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A.6 Caractérisations électriques

B.1.3 Techniques et appareillages utilisés

O momento do contacto dos romeiros com o Santuário era vivido de forma intensa e contagiante. A entrada dos círios no Sítio constituía um espectáculo único e de grande encenação. Vejamos como o Padre Manuel de Brito Alão des- creve, na primeira metade do século XVII, a chegada da Confraria de Santarém, que agregava a si, “muita gente (...) de pé, & de caualo [além de] muita outra das partes onde chegão, & passão”: “Entrão os que hão de festejar, & os officiaes em caualos, & rocins muy bõs, sendo hum dos principaes o que tras a bandeira com

4IAN/TT, Real Mesa Censória, Biblioteca, documento 3594: extracto do “soneto oferecido pelo Círio de

São João das Lampas aos devotos da Senhora de Nazaré”, em Setembro de 1783.

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a Imagem da Senhora, penedo, & veado, & todos postos em ordem com attables, & charamellas diante entrão neste sitio, & dão volta por detras da igreja & se vão aposentar”5. Poderíamos destacar quatro aspectos relevantes nesta descrição. O

primeiro é relativo à precedência da entrada no Santuário. A primazia era dada aos mais importantes elementos da Confraria, sobretudo aos que detinham car- gos no seio desta. O segundo aspecto diz respeito à ostentação revelada por estes oficiais, que faziam questão de se apresentarem em animais de grande porte e categoria. O terceiro refere-se ao cerimonial de entrada, com uma ordem pré- estabelecida, no qual tinha a dianteira uma banda de música, composta essen- cialmente por instrumentos de sopro. Ela contribuía para atrair a atenção das gentes pelos caminhos e no Sítio. O último aspecto, e talvez o mais interessante, é o das voltas rituais ao templo da Senhora, que aqui são referidas no singular. Estas, que decorriam no momento da chegada e da partida, constituíam um envolvimento do ícone sagrado, um modo da comunidade se apoderar da Mãe protectora e do seu território6.

A entrada do Círio de Coimbra assemelhava-se bastante à dos escalabitanos. Encontramos as mesmas voltas à igreja, o uso da insígnia identificadora da

5Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., capítulo XXXI.

6Moisés Espírito Santo, A religião popular portuguesa. Lisboa, [1984], p. 140.

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comunidade (a bandeira) e a presença das charamelas. Contudo, o Círio desta- cava-se pelo elevado número de “hom~es de caualo, afora cargas de mulas com fato, & mantimentos; & outras com molheres de officiaes”7.

A cerimónia de entrada, no essencial, manteve a sua estrutura no período em estudo. Na centúria de Oitocentos, a entrada do Confraria da Prata Grande ou Círio dos Saloios, que vinha alguns dias mais cedo para preparar a sua pró- pria festa, constituía um ritual não muito distante do atrás descrito. O Círio fazia-se anunciar pelo toque dos sinos e pelo estalar constante dos foguetes. Aglomerado o povo que se encontrava ao redor, a Confraria preparava os últi- mos instantes da caminhada. O primeiro passo consistia em conduzir a berlinda onde viajava a pequena Imagem mariana do Círio, “acompanhada por dous ou quatro criados da Casa Real com archotes acezos” e ainda três anjos, em direcção ao terreiro do Sítio. Uma vez ali chegados davam “as voltas do costume [em torno da igreja] acompanhados de uma multidão imensa de povo, e de um con- tinuo, e não interrompido estalar de fogo do àr”. É possível que antes da multi- dão se dispersar, os anjos ou outras figuras cantassem hinos marianos, tão do agrado popular8. Pelo menos, na segunda década do século XIX, após as voltas

ao templo, era vulgar os círios apresentarem três destes querubins cantando hinos de louvor à Senhora, conhecidos também pela designação de loas9.

