E.2 Diffraction neutronique sur poudre
E.2.2 Résultats
Clero não simpatizava particularmente, era o comércio. Os momentos de maior afluência e concentração de gente no Santuário atraíam a ele vendedores oriun- dos de várias partes do Reino. No século XVII, a maior parte destes comercian- tes escolhiam a festa do orago, em 5 de Agosto e a concentração de confrarias, a 15 do mesmo mês, para se deslocarem ao Sítio. O Padre Manuel de Brito Alão refere que “pera a vespera, & dia, acodem muitos mercadores de panos, sirguei- ros, & tendeiros em muita quantidade; sombreireiros, çapateiros, tratantes de todo o mais genero de mercadorias, que costumão vir às feiras, & vendese tanto peixe, & variedade de frutas, que se parece com a fermosa, & populosa Ribeira de Lisboa”83. Mas também em outros dias do ano, como certos Domingos e Dias
Santos, os mercadores afluíam ao Sítio, embora em menor número84. Para além
disso, o Santuário contava com lojas de pequenas dimensões, que existiam desde o século XVII no interior do pátio, no rés-do-chão dos antigos paços, próximos dos locais de alojamento dos peregrinos e do terreiro85.
Contudo, o espaço privilegiado de trocas era a feira realizada na véspera e no dia da Assunção, em que se reuniam vários círios no Sítio. Esta atingira tal relevância que, em 1666, os homens da Confraria de Nossa Senhora de Nazaré solicitaram ao Rei que nesse dia ali fosse estabelecida uma feira franca. Com esta medida, que permitia aos mercadores ficarem isentos de determinados impos- tos, a Confraria procurava fomentar a prática comercial no Santuário, arreca- dando dividendos com o aluguer de terrados. A petição teve o aval do monarca86. Mas com o fim da vinda do Círio de Coimbra, depois de 1747, ter-
83Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fls. 73-73 v, 83 v. 84CNSN, RCNSN, tombo grande, fls. 17v-18 (18 de Setembro de 1623). 85Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 63 v.
86CNSN, RCNSN, pasta 53, maço 9, Registo de ordens régias e outros documentos, documento 17.
minou a feira de 15 de Agosto, porque “os outros Cirios, que vinham nesta occa- sião, mudaram a [data da] sua vinda”87.
Esta mercantilização nas proximidades do espaço sagrado não agradava ao meirinho do Arcebispado que, já em 1623, fazia “vexaçõis aos romeiros que vão a esa hermida empedindo-lhes que não comprem nos Dominguos e Dias Santtos, e no dia da Senhora, mantimentos aos vendeiros para comerem e se irem depois de ouvir miça”, ameaçando os comerciantes, possivelmente, com penas espirituais88. Contudo, os vendedores possuíam o apoio da Coroa, que
prontamente condenou a intervenção daquele oficial episcopal. Com o aumento de importância do Santuário, o crescimento do povoado envolvente e o alarga- mento do período em que se sucediam as grandes romarias, alguns comercian- tes passaram a permanecer no local para além dos períodos festivos, em peque- nas lojas e bancas autorizadas pela Casa de Nossa Senhora de Nazaré.
O Santuário tornou-se, cada vez mais, um espaço de trocas mercantis onde os produtos vendidos eram diversificados: alimentos, produtos de luxo, mas também bens de salvação, de protecção dos devotos e de memorização do culto. Nesse aspecto, pode-se afirmar que a Casa de Nossa Senhora de Nazaré teve um papel específico na promoção da actividade comercial no Sítio. A instituição negociava a venda de medidas, medalhas e missas, procurando deter, em alguns casos, o monopólio comercial destes bens e serviços. Com as transformações
87CNSN, RCNSN, pasta 115, manuscrito de José d’ Almeida Salazar, Memórias..., vol. I, p. 90. 88CNSN, RCNSN, tombo grande, fls. 17 v-18 (18 de Setembro de 1623).
arquitectónicas do pátio da Real Casa e a erecção do palácio, na década de 1720, foram criadas ao nível do terreiro dezenas de pequenas lojas para albergar uma parte significativa do comércio no Santuário. Na segunda metade do século, existiam vinte e sete destes estabelecimentos, ficando alguns da parte de trás do terreiro, próximos do arco e da igreja. Estas lojas eram ocupadas por comercian- tes locais e do exterior, a troco do pagamento de uma renda à Confraria. Alguns deles possuíam mais do que uma loja. Nesse espaço, entre outros, estabeleceram- se barbeiros, cabeleireiros e ourives.
