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As transformações materiais pretendidas em Natal foram as seguintes: criação de uma rede de distribuição de água, saneamento, energia elétrica, melhorias no porto, estradas de rodagem, coleta de lixo, serviços de higiene, instituições de saúde, sistema de transporte urbano, criação de novos bairros, embelezamento de praças e avenidas, entre outros. Estes empreendimentos foram possibilitados pela obtenção de recursos por intermédio de empréstimos e com apoio do governo federal370.

A primeira grande necessidade foi tornar a cidade saudável. Isso porque todas as áreas que a constituíam tiveram registros de disseminação de doenças como podemos observar no mapa a seguir.

Figura 6 A cidade de Natal, 1926371. FONTE: FERREIRA, 2008, p. 85.

A Cidade Alta (na cor amarela) era foco de epidemias devido à proximidade do matadouro público, equipamento que tornava a área susceptível à insalubridade; o bairro do

370 Ibidem, p. 81.

Alecrim (na cor marrom), em 1920, era o mais populoso e como nas Rocas (na cor roxo) inexistia um sistema de fossas apropriado, segundo o médico Januário Cicco372. Ele considerava que a cidade para se tornar sadia precisava de uma rede de esgoto para o bem- estar social373, aterramentos, inspeção sanitária no porto, retirada do matadouro do centro, regulamentação de construções, retirada de vacarias374.

O bairro da Ribeira (na cor rosa) era uma área frequentemente alagada pela maré do rio Potengi, coberta de plantas e algas como representando no mapa a seguir. Na cidade como um todo, no início do século, não existiam serviços básicos ou saneamento. Os dejetos eram lançados nas ruas e a população consumia a água proveniente de fontes e cacimbas sem tratamento375.

Figura 7 Cidade de Natal no século XIX. Atlas do Império do Brasil, Candido Mendes de Almeida, 1868. FONTE: FERREIRA, 2008, p. 49.

Podemos observar no mapa as dimensões da cidade de Natal no início do século XX. Do lado esquerdo da água que invadia a cidade, estava o bairro da Cidade Alta, onde ficava a Matriz e acontecia a festa de Nossa Senhora da Apresentação, e do lado direito da área alagada, o bairro da Ribeira. A única via que interligava a cidade era a ladeira da cruz, a qual era extensa, íngreme e sem pavimentação, condições que ofereciam novas dificuldades para o

372 FERREIRA, Lúcia Angela et al. Uma cidade são e bela: a trajetória do saneamento de Natal – 1850 a 1969. Natal, 2008, p. 82.

373 Ibidem, p. 85.

374 Ibidem, p. 86-87.

trânsito entre os dois bairros376. Por isso, a dificuldade do acesso criou uma divisão entre a cidade, a Cidade Alta era uma espécie de fronteira fechada e a Ribeira também seguiu esse caminho.

A Ribeira era assim identificada, porque no lugar onde foi construída na década de 1910 a praça Augusto Severo, anteriormente ficava uma campina alagada pela maré do rio Potengi. Por isso, na área hoje ocupada pelo Teatro Alberto Maranhão era possível, no século XIX, tomar banho e percorrer a região através de uma ponte. Segundo Câmara Cascudo, o povoamento deu-se lentamente ao longo do século XVIII, as residências começaram a existir primeiramente nas ruas Doutor Barata, Chile e General Glicélio.

No ano de 1904, o governador Tavares de Lyra autorizou os trabalhos de aterro, drenagem e ajardinamento da praça Augusto Severo. Os serviços foram custeados por recursos federais que tinham sido destinados para o combate à seca que assolava muitos municípios do estado e trouxe muitos retirantes para a capital nesse mesmo ano377.

As imediações foram calçadas, árvores foram transplantadas para o jardim, novos bancos foram adquiridos. O jardim foi inaugurado em 15 de novembro de 1905 e ao redor da praça o calçamento foi realizado. O acetileno iluminou a rua Frei Miguelinho, a Silva Jardim e a praça Augusto Severo em 29 de junho de 1905. Os usuários do bairro tinham a sua disposição estabelecimentos como casas comerciais, armarinhos, farmácias, clubes de danças, o cinematógrafo Politeama inaugurado em oito de dezembro de 1911378.

Figura 8 Trecho do jardim da praça Augusto Severo, 1908. FONTE: MIRANDA, 1981, p. 77.

376 CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal, 1999. p. 148-149.

377 FERREIRA, Lúcia Angela et al. Uma cidade são e bela: a trajetória do saneamento de Natal – 1850 a 1969. Natal, 2008, p. 65-67.

O jardim que vemos na fotografia anterior (Figura 8) ocupou a área na qual anteriormente ficavam estagnadas as águas do rio Potengi, como observamos na figura 7. A tecnologia do século XX possibilitou o aterramento das águas e a construção de uma estrutura que barrasse o avanço do rio. Dessa forma, foi possível criar uma área para sociabilidade pública como podemos ver na postura dos senhores e senhora sentados nos bancos do jardim. Se antes a área era considerada imprópria para qualquer forma de aproveitamento urbano e foco de doença, na cidade que começava a ser urbanizada ela foi transforma em espaço para o lazer e convivência. O ambiente foi organizado de tal forma a permitir apenas a presença da arborização e das águas que agora era possível ver pela passagem na ponte e no transitar ou parar ao redor do jardim, considerados salubres pelo poder público de maneira que a natureza foi controlada pela técnica379.

