No dia cinco de novembro de 1935316, o jornal católico A Ordem publicou a notícia de que a festa da Virgem da Apresentação foi iniciada com a realização de uma procissão de mulheres da sociedade natalense, Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, do Santíssimo Sacramento e outras associações religiosas da paróquia. Eles partiram da Igreja de Santo Antônio, localizada no bairro da Cidade Alta, com destino à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos localizada no mesmo bairro, portando e desfilando uma bandeira com a imagem da virgem de forma solene pelas ruas do bairro.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, naquele ano, funcionou como matriz provisória em substituição ao templo da Virgem da Apresentação, o qual estava em reforma.
315 Ibidem, p. 250.
A bandeira foi hasteada na frente do templo ao som de hinos e execução de ritos litúrgicos. Dessa maneira, foi oficialmente iniciada a festividade.
O cortejo dos fiéis que peregrinaram e fizeram a imagem da santa estampada na bandeira também atravessar os logradouros públicos escolhidos, deram mostras de levar a devoção ao grande público da cidade. Tornou dessa maneira o símbolo da padroeira e as práticas católicas visíveis a todos, foi uma forma de anunciar, ensinar e chamar os demais para participar do tempo de festa e renovar a devoção.
Esses acontecimentos festivos impuseram a modificação nas funções normais dos espaços do dia-a-dia, como as ruas, saindo do uso prioritário de tráfego de pessoas, veículos e materiais, para servir na demonstração de fé. Tornou o sagrado presente na forma da imagem da padroeira conduzida e exibida pelos fiéis. Podemos entender que esses atos estimularam a apropriação efetiva e afetiva do lugar para além dos limites das igrejas.
A atividade festiva culminou no hasteamento da bandeira e assim determinou a presença da padroeira por meio de sua imagem no frontispício da Igreja do Rosário e, em decorrência, nas proximidades até o último dia de festa. A utilização da bandeira, os atos solenes de sua elevação e demarcação de presença no espaço, conforme a nossa interpretação, promoveram um sentido específico para o lugar Natal.
O soerguimento do mastro comemorativo, segundo Mary Del Priore, geralmente ocorria na Europa do Antigo Regime nas festas de São João, Santo Antônio e São Pedro. Era sinal de triunfo do santo ou da comemoração que podia ser de natalício317. Entendemos que a peregrinação da imagem e o soerguimento da bandeira nas festas da padroeira da cidade de Natal também corresponderam a uma forma de triunfo da santa, a qual estava sendo homenageada pelos devotos existentes na cidade e que estavam criando no espaço público ações de devoção, ou seja, praticando uma eventualidade promotora do lugar.
Essa procissão solenizou a abertura do festejo. Porém, esse recurso na ocasião do começo da festa como aconteceu no ano de 1935 não foi o mais comum. Isto porque a procissão normalmente apareceu registrada nos jornais como o grande acontecimento do dia 21 de novembro, considerado o dia da padroeira. Data diferenciada no calendário religioso e municipal que, por isso, começava a ser preparado antecipadamente nas noites de novena, principalmente no período dos dias 11 a 20 de novembro.
Os jornais apresentam continuidade na caracterização do dia 21 de novembro como dia da procissão de Nossa Senhora da Apresentação. Essa data era caracterizada enquanto
momento obrigatório para render graças à padroeira318, na qual algumas instituições religiosas se apresentavam de forma solene e com os seus estandartes como noticiado em 1919319. Na década seguinte, por exemplo, em 1923, o mesmo jornal assegura que a população da cidade era acordada “[...] às 4 horas da manhã, os sinos da Sé e demais igrejas anunciarão o festivo acontecimento”320, complementadas por missas em ação de graças para os que contribuíram,
encerrando a procissão com a última missa e o Te Deum Laudamos321 na catedral.
