Em um sentido mais amplo, a reescrita tem sido utilizada quase como um sinônimo de intertextualidade36 e pode ser aplicada a produtos de diferentes códigos
36 Lembrando que o conceito intertextualidade foi criado por Julia Kristeva em resposta às ideias de Mikhail
Bakhtin, e refere-se às relações entre um texto e quaisquer outros textos que invoca, seja por alusão implícita ou citação explícita.
semióticos, não só a obras literárias. Já num sentido mais estrito, reescrita designa tipos específicos de práticas intertextuais literárias que vão desde as sucessivas transformações de um mito, que podem ser encontradas já na Antiguidade, até a revisão de obras canônicas, algo muito comum na pós-modernidade. Portanto, a reescrita tornou-se reconhecidamente uma especialidade dentro de crítica literária e é popular entre aqueles interessados na natureza intertextual de textos.
Em estudos recentes sobre o assunto, diversos teóricos procuram oferecer suas contribuições para definirem o que é reescrita. Há algumas diferenças em relação à definição, mas há também semelhanças em seus princípios básicos. Para David Cowart, em sua obra Literary Symbiosis (1993), que se utiliza de termos da biologia, a reescrita é como uma forma de “simbiose literária”, sugerindo que o “texto hospedeiro” (a reescrita) e o “texto hospede” (o original) entram em algum tipo de relacionamento. Segundo Cowart, a reescrita é uma categoria tão abrangente que ele a considera fundamental para a própria literatura como um todo (1993, p. 13), ainda que seu interesse específico esteja no tipo de reescrita que se apropria e reformula apenas alguns dos personagens e das ações de textos prévios. Nesta perspectiva, trata-se de algo mais que uma “intertextualidade ordinária” e menos que, ou pelo menos não necessariamente tão extensa como, uma apropriação em larga escala da estrutura geral da trama de textos prévios (1993, pp. 6-7).
Com Peter Widdowson, a partir do ensaio “‘Writing Back’: Contemporary Re- visionary Fiction” (2006), a reescrita pode ser vista como sinônimo do que ele chama de
romances revisionistas (re-visionary novel: abarca tanto a ideia de revisionar – ver de
forma nova - quanto de revisar – corrigir), e isto significa basicamente escrever de volta textos canônicos do passado. Em termos gerais, segundo Widdowson, uma ficção revisionista pode ser interpretada como um exemplo do conceito de hipertextualidade formulado por Gerard Genette37, que inclui “tudo aquilo que define um texto em relação, seja manifesto ou oculto, com outros textos” (2006, p. 499). Contudo, Widdowson utiliza- se desta definição, em que todos os textos poderiam ser referidos como hipertextos, a fim de conceber a re-visão como um subgênero, à parte e específico (“radicalmente subversivo”), de metaficção historiográfica, com o argumento de que alguns “tipos de
37 O francês Gerard Genette, crítico literário e teórico da literatura, em sua obra Palimpsestos: a literatura
de segunda mão, aponta a hipertextualidade como a relação macrotextual que se estabelece entre um texto
fonte, isto é, o hipotexto, e a imitação ou transformação do mesmo, ou seja, o hipertexto. “Entendo por
hipertextualidade toda relação que une um texto B (que chamarei hipertexto) a um texto anterior A (que,
naturalmente, chamarei hipotexto) do qual ele brota, de uma forma que não é a do comentário” (GENETTE, 2006, p. 12).
escrita literária são mais hipertextuais do que outros” (pp. 496-499). Assim, Widdowson descreve entre as características da ficção revisionista a presença contínua do hipotexto no hipertexto e sua dimensão ideológica e política. Em suas palavras:
Romances revisionistas mantém o pré-texto em evidência, de modo que este não é apenas a “fonte” invisível de uma nova versão moderna, mas trata-se de um intertexto constantemente invocado e em permanente diálogo: ou seja, o leitor é forçado em todos os pontos a recordar a presença do pré-texto e perceber como a re-visão reflete isso (2006, p. 502).
E mais adiante, Widdowson acrescenta:
... talvez o mais importante, romances revisionistas quase sempre têm um claro impulso político-cultural. A maioria deles estão em acordo com a crítica feminista e/ou pós-colonialista na exigência de que a cumplicidade de textos do passado na opressão – quer como subliminarmente inscrito neles ou como efeito de seus lugares e funções enquanto ícones canônicos em políticas culturais – seja revista como parte do processo de restauração de uma voz, de uma história e de uma identidade para aqueles que até aqui foram explorados, marginalizados e silenciados por interesses e ideologias dominantes (2006, pp. 505-506).
Widdowson reconhece que o termo revisionista por ele utilizado provém de um texto da poeta e crítica feminista norte-americana, Adrienne Rich, “When We Dead Awaken: Writing as Re-vision” (1971). Neste texto, Rich já argumentava sobre a necessidade de lutar contra o domínio da cultura patriarcal revisando/revisionando seus textos canônicos, quer dizer, analisando-os com novos olhos para revelar a ideologia subjacente nos mesmos, algo que poderia ser realizado tanto na crítica como na criação mediante a reescrita dos mesmos.
