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A.2 Neutronique

A.2.5 Diffusion des neutrons polarisés

Dos itinerários habituais dos vários tipos de peregrinação consideremos, em primeiro lugar, os principais eixos terrestres. Para o peregrino que partia de Lisboa para o Sítio, a jornada era de vários dias de caminho, a um ritmo que podia oscilar entre os 20 e os 35-40 Km diários15. Já constatámos que este facto

implicava a existência de locais de abastecimento e alojamento de viajantes, onde estes poderiam fazer algumas pausas para comer e descansar ou dormir. Referimo-nos sobretudo a estalagens, albergues, estrebarias, conventos, hospi- tais, misericórdias ou ermidas. O percurso era retomado em horas apropriadas. No Verão, era habitual viajar fora dos períodos de calor. No Inverno, a cami- nhada era mais difícil e mais morosa, devido a inundações e caminhos estraga- dos pelas chuvas, como era o caso da ligação entre Castanheira e Ota16, cerca de

1762. Além disso, acresciam os contra-tempos das passagens fluviais, como por exemplo, a de Sacavém ou da Barca, já próximo da Pederneira.

De Lisboa ao Santuário da Senhora de Nazaré, existiam vários itinerários possíveis para os peregrinos. A denominada “ligação pelas vilas”, até às Caldas, poderia ser feita a partir da área oriental de Lisboa. Daí, seguia-se até à barca de passagem, em Sacavém17. Depois, o viajante tomava a estrada de Alhandra, Vila

Franca e Castanheira. Como alternativa, poderia viajar pelo Tejo até Vila Nova da Rainha. Esse foi um dos percursos habituais no século XVIII. Quando a Rainha D. Maria Ana de Áustria veio ao Sítio, utilizou este percurso, partindo da Casa da Índia, em Lisboa. Não sabemos se D. Maria I tomou este traçado, em 1782, mas, seguramente, fê-lo em 1794, quando se deslocou à sua vila das Caldas. D. José Marialva, o director do Círio de Lisboa, deslocava-se para o Sítio no seu iate, em direcção a Vila Nova da Rainha, quando faleceu, em 3 de Setembro de 179018. 15Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., capítulo CXIV. Este sacerdote demorou 3 dias para atingir a

capital, pernoitando em Venda do Diabo e Alhandra. Sobre as médias de viagem dos séculos XIV a XVI para Alcobaça, cf. ainda os estudos de Iria Gonçalves, Viajar na Idade Média: de e para Alcobaça na pri- meira metade do Século XV. Estudos Medievais. N.º 2, (1982), 27 p. e Frei Maur Cocheril, Peregrinatio Hispanica. Paris, 1970, vol. II, p. 453-469 e 659-665. Nuno Madureira provou que Richard Twiss, para a ligação Lisboa-Porto, em 1773, fez uma média de 33 Km/dia, mas que os trajectos eram desiguais, podendo atingir-se melhores velocidades entre Alverca e Castanheira e três vezes menos, entre Alcobaça e Batalha. Na ligação Torres Vedras-Caldas-Alcobaça, o poeta inglês Robert Southey não chegou a conseguir uma média de 20 Km diários (cf. Nuno Madureira, Lisboa: luxo e distinção. Lisboa, imp. 1990, p. 25). Note-se que, através das principais estradas europeias, se podia atingir já uma média de 40 km por dia, em meados do século XVI (cf. Maria Helena da Cruz Coelho e Maria José Azevedo Santos, De Coimbra a Roma. Uma viagem em meados de quinhentos. Coimbra, 1990).

16O Padre João Baptista de Castro, Mappa de Portugal antigo e moderno. 2ª ed., Lisboa, 1763, tomo III,

referia ainda a má ligação entre Leiria e Coimbra.

17Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fls. 232 e 233 v.

18Augusto da Silva Carvalho, op. cit., p. 140 e 199. CNSN, RCNSN, pasta 115, manuscrito de José d’

Almeida Salazar, Memórias..., vol. I, p. 404. Cf. na bibliografia as obras em homenagem a D. José Tomás de Meneses (Marialva), publicadas cerca de 1790.