Em 1937322, por exemplo, a ordem das diversas associações na procissão foi a seguinte: Escoteiros, Aprendizes Marinheiros, Colégio Marista, Catecismo e Associações Femininas, Filhas de Maria, Colégio das Neves, Orfanato João Maria, Escola de Comércio Masculina, Congregação Mariana, Irmandades e clero:
Com extraordinária concorrência realizou-se a procissão, que se iniciou às 16 1/2. Sob o pálio uniram-se o pe. Luiz Wanderley, ladeado pelo sub- diácono Alair Villar e Clérigo Eugênio Salles. Acompanhavam o cortejo, ainda, os monsenhores Alfredo Pegado, Alves Landim, João da Matha e pe. Calazanes Pinheiro. Três artísticos andores figuravam na procissão: o de N. S. da Apresentação, conduzido pelos marianos, e os de S. José e S. Sebastião, conduzidos por membros das irmandades. No longo préstito formaram alunos do catecismo, do orfanato, do Colégio N. S. das Neves, Pia União de Santa Terezinha, Associação de São José, Apostolado da Oração, Pia União das Filhas de Maria, Dispensário Simphronio Barreto, Escola de Comércio, Congregação Mariana, Irmandade de S. João Batista, dos Passos, do Santíssimo Sacramento, além de outras que escaparam à nossa reportagem. Fecharam o cortejo a banda de música da Força Pública e grande massa popular, em número de alguns milhares. [...] Acompanharam o andor da Padroeira várias crianças vestidas de anjos323.
Os primeiros que compuseram o cortejo foram os sacerdotes, logo atrás vinham os andores conduzidos pelas respectivas irmandades, os estudantes, as associações religiosas, a banda de música e a população no geral. No cortejo, os católicos em diferentes estágios hierárquicos, desfilavam e se apresentavam pela cidade com cânticos e preces, saindo da Cidade Alta percorrendo um longo percurso até o bairro da Ribeira em trajetos que podiam durar até duas horas, como ocorreu no ano de 1935. Foi uma significativa promoção visual de
318 Festa da Padroeira. A República, Natal, 22 nov. 1910. Caderno, n. 247, p. 1.
319 Festa da Padroeira. A República, Natal, 24 nov. 1919. Caderno, n. 259, p. 1.
320 Festa da padroeira. A República, Natal, 21 nov. 1923. Caderno, n. 263, p. 2.
321 Segundo Annie Pontes (2008) o Te Deus Laudamos é um hino litúrgico católico.
322 O dia da padroeira. A Ordem, Natal, 21 nov. 1937. Caderno, n. 673, p. 1.
imagens religiosas, fé, hierarquia entre sacerdotes, congregações e fiéis, dividindo espaço com a teatralidade expressada pelas crianças representando anjos.
A procissão foi instituída no Brasil desde o governo-geral de Tomé de Souza e da presença dos primeiros jesuítas. Segundo Câmara Cascudo, a primeira solenidade celebrada com esplendor foi a procissão do Corpo de Deus, a qual ocorreu em Salvador, no século XVI. Esse tipo de comemoração é formado pelo desfile de fiéis acompanhando o pálio ou andores e seguindo os sacerdotes. Os jesuítas adotaram e propagaram esse ato devocional com caráter penitencial ou festivo, entre índios e colonos como pedagogia católica324.
A procissão festiva pode ser exemplificada também pela procissão organizada pelo padre Manoel da Nóbrega em 1549, informando à Companhia de Jesus em Roma que o ato para comemorar o Dia do Anjo Custódio e de Corpus Christi foi marcado por cânticos públicos e sons de trombetas, com danças à maneira de Portugal. Atos devocionais como esse prosperaram no Brasil e foram disseminados da Bahia para as demais partes da Colônia a partir da atuação dos missionários religiosos325.
Nas capitanias, os compromissos das irmandades e confrarias instituíam que o irmão tesoureiro devia permanentemente observar a recomendação de preparar o pálio, as lanternas e tocheiros para serem utilizados nas pequenas procissões quinzenais. No período pós- tridentino, uma maior participação de leigos nas atividades religiosas foi aprovada e nesse seguimento, muitos leigos investiram na sua participação nas procissões, competindo sobre quem se sobressairia nos recursos e na proeminência social dos membros das irmandades. Ocorreu um investimento no sentido de avultar a exuberância da procissão e da pompa da irmandade participante para ampliar a notoriedade dos indivíduos dela constituinte. Como também, como a religião católica era a religião do Estado, os funcionários do governo participavam na aprovação da realização dos atos festivos e no financiamento quando necessário326. O importante era que esses atos acontecessem e fizessem parte da cultura colonial mesmo que o Estado precisasse empenhar-se mais para a sua concretização.
