C.2 Affinements de structure
C.2.2 Résultats des affinements
Alguns dos visitantes do Sítio acorriam ali em situação de grande desespero, para solicitar à Virgem de Nazaré que lhes prestasse auxílio46. Durante algum
tempo, muitos destes romeiros permaneciam no Santuário à espera de uma
41CNSN, RCNSN, pasta 100, livro do tombo de 1652 (registo de 20/10/1674). 42Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fls. 81 v e 108.
43Sobre estas, cf. terceira parte, capítulo IX, “As fontes de receita”.
44Para João de Pina Cabral a acentuação desta desigualdade de estatuto é uma atitude tridentina, que
contrasta com a simetria das anteriores relações com o sagrado, durante as promessas, em que a dádiva equivalia à contra-dádiva (O pagamento do santo. Uma tipologia..., p. 101).
45Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 56 v. 46A estas deslocações chamamos peregrinações de imploração.
intervenção milagrosa da Virgem. A maior parte dos casos ocorridos entre 1611 e 1629 tratava-se de peregrinos com doenças, deficiências físicas, ou com o que então se designava por “vítimas de assombrações”. Neste último caso, a cura podia-se produzir através do recuso às espécies eucarísticas ministradas no lugar sagrado, consideradas meios de forte eficácia no combate aos espíritos demonía- cos. A sua utilização com fins curativos pertencia em exclusivo ao grupo ecle- siástico. Foi neste contexto que uma mulher natural da freguesia de São Miguel das Colmeias, Maria Francisca, “assombrada do diabo auia vinte & tres annos”, veio em Outubro de 1611 ao Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, acompa- nhada de outros membros da sua comunidade. Poder-se-á dizer que a peregrina ansiava pela cura, pois deslocou-se por sua iniciativa e não abandonou o local enquanto não a obteve. É que o espírito maligno tinha prometido à mulher ator- mentada dar sinal de si junto da Senhora, factor que teria contribuído para a peregrinação. Através de novenas, missas e outros santos exercícios, Maria Francisca procurou purificar-se e libertar-se da acção demoníaca. Foi durante uma das missas na igreja, perante mais de 200 pessoas, quando o Padre Jácome da Guarda levantava “a hostia do Sanctissimo Sacramento [que] deitou a dita molher pella boca hum real & meyo furado”, no qual o demónio que a atormen- tava se tinha aparentemente transmutado47.
Em Setembro de 1615, deu-se no Sítio a cura de uma outra mulher assom- brada pelo Demónio. De novo, encontramos um elemento do sexo feminino como portador de um espírito maligno. Referimo-nos a uma jovem órfã de pai, do termo de Torres Novas. Deslocou-se ao Sítio, acompanhada também de pes- soas da sua localidade e alguns parentes seus. O demónio que a atormentava anunciara-lhe “que constrangido vinha a dar sinal na Casa de nossa Senhora de Nazareth”, & que seria [sobre a forma de] hum alfinete retorcido”, símbolo da vaidade e da sedução feminina, um dos caminhos para a perdição das almas48.
Tudo se predispunha, pois, a que no Santuário ocorresse o milagre e que perante a força de Maria Santíssima, se visse esmagado o dito “espiritu maligno (...) hum dos mayores demonios do inferno, & defamador, por nome de Marcos”49. A ani-
quilação dessa força do Mal viria a ocorrer durante a celebração pública de uma missa, na parte final da qual a jovem deitou fora o dito alfinete “com muita ansia, & agonia em que esteue quãdo querião aleuantar a Deos atè acabar o Sacerdote de consumir o sanctissimo Sacramento”50.
Na realidade, uma boa parte do processo taumatúrgico para as endemoni- nhadas parece ter passado pela sua participação nas celebrações eucarísticas no
47Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fls. 36 v-37 v. 48Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fls. 37 v-38. 49Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 38. 50Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 38.