No entorno do jardim foram construídos, segundo o historiador Raimundo Arrais, o Teatro Carlos Gomes, reinaugurado no ano de 1912, o Grupo Escolar Augusto Severo, que foi inaugurado em 1907, e a abertura da avenida Tavares de Lyra, em 1908. Esses foram alguns dos símbolos da modernização da cidade, representando os espaços elegantes, salubres e de lazer em Natal segundo o historiador380. A urbanização da praça Augusto Severo possibilitou também a instalação das linhas de bondes que começaram a circular pela cidade em 1911, segundo Câmara Cascudo. Assim, a área da praça foi transformada em um exemplo da cidade moderna natalense, um espaço central do bairro da Ribeira então remodelado e valorizado pelo poder público.

Dessa forma, passou a ser possível a comunicação entre os moradores da Ribeira e da Cidade Alta e as “fronteiras” foram extintas primeiramente pelos paralelepípedos no momento inicial do período republicano e depois por meio da urbanização na administração de Omar O’Grady381, no período de 1924-1930382. Condição que favoreceu também a festa da padroeira, na medida em que a procissão, pelo menos, a partir de 1910383, pôde ser estendida de forma mais cômoda ao remodelado e moderno bairro da Ribeira. No dia 21 de novembro a padroeira foi conduzida ao território salubre e elegante da praça Augusto Severo, como mais

379 ARRAIS, Raimundo et al. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal, 2008, p. 169.

380 Ibidem, p. 83.

381 CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal, 1999. p. 149.

382 ARRAIS, Raimundo et al. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal, 2008, p. 117.

um componente para o espetáculo que aquele trecho representava no início do século XX de maneira a tramar modernidade e religiosidade no espaço urbano.

Figura 9 rua passos da Pátria, próximo à praça André de Albuquerque, Bruno Bourgard, possivelmente registrada no período de 1904-1920. FONTE: MIRANDA, 1981, p. 38.

A figura 9 demonstra a estrutura das vias públicas herdadas do período colonial: trechos pouco espaçosos, o ziguezague das ruas que complicavam o trânsito na capital federal, área que obviamente não era a mais propícia para a passagem de bondes elétricos, carros e pedestres, elementos característicos da sociedade modernizada. Porém, podemos observar também a introdução de poucos melhoramentos urbanos como a instalação de um poste para a iluminação elétrica pública e a construção de calçadas seguindo uma dimensão padrão, apesar de algumas gdeficiências segundo as Resoluções da Intendência Municipal como a utilização de muros para o fechamento dos quintais, casas desalinhadas no lado direito da fotografia, falta de padronização na altura e alinhamento para as fachadas dos edifícios térreos384.

384 ARRAIS, Raimundo et al. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal, 2008, p. 88-89.

Figura 10 avenida Tavares de Lyra, Ribeira. FONTE: Revista Cigarra, 1929,, ano II, nº 4, p. 65.

Em outra parte da cidade, como se pode observar na figura 10, apresenta-se uma nova organização urbana na qual estão presentes elementos e uma estruturação diferentes: extensa e ampla avenida, a qual possibilitava a passagem de muitos carros e bondes, tráfego de veículos, diferenciação entre espaço para os automóveis e espaços para os pedestres, ambos devidamente calçados. Os prédios seguem uma padronização nas dimensões das fachadas e a presença dos postes de iluminação elétrica. A avenida Tavares de Lyra foi um exemplo da concretização do desejo de modernização da cidade, aproximando-a da perspectiva urbana do Rio de Janeiro como discutido anteriormente.

Na primeira administração do governador Alberto Maranhão, 1901-1904, foi criado o terceiro bairro oficial da cidade através da Resolução nº 55, de 30 de dezembro de 1901, denominado de Cidade Nova385.

385 FERREIRA, Lúcia Angela et al. Uma cidade são e bela: a trajetória do saneamento de Natal – 1850 a 1969. Natal, 2008, p. 61.

Figura 11 Cidade Alta, Ribeira e Cidade Nova, 1924386. FONTE: FERREIRA, 2008, p. 63.

O bairro Cidade Nova corresponde ao traçado em amarelo na figura 11, presente ao lado principalmente do bairro da Cidade Alta, perto das dunas e do mar da praia de Areia Preta. No mapa podemos observar que o plano define um bairro com uma estrutura essencialmente diferente dos demais; estes têm um traçado irregular, enquanto o terceiro bairro era formado pelo alinhamento geométrico entre ruas e avenidas.

