexto brasileiro, um grande interesse pelas regiões amazônicas, algumas outras regiões do norte do país e um número quase inexistente de trabalhos realizados no sul, por exemplo (panorama que felizmente mudou nos anos seguintes3). No que tange, especificamente, à atenção à saúde dos povos indígenas, minha procura não trouxe resultados, o que acabou me encorajando a pesquisar a temática inicialmente proposta.
Durante o processo de construção de pesquisa começaram a ser divulgados os primeiros resultados do censo demográfico de 2010, e as informações por ele levantadas acabaram sendo importantes para a escolha e a elaboração do meu próprio projeto, como apresento a seguir:
Em 2010 se realizou no Brasil o XII Censo Demográfico, cujo objetivo principal era criar um perfil da população brasileira e suas características socioeconômicas que servissem como diretriz para o planejamento público e político do país durante a década em curso. Para a sua realização, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) iniciou uma fase preparatória em 2007, sendo que a coleta foi realizada em agosto de 2010 e os resultados divulgados em dezembro do mesmo
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A respeito da produção bibliográfica sobre índios e cidades, assim como seus contínuos desdobramentos na antropologia brasileira, voltarei mais adiante.
ano4. No que se refere à coleta de informação nos censos demográficos brasileiros, tradicionalmente aplicam-se dois questionários: um universal, utilizado em todos os domicílios pesquisados, e outro mais detalhado e completo, que inclui as perguntas do questionário universal, mas que somente é usado por um número de domicílios proporcional ao tamanho e à densidade populacional de cada município; essa metodologia também foi aplicada no censo de 2010.
Contudo, apesar da continuidade do método geral de levantamento da informação, o censo de 2010 caracterizou-se pela implementação de várias novidades, dentre as quais, a inclusão no questionário de perguntas referentes à autodeclaração da identidade étnica e inclusão de pertencimento étnico e línguas faladas. É importante esclarecer que a questão da autodeclaração étnica tinha sido incluída no censo de 2000, mas que as perguntas relacionadas a esse autorreconhecimento foram refinadas e ampliadas nessa última versão do censo para melhor se aproximar da população indígena brasileira e superar a invisibilidade estatística dos povos indígenas no Brasil (AZEVEDO, 2011).
O censo de 2010 informa que a população indígena no Brasil é de 817.963 pessoas, das quais 32% mora áreas urbanas e 63,8% em áreas rurais. Evidencia-se também um crescimento da população indígena em todos os estados do Brasil, sendo que 80,5% dos municípios brasileiros contavam com população indígena entre seus cidadãos (IBGE, 2010). Esse aumento da população indígena no Brasil, tal e como explica Azevedo (2011), tem sido considerável desde que a categoria de autodeclaração indígena fora incluída no censo do país: ―podemos verificar que a ‗grande virada‘ foi de 1991 para 2000, quando de 0,2% da população passou a 0,43%. Já de 2000 para 2010, tivemos um pequeno aumento na proporção, resultado de uma mudança na autodeclaração principalmente nas regiões sul e sudeste. No último censo, menos pessoas se autodeclararam indígenas naquelas duas regiões em relação ao anterior, realizado em 2000‖ (AZEVEDO, 2011).
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Tabela nº 1. Proporção de população autodeclarada indígena nos censos brasileiros de 1991, 2000 e 2010.
Sobre a presença indígena nas cidades brasileiras, no censo de 1991 — e segundo indica Azevedo (2011) — já é possível perceber a presença sistemática de indígenas nas áreas urbanas do país. Contudo, somente no censo de 2010 é que essa presença ganha força, devido ao aumento dos indígenas morando em ambientes urbanos em relação àqueles que ainda habitavam áreas ―rurais‖. No Brasil, como um todo, 61% da população reside em áreas rurais, sendo que nas regiões nordeste e sudeste essa proporção cai para 49 e 19%, respectivamente. Nas regiões norte e centro-oeste, a proporção de indígenas vivendo em áreas rurais é de 79 e 73%, enquanto que no sul 54% das pessoas que se declaram como indígenas vivem em áreas rurais (AZEVEDO, 2011).
No que refere ao estado de Santa Catarina, a informação oferecida pelos três últimos censos nos permite apreciar também um aumento da população autodeclarada indígena no estado. No ano de 1991, 4.884 pessoas foram reconhecidas como indígenas pelo censo, enquanto que em 2000 esta cifra aumentou para 14.542 pessoas, e em 2010, para 16.041 pessoas. Chama a atenção que, desses 16.041 indígenas, 7.680 deles, ou seja, quase 50% dessa população, estariam radicados em áreas urbanas, enquanto que 8.361 estariam morando em áreas rurais (IBGE, 2012). Essa concentração de população indígena nas áreas urbanas do estado catarinense se reflete na inclusão da cidade de Ipuaçú como uma das cidades com mais de 50% de população indígena
no Brasil, a qual aparece como a única cidade do sul do país com esse tipo de configuração populacional.
