Em certo sentido, haveria de se considerar que muitos romances sobre Jesus ficariam de fora da compreensão de uma reescrita voltada para agenda política ou ideológica. Como foi visto, devido aos seus interesses na pós-modernidade, os críticos mencionados preferem pensar as reescritas como textos que conscientemente contrariam, subvertem, respondem criticamente, ou desconstrói o texto original e/ou seu significado cultural, ideológico. Assim, apenas alguns poucos romances sobre Jesus satisfariam plenamente as exigências de Moraru ou Widdowson. Com certeza O evangelho segundo
Jesus Cristo, de Saramago, e Ao vivo do calvário, de Gore Vidal, são obras do começo
ao fim intencionalmente subversivas em relação aos evangelhos canônicos: ambas ironizam a sensibilidade cristã e põem em causa os textos em que tal sensibilidade se baseia.
Mas, conforme indaga Beth H. Benedix (2009, pp. 12-13), e todos os outros romances sobre Jesus, aqueles que não tem clara intenção subversiva ou que transformam apenas poucas passagens dos evangelhos, qual o lugar deles no quadro teórico das opções disponíveis sugerido pelos teóricos pós-modernos? Ora, a questão é importante porque, no fundo, o principal elemento pós-moderno indicado pelos teóricos da reescrita parece ser a característica de reescrever continuamente: reescrever diferentemente textos originais, e transformar, durante o processo, os modos de pensá-los e de senti-los. É
precisamente por isso que se quer experienciar (ler, ver, ouvir) as reescritas antes de tudo. Benedix vai mais longe no sentido de qualificar o diferentemente acima em termos ainda mais radicalmente pós-modernos: reescritas bíblicas sempre são subversivas, irônicas e desconstrutivas – independentemente das intenções do autor. Ou seja, as mudanças que inevitavelmente um autor faz ao reescrever os evangelhos, ainda que poucas, são improváveis de serem inteiramente neutras ou sem qualquer significado teológico.
Uma importante razão para isso é que a Bíblia, enquanto texto sagrado, está protegida por um território cultural. Qualquer mudança que se faça no texto original pode causar grande desconforto em posturas fundamentalistas. Basta lembrar das maciças campanhas defensivas lançadas contra A última tentação quando foi publicada em 1955, e, do mesmo modo, em 1988, quando o romance foi adaptado para o cinema, com direção de Martin Scorsese38. Mas, segundo Benedix, “mesmo as mais bem intencionadas e piedosas das reescritas dos evangelhos são suscetíveis de ultrapassarem alguns limites inaceitáveis, por causa das próprias ambiguidades inerentes ao texto original” (2009, p. 13).
Isto posto, dou agora um passo para trás, no sentido de retomar e dar uma concepção ainda mais ampla à noção de romances sobre Jesus como reescritas dos evangelhos, sugerindo o seguinte: a ideia de reescritas dos evangelhos pode assemelhar- se, antes de tudo, ao conceito de “Rewritten Bible”, que foi introduzido por Geza Vermes ao descrever a literatura judaica pós-bíblica, tais como as Antiguidades Judaicas de Flavio Josefo ou o livro dos Jubileus (VERMES, 1973, pp. 67-126). Estas obras recontam histórias da Bíblia servindo-se muitas vezes da suplementação e da interpretação. Aos suplementos fictícios adicionados às histórias bíblicas, James Kugel chama de “expansões narrativas”. Conforme Kugel (1994, p. 6): “Uma expansão narrativa pode consistir de qualquer coisa não encontrada na história bíblica original – geralmente, uma ação adicional realizada por uma ou mais pessoas da história ou palavras adicionais faladas no curso dos eventos”. Isso pode ser tão pequeno como apenas uma nova palavra inserida ou tão extenso como o acréscimo de episódios inteiramente novos. Sob este ponto de vista, a diferença entre “Rewritten Bible”, de Vermes, e os romances sobre Jesus, classificados aqui como reescritas dos evangelhos, parece ser antes de quantidade do que de qualidade. Em essência, ambos se compõem do mesmo tipo de reescrita, mas os
38 Uma análise sobre a recepção dessa obra, tanto do livro como do filme, será feita no próximo capítulo
romances são mais longos e mais constantes em seus esforços de reescrever ao reproduzir vários episódios da vida de Jesus, em vez de uns poucos.