A Real Casa cedia ainda alguns terrados a bufarinheiros, azevicheiras, ouri- ves e outros mercadores, para que pudessem instalar as suas tendas de madeira nos arredores da igreja. Vários problemas surgiram, entretanto, com estes nego- ciantes. Já em 1712, costumavão armar as suas tendas de madeira nos lugares mais concorridos, prejudicando o negócio das lojas fixas89. A ânsia desenfreada
do lucro conduziu a que, cada vez mais, se aproximassem do templo da Senhora. Em 1744, a mesa da Confraria de Nossa Senhora solicitava a intervenção do pro- vedor para retirar estes vendedores da área dos alpendres90. Apenas em 1747, o
reitor Manuel Tavares e os mordomos resolviam este problema. Reunidos em mesa, acordavam a retirada dos comerciantes para uma rua própria, a norte do templo91. Nesta decisão tinham pesado a “porturbação que se ceguia da asisten-
çia dos bafurinheiros azivicheiras e ourives nos alpendres desta igreja com o comcurço de a rumagem e endecencia grande aos dois altares que ficão frontej- ros às portas dos ditos alpendres em que continuamente se estão dizendo missas e a perturbação de que se quexão os capelans que exprimentão quando asistem nos comfiçionarios pello seçuro da gente ouuirem mal os pecados dos peniten- tes (...) alem disto pella grande denificação que com pregos fazem nas paredes dos ditos alpendres”. Para evitar resistências a esta resolução, os mesários solici- taram ao vigário geral do Arcediagado de Óbidos um edital de excomunhão para os transgressores92. E em 1748, o Desembargo do Paço mandava aplicar aos
infractores uma “pena de seis mil reis pagos da cadeia”93.
Além destas lojas e das tendas de madeira, a Real Casa possuía, nos finais de 1770, diversas barracas de madeira e pedra. Uma delas encontrava-se junto à casa dos círios e estava arrendada, em 1779, a Paula Bela Maltez, de Aldeia Galega (Setúbal). Em 1784-1785, existiam três barracas junto da parede da casa do despacho94. Um dos grandes negócios do Santuário era o comércio das medi-
89CNSN, RCNSN, pasta 49, livro de registos e acórdãos, fl. 28 v (acórdão de 22/9/1712). 90CNSN, RCNSN, pasta 62, documento 7.
91CNSN, RCNSN, pasta 49, livro de registos e acórdãos, fl. 105 (acórdão de 15/7/1747). 92Ibidem, fls. 106-106 v (documento emitido em 5/8/1747).
93Ibidem, fls. 109-109 v (provisão de 11/3/1748).
das ou fitas de Nossa Senhora, que serviam como lembrança ou ainda como escapulário da Virgem. Estas eram distribuídas aos devotos, mediante uma con- trapartida em dinheiro, que poderia, ou não, ser voluntária.
As medidas eram bastante procuradas, não só porque permitiam prolongar a presença da Imagem da Senhora de Nazaré no quotidiano dos romeiros, como ainda por protegerem os seus portadores95. Não esqueçamos que estas fitas eram
um instrumento de evocação da Senhora e nesse sentido poderiam ser impor- tantes no momento de pedir a sua intercessão. Era, aliás, habitual o seu uso em situações de doença e de perigo para a vida do devoto96. As medidas constituíam
ainda objecto de esmola à Virgem, um modo de retribuir serviços prestados pela Senhora. No século XVIII, por exemplo, Gaspar Freire de Andrade, de Lisboa, agradeceu à Virgem a mercê de salvar seu filho, Francisco de Sousa, dando-lhe de esmola, “huã cantidade grande de medidas (...) pera o procedido dellas se gastar em suas obras”97.
Antes de 1653, as medidas eram fabricadas por um rendeiro, a quem a Casa autorizava este procedimento. Mas no referido ano, os mordomos solicitaram à Coroa “que sempre a Confraria as fabrique por si”, o que viria a ser autorizado98.