Os atrativos que notabilizariam o bairro foram, segundo o discurso da época: os bons ares que vinham do mar, largas avenidas direcionas aos ventos e propiciando uma melhor climatização, separação entre as edificações para a penetração de luz natural. Na Resolução nº 55, de 30 de dezembro de 1901 ficou determinado que todas as esquinas de praças, ruas, avenidas deveriam ter dois metros de raio, os prédios precisavam ser distanciados por pelo menos cinco metros, ou seja, existiu a preocupação de delimitar e padronizar todo o bairro. Tentou-se, assim, construir um espaço racionalizado a partir dos conhecimentos técnicos dos engenheiros e parâmetros higiênicos médicos387.

A Cidade Nova salubre e moderna era o grande exemplo que os modernizadores queriam oferecer para a cidade. Muitas das determinações presentes nas resoluções foram

386 ARRAIS, Raimundo et al. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal, 2008, p. 112. A cópia do mapa foi uma gentil colaboração da mestra em história Grabriela Fernandes de Siqueira.

387 FERREIRA, Lúcia Angela et al. Uma cidade são e bela: a trajetória do saneamento de Natal – 1850 a 1969. Natal, 2008, p. 62-65.

concretizadas como a criação das quatro avenidas e as seis ruas urbanizadas. Porém, em 1921, no bairro urbanizado também existiram enfermidades como a peste bubônica, gripe, tuberculose em uma porcentagem equivalente aos demais bairros: 32 casos na Cidade Alta, 20 na Ribeira e Cidade Nova, 26 no Alecrim e subúrbios. Dessa forma, as epidemias se instalaram por toda a cidade contrariando as expectativas sanitárias. A cidade de Natal, no início do século XX, foi formada pela convivência entre desejos de mudanças, limites na modernização e na completa racionalização do viver urbano388.

Os trabalhos de melhoramentos continuaram na década de 1930 através do Plano Geral de Sistematização, desenvolvido pelo arquiteto Giacomo Palumbo, nos anos de 1929 e 1930, na administração do prefeito e engenheiro Omar O’Grady. A formação técnica do prefeito também é sugestivo notar porque está totalmente de acordo com a ênfase que era dada ao valor do conhecimento técnico para a administração dos projetos públicos. Os objetivos eram a pavimentação das ruas, drenagem das águas pluviais, limpeza pública, ajardinamento389.

Figura 12 Plano Geral de Sistematização da cidade de Natal, Palumbo, 1930. FONTE: FERREIRA, 2008, p. 112.

388 Ibidem, p. 90.

A malha viária planejada por Palumbo previa funções específicas para cada área. O bairro comercial era a Ribeira (cor amarela), o bairro residencial era a Cidade Nova (cor verde), bairro jardim (cor marrom) precisava ser construído, a Cidade Alta com função de zona administrativa (cor rosa)390, o Alecrim essencialmente um bairro operário391.

Esse plano orientou as ações governamentais e privadas nos anos de 1930, ao exemplo do relevo atribuído às obras de saneamento, drenagem, pavimentação de ruas e arborização, construção de jardins públicos392 e influenciou os trabalhos desenvolvidos pelo Escritório Saturnino de Brito, em 1935. Assim, este deu continuidade à proposta do esquema básico do sistema viário, o bulevar de contorno e parque na área da Lagoa Manoel Felipe e o riacho do Baldo, parque também idealizado pelo engenheiro Henrique de Novaes, em 1924393.

O Plano Geral de Obras, 1935-1939, desenvolvido pelo escritório do engenheiro Saturnino de Brito Filho contou com o apoio da elite política e intelectual da cidade na administração dos gastos públicos, divulgação das ideias sanitárias, e colaboração financeira do presidente Getúlio Vargas394.

O escritório diagnosticou que a situação topográfica da maior parte da cidade não era muito favorável à salubridade, porém, as formações geológicas corrigiam essa deficiência na medida em que possibilitavam a absorção das águas acumuladas. As dunas foram apontadas como exercendo grande importância devido à riqueza da qualidade e quantidade de água disponível no lençol profundo nelas represado. A captação dessas águas seria a principal fonte de águas395.

A melhoria sanitária da cidade era possível de ser alcançada, segundo o plano, pelo saneamento e organização do espaço urbano pela articulação das várias partes da cidade, expansão e embelezamento a partir da racionalidade das redes de saneamento396. Outras

390 FERREIRA, Lúcia Angela et al. Uma cidade são e bela: a trajetória do saneamento de Natal – 1850 a 1969. Natal, 2008, p. 111.

391 ARRAIS, Raimundo et al. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal, 2008, p. 119.

392 Ibidem, p. 119-120.

393 FERREIRA, Lúcia Angela et al. Uma cidade são e bela: a trajetória do saneamento de Natal – 1850 a 1969. Natal, 2008, p. 148.

394 Ibidem, p. 143-144.

395 Ibidem, p. 147.

propostas foram a incorporação de vegetação nativa, praças permeáveis e ajardinadas para alimentação do lençol freático397.

As melhorias urbanas praticadas no Rio de Janeiro e em Natal são importantes para contextualizar a nova situação material disponível nas áreas centrais de ambas as cidades. No tópico a seguir analisaremos a interação entre espaços urbanizados e a ocorrência da festa da padroeira.