324 DEL PRIORE, Mary Lucy. Festas e utopias no Brasil colonial. São Paulo, 2000, p. 22. 325 Ibidem, p. 22-23.
Figura 3 Procissão do Mons. Pegado no Alecrim, autoria de Manuel Dantas327. FONTE: MIRANDA, 1981, p. 112.
Neste registro feito pelo fotógrafo Manuel Dantas de uma pequena procissão no bairro do Alecrim, possivelmente para ministrar sacramentos entre os populares, foi capturada a presença solene do sacerdote e dos seus acompanhantes por uma região ainda não alcançada pelos melhoramentos urbanos como podemos perceber pela falta de calçamento na rua. Os paramentos utilizados pelos religiosos mostram outra forma de vestimenta muito diferente dos homens que os acompanham e das mulheres no plano de fundo da foto, parece que acompanhando o trânsito do grupo, motivo do registro.
Paramentos e rituais dos participantes da instituição religiosa em questão, cujos instrumentos eram diferenciadores daqueles que não detinham cargos na mesma organização religiosa. Podemos imaginar que a procissão solene do dia 21 de novembro devia ocupar com muita pompa as ruas escolhidas, devido à presença de muitos padres, associações religiosas devidamente paramentadas, os estudantes fardados, os oficiais, a banda de música, as pessoas vestidas de forma mais adequada para se apresentar aos demais e acompanhar a passagem dos santos e da comunidade religiosa.
Para participar dos festejos no 21 de novembro, o poder público municipal decretou feriado, assim, permitindo que o comércio da cidade fechasse para que os comerciantes e funcionários pudessem acompanhar todos os acontecimentos. Em 1929, foi mencionado numa
327 O fotógrafo viveu em Natal no período de 1900 até sua morte, em junho de 1924, conforme informação de João Miranda (1981), p. 10.
notícia que o público era originário tanto dos “bairros mais humildes” quanto dos de “vida mais elegante”, as pessoas iam para a praça participar da procissão e do término do festejo. A noção era a de congraçamento de toda a comunidade natalense, supostamente não faltando uma pessoa nessa festividade328.
A procissão era um recurso antigo e foi muito utilizado também pelo poder imperial, conforme analisado por Mary Del Priore. Paradigma disso seria a comemoração do coroamento de Pedro de Alcântara no dia 16 de julho de 1841, na cidade do Rio de Janeiro. A programação definia que um grande cortejo formado por: membros da Câmara Municipal, damas, mordomo-mor, ministros e secretários de Estado e o Imperador entrariam solenemente: carruagens, alas de coches, marchas saindo do Paço de São Cristóvão em procissão até o Paço da Cidade “cada um com a sua função e seu instante de glória”329 em rica
procissão pela cidade e oferecendo-se para exposição aos súditos, os quais jamais poderiam faltar porque eram o alvo preferencial de toda aquela exibição de riqueza e poder.
A corte saía às ruas em desfile, chamando atenção e sendo a atração. A procissão nessa sociedade e na corte portuguesa também era praticada nas festas litúrgicas: Natal, Páscoa e Corpus Christi330. A festa e o recurso da procissão criavam uma circunstância especial, o
novo soberano era solenemente apresentado e toda a pompa devia sugerir a ideia de importância do imperador e do momento, como também, fixar na memória a noção de que ele era uma autoridade331.
Uma das características das procissões é a transformação do espaço público. Durante o período imperial, por exemplo, uma expressiva festividade religiosa foi vivenciada na cidade do Rio de Janeiro. Segundo Martha Abreu, no século XIX a população da cidade prestou muitas homenagens ao Divino Espírito Santo na festa de Pentecostes ligada ao calendário católico332. O local mais procurado para festejo era o campo de Santana333, os preparativos eram iniciados com antecedência ainda na época da Páscoa, por isso, no sábado de Aleluia um
328 Festa da Apresentação. A República, Natal, 21 nov. 1929. Caderno, n. 264, p. 2.
329 SCHWARCZ, Lilia Moritz. O império em procissão. Rio de Janeiro, 2001, p. 14.
330 Ibidem, p. 14-15.
331 Ibidem, p. 17.
332 ABREU, MARTHA. O império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro-São Paulo, 1999, p. 38.
mastro simbólico era erguido e no ponto mais alto figurava a imagem da pomba alvo das homenagens334.