É com intenção semelhante que procede outro crítico, Christian Moraru. Na obra
Rewriting: Postmodern Narrative and Cultural Critique in the Age of Cloning (2001),
Moraru refere-se mais diretamente ao termo reescrita. Ele define como “uma forma intertextual que enfatiza fortes vínculos com obras cronologicamente anteriores, cujo traço é discernível no texto e é marcado pelo autor como uma presença ‘intencional’ em vez de um eco esquivo e indistinto” (MORARU, 2001, p. 19). De acordo com sua terminologia, Moraru designa o texto posterior como reescrita (rewrite) e o texto prévio como reescrito (rewritten). Então, para Moraru, a reescrita é uma renarrativação de uma obra anterior em prosa (ele não analisa reescritas poéticas) caracterizada por amplos paralelos na estrutura narrativa entre uma obra e outra. Com efeito, a renarração do reescrito é essencial para caracterizar o tipo de reescrita a que Moraru se refere, pois, para
ele, a presença de uns “poucos intertextos insuficientemente desenvolvidos” ou que não se configuram como centrais para a obra não permitem classificá-la como reescrita. É fundamental que se possa reconstruir, na reescrita, a estrutura análoga do texto anterior, primeiro “como enredo ou segmento de enredo, personagens, motivos e então, mais amplamente, como doutrina estética, estilo ou ideologia” (2001, p. 20).
Há na compreensão de reescrita analisada por Moraru um forte acento naquilo que ele caracteriza como sendo simultaneamente intensivo e extensivo. O caráter intensivo é definido como a operação textual (a renarração em si). Dessa maneira, a intensidade varia com o grau de autoconsciência no processo de reescrita e, para Moraru (2001, p. 25), quanto mais esse processo é “enfatizado, exibido, tematizado e teorizado como um princípio construtor central” da obra, mais intensiva é a reescrita. Já a extensão diz respeito a seu caráter crítico, em termos políticos e ideológicos, e avalia quão “ostensiva e programaticamente” a reescrita desloca e repõe mais do que intertextos literários e modos de textualização, ou seja, como as “tendências críticas e revisionistas” da reescrita se manifestam e são percebidas.
Em suma, eu restrinjo, por um lado, a reescrita como intensiva, recorrente e bastante detalhada ao reconstituir um texto do passado. Por outro, quero ver como esse tipo de reescrita se estende em narrativas que se envolvem com as múltiplas questões culturais, ideológicas e políticas no presente (MORARU, 2001, p. 26).
Interessa a Moraru, portanto, a reescrita que é narrativamente intensiva e ideologicamente extensiva. Para ele, a reescrita não tem por que ser um jogo intertextual introvertido, quer dizer, associada com a reflexão metaliterária, mas que pode extroverter- se para intervir no âmbito da cultura, da sociedade, enfim, da realidade, e adotar uma agenda política não oculta. Trata-se, assim, de textos que ao reescrever obras canônicas trazem à luz questões de raça, gênero ou classe que eram suprimidas, e o fazem a partir de premissas ideológicas associadas com a pós-modernidade, o feminismo, o pós- colonialismo, a desconstrução etc. A reescrita torna-se aqui uma espécie de
contraescritura porque é revisionista e não complacente; é extrovertida porque é cultural
ou ideológica e não meramente reflexiva ou auto referencial, ainda que possua também a dimensão metatextual. A reescrita pode ser descrita como uma conjunção entre reconstituição e comentário crítico.
Nesta perspectiva, a reescrita é o tipo de relação intertextual que mais radicalmente revisa ou refuta escritos anteriores exatamente por manter intacto o universo diegético do texto prévio. Assim, quanto mais idêntico ao modelo for o universo
apresentado na reescrita, mais subversivo será sua leitura a contrapelo e mais declarado o desejo de supri-lo ou substituí-lo; sob a aparência de apresentar o mesmo se está oferecendo o contrário.
Conforme exposto, os críticos acima mencionados situam suas análises a partir do que se costuma chamar de pós-modernidade. Ao que parece, entretanto, não diferem formalmente dos processos de reescritas a que no passado já eram submetidas certas obras. Ora, a reescrita “pós-moderna” não deixa de ser a mutação de uma prática bem antiga, mas com interesses e terminologia atualizadas. Na realidade, é o caráter revisionista da reescrita pós-moderna sua manifestação mais sintomática ou significativa, ainda que esse revisionismo literário também não seja um descobrimento pós-moderno, apenas o são suas ideias sobre a textualidade, a história, o gênero, a raça etc. É tal ideologia subjacente (muitas vezes transbordante), firmemente ancorada em um contexto cultural específico, a única manifestação realmente nova.