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Dealing with degeneracies

Na quarta e última seção de A Matriz de Natal, Nestor Lima se debruça sobre o período republicano no qual escrevia, frisando episódios da história da Matriz e seus prelados relacionados com a população natalense. É a parte do texto no qual destaca a importância da devoção popular e do padre João Maria. Após essa parte ele descreve a Matriz de Nossa Senhora da Apresentação como um monumento e conclui o trabalho. A seguir começaremos a tratar essas questões.

A iniciativa de Nestor Lima em selecionar e relacionar documentos antigos com conteúdo ligado à Matriz de Nossa Senhora da Apresentação resultou na reunião e conexão de fatos escolhidos, como demonstramos, os quais foram entendidos como capazes de traçar a história de uma coletividade para o conhecimento dos mais moços e rememoração para aqueles que acompanhavam as atividades do IHG-RN.

Nesta parte, principalmente, sua metodologia contou com a inserção de memórias de alguns sujeitos da coletividade natalense, ao exemplo do professor Joaquim Lourival Soares da Câmara, o fornecedor de informações sobre a procissão dos penitentes, prática religiosa do passado colonial, segundo Lima, não mais vivida, mas era uma boa lembrança da cidade no passado.

O próprio Nestor Lima presenciou e relatou práticas religiosas e as homenagens dos católicos no enterro do padre João Maria Cavalcante de Brito, em 1905, descrito na narrativa

169 LIMA, Nestor dos Santos. A Matriz de Natal. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal, 1916, v. XI – XII – XIII, p. 45-46.

como uma demonstração de carinho da população para o respeitado padre, assim reconhecido pelo cuidado que ofereceu aos mais pobres:

Já nos derradeiros tempos dos parochiato de João Maria, fez-se a pintura externa e da torre, cuja cimalha foi alteada um metro. Então, ele já se preocupava menos com a Matriz do que com o rebanho, para quem tinha voltado todas as suas energias, na epidemia de varíola de 1905, aí desenrolou-se à sombra de sua modéstia, uma tocante epopeia de virtudes cristãs, emparelhando ao rasgo mais sublime a mais profunda indiferença do próprio indivíduo. E quando ele tombou inerte, nós todos vimos a sagração que de seus atos fez uma população em peso, ao descer da casinha do Monte, que foi por alguns dias a meca de uma enorme romaria, o seu cadáver ainda quente para baixar daí a horas, por entre milhares de soluços, à voragem sinistra do túmulo.170

Lendo esse relato memorialístico de Nestor Lima é possível perceber a ideia de que existiu uma comunhão cotidiana entre o padre João Maria e os fiéis. Por sua atuação na assistência à saúde, o padre atraiu o respeito dos seus contemporâneos como demonstrado nas homenagens que recebeu na hora de sua morte. Do mesmo modo, o autor dedicou o trabalho produzido ao “inimitável cura d’almas”, dedicado à memória daquele que fez parte do histórico da Matriz e da cidade171.

É interessante notar que ao longo do discurso produzido por Lima, existiu uma convergência de interesses entre as lembranças do autor e os seus informantes com os acontecimentos documentados, ligados e interpretados, no início do século XX, enquanto sintetizando a cultura do nós comunitário natalense. Exatamente por isso, o único momento no texto em que foi tratado um embate de posições foi no contexto da ocupação holandesa, os quais foram entendidos enquanto eles/outros em contraste com o nós/potiguares, que se fortaleceu e teria voltado ao normal da cultura depois da expulsão dos batavos.

Nestor Lima selecionou alguns acontecimentos e os identificou enquanto aspectos da forma de vida dos antigos definidores da cultura do presente. O principal deles foi o entendimento de que a população natalense sempre constituiu uma comunidade católica. Isto era perceptível nas atitudes dos moradores no tempo que Natal era uma capitania e província, tempos nos quais, segundo Lima, eles atuaram para conseguir erguer e manter com o maior zelo possível a igreja. Essa cultura católica fora mantida pela população do município, e em 1905, podia ser observada no expressivo carinho a um sacerdote católico o qual era pastor na Matriz, o Padre João Maria. Com esse exemplo o texto de Nestor Lima estabeleceu um telos

170 Ibidem, p. 40.

de continuidade cultural do passado com o seu momento histórico, gestando uma identidade e monumento histórico para a cidade. Outro exemplo de uma prática católica ancestral identificada por Lima foi a procissão dos penitentes, ainda que acentue o seu desaparecimento no século XX.

Muitos católicos no século XVI compreendiam que as suas faltas poderiam ser perdoadas se eles tivessem fé e realizassem obras de penitência como prática complementar à oração. A penitência fazia parte da religiosidade colonial, praticada no âmbito privado e no público. Ela era entendida não como exibicionismo, mas como exemplo para os índios e os insensíveis172. A procissão dos penitentes foi um traço da religiosidade de parte da população natalense escolhida por Nestor Lima para representar um pouco do imaginário popular no passado provinciano. Reproduzimos a seguir as palavras do autor:

Por parecer adequada às crônicas vertentes, esbocemos uma usança desse tempo: as procissões de penitência. Oriundas de época ignorada, as procissões destinavam-se a purificar pelo martírio as almas apodrecidas no pecado. De 8 para 9 horas da noite, sinos dobrando lúgubres a finados, organizava-se o cortejo na Matriz. As habitações deviam ter as portas cerradas, em sinal de respeito à medonha cerimônia. Punha-se em marcha a procissão: adiante um padre exorcizava, regougando salmos e ladainhas; a multidão de criaturas de mortalha, cruciava sob as vergastas, as disciplinas e os cordões nodosos ou debaixo das grandes pedras trazidas à cabeça. A flagelação das carnes era feita pelo próprio penitente ou simultaneamente pelos próprios companheiros, uns nos outros. Alguns deles de tal modo se açoitavam que o sangue porejava; outros, tombados por terra, na veemência do fanatismo, suplicavam que os pisassem e repisassem, a fim de se purgarem dos horrorosos pecados. E, ai daquele que estivesse de portas abertas! Certa vez, o capitão Antônio José de Moura, ajudante de ordens e lente de Geometria do Atheneu, estava ceando com a família, quando passava a procissão pela rua de sua residência, onde é hoje o Club Carlos

Gomes. Como estivesse por descuido, aberta uma janela, os furiosos

penitentes jogaram-lhe tantas pedras que arrebentaram duas mangas de vidro de sobre os consólos... Sugestivo padrão desses tempos antigos173.

Costume antigo, mas parece que já com pouca relação com o presente vivido pelo autor. Usada no passado com um sentido urbano marcado pela escuridão noturna, a proibição do transitar, casas e comércio fechados, o badalar dos sinos anunciando o que estava acontecendo, o panorama de pessoas se machucando para expurgar os pecados e conduzidas pelos ritos do pastor pareceu ser algo exótico ao ritmo de vida dos novos tempos dinamizado

172 MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. In: História da vida privada no Brasil 1. São Paulo, 1997, p. 172.

173 LIMA, Nestor dos Santos. A Matriz de Natal. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal, 1916, v. XI – XII – XIII, p. 32-34.

pelas apresentações no Teatro Carlos Gomes, espaços recreativos como o Café Socialista, a prática esportiva como a regata e o ciclismo, assistir partidas de futebol174.

No entanto, se a procissão dos penitentes era coisa do passado, por outro lado, o catolicismo continuava tendo vez por meio da crença na padroeira:

A MILAGROSA VINDA DA IMAGEM. – Diz-se também que a atual imagem da Padroeira de Natal, aqui chegou casualmente aos 21 de novembro de certo ano do século 18º. Encontraram uns pescadores, no alto mar, um caixão fechado e conduzido à praia e aberto, nele se encerrava uma perfeita imagem do Rosário, que, sob a invocação de Nossa Senhora da Apresentação é venerada no altar-mor da Matriz, por licença do ordinário olindense. Garantiram-me pessoas de fé ter sido, há anos, encontrado e lido no arquivo da Intendência desta Cidade um documento que comprovava o providencial acontecimento. Debalde, porém, agora procurei tal documento ou livro: encantou-se, parece. E a tradição não é desmentida: donde aceitá-la eu, com reservas, pelo seu cunho sentimental. Embora Gustave Le Bon dissesse que as tradições emergindo da mente humana, fazem a civilização e devem ser destruídas para haver progresso, não encontro desdoiro de conservar uma como esta, que bem pode ser a síntese da verdade ou da razão, a alma da nacionalidade175.

A narrativa de origem da imagem da Matriz é mais um exemplo da maneira como se gestava uma relação entre passado e presente. Destaque-se que o autor teve dúvidas por não ter conseguido comprovar um dito popular como previa a sua metodologia de trabalho. A comprovação por meio de documentos era importante, pois servia como atestação da veracidade das informações coletadas. Como nesse caso a comprovação por documentos não foi possível, restou a Lima fazer referência à explicação dada por testemunhas confiáveis que não são nomeadas. Se a versão da aparição da imagem no rio Potengi não tinha como ser comprovada ou corrigida como era desejado pelo autor, foi possível apenas aceitá-la. A desconfiança é evidente no texto como se lê na citação a Gustave Le Bon. Receoso em tomar para si a tarefa de decretar ser verdadeiro o conteúdo da memória, Nestor Lima achou mais seguro optar por apontar que não se podia assegurar a veracidade da informação. Nesse sentido, seguindo a sua metodologia baseada na prova documental, ele não reafirmou a informação e não quis silenciar sobre o assunto.

De todo modo, o autor não deixou de registrar que tal consideração circulava entre a população, ou seja, fazia parte da história da devoção. No trecho que citamos, o catolicismo foi evidenciado como um traço cultural do natalense, mas essa não era uma marca exclusiva

174 ARRAIS, Raimundo et al. O corpo e a alma da cidade: Natal entre 1900 e 1930. Natal, 2008, p. 129-152.

175 LIMA, Nestor dos Santos. A Matriz de Natal. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal, 1916, v. XI – XII – XIII, p. 43-44.

da população de Natal. O catolicismo foi entendido como uma tradição nacional, na qual Natal oferecia um exemplo de identidade.

Nesse ponto, o autor demonstra a positividade que enxergava na identificação e preservação dos marcos culturais natalenses, os quais ele compreendia como tendo ligação direta com a definição de exemplos identificadores da nacionalidade brasileira, tema este que pareceu ser significativo para o autor.

O cronista entendia que a cultura social do presente era definida pelo passado, como se observa na seguinte sentença “o que somos diz o passado. Que seremos? Revela-nos o presente”176. A raiz dos costumes atuais era encontrada no passado, estava aí a importância

em saber a história.

Para conhecer de maneira mais profunda o passado, Nestor Lima animava-se por convidar os leitores para com ele fazer “[...] ressurgir do passado os fastos gloriosos e os dias de dor; rebusquemos os arcanos, para ao menos entreconhecer a famosa epopeia do selvícola [...]”177, a ação do colonizador e como se construiu a nacionalidade brasileira. Era pela

consulta aos arquivos, “decifrando os documentos”178 para assim poder entender o que

aconteceu e saber com maior conhecimento sobre quem “somos” e poder dizer aos demais da nação brasileira a característica de quem era da terra natalense.

Nestor Lima apontou que o intuito que estimulou o seu trabalho foi ler, no caso da palestra, e escrever na revista, sobre “[...] épocas que muitos, quase todos ignoram [...]”179.

Seu principal intuito foi agir de modo que favorecesse o fim do desconhecimento sobre os costumes e tradições. Ele articulou passado e presente, utilizando os recursos disponíveis que eram a produção de uma história a partir de algumas memórias e informações contidas em documentos escritos.

Segundo Eric Hobsbawn e Terence Ranger, os costumes moviam e dirigiam a sociabilidade nas sociedades antes da Revolução Industrial. Se as mudanças nos costumes não eram impedidas, elas deveriam preservar a continuidade com o passado, de maneira que nas sociedades tradicionais as mudanças não eram obrigatoriamente uma ruptura180.

176Ibidem, p. 7.

177 Idem.

178 Idem.

179 LIMA, Nestor dos Santos. A Matriz de Natal. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal, 1916, v. XI – XII – XIII, p. 9.

Nestor Lima entendia a vida na humanidade como uma cadeia: o passado ligava-se ao presente, o presente ao futuro, cujo vínculo era sustentado pelo respeito às tradições e aos costumes. Por isso, ele considerou que os natalenses precisavam melhor conhecer os feitos e modos de vida dos antigos. O trabalho de Lima objetivou dar conta desta demanda estabelecendo associações como: os leitores deveriam conhecer os heróis e antagonistas do passado, os períodos de sua história e a Igreja como grande meio de continuidade.

Porque eram elas que mostravam “[...] as fases evolutivas do agregado social que somos, desde a colônia até os dias fluentes”181. Propondo uma imagem sintética dessa

história, as características da sociedade eram entendidas como retratadas na história da Matriz, na medida em que ela foi edificada pela sociedade, conforme Lima pensava:

ASSUNTO ESCOLHIDO – É que o objeto da nossa palestra é simples e é sugestivo. Quando de mim ides ouvir, menos história do que simples crônica, é a narrativa desgraciosa, mas, verídica de fatos remotos, tocando-se no vivo das tradições para retratar a existência simples dos primitivos habitantes destas paragens estremecidas. Outros intuitos jamais me animaram, senão o de ler algumas páginas sobre épocas que muitos, quase todos ignoram: não pretendo, entretanto, exaltar as façanhas dos nossos maiores, nem debuchar nestas notas todas as grandes epopeias nacionais. Falar-vos-ei da Matriz de Natal; procurarei as suas origens, através de trezentos anos e estabelecerei as fases que ela tem experimentado até a hora presente. Cumpre-me, desde já declarar, porém, que no correr da minha palestra, nada afirmarei do merecimento do culto que ali se professa, visto como meu interesse unicamente versar sobre o aspecto histórico, documentado ou tradicional desse edifício, que será no futuro, como agora, o atestado da simplicidade das eras volvidas.182

Neste excerto do texto encontramos um exemplo demonstrativo da operação de conexão entre cidade e Matriz. O autor iniciou afirmando que trataria dos primitivos habitantes do lugar Natal e isso foi sendo conduzido pela história da criação, destruição, reconstrução, transformações, associação de personagens e acontecimento ao templo ao longo de trezentos anos. No entendimento de Lima, escrever a história da Matriz significava também escrever a da cidade.

A Matriz foi concebida como um testemunho do passado que deveria ser preservado no hoje e para o futuro, somente dessa forma a associação ainda continuaria tendo razão de ser. As sociedades que se desenvolveram depois da Revolução Industrial, segundo Hobsbawn e Ranger, foram levadas a inventar novas formas de convenções e rotinas que não

181 LIMA, Nestor dos Santos. A Matriz de Natal. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal, 1916, v. XI – XII – XIII, p. 8.

necessariamente tinham haver com os costumes das gerações precedentes183 e Nestor Lima viveu num momento de maior dinamicidade social.

A característica mais evidenciada no seu escrito foi o desejo de permanência, a partir de 1909, da representatividade que ele observava na Matriz. Por isso, ele lançou mão da iniciativa de monumentalização para favorecer a difusão da noção do templo como um local dotado de valor memorial e histórico, uma tentativa para preservá-la das incertezas do futuro:

Já na regência desse vigário, em fevereiro de 1907, a necessidade de aformosear a praça André de Albuquerque, no governo do Dr. Augusto Tavares de Lyra, transplantou para outro lugar, o venerado cruzeiro. E agora dali do patamar da Igreja do Rosário, o vetusto madeiro enlaça carinhoso a cidade, a baia e os montes, que em redor estadeiam, ao beijo macio das nossas brisas eternas184.

Nesta passagem, o autor fez referência a um ‘sintoma’ do processo de urbanização da cidade de Natal, a remodelação da praça André de Albuquerque, uma das iniciativas do governo para modernizar a vida do natalense. É interessante observar que ele não optou por elogiar ou criticar os novos rumos que estavam sendo tomados. O autor preferiu continuar centrando a narrativa sobre fatos ligados ao catolicismo, como a nova morada do antigo cruzeiro, símbolo cristão da cidade de outrora que perdeu centralidade no perímetro da cidade. Lima desejou que o objeto continuasse “abraçando carinhosamente” a geografia da cidade e a constituindo de onde quer que ele fosse colocado.

As novidades tecnológicas como o telégrafo e o relógio, ambos colocados justamente na torre da Matriz edificada em 1694, foram narrados como demonstrativo da relação templo e vida civil, também incorporados na história do templo. A novidade não aparece como oposta ao antigo e sim incorporada por ele segundo a leitura histórica feita por Lima.

O que um dia foi novidade envelhece e, assim, o relógio com o passar do tempo foi criando, para o autor, um sentido de saudade porque esse instrumento não tinha mais centralidade no marcar o tempo “e o relógio então adquirido é o mesmo que hoje vive em desacordo com os congêneres, na caduquice precoce de 50 janeiros apenas!”185. Instalado em

1866, em 1916 já não acompanhava o ritmo da cidade e Lima parecia lamentar esse prematuro descompasso.

183 HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro, 1997, p. 11.

184 LIMA, Nestor dos Santos. A Matriz de Natal. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal, 1916, v. XI – XII – XIII, p. 41.

Ele escreveu uma história sobre o templo para recuperar o antes e vê-lo no hoje, instalando uma continuidade. A Matriz para Nestor Lima parecia uma porta ou uma pequena janela disponível no presente e que podia ‘levar’ para o conhecimento de outras gerações, daí ele a elegeu como o monumento da cidade. Destarte, o autor definiu a sua compreensão do conceito de monumento:

O VALOR DOS MONUMENTOS: As civilizações perpetuam-se pelos séculos em fora através dos monumentos que o seu gênio levantou: os baixos relevos e as múmias encontradas nas escavações, atestam a grandeza artística dos egípcios, caldeus e babilônios; nas pirâmides esplende o poder dos faraós; o Parthenon de Agripa é o sagrado repositório das relíquias da antiga Roma; em Westminster Abbey são guardado ciosamente os restos dos grandes filhos de Albion; do mesmo modo que o nosso monumento do Ipiranga recorda o brado libertador do Príncipe Regente. E, assim como esses monumentos que nos mostram o esplendor de civilizações desaparecidas e contemporâneas, a Igreja Matriz da Paróquia de Natal é o centro de gravitação de todo um passado heroico, porque assistiu na religiosa mudez de seu destino, as convulsões guerreiras e as restaurações pacíficas, coetânea de Jerônimo de Albuquerque, destruiu-a a impenitência dos soldados de Van Keulen; e guardando os restos mortais de André de Albuquerque, sagrou as bênçãos da posteridade a figura altamente cristã de João Maria, ela é a testemunha silente do desdobramento civil da terra que habitamos e, como baluarte de uma crença milenária, a síntese das nossas tradições186.

No fim da sua jornada histórica, Nestor Lima argumentou em favor da força vinculativa de passado e presente, memória e tradição, que ele identificava no templo. Os monumentos, segundo o autor, detinham a capacidade de perpetuar, atestar, recordar e testemunhar as civilizações desaparecidas e contemporâneas. Nestor incluiu a Matriz na mesma função de outros edifícios e construções aos quais ele qualifica como “monumentos” – pirâmides, o Parthenon de Agripa, Westminster Abbey – o que significa que em alguma medida, inclui o templo natalense num cânone universal que ilustra uma maneira de perpetuar e engrandecer os feitos dos antigos.

A palavra monumento tem origem no latim monumentum, e significa advertir e lembrar. Constitui-se como monumento todo objeto criado para fazer lembrar, driblar o esquecimento e causar emoção187. Porém, o monumento histórico é um tipo de artefato moderno, tendo um