Ao longo das décadas o assunto Jesus na ficção moderna tem atraído o interesse principalmente daqueles que se dedicam a estudar religião. Como resultado, preocupações em torno dos conteúdos – teológicos e/ou filosóficos – frequentemente precedem àqueles relacionados à forma ou ao gênero dos textos. Os interesses religiosos e teológicos concentrem-se mais sobre o modo como Jesus é descrito (sobre a medida em que a pesquisa acerca de Jesus se reflete nesses romances, nas conotações religiosas ali presentes e na crítica social e eclesiástica apresentadas). Contudo, romances sobre Jesus continuam sendo obras literárias e precisam ser avaliadas de um ponto de vista literário. Por este anglo, a obra Fictional Transfigurations of Jesus (1972)26, de Theodore Ziolkowski, continua sendo uma referência27. Ziolkowski, professor emérito de literatura
25 O debate sobre o Jesus histórico, que era restrito aos ambientes acadêmicos, de alguns anos para cá
também tomou uma direção mais publicística, ligada a editoras nacionais e internacionais, junto com investigações televisivas que divulgam conteúdos até então inacessíveis aos demais. Tudo isto, obviamente, também tem sua representação imediata dentro da internet.
26 Usarei aqui a edição em castelhano, traduzida como La vida de Jesús en la ficción literária (1982). 27 Magdalena Maczynska, em The Gospel According to the Novelist, realça a importância da obra “Fictional
Transfigurations of Jesus” (1972), de Theodore Ziolkowski, que, depois de quase meio século, continua a ser o estudo literário mais abrangente sobre romances baseados nos evangelhos (2015, p. 11).
comparada em Princeton, na mencionada obra, procura identificar e analisar uma categoria específica, “as transfigurações ficcionais de Jesus”, e trabalha com romances em que a vida de Jesus foi totalmente secularizada. Alguns críticos argumentariam que tais transfigurações de Jesus estão destinadas ao fracasso, primeiro porque todo o enredo até o fim da história já é conhecido de antemão e, segundo, porque toda imitação deverá ser necessariamente inferior frente ao original. Ziolkowski, porém, sustenta que tais argumentos contra as transfigurações não podem ser aceitos. Ora, os mesmos argumentos também invalidariam qualquer possibilidade do gênero ficção posfigurativas (isto é, literatura baseada em mitos e lendas preexistentes), tais como: Doutor Fausto, de Thomas Mann, e Ulisses, de James Joyce (ZIOLKOWSKI, 1982, p. 27). Desacreditar estas obras seria absurdo. Além disso, deve-se ter em conta que os romances sobre Jesus não são um gênero diferente de ficção como tal. O que os diferencia de outros relatos ficcionais é justamente o fato de trabalharem uma narrativa tão carregada de significados para o mundo ocidental, o que, obviamente, acarreta consequências. Contudo, as ficções sobre Jesus não podem ser avaliadas sem que se considere as forças da convenção e da tradição literária que as formaram.
No primeiro capítulo de seu livro, Ziolkowski busca uma definição operativa para as transfigurações de Jesus, distinguindo-as de outras categorias ficcionais que tomam a vida de Jesus, ou se inspiram nela, e com as quais poderiam ser confundidas. Com efeito, além da transfiguração de Jesus, o autor reconhece quatro outras formas de representar Jesus na literatura moderna, e as classifica do seguinte modo: biografia ficcionalizante (fictionalizing biography); Jesus redivivus; imitatio Christ; e pseudônimos de Cristo. Cada uma destas categorias será discutida a seguir.
As biografias ficcionalizantes contém obras que operam por meio da reconstituição28. Evocam o Jesus Cristo de outrora, verossímil em seu quadro histórico, isto é, ressituam o personagem e sua ação em sua respectiva época. Ziolkowski observa que as obras que pertencem a esta categoria podem ser divididas em dois grupos. O primeiro é intitulado de “apócrifos modernos”, ou seja,
[Obras que] ocupam um lugar intermediário entre a erudição, a ficção e a falsificação literária: pretendem ser documentos originais, recentemente descobertos, e que projetam nova luz sobre a vida de Jesus – principalmente sobre os chamados anos silenciosos, dos doze aos trinta, e dos quais os evangelhos nada dizem (1982, p. 28).
28 As reconstituições imaginativas da vida de Jesus é o que particularmente nos interessa na presente
pesquisa, uma vez que o romance A última tentação pertence a esse grupo; será, portanto, o tema específico da discussão do próximo tópico.
