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A projective compass

Quando pensamos em lazer, a primeira ideia que nos ocorre, se refere a possível pausa para o descanso das atividades rotineiras. Atividades essas, em grande parte, associadas ao mundo do trabalho. Tal assertiva se deve ao fato desse fenômeno ter se acentuado em função da aceleração do processo de urbanização, no período industrial, onde a ideia liga-se diretamente ao trabalho e às demais obrigações do cotidiano das pessoas, derivando disso, a definição de lazer como tempo livre (LEITE, 1995). Para Bahia (2012) os estudos intitulados sociologia do

lazer, à priori, iniciam entre as décadas 1920 e 1930, precisamente nos Estados Unidos, pela urgência em controlar o tempo livre dos/as trabalhadores/as. Assim, no sentido figurado da palavra, lazer significa ócio, descanso. Desse modo, “[...] o lazer surge como uma possibilidade de vivência de momentos de descanso, reivindicada pelos grupos sociais daquela época [...]” (BAHIA, 2012, p. 33), valor que ainda predomina na atualidade, tanto por parte da sociedade como pelo poder público.

No entanto, com o movimento da realidade e o avanço dos estudos sobre o lazer, essa definição é colocada em xeque, uma vez que limitar sua compreensão ao tempo que se tem livre das obrigações, estaria desconsiderando outras questões, não menos importantes para o seu entendimento, como a motivação e escolhas individuais dos sujeitos, considerando que a apropriação daquilo que é considerado lazer para alguns, não necessariamente se estende à todos/as (MARCELLINO, 2002). Dito de outra forma, algumas pessoas avaliam lazer em atividades como pescar, plantar, praticar esportes, dentre outras. Já para outras, tais atividades se encontram no plano do trabalho. Ou seja, “[...] aquilo que é altamente atraente e prazeroso para determinada pessoa, não raro significa tédio ou desconforto para outro indivíduo” (MARCELLINO, 2002, p. 08).

Outra questão a ser levada em conta está justamente no exercício do trabalho, tendo em vista que algumas pessoas desempenham funções por prazer, o que para Leite (1995), significa praticar “[...] virtualmente uma forma de lazer” (LEITE, 1995). Desta feita, de forma isolada, a sensação de prazer não define esse fenômeno, considerando que esse sentimento não é exclusivo aos instantes de lazer (MELLO; JUNIOR, 2003).

Nessa linha, na busca por um significado para o que seria considerado lazer, Marcellino (2002) enfatiza que para essa concepção, há que ser considerado os aspectos tempo e atitude. Para o autor, atribuir o lazer apenas ao aspecto tempo provoca uma serie de mal entendidos - elencados anteriormente - especialmente aquele que diz respeito ao tempo livre, visto que na sociedade contemporânea nenhum tempo esteja livre de “[...] coações ou normas de conduta social” (MARCELLINO, 2002, p. 08). No que consiste ao aspecto atitude, esse se caracteriza pela relação que se dá entre o sujeito e suas vivencias, na busca por atividades que propiciem prazer (MARCELLINO, 2002). Em todo caso, encarar tal fenômeno apenas pela atitude - estilo de vida - também não responderia a dimensão

da sua compreensão, visto que assim, qualquer atividade poderia ser considerada lazer.

Sobre a definição desse fenômeno, Mello e Junior (2003), levanta alguns indicadores e destacam para seu reconhecimento, as atividades culturais, considerando que para os autores, todas as atividades relacionadas ao lazer são culturais, mas também o tempo que se encontra livre das obrigações profissionais e pessoais e a busca pelo prazer. No entanto, Cruz (2019) afirma que nem sempre a cultura reflete as práticas do lazer, nem tão pouco o lazer, traduz simultaneamente as práticas culturais. Há ainda, a ligação entre as práticas educacionais e o lazer, o que denota a complexidade desse fenômeno. Desse modo, o lazer configura-se em um conceito difuso que engloba diversos aspectos, sejam esses econômicos, sociais, políticos, pedagógicos ou culturais. Cumpre frisar que entre os autores que se debruçaram sobre os estudos do lazer, destaca-se o conceito de Dumazedier (2000):

O lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir- se, recrear-se e entreter-se ou, ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais. (DUMAZEDIER, 2000, p. 34).