O regimento de 1661 apenas concedia este privilégio à Confraria quando não fosse possível arrendar as ditas medidas, devendo, na ocasião, arrecadar um lucro na ordem dos 200%99. A irmandade chamou a si esta prerrogativa, durante
alguns anos e duma maneira não sistemática100. Mas para se livrar deste traba-
lho, os mordomos procuraram arrendar as medidas, ficando a sua venda ao arbítrio dos rendeiros101. Surgiram alguns problemas com este sistema, nomea-
damente a acumulação de dívidas por parte dos contratadores e a introdução de produtos concorrenciais102. Este foi, aliás, um dos motivos pelo qual o comércio
das medidas sofreu uma quebra em 1712103. É que os rendeiros das medidas e
95Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fls. 111 v e 115.
96Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 36. Para as medidas usadas pelos toureiros do Sítio, João
Saavedra Machado e Maria Antónia Saavedra Machado (introd. e estudo), op. cit., peças de catálogo com os números 149-151. Cf. ainda a ilustr. 68 deste livro.
97Padre Manuel de Brito Alão, Prodigiosas..., fl. 188.
98CNSN, RCNSN, tombo grande, fls. 43-44 (provisão de 22/3/1653).
99Cf. P. Penteado, Nossa Senhora..., vol. II, apêndice I, documento XI. Sobre os limites do lucro nos negó-
cios controlados pela Igreja e pelas instituições religiosas, cf. Eugénio dos Santos, A Igreja e a mentalidade capitalista no Norte de Portugal: Um exemplo concreto. Porto, 1986.
100Um desses anos foi o de 1666 (cf. CNSN, RCNSN, pasta 77, livro de provimentos e contas, fl. 15). 101Sobre estes arrendamentos, CNSN, RCNSN, pasta 77, livro de provimentos e contas, fl. 62v (provi-
mento de 2/11/1684); pasta 38, documentos 38, 57, 59, 95, 117 e 121 e pasta 37, maço 2, documento F. 214 e maço 4, documento F. 298. Ainda pasta 51, maço 3, documento 31 e maço 5, documento 8; pasta 53, documentos 12 e 24.
102CNSN, RCNSN, pasta 49, livro de registos e acórdãos, fl. 28 (acórdão de 14/10/1711) e pasta 77, livro
de provimentos e contas, fl. 98 v (provimento de 1700).
outros ourives passaram também a “vender cadeyas e medalhas de ouro e prata, sem haver bulla nem liçença de S. Magestade”. Segundo o provedor da Comarca devia-se a esta “introduccam das cadeyas” a extinção da “devocam de tomar medidas”. Este negócio foi proibido no Santuário, retomando-se a venda das fitas. Mas esta era interditada em 1726, por três anos, devido a uma pastoral nesse sentido, lançada pelo cardeal D. Tomás de Almeida, durante a sua romaria ao Sítio. Os mordomos trataram então de informar o administrador Diogo de Mendonça Corte Real. A sua resposta ia no sentido de continuar a produção des- tas fitas, se bem que elas devessem ser agora dadas aos romeiros “pello preso que vem a custar sem excesso algum, ficando livre a devosão de cada hum dos de que quizerem dar”. Foi nestes novos moldes que recomeçou a entrega das medidas.
Contudo, em 1736, a mesa da Confraria, preocupada com a falta de lucro deste sistema e com o facto dos capitais empregues neste negócio não poderem ser deslocados para os empréstimos a juros, solicitava dois pareceres sobre a con- tinuidade da venda num sistema próximo do anterior. Os pareceres foram soli- citados aos padres Gabriel Talbot, da Congregação do Oratório, e Frei Manuel da Trindade, do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, no Porto. O primeiro alegava que os mordomos poderiam “levar para a Senhora até 24 por 100” de lucro, enquanto o segundo era da opinião que se deveria manter o sistema de dádiva voluntária dos romeiros104. Em 1737, a Confraria ainda tratava da encomenda
das fitas e da pintura das mesmas. Mas, em 1739, o provedor Estêvão Peixoto Cabral e Castro ordenava que as medidas “se puzecem a pregam na praca a quem mais desse de lucro pera a dita Senhora”. Daí até 1765, foram rendeiros o comerciante António de Matos, de Alcobaça (1739-1746), Manuel Pereira da Costa, de Leiria (até 1748), João Baptista Saraiva, de Alcobaça (1748-1754) e João José de Magalhães (1754-1764) e José Pedro Pereira (1765).