Depois da Páscoa grupos de folias saiam de determinadas igrejas pela cidade recolhendo donativos e anunciando a proximidade da festa. A procissão era formada pela folia dos pedintes-anunciadores, a bandeira do Divino Espírito Santo, e o menino imperador ricamente vestido e comportando-se de forma austera335. A procissão com bandeira, tocadores, vestes coloridas e ornamentos davam conta de ser atração e os irmãos foliões não precisavam bater de porta em porta, pois os sons e o movimento nas ruas atraíam o público336 como também ocorria na festa da Apresentação em Natal. Ocorreu a mescla entre prática religiosa e cotidiano político para “[...] a continuidade, renascimento e consolidação da monarquia de Bragança – e seus símbolos – em terras brasileira.”337
Durante o Império a festa do Divino Espírito Santo foi muito frequentada. No final do século XIX e início da República, porém, ela passou por transformações. Não pôde continuar sendo praticada no campo de Santana, e passou a ser vivida em uma área mais afastada do centro. Novas diversões públicas tomaram espaço como as modernizadas patinação sobre rodas, regata, casa para jogos e exercícios justificados como civilizados e higiênicos nas áreas mais valorizadas da cidade338.
Com a festa de Nossa Senhora da Apresentação durante os anos de 1910-1939 aconteceu o inverso. Ela continuou sendo praticada em áreas centrais da cidade e aprovada pelo poder municipal. No próximo capítulo refletiremos sobre a relação entre esta festa e a modernização da cidade.
A itinerância do santo nas procissões e viagens pelos domínios era uma forma simbólica de legitimar seu poder e demarcar os limites do território sob sua soberania339. Essa condição também nos faz pensar que Nossa Senhora da Apresentação, solenemente conduzida pelas principais ruas e acompanhada por uma expressiva quantidade de fieis, também sinalizava que ela era uma soberana no lugar Natal. Afinal, tanto investimento festivo para a mãe de Jesus
334 Ibidem, p. 47. 335 Idem. 336 Ibidem, p. 48-51. 337 Ibidem, p. 64. 338 Ibidem, p. 347. 339 Ibidem, p. 19.
Cristo visava de forma simbólica demonstrá-la como uma entidade importante e também a religião que a homenageava.
Interpretamos que nas diferentes ocasiões do evento religioso, a cidade de Natal era praticada por uma variada gama de experiências ou eventualidades como proposto por Doreen Massey (2008). Entendemos que percorrer os espaços públicos da cidade naqueles dias de evento era uma ocasião propícia para entrar em contato com uma prática católica e, porventura, de diferentes formas serem tocado por ela.
A prática do espaço correspondia na festa aos momentos de devoção na Igreja Matriz participando das missas festivas, presidida solenemente por sacerdotes cada um se responsabilizando pela condução de momentos específicos: pregação, oração e sacramento. Missa solenizada também pelos cantos musicados por bandas de música, especialmente cedidas para o momento auxiliando os rituais, novenas e procissões. Eram momentos de celebração e de atração pública.
Nos atos festivos destacados até aqui a imagem da Apresentação ficava em exposição para ser venerada durante toda a festa na parte interna da Igreja Matriz nos dias de novena, desfilava solenemente por áreas da cidade em procissão e após esta etapa a estatueta ficava no altar da Matriz para devoção pública e exposta ao “beija”340, sendo este momento a última etapa do evento somada com as últimas festas que se davam na praça.
O ritual do beija guarda um paralelismo com a cerimônia do beija-mão da alteza imperial. Nas festas reais do Brasil, em certo momento, a atitude de dirigir-se ao soberano de joelhos e reclinados, posição de obediência, posturas que configuravam o reconhecimento de se estar diante de uma autoridade soberana341. Esse era um ritual de origem europeia e caracterizava o ato de submissão e de servilidade do súdito ao rei, praticada em ocasiões diferenciadas como festas, viagens, retornos, aniversários e cerimônias diplomáticas342. O “beija” na imagem da santa certamente tinha também esse caráter de reconhecimento da soberania divina e demonstração de carinho àquela que era considerada protetora.