Tabela nº 2. Municípios no Brasil com mais de 50% de população indígena, em 2010
Mas, além de apresentar uma população em crescimento e uma grande apropriação das áreas urbanas do estado (o que já é um dado inquietante se pensarmos que, geralmente, as cidades catarinenses reivindicam sua identidade pela ―brancura‖ de seu ancestral europeu)5, o que os dados trouxeram de mais interessante foi o fato de evidenciar que cidades como Florianópolis, que, de maneira geral, não reconhecem os indígenas como parte de seu contingente populacional, além de os enxergarem como moradores das vizinhanças, possui, sim, população
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indígena: 1.028 indígenas foram contabilizados como moradores do município6.
É claro que se pensarmos que o total da população de Florianópolis é de 421.240 pessoas, o contingente formado por esses 1.028 indígenas parece pequeno (IBGE, 2012). Mas esse número, que acredito estar subestimado devido não só às possíveis imprecisões advindas do método estatístico utilizado, mas também pela circulação contínua de indígenas na localidade, e, mais especificamente, devido à estratégia de ocultamento da identidade que ainda é muito forte entre os indígenas que moram na cidade, torna-se significativo apenas pelo fato de demonstrar sua existência em uma cidade que, historicamente, tem desconhecido sua presença.
No calor da publicação dos dados do censo e frente à efervescência de publicações nos meios massivos de comunicação dando destaque ao crescimento e espalhamento da população indígena no Brasil afora, fiz uma primeira e rápida revisão bibliográfica que me permitiu visualizar que, com exceção de um par de relatórios e uma dissertação de mestrado, não existiam trabalhos publicados acerca dos indígenas moradores das áreas urbanas do estado de Santa Catarina. Quanto a Florianópolis, durante essa primeira revisão, não consegui achar nenhum documento que falasse sobre a população indígena da cidade, o que acabou chamando muito a minha atenção, e gerando certas perguntas que agora, através desta tese, tento, pelo menos de maneira parcial, responder. Quem são esses índios? Quais as expectativas e as relações tecidas na área urbana de Florianópolis? Como eles vivenciam a cidade?
Mas, além dos números apontados pelo censo, o que acabou impulsionando definitivamente a realização desta pesquisa foi o fato de me sentir curiosa com o impacto que esses dados geravam no meu entorno, em geral. A presença indígena nas cidades que o censo apresentava parecia ser uma novidade, uma situação inquietante e, inclusive, preocupante. Eu percebia esse ―tom‖ nas publicações de jornais impressos e nas discussões e opiniões suscitadas nos jornais televisivos, e isso me causava certo desconforto. Não conseguia deixar de questionar sobre por que o crescimento da população indígena em
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Além dos 1028 indígenas contabilizados no município de Florianópolis, somam-se 418 indígenas moradores no município de São José e 414 no município de Palhoça.
áreas urbanas ganhava tanto destaque e por que a ideia do índio na cidade parecia tão polêmica.
Esse desconforto muito provavelmente encontra-se ligado ao fato de ter crescido em uma cidade intermediária ao sul da Colômbia, capital de um departamento (unidade geográfica equivalente ao estado brasileiro) majoritariamente rural, onde residem dois dos grupos étnicos com maior número populacional no país (os Guambianos e os Nasa). O convívio cotidiano com os indígenas nos mais diversos âmbitos da vida social, isto é, na política local, em sala de aula, nas praças de mercado, nos bancos, nos noticiários, etc., provavelmente me levaram a naturalizar a presença indígena como parte da cidade, naturalização que, evidentemente, não é universal e que é continuamente contestada através de múltiplos discursos políticos e econômicos, não só no Brasil, mas de maneira geral em países que contam com populações indígenas, dentre os quais, a Colômbia.
Incomodada com essa questão, interessada em um tema de pesquisa específico, curiosa por saber quem seriam esses indígenas moradores de Florianópolis (cidade que, até então, tinha sido me apresentada como um reduto de população açoriana), e ao recordar minha pesquisa de campo com os indígenas Kaingang da Terra Indígena Xapecó – TIX (SC) realizada no mestrado, quando algumas pessoas haviam comentado acerca de amigos e familiares que moravam na capital catarinense (e outras cidades do estado), tomei a decisão de realizar minha pesquisa em Florianópolis.
Na minha cabeça, a equação era simples: eu achava os interlocutores, mapeava os seus circuitos de interação, e logo me dedicava a pensar na questão da articulação de práticas de autoatenção. Não faltará tempo para demonstrar como eu estava sendo otimista demais quanto à tarefa que estava a ponto de empreender.
Em agosto de 2011 defendi o meu projeto de pesquisa intitulado ―Índios em Florianópolis (?): Mapeamento, Formas de organização, modos de relação e processos de autoatenção‖, cujo interesse principal — e conforme o título já sugere — era mapear a presença de população indígena na área urbana de Florianópolis e observar as formas de organização e modos de relação estabelecidos pelos indígenas, com o objetivo de identificar, descrever e analisar os processos de autoatenção estabelecidos por eles no cotidiano de sua vida na urbe.
Confiada em um par de contatos, na dica de um dos qualificadores da minha banca de projeto de pesquisa doutoral (que comentou acerca da existência do ―Grupo de Indígenas Desaldeados da Grande Florianópolis‖, e cujo processo de aproximação e dramas recorrentes deram vida ao 2º Capítulo desta tese), na minha bagagem teórica e metodológica, e, mais especificamente, na certeza de que minha tarefa não seria nada fácil, iniciei a aventura do campo sem saber muito bem como ou onde começar a procurar.