No final da década de 1770, a Real Casa de Nossa Senhora tinha retomado a produção e comercialização directa das medidas. Em 1779, a instituição pagava a António Columbeiro, do Sítio, o “trabalho de hir a Lisboa buscar masos de fitas para se fazerem medidas e se venderem no tempo em que os marchantes custumão vir de romaria”. O trabalho da sua pintura a ouro e a prata era reali- zado no Sítio, sendo um dos artistas contratados para o efeito, Paulo de Almeida Nazaré. As fitas eram depois distribuídas por Joaquim de Almeida Belo, do Sítio. Mas os preços deveriam novamente atingir quantias exorbitantes, pelo que o administrador, Principal Almeida, mandou anular “a exorbitante uzura” que se mantinha na venda das medidas. Aquele eclesiástico ordenou ainda a edificação de uma casa própria para a vendagem das medidas. Recorde-se que, até aí, a sua repartição era “feita na igreja, cauzando no concurso dos cirios a multidão dos
romeiros que as querem, os maiores motins, disturbios, alaridos gritos, e inde- cencias na caza de Deos”. Outro dos produtos comercializados pela Real Casa de Nossa Senhora de Nazaré, em 1783, eram as medalhas, vendidas então a 100 réis cada uma. Eram encomendadas em Lisboa ao ourives António de Andrade105.
A PROCISSÃO
Enquanto decorriam as cerimónias religiosas, o clero procurava que não se realizassem outras actividades no Santuário, nomeadamente actos comerciais e festejos de carácter profano. As principais celebrações religiosas marcavam o calendário das festas. Nalguns dias, era aos cortejos processionais que competia a abertura das cerimónias, como sucedia com o Círio de Penela nas vésperas da Assunção de Maria. Nestas procissões rogava-se a intercessão da Virgem para a comunidade que as promovia. Frequentemente, as fogaças e outras oferendas integravam os cortejos, o que podemos entender como uma espécie de paga- mento colectivo de mercês recebidas por intercessão da Senhora de Nazaré.
No início de Seiscentos, as procissões do Sítio realizavam-se no terreiro do Santuário. Estas uniam o templo de Nossa Senhora à Ermida da Memória. O percurso pretendia relembrar a história da Imagem e do milagre de D. Fuas. Tratava-se de um itinerário que ressuscitava a memória do tempo passado e da hierofania, actualizando-a. A realização desta caminhada era também uma forma de apropriação do espaço sagrado e das suas virtudes, por parte das comunidades envolvidas nela. Eram os benefícios da participação nesse ritual que os círios e os romeiros pretendiam levar para as suas terras. Não sabemos se, no século XVIII, este percurso foi preterido pelo de circundação do templo da Senhora ou da praça. Durante muitos anos, a procissão do Círio dos Saloios rea- lizava-se em torno desta última e as procissões da Ressurreição e do Corpo de Deus, ao redor da Igreja e do terreiro106.
O cortejo do Círio de Óbidos, na centúria de Seiscentos, fazia conduzir “debaixo de hum rico pallio h~ua fermisissima imagem da Senhora, acompa- nhada de muitos clerigos com suas ricas capas, & de musicos de muy estremadas fallas, & diãte vay a fermosa bãdeira da Senhora com a insignia do caualeiro, & penedo, & junto a ella chacotas, danças, folias, & outros folgares com muitos emmascarados”107. A presença destes elementos festivos de características profa-
nas nas procissões portuguesas foi desaparecendo, ao longo do século XVII, por
105CNSN, RCNSN, pasta 73, livro de despesas de 1783, fl. 297.
106CNSN, RCNSN, pasta 115, manuscrito de José d’ Almeida Salazar, Memórias..., vol. I, p. 162. Ainda
pasta 35, documento 11.
acção dos visitadores eclesiásticos. A julgar pelo caso da procissão do Corpo de Cristo de Lisboa, o poder régio teve parte activa na repressão destes elementos profanos108. Por esse motivo, na centúria seguinte não há notícia de que os cor-
tejos processionais no Santuário incluíssem este tipo de representações.
Em contrapartida, sabemos que o espectáculo obedecia muito a um cerimo- nial com sequências pré-estabelecidas. A hierarquia do cortejo do Círio da Prata Grande, por exemplo, encontrava-se estipulada, em alguns aspectos, no seu pró- prio compromisso. Uma das indicações que este fornecia era a de reserva das varas dianteiras do palio para os mordomos109. No Santuário, no princípio do
século XIX, a procissão iniciava-se no interior da igreja. O reitor, devidamente paramentado com estola e capa de asperges, transportava consigo a Imagem da Virgem “que costuma sahir nas procissões”. Esta era deslocada do altar-mor até ao palio “indo aos seus lados dous sacristas com dous cirios accêsos e ermitão”.