Santuário da Senhora. Uma viúva de Alfama, de nome Andreza Gonçalves, antes de 1619, veio à Casa da Senhora, porque “hum espiritu que lhe aparecia em figura de seu marido, que auia pouco era falecido (...) lhe tinha ditto por vezes, que viesse a Casa de Nossa Senhora de Nazareth”, no Sítio, onde daria sinal de si, sob a forma de uma verónica. Efectivamente assim veio a acontecer, lançando a dita viúva, pela boca, durante a missa, “h~ua veronica de estanho, de h~ua parte tinha Nossa Senhora do rozario, & da outra hum Santo que parecia S. Ioão Bautista (...) E ao leuantar o Sanctissimo Sacramento, se achou saã, & liure do mal”51.
Para os casos de doenças físicas, os óleos que iluminavam a Sagrada Imagem da Senhora foram um dos principais meios encontrados para sarar os enfermos que recorriam à Virgem. No exemplo que se segue, é também anunciado ao paciente o local e o dia da cura. Isso aconteceu durante um sonho, quando D. Isabel de Moura se encontrava nas Caldas, a banhos52. A jovem sofria de pertur-
bações nos membros inferiores e superiores, da parte direita. Após o sonho soli- citou à esposa do comendador-mor, D. Maria de Távora, que a trouxesse em romaria ao Sítio. Durante a celebração da missa, “lhe deu hum accid~ete dos que lhe costumauaõ a dar, (...) por duas vezes lhe tomou o pulso Dona Maria de Tauora, (...) porque lhe pareceu que estaua como passada, & morta (...) & ven- doa neste estado tirou hum lenço da manga, & o deu ao Irmitão dizendo que lho molhasse no azeite da alampada da Senhora (...) & com elle lhe começou a fazer a dita senhora o sinal da Cruz no meyo da costa da mão junto aos dedos, & entre o polegar, & o grande”. Foi este o motivo da cura da jovem peregrina. Note-se, em primeiro lugar, que a bênção foi realizada com um óleo sacralizado pela pre- sença da Imagem. Por outro lado, não deixa de ser relevante o facto de o exercí- cio da bênção não ter sido realizado por um sacerdote.
António Luís, marinheiro da Pederneira, “cõsertando os vaos de hum mas- tro de h~ua carauela noua, se veyo com elle abayxo”, de que resultou despedaçar- se uma das pernas. Durante os meses que esteve em sua casa a recuperar da lesão “sem a poder soldar, nem andar sobre ella (...) & vendo que lhe não aprouei- tauão as medicinas (...) se resolueo (...) lançar mão do verdadeiro remedio, que era a intercessão da Virgem”. Partiu então para o Sítio onde passou a untar as feridas com o azeite da lâmpada53. Ao fim de algum tempo, abandonava as
muletas na igreja e ficava curado.
Paulo Fernandes, um morador de Azóia, no termo de Santarém, sofreu um tratamento muito semelhante no Santuário, onde se encontrava paralisado dos
51Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 111.
52Este milagre é relatado também em Ramalho Ortigão, As praias de Portugal. Lisboa, 1943, no capítulo
referente à Nazaré. A descrição encontra-se na obra do Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., capí- tulo VIII.
membros. Contudo, não resultou integralmente. Paulo Fernandes fora transpor- tado para o Sítio, por alguns familiares, em Outubro de 1631. Vinha plenamente desiludido da acção dos médicos. Pensava encontrar o remédio para o seu pro- blema, no azeite da Virgem. Foi conduzido junto do “altar mór da Senhora aonde cõ o azeite da sua alãpada o vntarão pelas juntas”. Mas só viria a curar-se quando se banhou na água regeneradora da fonte do Sítio54. É interessante notar como a
proximidade da fonte em relação ao ícone da Virgem sacralizou a sua água. Por este exemplo, pode-se depreender que existiam no Santuário vários meios taumatúrgicos, que poderiam ser experimentados sucessivamente, impe- dindo o desânimo dos devotos. Um filho do ferreiro do Sítio, “aleijado de pès, & mãos que nem com a muleta podia andar”, foi untado com o azeite da lâmpada. Contudo, só após o toque da coroa da Imagem e algumas celebrações religiosas, realizadas pelo sacerdote Manuel de Brito Alão, pôde cobrar saúde55. Neste
exemplo, utilizou-se um dos objectos que esteve em contacto com sagrado, na expectativa de que essa proximidade lhe permitisse adquirir as suas propriedades taumatúrgicas. Outros casos deste tipo poderão ser citados, como o das toalhas da Imagem da Senhora ou o uso da areia da gruta da Memória. Mas estas, dada a sua possibilidade em serem deslocadas para outros pontos do país, não foram especialmente utilizadas no Santuário como solução para os males dos devotos. Reveja-se, contudo, o caso de D. Matias de Noronha, atrás citado.