Entre os exemplos de “apócrifos modernos”, Ziolkowski cita: A vida
desconhecida de Jesus Cristo (1894), de Nicolas Notovitch, e O evangelho aquariano de Jesus, o Cristo (1908), de Levi H. Dowling. O argumento destas duas obras é que Jesus,
antes de iniciar seu ministério, teria viajado até o extremo Oriente (Índia, Tibete) e adquirido certos conhecimentos ao entrar em contato com mestres de sabedoria.
O outro grupo pertencente à biografia ficcionalizante é denominado pelo teórico de “vida de Jesus para leigos”, composto por obras que simplesmente recontam os evangelhos numa linguagem atualizada e em termos de uma psicologia mais modernizada. Há pouco esforço da imaginação aqui, ou seja, nada acrescentam de novo e cuja justificativa seria: “uma vez que cada geração tem suas próprias preocupações, é necessário retraduzir os Evangelhos em termos atuais” (p. 30). Entre os exemplos citados por Ziolkowski, destaca-se: História de Cristo (1921), de Giovanni Papini, e O dia em
que Cristo morreu (1957), de Jim Bishop.
Dentro do período de tempo que a pesquisa de Ziolkowski cobre, tendo como data limite o ano de 1970, são reconhecidos dois romances como sendo os mais brilhantes da biografia ficcionalizante: Rei Jesus (1946), de Robert Graves, e A última tentação (1955), de Nikos Kazantzákis. Estes romances podem ser situados em algum ponto entre os “apócrifos modernos” e as “vidas para leigos”, mas os ultrapassa tanto em qualidade, quanto pela radicalidade da aproximação do tema e do método. No caso do livro de Graves, percebe-se a intenção de ser uma nova interpretação erudita da vida de Jesus, recheada de detalhes históricos, mas que se converte em ficção por meio do método “analéptico”, no qual o autor põe o relato nas palavras de um historiador helênico que escreve por volta de ano 93 da EC. Já o romance de Kazantzákis, sem recorrer a evidências eruditas excepcionais, consegue uma visão nova e audaz acerca de Jesus graças à originalidade de sua concepção, mediante o poder criativo da imaginação e da compreensão psicológica (p. 31-32).
Com exceção destas duas obras, Ziolkowski considera que as biografias ficcionalizantes não alcançam grande distinção literária. Para ele, a maior dificuldade dos autores dessas biografias advém da escassez de incidentes fornecidos pelas narrativas dos evangelhos. Nesse sentido, o crítico entende que é mais conveniente e fecundo ao escritor não apresentar a figura de Jesus diretamente, mas a partir de uma visão indireta ou periférica, através dos olhos de outro personagem. Alguns exemplos citados são Ben-Hur (1880), de Lew Wallace, uma narrativa moral e inspiracional, em que a vida do
personagem principal corre paralela com a vida de Cristo, e O grande pescador (1948), de Lloyd C. Douglas, que narra a história a partir da vida de São Pedro. Embora se considere que as biografias ficcionais tenham alcançado seu auge e também seu termo nos anos de 1950, será visto mais adiante que a partir dos anos 1980 a reconstituição de Jesus em seu próprio tempo renascerá com um interessante potencial literário.
A segunda categoria discutida por Ziolkowski, Jesus redivivus (ou Jesus revivido)29, é aquela cujas obras são “relatos situados em tempos modernos, nos quais aparece, milagrosamente, o Jesus histórico” (p. 32). Por exemplo, no conto “Jesus Cristo em Flandres” (1831), de Balzac, Jesus aparece na Flandres medieval durante o naufrágio de uma embarcação para acalmar a tempestade e andar sobre as águas: aqueles que confiam nele e compartilham seu amor pelos pobres conseguem segui-lo pelas águas e são salvos, enquanto o ceticismo dos ricos e dos hipócritas faz com que afundem com o barco.
Mas o exemplo mais famoso de Jesus revivido citado por Ziolkowski é aquele que ocorre em Os irmãos Karamázov (1880), de Dostoiévski, mais precisamente quando o personagem Ivan narra ao seu irmão Aliócha o conto “O grande inquisidor”. Aqui, Cristo retorna na época da inquisição, em Sevilha. Ele é prontamente reconhecido e aclamado pelo povo, realiza vários milagres e expõe seus ensinamentos. Todavia, é feito prisioneiro pelo Inquisidor que, num famoso diálogo, mostra a Cristo o erro fundamental de seus ensinamentos e sua inadequação para aqueles tempos: ora, as pessoas não desejam a liberdade oferecida por Cristo; buscam, antes, a paz de espírito e a segurança concedida por uma Igreja autoritária.
