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Dans le document Control Statement Information (Page 168-171)

Quase dez anos depois do aprendizado no Monte Athos, Kazantzákis estará em Viena, sentindo-se profundamente abalado com a situação de desalento na qual praticamente toda Europa havia mergulhado, devido às convulsões políticas e sociais resultantes da Primeira Guerra Mundial. Além disso, o escritor encontra-se estremecido com a situação desastrosa de seu próprio país que sofria com o conflito da Tragédia da Ásia Menor53. Diante de tal quadro, a visão de Deus em Kazantzákis manifestará tons

53 A Grécia vivia em 1922 uma guerra de efeitos devastadores em número de mortos e no plano ideológico.

Milhares de gregos foram dizimados em um embate contra os turcos em Esmirna (localizada na Ásia Menor). As sequelas da tragédia atingiram não só as vítimas do ataque, mas igualmente os gregos do continente, que precisaram receber e abrigar os fugitivos desterrados.

pessimistas. De Viena ele escreverá para sua esposa, Galatea54, no dia 28 de junho de

1922, dizendo: “Aqui Deus não desce com brisas e andorinhas, mas permanece profundo, cheio de feridas e grita! ” (PIZARRO, 2000, p. 254). Em dezembro do mesmo ano, instalado fazia poucos meses em Berlim, ele escreverá para Sikelianós, o companheiro da crise religiosa durante a peregrinação do Athos: “nossos caminhos se separaram... porque sinto que meu Deus anda cada vez mais no deserto e quer superar o último combate, a esperança” (KAZANTZAKI, 1974, p. 76).

A experiência da crise europeia e da catástrofe da Ásia Menor acentuou em Kazantzákis a noção de um Deus ferido, afundado no deserto e que grita desesperadamente para ser salvo. Evidentemente, não se pode dizer que Kazantzákis, aos quarenta anos de idade, fosse um cristão tradicional, mas tampouco que era um ateu. Para Peter Bien (1996, p. 116), é possível afirmar que o escritor grego, em nenhum momento da sua vida madura, esteve sem alguma forma de crença teísta (mais precisamente, panenteísta): fé em uma força infinita inerente à matéria – isto é, a crença em um tipo de transcendência dentro da imanência. Fato é que, entre o final de 1922 e começo de 1923, quando sua fidelidade a Cristo estava desaparecendo, ele escreve a obra que seria seu credo55, Ascese-Os Salvadores de Deus. Kazantzákis menciona que esta obra é um “credo pós-comunista”56, mas, de acordo com Bien, também poderia ser chamada de um credo

“meta-cristão” 57, já que muitas de suas meditações surgiram no Monte Athos e refletem

em alto grau a espiritualidade cristã ortodoxa. A aparente religiosidade anticristã deste período não eliminou da mente do escritor a crença cristã de que um reino de paz, amor e criatividade possa um dia surgir sobre a terra.

Ele [Kazantzákis] acreditava num estado celestial sem céu, um estado alcançado através da evolução, um caminho que conduz à cessação da luta e da divisão, ou, em sua terminologia favorita, um caminho que conduz à transubstanciação da matéria em espírito. Uma tal crença, não totalmente anticristã e nem plenamente cristã, é melhor denominada de meta-cristã (BIEN, 1996, p. 117).

54 Galatea foi a primeira esposa do escritor, da qual se separou em 1925. Mais tarde, então, se casará com

Eleni.

55 “Askitikí [Ascese] foi reconhecido por Kazantzákis, desde o momento de sua composição até o fim de

sua vida, como o seu ‘credo’ definitivo, o impulso por trás de toda a sua prosa e poesia posteriores” (BIEN, 2007, p. 67).

56 Esta menção aparece como uma nota na publicação original de Ascese, em 1927. Kimon Friar, tradutor

da edição em inglês, em sua introdução à obra cita a passagem: “Que Ascese seja vista como a primeira tentativa lírica, o primeiro clamor de um CREDO pós-comunista” (The Saviors of God: Spiritual Exercises. New York: Simon and Schuster, 1960, p. 22).

Bien explica que o prefixo “meta” aqui tem o sentido grego de “após” ou “depois”, e, no caso, quer dar a entender acerca de uma teologia que substituísse a teologia cristã tradicional. Tal compreensão corresponde bem ao tom profético de Ascese e sua proposta de uma nova redenção para a humanidade. “É um evangelho (boa notícia) contendo uma teologia, um método de iniciação ao conhecimento de Deus e prescrições para o comportamento” (BIEN, 2007, p. 69). Pizarro, em referência a uma citação de Kerényi, anota que Ascese é a tentativa de uma nova religião, “um chamado para a realização de um mito, conforme demonstra seu subtítulo Salvatores Dei” (PIZARRO, 2003, p. 278).