Um dos principais meios de salvação dos enfermos era constituído pelo impacto do contacto visual com a Imagem de Nossa Senhora e da sua morada sagrada. Foi o que aconteceu, em Agosto de 1623, quando uma habitante do termo de Tavarede, após seis meses de afonia e “sem poder bolir os pès, nem mãos”, procurou que o trouxessem ao Sítio. Mal chegou ao cruzeiro, “logo come- çou a andar entrando na Casa da Senhora sem ajuda de ninguem, & chegando ao pé do seu Altar lhe deu hum accidente que lhe durou quasi h~ua hora; & logo se sentio sem pejo algum”56.
Também a Francisca Saraiva, que tinha ouvido contar muitas maravilhas da Senhora e era grande devota dela, ocorreria um caso idêntico, em Maio de 1629. Encontrava-se paralisada dos membros inferiores e superiores. Fora conduzida por familiares, de Lamego, onde habitava, aos banhos das Caldas. Como não conseguia aqui obter solução para a sua enfermidade, desesperada, resolveu pedir que a levassem ao Sítio da Sagrada Imagem da Virgem, “com cuja vista esperaua alcançar saude”. Mal chegou ao “sitio da primeira Cruz de pedra sentira interiorm~ete hum nouo espiritu, & alento”. Mas seria junto ao altar-mor, pró- ximo do ícone, que se daria a cura. Estando a dita mulher “com o pensamento
54Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 207. 55Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 30. 56Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 35.
entregue a ella [Virgem] lhe sobreueyo hum frio, & tremor grande, & apos elle hum suor, com que ficou como dormindo transportada; & acordando dahy a pouco (...) começou a chamar por elle [Senhora de Nazaré] em voz alta & lar- gando h~ua, & outra mulleta subio os degraos, & pegada ao Altar com muitas lagrimas deu as graças á Senhora”57. A simples visão da Imagem poderia ainda
provocar a quietação dos espíritos malignos. O Padre Brito Alão descreve um destes casos em que a possessa “hia descomposta” e, frente ao ícone, no interior da igreja, aquietou-se58.
Mas a intervenção da Senhora podia também dar-se no exterior do templo, nas proximidades do Santuário, onde o raio de acção da Virgem ainda mantinha grande pujança. Essas intervenções marianas sucederam-se sobretudo em casos de acidente, por parte dos romeiros. Um destes milagres aconteceu ao pintor da capela-mor do Sítio, Francisco Nogueira, da Póvoa de Cós. Para apanhar o cha- péu que lhe voara com o vento, “escorregou, & foy em voltas por este rochedo chamando por nossa Senhora de Nazareth, & chegando abaixo se achou são sem lesão”59. Nesta mesma sequência tipológica de milagres, poderão ser citados, a
título ilustrativo, uma queda idêntica à do pintor Francisco Nogueira, protago- nizada por Catarina Fernandes, do Casal do Guizado, termo de Salir de Matoso, em 160860e o episódio da salvação do filho de um dos mordomos do Círio de
Óbidos, caído entre o tropel dos cavalos, durante uma corrida de canas61.
Os factos maravilhosos que ocorriam durante as grandes romarias tinham a vantagem de transferir os dramas e as alegrias individuais para a esfera colectiva, reforçando o sentido religioso e a espectacularidade das festas em honra da Virgem. A ocorrência deste tipo de acontecimentos extraordinários, de grande efeito, era geralmente aceite pela multidão como mais uma prova da capacidade milagreira da Senhora. Uma prova de que ela continuaria a retribuir todas os actos de gratidão manifestados pelos seus devotos. Mas as festas da Senhora de Nazaré, multifacetadas, não se esgotavam no culto da Virgem protectora. A romaria do Sítio assumia-se como um “acontecimento total”, que englobava também os vários aspectos do universo profano das celebrações.
57Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 96. 58Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 110. 59Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 46.
60Joaquim Veríssimo Serrão, Viagens..., p. 133. Ainda Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 46. 61Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 85. Sobre a procura ou a ocorrência de milagres no
Santuário, no século XVIII, não possuímos muitos dados. Cf. o único caso conhecido, referente a Lino Germano, natural de Sintra, que caiu do promontório em 1796 e se salvou por intercessão da Senhora [João Saavedra Machado e Maria Antónia Saavedra Machado, op. cit., p. 119-120 (elaborado com base em CNSN, RCNSN, pasta 115, manuscrito de José d’ Almeida Salazar, Memórias..., vol. I, capítulo 35, mas com algumas incorrecções na transcrição paleográfica)].
ARRAIAL! ARRAIAL!
O espaço festivo por excelência era o arraial. Nele se desenrolavam as afir- mações de identidade e vitalidade social que se manifestavam em particular nes- tas ocasiões. O arraial era também, tal como o definiu Pierre Sanchis, um “lugar de uma socialização intensa mas fugaz, dominada pela liberdade relativamente às regras, a ausência de trabalho, a gratuitidade”62. Mas esta não é uma definição
de aceitação unânime. Tem, no entanto, a vantagem de nos colocar algumas questões. A principal consiste em saber se o arraial do Sítio poderá ser conside- rado um espaço de anomia social. A resposta não é fácil, até porque as nossas fontes, quase todas de origem eclesiástica ou judicial, não estavam particular- mente interessadas em descrever e revelar situações de desordem no Santuário da Senhora de Nazaré. Mas não será significativo que o regimento da Casa de Nossa Senhora estipule que “o ouvidor dos coitos de Alcobaça, e officiaes de Justiça da villa da Pederneira (...) [tenha] especial cuidado de assistir nos dias da
62Pierre Sanchis, op. cit., p. 143.
festa da Senhora em que concorrem as Confrarias e gente de fóra, pessoalmente, na dita ermida para acudirem às dezordens que em semilhantes ajuntamentos costuma haver”63?
Um dos motivos do desrespeito pelas regras instituídas, causador de motins, era a realização de jogos proibidos, nomeadamente “jogos de espada presa” e sortes64. Outra das causas de confusão e violência entre os romeiros era a escas-
sez de água. No princípio do século XIX, começava-se de manhã a distribuição da água do poço da Real Casa: “Pelas sete ou oito horas da manhã, a tempo que junto do pôço já está uma immensidade de gente à espera d’agua, abrem o pôço, e principião a dar à bomba seguem-se logo desordens, confusão, bordoadas, can- taros quebrados etc porque todos querem ser os primeiros a encher os seus can- taros, e dar de beber a seus gados”65.
Outro foco de tensão entre os peregrinos eram as precedências das Confrarias nos festejos da igreja. Em 1745, o problema colocava-se com os Círios de Coimbra, Penela e Santarém, que costumavam vir a 15 de Agosto.
63Cf. P. Penteado, Nossa Senhora..., vol. II, apêndice I, documento IV. 64CNSN, RCNSN, pasta 53, documento 34 (15/11/1737).
65CNSN, RCNSN, pasta 115, manuscrito de José d’ Almeida Salazar, Memórias..., vol. I, p. 212. João
António Godinho Granada revelou recentemente o caso de Manuel de Quadros, romeiro de Lisboa, assas- sinado em Setembro de 1659 no Sítio (Nazareth..., p. 188).
Resultavam, por vezes, “pendencias grandes com as quaes não só se perturba o Sitio, mas chegarão já a perder o respeito à mesma Caza da Senhora”66. O Círio
de Coimbra viria mesmo a afastar-se dos caminhos do Santuário. “Dizem que no ultimo anno em que vieram a este Sitio tiveram gravissimas desordens, ou ques- tões com os habitantes deste Sitio”, pelo que não regressaram mais67.