De acordo com Ziolkowski, no final do século dezenove o tema Jesus redivivus já havia se espalhado por quase toda a Europa e alcançado os Estados Unidos. Em termos gerais, o efeito deste gênero depende do anacronismo intencional, da incongruência evidente entre passado e presente (p. 37). Seu desenvolvimento pode seguir vagamente a sequência dos evangelhos, mas, frequentemente, os incidentes da trama não têm base no Novo Testamento. É nítido, pois, que a figura de Jesus é recortada de seu próprio contexto para ressurgir como um herói ideal que contrasta dramaticamente com a realidade moderna.
A concepção da terceira categoria discutida por Ziolkowski tem sua inspiração em uma obra do século quinze, Imitação de Cristo, do monge alemão Tomás de Kempis. A
29 Frank P. Bowman, no artigo “On the Definition of Jesus in Modern Fiction”, 2 (1967), 53-66, menciona
obra mencionada disfrutou de um notável renascimento no final do século dezenove, quando foi muitas vezes reimpressa, amplamente lida e frequentemente citada. Tal popularidade foi, portanto, um sintoma do gênero que pode chamar-se imitatio Christi e que é definido do seguinte modo: “romances onde o herói toma a decisão de viver conforme Jesus haveria de viver caso nascesse em nosso tempo” (p. 38). Portanto, não se trata do próprio Jesus que retorna, mas de personagens que procuram realizar sua própria concepção de Cristo e de agir como tal; trata-se de “reconceber Cristo” (p. 39).
A mais popular das imitações de Cristo é a obra de Charles M. Sheldon, In His
Steps (E seus passos), de 1896. A ação começa quando o pastor de uma próspera igreja,
na região centro-oeste dos EUA, tem suas convicções abaladas ao dar-se conta de que tem vivido mais de acordo com a doutrina do que com o exemplo de Cristo. A partir daí, ele propõe a si mesmo e aos membros de sua igreja a se comprometerem, de forma séria e honesta, a não fazerem nada sem antes se perguntarem: “o que faria Jesus em seu lugar? ” O efeito de tal compromisso provoca uma série de notáveis acontecimentos e profundas mudanças no comportamento dos personagens.
De acordo com Ziolkowski, In His Steps representou durante muito tempo, para milhares de cristãos nos Estados Unidos e em vários outros países, o modelo mais elevado de ficção inspiracional (p. 40). Motivado por este êxito, Glenn Clark, em 1950, obteve permissão de Sheldon para escrever uma continuação intitulada What Would Jesus Do? quando uma nova geração, ambientada nos anos de 1940, se compromete a seguir Seus
Passos.
As obras que pertencem a imitatio Christi possuem poucas insinuações de paralelos entre a vida do herói moderno e as passagens da vida de Jesus reconhecidas e descritas nos evangelhos. O que ocorre é uma decisão e compromisso de viver e agir em conformidade com o modo que os autores imaginam que Cristo haveria de agir em circunstâncias parecidas.
Já a quarta categoria discutida, pseudônimos de Cristo, inclui qualquer romance que, de alguma maneira, proporcione a impressão de que o herói é “como Cristo” (p. 42). Diferentemente da transfiguração ficcional que, como será visto, pode ser definida com maior precisão, os pseudônimos se constituem de maneira mais ampla e vaga. Por isso, esta categoria é bastante relativa e depende da compreensão e interpretação que o autor faz do cristianismo.
O denominador comum nesta categoria não é a figura de Jesus especificada pela narração do Novo Testamento, mas a figura arquetípica do redentor. O herói/redentor
deve ser alguém bom ou inocente, sujeito a tentações, idealista e que se choca com o mundo, e que sofre ou é sacrificado. Pode-se falar aqui de “uma figura arquetípica que representa uma verdade ou uma ação de vida recorrente” (p. 44). Neste ponto, é pertinente acrescentar o seguinte comentário de Jung (2008, p. 90):
A ideia geral de um Cristo Redentor pertence ao tema universal e pré- cristão do herói e salvador [...]. Onde e quando essa imagem surgiu, ninguém sabe. [...]. A única certeza aparente é que essa imagem parece ter sido conhecida tradicionalmente em cada geração, que por sua vez a recebeu de gerações precedentes. Assim, podemos supor, sem risco de erro, que a sua “origem” vem de um período em que o homem ainda não sabia que possuía o mito do herói; numa época em que nem mesmo refletia de maneira consciente, sobre aquilo que dizia. A figura do herói é um arquétipo, que existe desde tempos imemoriais.
