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CHAPITRE 3 : OPTIMISATION EXERGO- ECONOMIQUE DE LA MACHINE A

3.2 Fonction fitness ou objectif TRIREX

3.2.1 Expression du rendement exergétique en fonction des températures de

A moda não só se torna um tema interessante para os escritores do século XIX, como também caminha lado a lado com a ascensão do romance moderno. Ambos se submeteram à lógica do “novo” e foram favorecidos pelo rompimento com as estruturas tradicionais.

(LIPOVETSKY, 2007, p. 100)

Paris era o centro cultural, o espelho do mundo; era obrigação de qualquer estilista e romancista manter a atualidade do mundo conforme os ditames franceses. Gustave Flaubert (2007), 1821-1880, em Madame Bovary, retratou na literatura a cultura urbana, o culto pela aparência e o que o vestuário representava para essa cultura e para a economia; levanta a questão do consumismo quando a personagem leva seu marido à ruína com enormes gastos com seu guarda-roupa e artigos para o lar.

Segundo o filósofo francês Gilles Lipovetsky (2007), a presença significante da moda não configura apenas nos veículos destinados à moda, como as revistas especializadas, mas também dentro da literatura, principalmente no século XIX, pois os escritores fazem da moda um assunto digno de atenção e de consideração. Balzac escreve Traité de la vie elegante (1830), Barbey D’Aurivilly, Du dandysme et de George Brummell (1845); Baudelaire redige um Éloge du Maquillage; Marlamé escreve La Dernière Moda; e , segundo o filósofo francês, “Proust descreverá as rivalidade mundanas e se interrogará sobre os motivos psicológicos da moda, do esnobismo, nos salões do Faubourg Saint-Germain” (LIPOVETSKY, 2007, p.100).

Cidreira (2005) acredita que haja estreita ligação entre corpo e roupa que comprometa a relação entre individual e coletivo, e que esta ligação despertou curiosidade de grandes escritores que se ocuparam com o tema moda, como Thomas Carlyle, Baudelaire, Balzac, Edgar Allan Poe, Proust e Oscar Wilde, o dândi por excelência, para o ato de vestir. A importância das roupas como um fenômeno social e individual foi reconhecida por esses grandes escritores da época, dentre outros, que realmente vivenciaram a moda, e isso ratifica a obsessão da sociedade com o tema e com as roupas no século XIX.

Em 1831, o escritor Thomas Carlyle (1864) escreveu seu romance Sartor Ressartus, cheio de humor sobre as roupas, tomando sua rejeição pela moda como base para o enredo, para o qual o objetivo inicial era ridicularizar a moda na literatura. No Capítulo V, The world in clothes, o escritor inicia com o personagem principal o professor Diógenes Teufelsdröckh, que, ridicularizando a Filosofia das Roupas, decide escrever sobre o “Espírito das Roupas”, já que Montesquieu escrevera o Espírito das Leis: “As Montesquieu wrote a Spirit of Laws, observes our Professor, so could I writ the ‘Spirit of Clothes’, thus whit the ‘Esprit des Loix’, properly an ‘Esprit de Coutumes’, we should have an ‘Esprit de Costumes’” (1864, p. 21).

Como Balzac, o professor Teufelsdröckh fez uma análise das roupas para depreender o significado emanado por elas e escreve sobre o espírito das roupas a partir da investigação das influências do código vestimentar nas áreas da política, da religião e da moral. O intuito do professor (ou de Carlyle) era mostrar que os estudos da moda não passavam de tentativas de colocá-la em lugar acima do que realmente merecia, e assim Teufelsdröckh critica a Filosofia das Roupas. Contudo, sabendo-se que o escritor inglês fora influenciado pelo romantismo alemão e levando-se em conta o destaque para a individualização do homem desde o final do século XVIII, sobretudo na literatura, como aponta Ian Watt (2007), acredita-se que a aversão de Carlyle pela moda e sua crítica a ela demonstram, na realidade, o grau de importância do papel da roupa subjacente ao comportamento do indivíduo.