Entrelaçada com diversas correntes de pensamento e pelas mais variadas cosmovisões58, Ascese possui cinco breves capítulos – “A preparação”, “A marcha”, “A visão”, “A prática” e “O silêncio” – que soam como etapas a serem percorridas e cujo objetivo é alcançar a liberdade plena, a independência de tudo o que cria laços de adesão. Uma de suas máximas e que encerra a primeira etapa é: “Agora sei: não espero nada, não temo nada, libertei-me da mente e do coração, subi mais alto, sou livre. É isso que eu quero. Não quero senão isso. Eu buscava a liberdade” (KAZANTÁKIS, 1997, p. 58). Ao longo da trajetória de Ascese, o exercício da liberdade ocorre mediante uma constante dedicação ao espiritual e por meio de uma busca para entender o que ou quem é Deus. Durante a busca descobre-se que Deus luta dentro de cada ser vivo para se libertar e que implora por ajuda. Trata-se, pois, de um Deus que corre perigo e pelo qual o ser humano deve responsabilizar-se. Por isso, para Kazantzákis (1997, p. 119), “Não é Deus que nos irá salvar; nós é que o salvaremos lutando, criando, transfigurando a matéria em espírito”. Percebe-se, assim, que Ascese é um evangelho sui generis. No capítulo que fecha a obra, “O silêncio”, encontramos as seguintes máximas: “A alma é uma língua de fogo que lambe e forceja por queimar a massa sombria do Universo. Um dia o Universo inteiro se converterá num grande incêndio”; e segue: “O fogo é a primeira e última máscara do meu Deus. Dançamos e choramos entre duas grandes fogueiras” (p. 146). Nas últimas orações lemos:

Creio num Deus [...] poderoso mas não onipotente [...] imperador no comando de todas as forças de luz, visíveis e invisíveis. / Creio nas máscaras efêmeras e inumeráveis que Deus usou ao longo dos séculos e por trás de seu fluxo incessante distingo a indissolúvel unidade. / Creio na sua luta tenaz e insone para domar a matéria e fazê-la frutificar [...]. / “Socorro! ” Gritas, “socorro! ” Gritas, e eu te escuto, Senhor. / Dentro de mim, os antepassados, os descendentes, as raças todas, a terra inteira ouve teu grito com terror e alegria. / Bem aventurados os que ouvem e correm

58 Pode-se notar em Ascese indícios dos pré-socráticos, de Kant, de Marx, de Nietzsche, de Bergson, da

a libertar-te, Senhor, dizendo: “só eu e tu existimos”. / Bem aventurados os que te libertam, unem-se a ti e dizem: “eu e tu somos um”. / E três vezes bem aventurados os que carregam nos ombros, sem fraquejar, o grande, o extraordinário, o terrível segredo: sequer este Um existe! (pp. 149-150)

Trata-se de um final bastante enigmático e complexo, mas coerente com o todo da obra que ao longo do seu desenvolvimento vai sustentando um tipo de “visão trágica” e uma espécie de “niilismo heroico”. Isso quer dizer que em Ascese o mundo trágico não perde sua beleza, a tragédia da vida humana não é rejeitada e o absurdo do incompreensível não provoca a diminuição no desejo de viver. Por isso, trata-se de um niilismo heroico, uma postura de plena liberdade que não antepõe outro bem que não seja a união com o próprio destino, com a vida tal como ela é (ser livre é não temer o destino). Em Ascese encontramos a seguinte passagem: “Seja como for, lutamos sem nenhuma certeza e nossa virtude, por não estar segura de recompensa, se reveste de maior nobreza” (p. 132). Quanto ao desafio de salvar Deus, trata-se ao menos de deixar Deus ser Deus e não um outro nome para nossos medos e esperanças.

Portanto, sem promessas de consolo ou vitória, sem esperança de um paraíso,

Ascese sugere o compromisso e o envolvimento sinceros com a totalidade da vida aqui e

agora. Não obstante, ainda que a obra parte de um território desolado, sem admitir consolos, ídolos e nem prejuízos, o que se pretende, no final das contas, é empreender um caminho de salvação, uma via que, partindo de uma negação absoluta, acabe em algum tipo de afirmação. Neste caso, se poderia pensar que o autor não pretende eliminar a esperança dos seres humanos. O que faz é limpar a palavra, ou seja, ele a purifica da carga de alienação e de superficialidade que nela se acumulou ao longo do tempo. Seja como for, em todos os sentidos que aqui se apresentou Ascese, nota-se os sinais de uma obra que pode ser interpretada como meta-cristã, ou pós-dogmática.

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