Como foi já referido no capítulo 2, o romance para adolescentes parece ter tido a sua origem numa corrente realista surgida nos Estados Unidos na década de 604: a problem novel(Thaler e Jean-Bart, 2002). Embora esta realidade literária tenha vindo a ser desig- nada de variadas formas, nomeadamente psicoliteratura, literatura intrapsíquica, novela pedagógica, novela de formación5, adolescent fiction, problem fiction, livros de família, realismo crítico (Flor, 1993), todos estes termos são utilizados para englobar os livros que abordam temas e problemas pessoais/existenciais de forma central nas narrativas. Lluch (2003) afirma que o termo psicoliteratura é talvez o mais adequado para denominar es- tas narrativas sobretudo destinadas aos adolescentes, que veiculam normas de conduta a partir da denúncia ou da exposição dos efeitos negativos sobre as personagens que não seguem essas mesmas normas. Como sublinham Nilsen e Donelson (2001), «The idea is that young people have a better chance to be happy if they have realistic expectations and if they know both the bad and the good about the society in which they live» (p. 115).
Sob denominações várias, como já referimos, constituem-se como produções escritas para e sobre jovens, reflectindo os temas e os conflitos que afectam os mesmos. Sublinhe- se, aliás, que, de acordo com Silva-Díaz (2009), e perspectiva que comprovamos facil- mente no nosso corpus, quase todos os «males» que afligem o mundo são abordados no realismo juvenil: abandono, violência doméstica, anorexia, fracasso escolar, suicídio, vi- 4De acordo com Nilsen e Donelson (2001), o facto de estes livros para adolescentes terem surgido na
década de 60, quando se vivia na sociedade americana grandes modificações sociais e políticas (o mundo tornara-se um lugar assustador e a realidade da extinção da humanidade tornava-se possível devido à ameaça da bomba atómica) é mais do que uma coincidência.
olações, aborto, experiências sexuais, SIDA, droga, xenofobia. . . parecendo evidente que a maioria destes romances não se destina a quem sofre estas situações, mas constituem formas de dar a conhecer aos leitores adolescentes os perigos e as «misérias» do mundo, uma espécie de «enseñanza moral de choque» (p. 189). A exploração de assuntos outrora considerados tabu é, assim, na psicoliteratura, abordada até à exaustão, aparentemente numa tentativa de confrontar os adolescentes com os problemas, o mais cedo possível, preparando-os, deste modo, para a vida real.
Através da abordagem de temas relacionados com os problemas pessoais do leitor, decorrentes da realidade da vida, os livros pretendem proporcionar uma reflexão sobre modelos de comportamento ao serviço do crescimento pessoal. Pela identificação com os protagonistas, o leitor projecta-se no livro, assistindo à resolução de problemas idênticos aos seus, sofrendo com a vivência de conflitos parecidos com os seus, ou simplesmente, reconhecendo nos enredos colegas e situações. Em todas estas circunstâncias, reflecte- se sobre problemas essenciais da realidade e da natureza humana, tendo as expressões literárias pertencentes a esta corrente o duplo objectivo de oferecer um modelo - não tanto para ser repetido, mas para ser interiorizado e produzir crescimento pessoal - e servir de protecção aliviando tensões, exercendo um efeito catártico, positivo no leitor (Flor, 1993).
De acordo com Turin (2003), estas produções literárias são:
de produits à fonction thérapeutique, souvent écrits à la première personne, qui jouaient uniquement, mais pleinement, du principe d’identification et pro- posaient des situations et des personnages stéréotypés, authour de thèmes at- tendus tels que la psychologie des jeunes, le racisme, la séxualité, le divorce, l’alcoolisme, sans distance, sans artifices littéraires, sans surprise. (p. 44)
Na mesma linha de pensamento, Thaler e Jean-Bart (2002, p. 147) reforçam que a intenção realista parece ir para além de uma representação fiel do adolescentes contem- porâneo, inscrevendo-se estas narrativas claramente numa perspectiva educativa. Os ro- mances incluídos nesta corrente literária impõem, de certa forma, como personagens os adolescentes, projectando o leitor (adolescente) numa imagem dele próprio, registando- se, por isso, muitas narrativas na primeira pessoa. Neste contexto, o «roman miroir», como defende Turin (2003), responde à necessidade que o adolescente manifesta de se olhar no espelho do livro com o objectivo de melhor se conhecer sem correr riscos, já que o pode fazer através das personagens, dos contextos, de problemáticas que pertencem ao seu quotidiano. Por outro lado, através desta identificação, veiculam-se mensagens
moralizadoras, ditando o que é valorizado socialmente (Lluch, 2003). O «roman-miroir» conduz, no entanto, a um encerramento do herói juvenil no seu próprio drama, como destacam Thaler e Jean-Bart (2002, p. 152):
Le personnage de l’adolescent souffre aujourd’hui d’une manque d’ambition, d’un défi de vocation. [...] Le lecteur est sans cesse renvoyé, dans un ef- fet d’un miroir permanent, à son propre quotidien, à sa propre médiocrité sans qu’on lui donne jamais les moyens de les transcender. N’est-ce pas l’expression d’une vision désespérante?
Os romances deste género podem ser agrupados em dois tipos: aqueles que tra- tam de problemas familiares e os que se centram em problemas sociais ou emocionais, abordando-se temas outrora considerados tabu (Thaler e Jean-Bart, 2002). Na sua glo- balidade, estas narrativas caracterizam-se, sobretudo, pelo enfoque didáctico, ou seja, o seu objectivo principal diz respeito ao processo de evolução do protagonista. Aliás, essa estrutura formativa converteu-se numa das características mais distintivas das narrativas dirigidas ou lidas pelos adolescentes. Na realidade editorial portuguesa, a conhecida e apreciada colecção «Profissão: Adolescente», de Maria Teresa Maia Gonzalez, nascida em 1996, é o exemplo mais acabado da psicoliteratura, como tivemos oportunidade de demonstrar noutro lugar (Tomé, 2010).
A actual explosão de colecções para adolescentes inseridas nesta tendência literária está, em grande parte, relacionada com as estruturas de mercado que conhece os destina- tários desta literatura e os canais através dos quais se efectiva a comercialização destes produtos (Armas, 2006). Por outro lado, esta tendência literária parece ter obtido o reco- nhecimento do público, desde logo pelo número de reedições de muitos destes livros, mas também pelo facto de parecer haver um consenso entre os mediadores que confirmam que estas narrativas interessam aos leitores e que, de algum modo, cumprem funções na aqui- sição de competências sobretudo linguísticas e narrativas (muito ocasionalmente, também literárias) (Lluch, 2003). Como destaca Turin (2003, p. 45), «la tendance de tout être hu- main à s’intéresser en priorité à tout personnage qui souffre» é largamente explorada neste tipo de livros.