Com efeito, o arquétipo geral do redentor não se define exclusivamente por detalhes de trama e organização tal como estes aparecem no Novo Testamento. Não obstante, no mundo ocidental, o arquétipo mais familiar e reconhecível do sacrifício redentor é representado pela figura de Jesus Cristo. Com isso em mente, os pseudônimos
de Cristo tornam-se uma categoria bastante flexível que considera “cristológicas”, num
sentido amplo, obras tão diversas como: O idiota (1869) e Crime e castigo (1866), ambas de Dostoiévski; Lord Jim (1900), de Joseph Conrad; O estrangeiro (1942), de Albert Camus; O urso (1942), de Willian Faulkner.
Feitas essas diferenciações iniciais entre as categorias, os capítulos seguintes do livro de Ziolkowski serão dedicados a discutir a categoria que particularmente lhe interessa: a transfiguração ficcional. O autor analisará o desenvolvimento da categoria considerando vinte romances distribuídos em cinco grupos: “O Jesus socialista cristão”; “Os cristomaníacos”; “O Jesus mítico”; “O Camarada Jesus”; “O quinto evangelho”.
Fundamentalmente, a transfiguração ficcional de Jesus define-se por ser “uma narração ficcional na qual os personagens e a ação, sem importar o significado ou o tema, estão notoriamente prefigurados por figuras e acontecimentos popularmente associados à vida de Jesus, tal como se conhece pelos evangelhos” (p. 20). Aqui, a preocupação é muito mais com a estrutura narrativa dos acontecimentos que tem os evangelhos como fundo, do que com o sentido “espiritual” dos acontecimentos. Ou seja, o importante para esta categoria não é que se encontre algo da doutrina ou do valor ético/religioso de Cristo e do cristianismo na trama da obra, mas que se perceba gestos, ações, imagens e organização de cenas em que se reconhece um personagem que é como um Jesus “transfigurado”. Ziolkowski é consciente de que o que ele nomeia por transfiguração
ficcional pode ser considerado como um ramo específico de uma categoria mais ampla
de romances definidos como “posfigurativos”, uma vez que as suas ações são “prefiguradas” por uma estrutura mítica conhecida. Com efeito, diz Ziolkowski, “o termo ‘transfiguração’ é útil e sugestivo, já que é etimologicamente reconhecível como próximo da ‘posfiguração’ e, ao mesmo tempo, culturalmente associado de maneira específica com Jesus” (p. 21). Como foi dito, Ziolkowski analisa exaustivamente, para incluir nesta categoria, vinte obras, entre as quais podemos destacar: A montanha mágica (1924), de Thomas Mann; Uma fábula (1954), de Willian Faulkner; O Cristo recrucificado (1948), de Kazantzákis; Messias (1954), de Gore Vidal.
Retomando de maneira sintética o que foi exposto e para clarificar as distinções que foram feitas, pode-se dizer o seguinte: as categorias biografia ficcionalizante e Jesus
redivivus lidam com o Jesus de outrora, sendo que a primeira localiza Jesus em seu
próprio quadro histórico, enquanto a segunda o transpõe para uma outra época; já as
imitações de Cristo e os pseudônimos de Cristo se inspiram numa concepção do Cristo
querigmático, tal como este evoluiu na tradição da fé cristã e que serve de inspiração ou modelo para algum personagem; as transfigurações ficcionais de Jesus, por sua vez, tomam um personagem qualquer cujas ações, ao menos em parte, têm por referência os acontecimentos associados a Jesus tal como estes são retratados nos evangelhos, sem se importar necessariamente com seus significados éticos e/ou teológicos.
O livro de Ziolkowski estabelece uma série de relações intertextuais distintas com diferentes obras que tomam, sob algum aspecto, a figura de Jesus Cristo como tema de suas narrativas. Tal estudo serve, pois, como um ponto de partida para a presente pesquisa, uma vez que menciona A última tentação e a situa entre as biografias ficcionais. Com efeito, o estudo de Ziolkowski faz esta referência apenas de passagem e, para o nosso caso, é necessário aprofundar a análise sobre as características dos romances que reconstituem a vida Jesus.