Embora Carlyle se mostrasse em desacordo com a sociedade da época e tentasse mostrar que a roupa não poderia superar outros assuntos considerados mais importantes, demostrando com muito humor sua rejeição pela moda, roupas e assuntos pertinentes a elas, termina ele próprio por concluir que a roupa tem sua importância enquanto parte do indivíduo. No final com este importante escrito sobre

a moda, Carlyle acaba se certificando de que o código vestimentar não se restringia apenas às necessidades do corpo ou à simples aparência, mas sim deveria haver uma relação do exterior com a espiritualidade ou, em outras palavras, deveria estar relacionada à individualidade humana.

Embora o grande escritor Carlyle tenha abordado de forma notável a moda, as roupas e seus significados, sem dúvida alguma foi Balzac (2016) o escritor que mais se dedicou à moda pelo estudo do comportamento humano. Em seus estudos, análises e com suas fisiologias, Balzac escreveu ensaios e artigos sobre moda e mesa, os quais, mais tarde, em Tratado da vida elegante, Teoria do andar e Tratado dos excitantes modernos, deram volume para a obra Patologia da vida social.

No Tratado de uma vida elegante, o escritor reúne vários ensaios e artigos que escreveu sobre o comportamento humano, oriundos de seus estudos e análises das modas e dos modos parisienses do século XIX, posteriormente publicando-os no La Silhouette, em 1830, e na revista parisiense da moda La Mode. Os textos relativos à moda são Tratado da vida elegante, Fisiologia da Toalete, A arte de por a gravata, Estudo dos costumes pelas luvas, Sobre as palavras na moda, Teoria do andar e Apêndice do código da toalete, privilegiando a análise do comportamento do indivíduo pelo modo de andar, no uso dos acessórios, e, portanto, da aparência. Seu objetivo era detectar a identidade individual, pois, para o escritor, seria possível “aplicar” uma identidade dos tipos sociais da sua época, fosse de um burguês ou de um estudante, de um quitandeiro ou um cientista, uma coquete ou uma duquesa, através de um detalhe do comportamento, fosse da roupa, de um acessório, de um costume ou de um modo, como o andar, por exemplo.

Em um dos seus artigos sobre a moda, no Estudo dos costumes pelas luvas, publicado na revista La Silhouette, em 1830, relaciona o costume pelas luvas como um meio de expressão individual de cada indivíduo. Como exemplo, toma o caso de uma condessa que descobre, a partir das luvas beges de pelica usada pelos dândis, a vida amorosa de seus convidados. Acrescenta-se ainda que, anterior à Fisiologia da Toalete, em 1830, Balzac escreveu, em 1828, O código da toalete: Manual completo de elegância e higiene, contendo as leis, regras, aplicações e exemplos da arte de cuidar da sua pessoa e de se vestir com gosto e método (BALZAC, 2016).

Um detalhe importante quanto aos estudos de Balzac sobre a moda é a observação da essência da moda, sua principal característica, a efemeridade, dando

um prelúdio ao objeto a ser tratado mais de um século depois pelo grande filósofo Gilles Lipovetsky (2007). Abordando a longevidade ou a efemeridade da moda, Balzac fornece uma explicação clara do que significa moda pelo estudo das palavras na língua francesa, comparando o uso das palavras com outros objetos da moda, levantando termos usados na moda. Exemplifica o uso de determinada palavra na moda tomando como exemplo o uso do sufixo “ismo” quando a atualidade pedia “dade”, estando aquele fora da moda, expondo o locutor ao ridículo. Ou seja, é só estar na moda para ser aceito. Nesse estudo, indiretamente Balzac confirma a teoria do julgamento social sustentado pela moda, já que pode ser empregado a tudo que está exposto à moda, seja palavra, modo, objetos, indumentária e seus acessórios.

O que pretende Balzac com esses estudos é mostrar que tudo que envolve moda e modos está intrinsicamente ligado ao comportamento humano. Sua teoria se respalda na análise da patologia da vida social do homem e seu verdadeiro eu, e aí escreve vários tratados com a finalidade de trazer à tona o homem por meio de seu comportamento, mostrando que é possível conhecer a identidade do indivíduo por meio das modas e dos modos, suas escolhas, como no caso da condessa, relacionando as roupas e acessórios como um meio de expressão e comunicação individual de cada indivíduo, como, afirma, mais tarde, o cientista McLuhan (2002).

De qualquer, maneira, todos os tratados e ensaios têm um só objetivo: o diagnóstico da patologia humana através da análise do hábito, do costume e da moda. Esta em qualquer esfera para diagnosticar e caracterizar os tipos sociais à moda dos naturalistas, pois todos esses componentes estão intrinsicamente ligados ao comportamento humano e, logo, à sua identidade, pois, segundo Balzac, “adivinha-se o espírito de um homem pela maneira como ele porta sua bengala” (2016, p. 44). E o escritor aplicará toda sua teoria em seus romances, com a finalidade de caracterizar suas personagens, influenciando Zola, que por sua vez influenciará o naturalista brasileiro Aluísio Azevedo. Balzac também foi grande influência para José de Alencar.

Com suas fisiologias, tratados e teorias, Balzac estava disposto a estudar os organismos da sociedade e ratifica a teoria naturalista que se inicia naquele século, já que, de acordo com seus estudos e análises, o indivíduo é condicionado pelo meio – e nomeia esse indivíduo como “homem instrumento”, com um “zero social”, rótulos destinados aos homens que têm a mesma rotina, o mesmo dia a dia e comem as “comidas mais toscas”, pois a comodidade e aceitação da própria

situação de miséria e de rotina marcam bem esses tipos sociais. Balzac ainda salienta que “para todos esses infelizes, a vida é decidida pelo pão na cesta, e a elegância, por um baú onde há uns andrajos”, teoria essa que foi claramente aplicada pelo escritor brasileiro Aluísio Azevedo nas suas obras naturalistas, principalmente em O Cortiço.

Os romancistas brasileiros aplicaram, em maior ou menor medida, as teorias de conhecimento de tipos sociais de Balzac. Em uma narrativa, a roupa e outros objetos formam o conjunto de auxiliares que os escritores têm em mão para a caracterização das personagens. O crítico literário francês Genette (1972), em sua análise sobre narrativa e descrição, estabelece que a importância da descrição se concretiza de acordo com as funções que esta estabelece no texto, estando efetivamente presente nas narrativas balzaquianas e nas narrativas posteriores a Balzac, fazendo da descrição do porte do físico, das roupas e dos móveis um valioso suporte narrativo que “tendem a revelar, e ao mesmo tempo a justificar a psicologia dos personagens, dos quais são ao mesmo tempo signo, causa e efeito” (1972, p. 264-265).

A moda sempre esteve presente na literatura como forma de suporte narrativo do escritor. A literatura sempre foi um canal de relatos de modas e modos em todas as épocas. Alguns escritores registravam a moda, fosse em prosa, fosse em poesia. Segundo Gilda de Mello e Souza (2009), Marcel Proust foi um dos escritores que possuía habilidade inestimável no trato da indumentária feminina, descrevendo a exuberância das vestimentas das personagens femininas em seu romance A L’Ombre Des Jeunnes Filles em Fleurs, o qual tem sido objeto de estudos por essa habilidade.

Em seu artigo acadêmico sobre a moda na obra de Marcel Proust, À la recherche du temps perdu, Marantes (2015, p. 122) destaca a descrição que o autor faz da roupa da toilette da personagem central Mme. Swann, com certa intimidade, e mostra-se conhecedor da moda e das fazendas em voga à época:

A Sra. Swann quis e soube guardar vestígios de algumas dessas modas entre as novas que vieram substituí-las [...] costumava encontrar a Sra. Swann em elegante traje caseiro: a saia, de belo tom sombrio, vermelho- escuro ou alaranjado, essas cores que pareciam ter particular significado, porque já não estavam em moda, era obliquamente atravessada por uma ampla faixa com calados de renda negra, que trazia à memória os volantes de antigamente [...] naquela tarde fria de primavera em que fomos ao Jardin d’Acclimatation [...] a Sra. Swann ia mais ou menos entreabrindo, quando o passeio lhe dava calor, a gola de sua jaqueta, de modo que assomava a gola denteada da blusa como a entrevista lapela de um casaco que não

