Este tópico tem o objetivo de apresentar metodologicamente como os autores da teoria crítica tem se colocado ante a esse constante desafio de como ensinar na Educação e na Educação Física. Com ideias de alguns desses autores, vamos descrever as formas de ensinar e os processos metodológicos recomendados por eles.
3.4.1 Processos Metodológicos: Mediação entre Professor e Aluno em Sala de Aula
Na Educação escolar todo o aprendizado tem relação direta com a forma como ensinamos. Como propiciamos a aprendizagem dos conteúdos selecionados em cada componente curricular?
Junto do ato educativo estão presentes questões que, às vezes, não são percebidas pelo professor. A capacidade de entendimento do professor sobre estas questões que são sociais, culturais e econômicas, certamente terá influência no momento de mediar e proporcionar aos alunos as condições que possam ajudá-lo a entender as situações mais diversas. A maneira que o professor coloca-se para ensinar, portanto, demonstra o respeito ao aluno no seu direito de aprendizagem sobre qualquer tema trabalhado e as relações deste com sua vida.
No processo de ensino, o professor, convencido de sua função social na escolarização, pode trabalhar formas que considerem o aluno como protagonista de sua história capaz de pensar e argumentar sobre determinado assunto como possibilidade de entendimento; trabalhar com “a aquisição de códigos linguísticos que permitam a passagem de situações concretas para a sua construção intelectiva e conceitual, do percepto ao concepto” (BRAYNER, 2008, p. 127). O autor chama de “abertura para o encontro” como forma de estar aberto para “a possibilidade de que o argumento do outro pode ser melhor do que o meu” (p. 128).
Para trabalhar todos esses elementos apontados pelo autor, depende de o professor assumir uma postura política que dê aos alunos a possibilidade de serem respeitados como sujeitos participantes de um mundo comum, e, portanto, em condições de exercitar por intermédio do diálogo, da argumentação, da problematização, do conhecimento e da reflexão, sua efetiva condição de aluno de uma escola comprometida com formas intersubjetivas de trabalhar. Essa maneira de trabalhar é exemplificada pelo autor como a qualidade “de se colocar no lugar do outro sem, no entanto, perder suas próprias e pessoais referências” (BRAYNER, 2008, p. 128).
Sobre esta escola, a Educação obrigatória e sua diversidade, Sacristán (2001, p. 90) lembra que “diversificar na escola obrigatória, que tem a meta essencial da desigualdade, supõe, em primeiro lugar, introduzir fórmulas de compensação em cada sala de aula, em cada escola ou fora dela”. Percebe-se a complexidade de trabalhar o conhecimento junto da diversidade na Educação. Sobre isso, