CHAPITRE 1 : ETUDES BIBLIOGRAPHIQUES
1.2 Les Algorithmes Génétiques
1.2.2 Terminologie
Aristóteles define a arte como a capacidade que um artista tem em transformar a matéria bruta em algo com domínio de uma técnica. Corroborando com o filósofo grego, Bosi (1995) define a arte como o conjunto de atos pelos quais se muda a forma e se transforma a matéria da natureza e da cultura. Samuel (1985) vai além da distinção: para o crítico, a definição está na finalidade para a qual determinado objeto é criado, o que faz da arte uma atividade lúdica, sem nenhum tipo de finalidade que não seja por ela mesma em ser arte, e, por essa razão, distingue-se daquilo que toma forma para ser um utensílio.
A arte se traduz na estreita relação ou no dialogismo entre o artista e a matéria-prima. Nesse prisma, o quadro e a tela são expressões do pintor; a roupa, do criador, do estilista ou costureiro, portanto ambos os criadores são considerados artistas. Assim, depreende-se que a moda é uma forma de expressão como tantas outras, embora haja uma discussão recorrente sobre a aproximação entre moda e arte. A teoria de Aristóteles pode desmistificar essa discussão, já que define que o estado da arte é o belo, cujo significado está contido no domínio e resultado da técnica que um artista utiliza para criar algo. Nesse sentido, arte e moda convergem- se em um mesmo objetivo: o belo. Há uma fantástica sinergia entre ambas: os pintores transpõem a roupa para os quadros, os costureiros, das telas para o mundo. O costureiro é considerado artesão, usa tecido, linha, agulha e tesoura; o pintor usa a tinta, o pincel e a tela.
Para Calanca (2008, p. 130),
O império criativo do artista exprime-se mediante o uso de múltiplas linguagens da comunicação contemporânea, da fotografia à publicidade, do design aos pôsteres de moda e a dos desfiles, do teatro, ao cinema, do rádio, à televisão e, não menos importante, às revistas especializadas, de fato, o impulso artístico está indissoluvelmente ligado a uma lógica comercial e financeira. A moda atual não é mais utilizada para desenvolver o mundo da contemporaneidade artística e estética, mas sim expandir um sistema comercial e financeiro. Ao produzir arte e cultura, ela, ao mesmo tempo, produz mercado e riqueza. [...].
Cada época possui suas unidades estéticas que se refletem nas artes em geral, sobretudo na pintura, na literatura e na moda. No ensaio Cortar é Pensar: arte e moda, o crítico italiano de arte Germano Celant (1999) procura evidenciar a arte
presente na criação e produção da moda, desenvolvendo uma série de analogias possíveis entre os movimentos artísticos e a moda. Seu foco estava na arte de cortar os moldes, portanto o papel, e no movimento artístico da produção vestimentar. Para o autor, a ação cortar constitui-se em arte, já que, para ele, cortar é a alma do vestir e do vestuário, é a arte da costura em si.
O costureiro e o estilista transformam o papel e o tecido em algo a ser admirado. O artista, a argila, a tinta, o mármore, a madeira e a tela. A matéria-prima é uma substância que pode ser transformada em algo interessante, de acordo com a habilidade do manipulador. O tecido e a linha são matérias-primas da costura; a roupa, a arte acabada. Nessa mesma linha de pensamento, há mais de um século e meio antes, a modista francesa Mme Joséphine, rainha da moda, especialista em vestidos, toucados e enfeites finíssimos da Rua do Ouvidor dizia: “Sou artista e ainda tenho de imaginar a minha obra: como hei de marcar o preço do vestido que vai sair das inspirações que eu tive?” (MACEDO, 1963, p. 104).
Assim, entende-se que a moda é, de fato, uma expressão como tantas outras no mundo da arte; a moda do vestuário pode adquirir seu status de arte, pois possui sua singularidade dentro da criação como toda obra de arte. Muitos estilistas criam seus modelos como verdadeiras obras de arte, como fez o famoso costureiro oitocentista Charles Fredérick Worth. Ele próprio equiparava-se a Delacroix e Ingres, embora haja uma grande diferença entre a moda e um quadro, que é a efemeridade. Coco Channel, quando foi perguntada sobre essa discussão sobre a moda como arte, opinou que, para ela, obras de arte são eternas, vestidos não, pois a efemeridade é uma característica da moda, seja ela qual for, “a moda precisa morrer para que o comércio sobreviva” (CIDREIRA, 2005, p. 58).
Souza (2009, p. 40) fornece um entendimento mais claro da razão pela qual a moda do vestuário deve ser interpretada como arte: sendo a moda arte como a pintura, a escultura ou mesmo a literatura, o que a distingue das demais artes além da efemeridade é o movimento e a conquista do espaço, o que a torna uma estética específica, justificando que a arte da roupa, além da forma, está no movimento do corpo e dele depende para dar novas formas e equilíbrio ao traje, o que ratifica a sua dependência do gesto, do andar e de cada volta do corpo. Souza, ao esclarecer que o costureiro se encontra no mesmo nível de arte que o pintor e o escultor, uma vez que se preocupa, antes de tudo, com a forma, diz que “Enquanto o quadro só pode
ser visto de frente e a estátua sempre nos oferece a sua face parada, a vestimenta vive na plenitude não só do colorido, mas do movimento”.
Obviamente, se o vestuário for pensado enquanto indústria, produzido em quantidade, não há muita possibilidade de ser encarado como arte, porém, enquanto objeto de criação, que pode ser exposto e admirado por espectadores, sim. Além disso, a forma dada às roupas em muitas épocas acompanha a forma dada à arquitetura, o que estabelece profunda relação entre moda e arquitetura, tomando- se como exemplo a forma cilíndrica do industrialismo expressa nos túneis, reservatório de gás, chaminés, que também foram expressas na vestimenta, como nas calças, na cartola e na sobrecasaca, ou ainda entre as formas das saias, como o formato da saia-balão, semelhante a uma abóboda ou a gaiolas, ou o formato das saias na segunda metade do século XIX e início do século XX, ora de sino, ora de ampulheta (SOUZA, 2009).
Se objetos como quadros e peças de arte expostos em museus ou galerias são sinônimos de arte, história e cultura, assim os acervos de roupas que são expostas nos museus devem ser considerados. Olhando por esse prisma, estabelece-se às roupas ou à moda um status de arte semelhante às outras obras que tenham caráter expositivo enquanto arte. Em 23 de outubro de 2015, a exposição do acervo de roupas do Museu de Arte de São Paulo – MASP – o evento “Arte na moda: Coleção MASP Rhodia” reuniu para exibição os vestidos de 1972, confeccionados por estilistas renomados, com tecidos e estampas feitas por artistas plásticos como Alfredo Volpi, dentre outros (G1. GLOBO.COM).
Outra interessante performance do dialogismo entre roupa e arte também foi representada na arte dos Parangolés, Figura 25, capas estandartes que as pessoas tinham que vestir para participar e “sentir” a obra do artista Hélio Oiticica, expostas no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro em 1965, e em 1967 na Signals Gallery, em Londres.
Figura 25 – Parangolés – Hélio Oiticica.
Fonte: Instituto by Brasil [20--].
Entretanto, em muitos casos, uma obra de arte somente atinge seu status de arte quando tem seu valor artístico reconhecido, muitas vezes tempo depois da sua criação, como o caso de Van Gogh, que teve o reconhecimento póstumo de suas mais de 800 obras de arte. Geralmente, essas obras são reconhecidas pela sua importância, significado e beleza e são levadas a leilões nos quais o espectador participante paga expressiva quantia em dinheiro apenas para ter aquela arte única. Nesse eixo, a vestimenta, como símbolo de uma época ou de um fenômeno, deve ser considerada como arte a partir do momento em que passa a fazer parte de um acervo, cuja exposição de roupas de determinada época ou situação são exibidas pela sua importância, significado e beleza, levantando valores expressivos em leilões.
Roupas de celebridades expostas em museus e leiloadas são arrematadas por grandes quantias de dinheiro, como o macacão de Elvis Presley, cujo valor de venda chegou a US$ 212.588 mil (G1, GLOBO.COM, 2009), dentre outros objetos. Outras celebridades também tiveram suas roupas expostas em museus e leiloadas, como a jaqueta do clipe Thriller de Michael Jackson, que foi arrematada em um leilão por US$ 1,8 milhões (G1, GLOBO. COM, 2006); o vestido com o qual a princesa Diana dançou com John Travolta em 1985 em uma recepção na Casa Branca foi vendido por pouco mais US$ 800 mil dólares (UOL, 2011); e o vestido com o qual Marilyn Monroe se apresentou quando cantou “Parabéns para você” para o presidente John F. Kennedy, em 19 de maio de 1962, foi arrematado por US$ 4,8 milhões de dólares (G1, GLOBO. COM, 2016).
Se de acordo com o exposto existe um liame entre arte e moda, então a moda deve ser vista como arte sob dois prismas: primeiro, como parte dos
elementos que compõem uma inspiração, o motivo para uma tela, na qual o pintor representa aquilo que vê ou o que pensa; Segundo, ela própria, enquanto fruto da inspiração do estilista ou costureiro, passa a ser admirada pelos detalhes e, sobretudo, pela beleza. Como exemplo, tomam-se aqui os vestidos de noivas, confeccionados com a mesma característica do evento ao qual se destinam, a singularidade. Os vestidos de noivas são, muitas vezes, considerados verdadeiras obras de arte, tamanha é a riqueza do formato e dos detalhes envolvidos na criação. Somado a esses dois primas, há de se observar que a moda por sua própria natureza acompanha as mudanças sociais de uma época para a outra, buscando novas tendências que simbolizem a entrada no novo, portando a ideia da renovação. Na passagem do século XIX para século XX, os futuristas tinham como proposta a alteração radical das figuras, sempre em relação ao futuro, ao novo, ao diferente, ao moderno. No período do final do século XIX foi estabelecido o movimento Futurista, cujas expressões foram detectadas nas artes em geral, na pintura, na escultura, na literatura, na arquitetura e, por que não dizer, na moda.
Nas artes, o movimento futurista se expressou valorizando as formas, o uso de cores vivas, contrastes e sobreposição de imagens para dar ideia de dinamismo; na literatura, procurou valorizar o cubismo e a abstração, a exploração do lúdico, da linguagem vernácula, preferindo o uso das onomatopeias, cuja ideia é de criação, diversão e movimento. E a moda, como parte da arte, deveria também expressar o pensamento dos movimentos vanguardistas, principalmente o Futurismo e o Cubismo. Como exemplo, a artista da Vanguarda Sonia Delaunay expressou o movimento do período em suas pinturas e daí para a criação de tecidos, seguindo o mesmo padrão da pintura, com estampas geométricas e cores vivas (CELANT, 1999), conforme Figura 26.
Figura 26 – Sonia Delaunay, padrão futurista, 1920.
Fonte: The Guardian.com (2015).
Mas não só as estampas dos tecidos seguiam a tendência futurista; a própria peça de roupa possuía vários formatos que iam do geométrico ao reto, com pontas assimétricas ou não, conforme a tendência planejada. A relação profunda entre moda e arquitetura já havia sido observada desde o final do século XIX, quando a moda representava os novos estilos nas roupas, acessórios e penteados. Há inúmeros exemplos que ratificam essa imbricação da moda com a arquitetura e outras artes. Souza (2009) traz curiosa representação da relação das duas esferas comparando o formato das cartolas do final do século XVIII com as chaminés das fábricas, no advento da industrialização, como também evidência do formato da crinolina com a abóboda da Construção do Conselho Municipal em Nottingham na Inglaterra.
Para Souza (2009, p. 34), no tempo e no espaço, a moda sempre dividiu as mesmas correntes estéticas de arte da arquitetura, literatura e outras artes, muito evidentes, sobretudo no século XIX:
O advento da era industrial não destruirá a correspondência e o século XIX irá explorar a forma cilíndrica. Os temas invariáveis do industrialismo, abóbodas, túneis, reservatórios de gás, chaminés de fábricas, imprimem-se
no subconsciente e o homem também se torna cilíndrico, com suas calças, cartola e sobrecasaca. A arquitetura afetou a roupa, as roupas modificaram a anatomia.
É importante salientar que a vestimenta, especificamente, é considerada como arte há mais de um século. Em uma análise efetuada na Revista Popular, 1860, foi observado esse tratamento dado aos trajes como arte e, portanto, à costureira, à modista ou ao alfaiate como artistas. Na seção chamada Chronicas foi publicado um artigo sobre um baile realizado no referido ano, cujo teor de maior relevância foi a descrição minuciosa dos vestidos de algumas mulheres presentes no evento. O autor do texto, desconhecido, além de descrever os detalhes, destacou os trabalhos das costureiras e modistas, classificando-as como verdadeiras artistas, pois comenta que “a artista que os ideou conseguiu realizar sua obra e patentear o talento que dispõe”.
A relação entre moda e arte também foi analisada pelo crítico literário Ivan Teixeira (2010) a partir de análise de 37 gravuras coloridas de moda no jornal carioca A Estação. Nessas gravuras, os figurinos apresentavam-se em salas com quadros, livros, vasos de cerâmica muito trabalhados, piano, violino e outros objetos de arte consagrada, o que levou o crítico a detectar a intenção que se tinha em relacionar a moda com outras manifestações consagradas de arte e de cultura, deixando evidente a posição que a moda, sobretudo vestuário e acessórios, ocupava na sociedade oitocentista.