existia, igual àqueles que usara anos antes e que lhe agradava que tivessem as bordas picotadas; e a gravata escocesa, pois continuara fiel ao escocês, mas suavizando tanto os tons (o vermelho convertido em rosa e o azul em lilás), que quase se confundiam com os tafetás furta-cor que eram a última novidade que ela a trazia atada de tal maneira por debaixo do queixo, sem que se pudesse ver de onde saía, que a gente logo recordava uma daquelas fitas de chapéu já desusadas. Por pouco que soubesse arranjar- se para durar assim algum tempo mais, os jovens diriam, procurando explicar suas toilettes: A Sra. Swann é toda uma época, não é verdade? Do mesmo modo que num bom estilo onde se superpõem formas distintas e que se enraíza numa oculta tradição, do modo de vestir da Sra. Swann, essas incertas recordações de casacos ou de laços, e às vezes uma tendência, logo refreada, para o casaco de marinheiros, e até uma alusão vaga e remota ao pega-rapaz, faziam palpitar sob as formas concretas a vaga parecença com outras formas mais antigas, que não se podia dizer estivessem verdadeiramente realizadas pela modista ou a chapeleira, mas que se apoderavam da memória e rodeavam a Sra. Swann de certa nobreza, ou porque aqueles atavios, por sua própria inutilidade, parecessem atender a finalidades superiores ao utilitário, ou pelo vestígio conservado dos anos transatos, ou ainda por uma espécie de individualidade indumentária característica daquela mulher e que emprestava a seus mais diferentes vestidos um ar de família. Via-se perfeitamente que não se vestia tão só para comodidade ou adorno do corpo; ia envolta nos seus atavios como no aparato fino e espiritual de uma civilização.

A importância da moda é irrefutável em uma sociedade e, por essa razão, sua presença é marcante na literatura do século XIX, já que o tema moda foi abordado por muitos poetas e romancistas durante todo esse século; inclusive pelos jornais que não apresentavam moda e figurinos de moda como objetivos específicos. Na literatura brasileira, o poeta e romancista Bernardo Guimarães (1959), membro da cadeira número quinze da Academia Brasileira de Letras, conhecido pelo seu espírito boêmio e satírico, dedica dois satíricos poemas à moda: À Saia balão (1859), peça da indumentária feminina ampla, redonda e, na verdade, um tipo inadequado para as ruas sujas da cidade do Rio de Janeiro do século XIX, com esgotos ao céu aberto, ainda em processo de urbanização, pois, pelo seu comprimento, chegavam a varrer tais ruas sujas; e À moda (1877), destinada à nova moda feminina, que então havia abolido o uso da saia-balão para alegria dos homens, mas adotara uma moda ainda pior, cujo volume da saia se postava para trás, com cauda comprida, imitando um pavão.

Fazendo jus ao gênero satírico, o poeta usa adjetivos como “cometa de ampla roda”, “rude rabecão”, “cauda que arrasta tudo”, “peru de roda”, “tirano do bom gosto”, “sepulcro da elegância” e “horror das graças”, como exemplos do julgo do poeta em relação à moda da saia-balão. Todo um léxico apropriado à indumentária da época faz-se presente no campo semântico do poema e demonstra

que os escritores são afinados com a moda: babados, gregos, fitas, rendas, franjas, vidrilhos, badulaques, fazendas, véus, toucas, saias, cauda. A saia-balão foi um dos sinais utilizados pela linguagem simbólica da vestimenta para sublinhar o nível social da portadora. Para manter o exagerado volume, era necessário o uso da crinolina, que atingira seu tamanho máximo em 1860, tornando-se parecida com uma grande gaiola de aço (LAVER, 2008). A crinolina, assim como o espartilho, foi um acessório da toalete feminina adotado por todas as mulheres, sobretudo da classe alta. Aquelas que não os portava eram vistas com desprezo.

Segundo Camilo (1997), nesse poema, além de chamar atenção para a moda da indumentária à época, Guimarães, de certa forma, eterniza a saia-balão; e acrescentando à observação do escritor, é pertinente dizer que o poema se tornou um registro sobre a moda da época. Na análise do poema destaca-se a intenção do poeta em mostrar o ridículo da moda, pois afirma que a saia varria e arrastava o que encontrasse pela frente, tal qual uma “máquina de guerra”. Mais adiante, a sátira incide sobre o exagero da vaidade feminina, que adota sem pensar qualquer novidade da moda para parecer mais bonita. Insatisfeitas com sua beleza física, as mulheres usavam a crinolina para “conquistar o espaço”. O espaço ocupado por cada saia-balão deveria ser bem grande, dizia-se que duas mulheres não poderiam ocupar o mesmo espaço. Além de incômodo, era motivo não só para esconder a beleza feminina, que se afogava nesse mar de saias, anáguas e crinolinas, como também para ironizar sua vaidade desmedida, que buscava compensar uma carência ou um defeito, como a pouca altura, com a largura enorme das saias, e até mesmo em relação ao espaço que ocupava, já que na sociedade pouco espaço lhe era destinado, conforme Figura 29.