Partindo desse pressuposto, o lazer seja ele realizado no plano individual ou social, abrange diversas modalidades. Quanto ao plano individual Leite (1995) apresenta como aquele que fica a cargo do sujeito, independente de ajuda externa, seja pela promoção da iniciativa pública ou de terceiros. Já no plano social, as atividades acontecem mediante oferta, que pode ser através do poder público ou com o apoio da iniciativa privada (LEITE, 1995). Nessa linha, são consideradas modalidades de lazer, a televisão, o rádio, o cinema, a cultura, o esporte, os jogos, a caça, a pesca, dentre outras.

Assim, com relação às práticas destinadas ao lazer, os interesses são múltiplos e se divergem seja pelas preferências dos atores mediante condição social, política ou econômica, seja pelo sentido que a atividade carrega em si, ou mesmo, pela fase da vida em que se encontra o sujeito. A guisa disso, os estudos para a compreensão desse fenômeno, “[...] vem se especializando, quer em termos

de faixas etárias, ou de conteúdos de atividades” (MARCELLINO, 2002, p.05). Desse modo, em termos de lazer, convém ressaltar, que nessa pesquisa reflete-se sobre esse fenômeno de forma mais abrangente com relação aos infantes, ou seja, ao lazer das crianças.

Destaca-se aqui, a compreensão da infância, tal qual fora promulgada no Estatuto da Criança e do Adolescente- ECA, por compreender que, como parte do contingente populacional, trata-se de sujeitos de direitos, ou seja, de cidadãos. Assim, adota-se a definição de criança instituída pelo ECA, como toda pessoa com idade entre 0 (zero) e 12 (doze) anos de idade. Por sua vez, o mesmo documento traz em suas prerrogativas, artigos20 que versam sobre o direito do público infantil ao usufruto do lazer. Portanto, cabe ao poder público formular e executar políticas sociais em atendimento a esses direitos, como as culturais e recreativas, uma vez que a legislação estabelece preferência na criação de políticas voltadas a essa fase da vida humana.

Isayama e Gomes (2008) enfatizam que, tratar as questões que se remetem ao lazer na infância, ainda é considerado inadequado por muitos estudiosos dessa área do conhecimento. Isso porque, tais autores consideram que o tempo nessa fase da vida, ainda não divide as atividades obrigatórias das não obrigatórias (ISAYAMA; GOMES, 2008). No entanto, para Isayama e Gomes (2008) o fator tempo, não se apresenta como única forma de análise desse fenômeno, posto que a dinâmica que se insere a realidade é muito mais complexa, e muitas vezes, expropria da criança as vivências relacionadas ao lúdico, como as brincadeiras. Sobre isso, Marcellino (2002) ressalta que a produção cultural da criança vem progressivamente sendo substituída por uma produção cultural para a infância, o que denota a capacidade de torná-las consumidoras. Sobre isso, Estácio (2011) destaca:

20 Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e a convivência familiar e comunitária.

Art. 71º A criança e o adolescente têm direito a informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.

Art. 75º Toda criança ou adolescente terá acesso às diversões e espetáculos públicos classificados como adequados à sua faixa etária.

Uma fatia generosa e consumidora do mercado é movimentada pelas crianças, e cresce assustadoramente a cada ano. Para elas, são criados novos e diferentes artigos – jogos, calçados, games, roupas, mochilas, material escolar etc – nos quais os mais diversos apelos são utilizados para seduzir esses pequenos consumidores. (ESTÁCIO, 2011, p. 75).

Na relação causa e efeito, o brincar que é tão característico da fase infantil, é suprimido por um conjunto de coisas, que vão desde a restrição de espaços pertinentes à brincadeira, a crescente produção de brinquedos industrializados, e até mesmo, o dispêndio do tempo dos pais e mães que se encontram imbuídos em suas obrigações, como alguns dos motivos para esse furto do lúdico das crianças (MARCELLINO, 2002). Outra questão elencada por Marcellino (2002) se deve ao fato das necessidades provenientes da população de baixa renda, no qual as crianças compõem as demandas de mão de obra, que desde muito cedo, são incumbidas das obrigações familiares e/ou profissionais, ou ainda, crianças que apesar de não se encontrar em estado de privações financeiras, “[...] têm desde muito cedo, uma série de obrigações, fruto de “investimento” feitos pelos pais para que, no futuro, sejam adultos requeridos pelo padrão de sua classe social” (MARCELLINO, 2002, p 37).