A teórica israelense Ziva Ben-Porat, ao formular o conceito de reescrita para aplicá-lo ao romance O evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, retoma basicamente o que já foi aqui exposto mais detalhadamente. Conforme a teórica, a reescrita aponta para o procedimento de “recontar uma história conhecida, de tal maneira que o texto resultante, a reescrita, é, simultaneamente, uma composição original e uma versão reconhecível, envolvendo uma releitura crítica da fonte” (BEN-PORAT, 2003, p. 93).
A formulação de Ben-Porat reforça o aspecto de que a reescrita chama a atenção por sua natureza intertextual ao utilizar um texto original como bloco principal de construção das suas obras. Deve ser observado ainda que, por ser construído sobre obras anteriores, há um inerente “pacto de leitura” embutido no processo de desenvolvimento da reescrita, que atua como um elo interpretativo entre o original e seu derivado.Quando se fala de “pacto de leitura”, isto quer dizer um conjunto de expectativas quanto ao que a reescrita irá conter e ao modo como ela será lida; expectativas estas que vem à tona quando o leitor torna-se consciente do gênero particular da obra, do público-alvo e quaisquer outras informações pertinentes para a sua leitura/interpretação. Este pacto denota um modo particular de leitura em vez de simplesmente apontar o tipo de escrita de um texto. A reescrita depende, pois, da habilidade do leitor para efetivar este pacto de leitura codificado no texto.Assim que o leitor torna-se consciente da conexão da reescrita com textos precedentes, estes textos anteriores, então, nunca poderão ser descartados como irrelevantes porque serão referências durante a leitura da reescrita, e seu conhecimento é essencial para uma melhor compreensão e interpretação39. Segundo Ben- Porat (2003, p. 94):
Uma vez que um texto é percebido como uma reescrita ele incita àquele que o percebe a lê-lo e processar a nova informação em uma relação particular com um texto/fonte declarado ou assumido: o mapeamento do novo texto sobre o anterior implica a percepção de links como transposição fiel/infiel, representação ou substituição, omissões aceitáveis/inaceitáveis, adições e mudanças.
39 Nesse sentido, diz-se que “o leitor que partilha da cultura do autor tem, necessariamente, um intertexto
Por conseguinte, a realização deste pacto de leitura não só afeta a interpretação da reescrita, mas também pode alterar o relacionamento e a compreensão do leitor com o próprio texto original.
Especificamente no caso dos romances sobre Jesus, eles são considerados reescritas dos evangelhos porque o seu bloco principal de construção vêm dos evangelhos canônicos, ainda que partes adicionais também são muitas vezes importados de outros textos. Neste sentido, os romances sobre Jesus podem muitas vezes incluir os evangelhos não canônicos, textos historiográficos antigos, como aqueles escritos por Fílon ou Flávio Josefo, ou ainda os resultados da pesquisa do Jesus histórico. Adele Reinhartz, no artigo “Rewritten Gospels” (2009, p. 177), diz que para uma obra ser qualificada como tal (isto é, uma reescrita dos evangelhos) deve contar uma história sequencial da vida de Jesus com base nos relatos evangélicos, ou seja, seguindo seu “sistema geral e impulso narrativo”, ao mesmo tempo que adiciona detalhes suplementares e procura apresentar a história já conhecida de uma maneira nova e criativa.
Deve-se dizer ainda que o material evangélico usado na reescrita não está a salvo de ser transformado, aliás, como tudo o que é importado para o mundo ficcional de um romance sobre Jesus. Ainda que algumas reescritas sejam mais miméticas na forma e no conteúdo, também podem ser, simultaneamente, subversivas na sua postura em relação aos evangelhos. De fato, foi destacado que a subversão ou mesmo a inversão, principalmente das disposições ou papéis dos personagens, são algumas das práticas mais comuns em reescritas.Tais transformações não podem ser alcançadas apenas pondo em causa os eventos ou provérbios particulares registrados nos evangelhos, mas também por desafiar elementos mais essenciais de suas narrativas, como a visão de mundo pressuposta ou seus retratos cristológicos. Neste aspecto, a importação de personagens e eventos adicionais cria novas possibilidades de subversão, transformando a dinâmica interpessoal e exibindo novas facetas dos personagens mais conhecidos.O quanto uma reescrita é fiel ou divergente dos evangelhos, no entanto, varia de acordo com cada romance e muitas vezes a partir de uma cena para outra dentro de um mesmo romance.