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Desta localidade, os peregrinos poderiam seguir depois para Ota, Tagarro, Cercal / Espinhaço de Cão (que fazia ligação à estrada para Coimbra), Óbidos e Caldas19. Neste trajecto deveriam entroncar as vias de Alenquer e Olhalvo. A

ligação às Caldas tinha a vantagem de possuir alguns dos melhores troços de caminho, dado que eram consertadas propositadamente para as visitas régias ao hospital20.

A ligação por Torres Vedras fazia-se saindo de Lisboa pelo Lumiar, em direc- ção a Loures e Enxara dos Cavaleiros. Em Torres, entroncavam as estradas da área de Sintra e de Mafra. Desta povoação até Torres, eram 3 léguas. Prosseguiam daqui os viajantes, em direcção a São Mamede, Óbidos e Caldas, num percurso de 6 léguas21. Este foi o itinerário preferido pelos círios e confrarias do Sudoeste

da Estremadura. Segundo um roteiro de estradas do século XVIII, estes itinerá- rios entre Lisboa e as Caldas oscilavam entre 13 e 15 léguas22. Daqui à

Pederneira, faltavam ainda cerca de 4 léguas a percorrer23. Geralmente, utilizava-

se o caminho que ia dar a Alfeizerão, por Tornada. A alternativa era desviar o traçado para Salir do Porto.

Uma vez em Alfeizerão, os peregrinos contornavam o campo da vila, em direcção a São Martinho, podendo aqui subir à Serra da Pescaria ou avançar pelo pinhal, rumo a Famalicão. A alternativa era encurtar o traçado, passando pela Quinta da Macarca e Famalicão24.

A primeira visão do imenso promontório em que se situa o Santuário de Nossa Senhora de Nazaré poderia ser alcançada ainda longe deste, caso os romeiros optassem por subir à Serra que liga São Martinho ao estreito da Barca. Por esta via, os viajantes poderiam passar próximos do Casal de Nossa Senhora, pertencente já ao termo da vila da Pederneira. O Padre Manuel de Brito Alão, administrador dos bens da Casa da Senhora desde 1608, chegou mesmo a pro- jectar a construção de “huma casa particular nelle para os Romeyros que aqui chegão tarde” e que não poderiam já apanhar a barca de passagem para a estrada que conduzia à vila da Pederneira25. Em 1637, já algumas confrarias costuma-

vam ali pernoitar26. Era um dos locais onde se desfrutava uma boa paisagem do

interior dos coutos de Alcobaça.

19Padre João Baptista de Castro, op. cit., tomo III, fls. 22-23.

20Augusto da Silva Carvalho, op. cit., capítulo XIII. Cf. ainda Nuno Madureira, op. cit., p. 25.

21Cf. percurso do Duque de Cadaval, em Setembro de 1725 [D. Jaime de Melo, Últimas acções do Duque

de Cadaval..., Lisboa, 1730].

22Padre João Baptista de Castro, op. cit., tomo III, fls. 18-23. 23Padre João Baptista de Castro, op. cit., tomo III, fls. 18-22 e 24.

24Sobre a Quinta da Macarca, IAN/TT, Mosteiro de Alcobaça, livro 201. Cf. o relato deste traçado, nos

séculos XV-XVI, em Garcia de Resende, op. cit., vol. IV, p. 228-239.

25Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 106. 26Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 75.

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Esta ligação à Barca foi, durante muitos anos, a preferida dos romeiros da Virgem de Nazaré. Mas existia um outro caminho, mais próximo da antiga lagoa da Pederneira, pelo pé da Serra27. Este ligava Famalicão ao dito estreito e era uti-

lizado, sobretudo, na Primavera e no Verão, pois na época das chuvas deveria ser pouco transitável28. Pelo estreito da Barca, desde a segunda metade do século

XVI, passavam dois rios, em direcção ao Oceano Atlântico29. A sua transposição

teve de ser feita, durante muito tempo, através de uma barca do Mosteiro de Alcobaça, a qual mereceu o seguinte comentário do Padre Brito Alão:

“Trabalhosa passagem he esta para quem vem apressado, (...) sendo ainda de mayor consideração o grande trabalho, que padece a romagem, & confrarias, que com muitas festas vem à casa de nossa Senhora de Nazareth, socedendo estarem hum dia todo esperando huns por outros”30.

27Sobre a antiga Lagoa, Manuel Vieira Natividade, Mosteiro e coutos..., estampa XXIX. 28Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 220 v.

29Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 103. 30Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 219.

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No tempo daquele administrador, a antiga ponte estava arruinada e só foi possível recuperá-la na segunda metade do século XVII, atendendo à sua neces- sidade para o transporte de madeiras para o porto de São Martinho31. No prin-

cípio da segunda metade do século XVIII, em 1756, esta ligação entre as vilas da Pederneira e de São Martinho encontrava-se arruinada, tornando “impracticavel a passagem de toda a qualidade de carruagens”32. O estado geral dos caminhos

próximos do Santuário deveria ser mau. A Barca, também conhecida por Barquinha, ligava depois ao caminho real que conduzia à Pederneira, por uma calçada que começava na Fonte da Cabrinha33. Em 1765, este percurso estava

“demolido e aruinado com a decorrencia das muitas agoas invernozas”, pelo que foi necessário proceder à sua reconstrução34. William Beckford, no final do

século XVIII, anotava: “Passámos o rio mais de uma vez e por pontes arruinadas. O meu respeitavel companheiro não podia reprimir gritos de susto quando balouçavamos sobre essas pontes desprovidas de guardas. Mas eu instava para que com a sua fé chamasse o milagroso Santo António. E assim fomos andando entre a poeirada do caminho (...) subimos um monte coberto de mato, onde pastavam cabras, e encontrámos um extenso cordão de camponezas, que leva- vam ofertas de varias especies a Nossa Senhora da Nazaré. Então avistámos o santuário”35, a caminho da Pederneira.

Para os peregrinos que vinham da parte oriental dos coutos de Alcobaça, a solução era atingir a dita vila e, daqui, a base do Monte de São Bartolomeu, ponto de referência na lenda da Virgem de Nazaré. A ligação ao Santuário pode- ria excluir a passagem pelo centro da Pederneira, junto à Matriz, desde que o peregrino se atrevesse a passar pelo meio do areal, por cima da fonte da vila, em direcção ao camarção do Sítio36.

Para os viajantes oriundos do Norte, um dos pontos de referência na cami- nhada para o Sítio, era a cidade do Mondego. Para quem viesse de Buarcos, Coimbra podia-se atingir após 8 léguas de percurso. De Lamego até àquela cidade, eram 25 léguas e de Viseu, 12. Da cidade dos estudantes ao Sítio, a dis- tância era de cerca de 17 léguas, numa jornada cansativa de vários dias. Acreditamos que este era um dos motivos pelos quais o Círio de Coimbra ape- nas se deslocava bianualmente à Senhora de Nazaré37. Depois de sair de 31Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal. Lisboa, 1980, vol. V, p. 163.

32IAN/TT, Desembargo do Paço, Corte, Estremadura e Ilhas, maço 125, documento 29 (Leiria, 3/10/1765). 33Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 218 v. CNSN, RCNSN, pasta 115, manuscrito de José d’

Almeida Salazar, Memórias..., vol. II, capítulo XL. Esta fonte foi soterrada, há cerca de dez anos, para dar lugar à actual ligação entre a Barca e a estrada do Valado [cf. Abel da Silva e Pedro Penteado, A ponte da Barca. A fonte da Barca. Voz da Nazaré. N.º 145, (Junho de 1989), p. 1 e 3].

34IAN/TT, Desembargo do Paço, Corte, Estremadura e Ilhas, maço 125, documento 29 (Leiria, 3/10/1765). 35William Beckford, op. cit., p. 82.

36Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fls. 71 v, 74-74 v e 76. 37Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 82.

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Coimbra, o objectivo era chegar a Leiria. Podia-se avançar pelo traçado de Condeixa, Redinha e Pombal. De Leiria ao Santuário, um itinerário possível era o que atravessava o Pinhal do Rei. Foi o escolhido pelo chantre Severim de Faria, em 160938. A alternativa consistia em caminhar para a Batalha, em direcção a

Aljubarrota e a Alcobaça.

Quanto aos trajectos marítimos, há a considerar sobretudo a hipótese de desembarque na praia da Pederneira. Em Abril de 1676, por exemplo, ali se apea- ram alguns devotos oriundos “de hum navio que vinha de Cabo Verde e diserão herão da Cidade de Lixboa”39. Mas os desembarques, sobretudo por causa das

rebentações, poderiam causar risco de vida para os peregrinos.