O cortejo avançava até às escadas principais do templo. Aí, sob o repique dos sinos e o estalar dos foguetes, ficava à espera que os “festeiros do Cirio vestidos com as suas capas de seda branca” distribuíssem vinho, confeitos e moedas, auxi- liados pelas festeiras. A única função daquele eclesiástico, nesta cerimónia, era a de ser portador da força sagrada. Depois de terminada a distribuição, a Imagem regressava à igreja. Posteriormente, os homens do Círio, acompanhados por músicos, davam a volta à praça, recolhendo de seguida aos seus quartéis110. Há
alguns aspectos interessantes a anotar neste cerimonial, como por exemplo, a assistência da Imagem e do reitor à distribuição de alimentos. Poderíamos entendê-la como uma forma de vigiar a prática da caridade cristã, por parte da comunidade, sob o olhar da Virgem. Contudo, algumas destas populações não se caracterizavam pela beneficência, no seu quotidiano. Noutra perspectiva, a distri- buição de alimentos, dadas as suas características de bodo, poderia representar o exorcismo da vinda de catástrofes naturais sobre a colectividade. Recordamos que, já no século anterior, o Padre Brito Alão se referia a este tipo de práticas no Santuário, por parte das Confrarias de Sintra, Colares e Mafra, constituídas, na sua maioria, por lavradores. Estes, “depois de fazer~e suas festas, dão, & repartem pellos officiaes, & pessoas ~q se achão presentes, bollos de açucar & farteis”111.
Neste sentido, a manutenção de comportamentos ancestrais durante as pro- cissões constitui uma forma de assegurar aos participantes a eficácia dos seus ritos. Isto mesmo realçou o Professor Jean Delumeau, defendendo ainda que toda a inovação perturbaria a segurança dos crentes112. Contudo, este facto não
108Maria Eugénia Reis Gomes, op. cit., p. 19-20.
109Cf. P. Penteado, Nossa Senhora..., vol. II, apêndice I, documento XIV.
110CNSN, RCNSN, pasta 115, manuscrito de José d’ Almeida Salazar, Memórias..., vol. I, p. 165-6. 111Padre Manuel de Brito Alão, Antiguidade..., fl. 89 v.
nos deve iludir. A estabilidade das práticas religiosas, na sociedade portuguesa de Antigo Regime, de características tradicionais, é algo muito discutível. Já demonstrámos como alguns rituais das procissões seiscentistas foram suprimi- dos. Há agora a anotar que outros foram alterados por elementos ligados à Igreja, como esta procissão do Círio da Prata Grande, no Sítio, que a partir de 1825 passou a contar com um altar portátil nas escadas da igreja113. O que é inte-
ressante observar é que esta inovação nos cerimoniais religiosos do Santuário obrigou à permanência de um conjunto importante de anteriores ritos.
No âmbito das procissões realizadas no Sítio, há ainda a considerar as de carácter rogativo, em que os participantes solicitavam insistentemente um mila- gre para exterminar uma calamidade que afectava a vida comunitária. É o caso da que foi promovida pelos cistercienses de Alcobaça, após o terramoto de 1755.
A MISSA
As festas religiosas da Senhora de Nazaré, um dos pontos mais altos das peregrinações ao Santuário, centravam-se na celebração eucarística em louvor da Virgem. A missa, tal como hoje, era então considerada pelo Clero como o prin- cipal acto de culto divino. Enquanto cerimónia colectiva, ela traduzia-se na reac- tualização do sacrifício de expiação de Cristo, numa oferta voluntária do Senhor por todos os homens pecadores. Por esse motivo, a missa era um momento ímpar de adoração divina, de recepção da Eucaristia e de remissão de pecados. Autores como Diogo Ramada Curto vêem aqui a “capacidade das cerimónias dramatizarem o social e fabricarem grupos e personagens”114. O certo é que
durante muito tempo as virtudes desta cerimónia foram bastante publicitadas, sobretudo por eclesiásticos. Segundo a sua perspectiva, a missa possibilitava a adoração a Deus, à Virgem e aos Santos. Através dela poderia-se ainda solicitar o perdão, a graça e a protecção divina ou, como defendia o missionário apostólico, Padre Leonardo de Porto Maurício, aplacar a ira de Deus e evacuar almas do Purgatório115. Poderia constituir pois, mais um tempo de purificação e renova-