Marc Augé343 afirma que as imagens são representações, funcionam como uma presença, provocam o fenômeno da apropriação e identificação entre as pessoas de um grupo. A estátua é um mediador e a escultura da padroeira, encontrada no rio Potengi, é um exemplo
340 Festa da Apresentação. A República, Natal, 22 nov. 1913. Caderno, n. 263, p. 2.
341 SCHWARCZ, Lilia Moritz. O império em procissão. Rio de Janeiro, 2001, p. 54.
342 Ibidem, p. 54-55.
de mídia visual. Ela é uma mediação das ideias e forças sociais atribuídas, a sua presença visual controla a percepção que fazemos dela e capta a atenção do observador344. Se a imagem da padroeira transmite mensagens, normalmente as que identificamos nas fontes se ligavam às percepções do sagrado, da mãe e divindade.
Conforme o discurso presente no jornal A Ordem, Maria era a divindade que ajudava os devotos a crescer em Cristo. Por ser mãe, o seu zelo não terminava na hora de dar à luz, dado que ela velava o seu desenvolvimento pretendendo a “perfeição” do filho, conforme a noção ensinada pela Igreja, a padroeira também zelava pelos seus filhos natalenses. Assim publicou:
Também nós, temos a alegria filial de festejar, no último dia de maio a Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe medianeira de todas as graças [...] é Nossa Senhora que nos ajuda a crescer no Cristo, Ela é mãe e uma mãe não se contenta de dar à luz seu filhinho, mas vela o seu crescimento para conduzi- lo a perfeição. [...] Por isso, a Igreja em todas as horas canônicas, tudo começa e tudo termina, exultando, pedindo, esperando, prometendo ou chorando, com sua oração a Maria”345.
A padroeira era a mãe do criador, então, ela podia ser entendida também como mãe do fruto do seu filho, nesse sentido, ela também se tornava mãe não somente do Cristo, mas de todos. A condição de avó ficava assim mantida para a personagem Sant’Ana, a mãe de Maria e avó de Jesus de Nazaré346. Nesse discurso a padroeira foi radicalmente aproximada ao
devoto quando identificada como uma mãe espiritual, o fiel teria assim um parentesco com a divindade.
A forma de tratamento, Nossa Senhora, começou a ser utilizada no século XII na literatura mariana. Foi com esse redescobrimento de Maria como Nossa Senhora que deu as condições para a disseminação da doutrina que a definia enquanto figura soberana e mediadora entre os homens e Deus, isso porque ela era mãe e também foi compreendida como mãe dos homens347.
344 BELTING, Hans. Imagem, mídia e corpo: uma nova abordagem à iconologia. Ghreb: Revista de comunicação, cultura e teoria da mídia, São Paulo, 2006, p. 32-60.
345 Amemos a Maria, maternidade espiritual. A Ordem, Natal, 20 nov. 1938. Caderno, n. 959, p. 1. 346 Idem.
347 BARNAY, Sylvie. Nossa Senhora. In: CORBIN, Alain (org.). História do cristianismo: para compreender melhor o nosso tempo. São Paulo, 2009, p. 234-235.
Figura 4 Procissão348. Fonte: LUDOVICUS- Instituto Câmara Cascudo.
Fazendo uma rápida análise iconográfica da Imagem de Nossa Senhora do Rosário (em Natal ela foi identifica como Nossa Senhora da Apresentação porque essa era a invocação da padroeira adotada antes da imagem aparecer no rio Potengi), a ideia de mãe é, principalmente, representada pela presença do menino Jesus em seus braços sendo cuidado por ela. A ideia de rainha e soberana aparece na coroa no alto de sua cabeça, uma soberania poderosa porque foi permitida diretamente do divino, segundo o jornal A Ordem, já que foi a escolhida por Deus para ser a mãe do menino Jesus. Essa coroação representava o poder que ela adquiriu e oferecia para a cidade. A imagem também apresenta um modelo de mulher: mãe e protetora do filho como a Igreja Católica ressaltava serem as suas características.
A Santa Maria foi integrada na sociedade natalense pela mídia, como informamos, primeiramente na pintura e depois na escultura:
Ela se torna uma imagem monumental, como em Notre-Dame de Paris. A partir do fim do século XII, assiste-se à sua coroação ao lado de Cristo, ao mesmo tempo juiz e rei. Nos textos, a Virgem é apresentada como advogada dos pecadores e rainha das rainhas. Triunfante, Maria veste um manto, que suas mãos abrem para acolher a cristandade na entrada das igrejas, essas