Para alguns antropólogos, a violência na presença da Senhora pode ser enca- rada como uma forma de controlar as contendas, impedindo-as de rebentar na vida quotidiana68. Mas levantar o problema da violência nas proximidades do
lugar sagrado, em ocasiões de festa, é abrir ainda uma outra pista: a violência ritualizada. Referimo-nos aos torneios e a outros divertimentos, muito aprecia- dos, que colocavam frente a frente adversários com os quais as diferentes franjas de espectadores se identificavam. Um desses jogos, bastante perigoso, eram as corridas de canas. No tempo do Padre Manuel de Brito Alão, a Confraria de Penela costumava trazer “duas azemelas carregadas dellas”, a utilizar por dois bandos que depois se confrontavam, no terreiro, ao som das charamelas. Um outro jogo, onde era avaliada a destreza individual, eram as argolinhas. Estas eram erguidas em postes, obrigando os cavaleiros, a galope, a enfiarem as suas lanças nesses orifícios. A cada argolinha conseguida, correspondia um prémio oferecido pelos juízes69. Neste sentido, o arraial era também um espaço de
explosão de energia, de regeneração e de jovialidade. Todas estas características encontravam-se em outros tipos de práticas festivas, como por exemplo, as dan- ças, as chacotas e os mascarados que, no princípio do século XVII, as confrarias, como a de Penela, costumavam levar consigo ao Santuário. Esta era a ocasião para se soltarem as pulsões sociais mais reprimidas e os homens saírem momen- taneamente da rigidez dos papéis sociais que lhes estavam atribuídos no seu dia- a-dia. Embora o Padre Brito Alão diga que estas representações não decorriam no interior do templo da Senhora, o visitador do Arcebispado de Lisboa, em 1638, referia-se “ao grande escandalo que resultou de se fazerem dentro da igreja comedias profanas com grande estrondo e descomposição e arranquamento de espadas”70. Foi esta deslocação do espaço de arraial para o interior da igreja que,
gradualmente, se foi reprimindo. Ao mesmo tempo, procurou-se que o sentido da participação nas cerimónias que ali se realizavam fosse canalizado mais para a vivência interior e espiritual dos devotos. À medida que se avançava para o século XVIII, constatava-se ainda uma certa tendência para uma domesticação da expressão corporal, a qual se pretendia menos espontânea, menos natural e
66CNSN, RCNSN, pasta 51, maço 5, documento 25.
67CNSN, RCNSN, pasta 115, manuscrito de José d’ Almeida Salazar, Memórias..., vol. I, p. 90. 68Moisés Espírito Santo, A religião popular..., p. 144.
69Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fls. 81 v-82 e Prodigiosas..., fl. 85. 70Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fls. 82 e 91.
mais elaborada. Talvez isto ajude a explicar porque razão, no último quartel de Setecentos os peregrinos, aparentemente, intervinham cada vez menos nos espectáculos que se desenrolavam no Sítio. Com a agravante de lhes estarem vedados, pelos mais altos dignatários eclesiásticos, determinados tipos de repre- sentações, como as comédias de arlequins, com artistas femininas, dançando “na corda, vestida[s] como homem”71.
É certo que espectáculos mais “passivos” já apareciam no início do século XVII, no Santuário. Tudo indica que foram introduzidos, com sucesso, pelos círios oriundos de meios urbanos e próximos da Corte, de acordo com a sensi- bilidade e o gosto que ali estava em voga. Os responsáveis do Círio de Óbidos, por exemplo, “trouxerão por alg~uas vezes hum volteador, que sobre h~ua corda no ar sostentada em dous esteos, deu voltas, & fez bailes extraordinarios, & de muito artificio, & espanto, particularmente pera a gente que o não tinha nunca visto”72. É provável também que o fomento das touradas, no Sítio, sobretudo no
século XVIII, acabasse também por servir esta estratégia de restrição do grau de intervenção dos romeiros nas representações sociais e nos divertimentos. Como salientou Maria Eugénia Gomes, a “festa aristocrática oferecida ao povo assenta
71Pedro Penteado, O Santuário de Nossa Senhora da Nazaré..., p. 216. 72Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 91 v.
na convicção de que todos têm o direito a estar presentes, desde que reconheçam a hegemonia dos que a promovem e orientam”73. Não esqueçamos que era o
Círio de Lisboa, dominado por uma certa aristocracia de Corte, que promovia as