Figura 29 – Sátira à saia-balão.

Fonte: Victoria London [20--].

Para o poeta, de nada vale enfeitar-se de fitas, rendas e flores se as mulheres se vestem com os “vestidos varredores”, desconfortáveis e prejudiciais à saúde. Ao longo do poema, o eu poético expõe sua tese favorável a uma indumentária mais adequada e natural, valorizando a “clássica roupagem”, inspirada nas túnicas gregas, que, aliás, fora moda no final do século XVIII após a Revolução Francesa e início do século XIX. Ao final, afirma que não pode louvar esta nova invenção da moda, que seria uma “caprichosa moda impertinente”, nem o balão, um “tirano do bom gosto” e os amaldiçoa com seu canto: “roam-te sem cessar ratos e traças” (CAMILO, 1997).

À saia balão

Balão, balão, balão! cúpula errante, Atrevido cometa de ampla roda, Que invades triunfante

Os horizontes frívolos da moda; Tenho afinado já para cantar-te Meu rude rabecão;

Vou teu nome espalhar por toda parte,

Balão, balão, balão!

E para que não vá tua memória Do esquecimento ao pélago sinistro, Teu nome hoje registro

Da poesia nos galantes fastos, E para receber teu nome e glória,

Do porvir te franqueio os campos vastos.

Em torno ao cinto de gentil beldade Desdobrando o teu âmbito estupendo,

As ruas da cidade

Co’a longa cauda ao longe vais varrendo;

E nessas vastas roçagantes pregas De teu túmido bojo,

Nesse ardor de conquistas em que ofegas,

O que encontras, levando vais de rojo,

Que inda os mais fortes corações aterra.

Quantas vezes rendido e fulminado Um pobre coração,

Não vai por essas ruas arrastado Na cauda de um balão.

Mal despontas, a turba numerosa À direita e à esquerda,

De tempo sem mais perda

Amplo caminho te abre respeitosa; E com esses requebros sedutores Com que saracoteias,

A chama dos amores

Em mais de um coração a furto ateias.

Sexo lindo e gentil, — foco de enigmas! —

Quanto és ambicioso, Que o círculo espaçoso

De teus domínios inda em pouco estimas;

Queres mostrar a força onipotente De teu mimoso braço;

De render corações já não contente, Inda pretendes conquistar o espaço!...

Outrora já c’os atrevidos pentes E as toucas alterosas,

As regiões buscavas eminentes, Onde giram as nuvens tormentosas; Como para vingar-te da natura, Que assim te fez pequena de estatura.

Mudaste enfim de norte,

E aumentando o diâmetro pretendes Avantajar-te agora de outra sorte Na cauda do balão, que tanto estendes.

Queres em torno espaço,

Té onde possas desdobrar teu braço. Assim com tuas artes engenhosas Sem medo de estourar tu vais inchando,

E os reinos teus co’as vestes volumosas

Ao longe sem limites dilatando, Conquistas na largura

O que não podes conseguir na altura. Mas ah! por que o meneio gracioso De teu airoso porte

Sepultas por tal sorte

Nesse mundo de saias portentoso? Por que razão cuidados mil não poupas

Pra ver tua beleza tão prezada Sumir-se-te afogada

Nesse pesado pélago de roupas? Sim, de que serve ver as crespas ondas

De túrgido balão

A rugirem bojudas e redondas Movendo-se em contínua oscilação; — Vasto sepulcro, onde a beleza cega

Seus encantos sepulta sem piedade, — Empavezada nau, em que navega A todo pano a feminil vaidade? — De que serve enfeitar da vasta roda Os estufados flancos ilusórios Com esses infinitos acessórios,