Outro problema com relação à vivência do livre brincar por esses sujeitos se coloca por questões mais contemporâneas, como a entrada das novas tecnologias e a popularização de seus instrumentos, como internet, celular e equipamentos eletrônicos, objetos que mantém as crianças distantes das brincadeiras coletivas, confinando-as ao isolamento das telas. A guisa disso, Marcellino (2002) aponta como conseqüência, a diminuição dos encontros em grupos, onde as trocas resultam no aprendizado da convivência e no desenvolvimento dos sentimentos de pertença, tão importantes nessa fase da vida. Para o autor, é necessário oportunizar as crianças o tempo e o espaço para que possam produzir cultura e não apenas reduzi-las ao papel de consumidoras (MARCELLINO, 2002). Para isso, a importância do lazer infantil se deve ao fato de ampliar essas oportunidades - através da brincadeira - de interação, socialização, indagação e criação, aspectos que são acentuados no texto das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. O documento afirma:

Brincar dá à criança oportunidade para imitar o conhecido e para construir o novo, conforme ela reconstrói o cenário necessário para que sua fantasia se aproxime ou se distancie da realidade vivida, assumindo personagens e transformando objetos pelo uso que deles faz. (BRASIL, 2013, p. 87).

Cumpre frisar, que em termos do lazer das crianças, a brincadeira também tem sua centralidade, uma vez que toda a sua vida é dominada por esse elemento (HELD, 1980). De certa forma, crianças brincam com tudo, independente do contexto, condição social ou financeira, transformando em brinquedo aquilo que está ao seu alcance. São sujeitos que constroem o próprio sistema simbólico partindo das experiências, e expressam na brincadeira tais vivências, seja pela ausência dos instrumentos de lazer, seja pela oferta - cultural e recreativa - que fornece inspiração para as suas criações. Nessa linha, Kishimoto (2010) define o brincar como,

[...] ação livre, que surge a qualquer hora, iniciada e conduzida pela criança; dá prazer, não exige como condição um produto final; relaxa, envolve, ensina regras, linguagens, desenvolve habilidades e introduz a criança no mundo imaginário. (KISHIMOTO, 2010, p. 01).

Em seus estudos com relação a literatura fantástica, Held (1980) classifica a brincadeira e a separa por períodos: Brincadeira de exercício, brincadeira simbólica e brincadeira de regras. Cada uma dessas fases coexiste simultaneamente, tendo em vista que na fase final todas as brincadeiras se integram (HELD, 1980). Em razão disso, a autora explica que a brincadeira de exercício é preponderantemente física, e envolve as expressões corporais. Já a brincadeira simbólica está no plano da imaginação e expressa a subjetividade desses sujeitos, por fim, a brincadeira de regras demanda o raciocínio lógico da criança, em especial, as maiores, por sua capacidade de dominar o código de regras (HELD, 1980). Desta feita, pertence ao campo físico, brincadeiras de pega-pega, correr, pular, subir em árvores, dentre outras. Com relação ao campo simbólico, são pertinentes as brincadeiras de casinha, cavalo, teatro, etc. e ao campo de regras, os diversos jogos e/ou atividades esportivas.

Concomitante, nos espaços públicos apropriados pela infância, é notória a variedade de brincadeiras derivadas dessa classificação, dada a infraestrutura dos equipamentos de lazer, que possibilita a efetividade do livre brincar. De modo

eminente, os parques são de suma importância, no que se refere à universalização dos direitos da criança, mas também em questões de qualidade de vida, auxiliando no seu desenvolvimento. Para Isayama e Gomes (2008), a criança, apesar da capacidade de brincar, tem direito a todas as prerrogativas da prática do lazer, o que envolve não apenas o tempo instituído para sua vivência, mas também toda a diversidade cultural impressas nas manifestações, tais como, jogos, festas, literatura, espetáculos, esportes, dentre outros. Com base nessa discussão, se faz pertinente para esse estudo, a análise dos conceitos: Meio social criativo, criatividade, lazer e o brincar das crianças.

5. Circulação de crianças na cidade de Natal-RN: A dinâmica dos parques e