Encontramos uma prática parcialmente semelhante, em época mais recuada. No século XVII, nas festas da Confraria de Óbidos, que contavam com o acompanhamento de gentes da Corte, eram incluídas representações em honra da Virgem. O Padre Manuel de Brito Alão refere-nos que os festeiros daquela vila, durante a procissão no Santuário, tinham “passos de muy lustro- sas figuras que representão santos que dizem muitos versos em louuor da Virgem Senhora nossa”10. Contudo, não há qualquer referência ao facto desses

versos serem ditos ou cantados por pequenos anjos. O mesmo se poderá dizer para o século XVIII. Para este período, José Leite de Vasconcelos publicou um conjunto de loas à Senhora de Nazaré, produzidas para uso do Círio de Lisboa. Estas deveriam ser acompanhadas por instrumentos musicais e representadas por vários personagens: a Devoção, a Festividade, o Aplauso, a Fama, o Culto, a velha Pandorga e o gracioso Gosto. A teatralização sublinhava os “devotissimos peitos [dos festeiros de Lisboa que ali tinham vindo, apesar dos incómodos da jornada e grandes dispêndios], A consagrar á Senhora Mil louvores, mil obse- quios”. Mas incluía ainda alguma sátira social, protagonizada pelo Gosto. À

7Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., capítulo XXXI.

8CNSN, RCNSN, pasta 115, manuscrito de José d’ Almeida Salazar, Memórias..., vol. I, p. 162. O Círio dos

Saloios vinha à quinta-feira e apenas festejava no sábado seguinte.

9IAN/TT, Real Mesa Censória, Biblioteca, documento n.º 3574. 10Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 91.

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medida que terminavam os versos que correspondiam a cada personagem, este abandonava o espaço de recitação11.

Nestas representações em honra da Virgem de Nazaré, ela surgia como a anti-Eva, a vencedora da serpente, do abismo e do Mal. Este tema prevalece, por exemplo, no hino que Enxara do Bispo ofereceu aos devotos de Nossa Senhora em 178812. A estrutura do texto leva-nos a acreditar que seria recitado apenas

por um único elemento, não sendo de excluir que este fosse um dos anjos que costumava acompanhar o Círio da Prata Grande13. O hino foi impresso para

maior difusão. No século XIX, após a recitação, era usual o padre da comuni- dade distribuir as loas dos anjos entre a assistência14.

Este quadro do cerimonial de entrada dos círios obriga-nos, no entanto, a fazer duas observações. A primeira é a que nem todas as comunidades promo-

11Para as loas do Círio de Lisboa anteriores a 1747, cf. BGUC, Miscelâneas, volume DCLXIX, número

10703. Ainda Manuel Ferreira Leonardo, Cultos offerecidos à arca do testamento Maria SS. festejados com a singular memoria de Nazareth, em o arraial da Pederneira, pelo Cirio de Lisboa neste anno de 1747. Soneto. S.l., s.d. Para o período posterior, da região saloia, cf., por exemplo, Loas, para o cyrio de Loures chegando ao Sitio de Nossa Senhora da Nazareth. Lisboa, 1784.

12IAN/TT, Real Mesa Censória, Biblioteca, documento n.º 3592: “Vertendo o nome de Eva miserável”. 13Sobre o acompanhamento dos anjos, na década de 1790, cf. Paróquia da Igreja Nova, Confraria de Nossa

Senhora de Nazaré da Prata Grande, livro de despesas (1795-1843), fls. 3-6.

14Júlio César Machado, As festas..., p. 7.

26. Anjinhos do Círio da Prata Grande cantando as loas, acompanhados pelos mestre-escola e ponto (século XIX).

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viam celebrações festivas tão ricas, possivelmente por falta de recursos para as poderem realizar. Como referimos, no século XVII, algumas das pequenas povoações mais próximas do Sítio limitavam-se a entrar em procissão com esmolas e ofertas destinadas a Maria Santíssima, partindo no mesmo dia. A segunda observação é que as peregrinações individuais ou de pequeno grupo poderiam também juntar pequenas multidões, durante a sua entrada no Santuário. Essa faculdade de atracção era tanto mais evidente quanto as caracte- rísticas da visita eram invulgares ou o peregrino se situava numa escala social elevada, como sucedia nas entradas de representantes da Casa Real15.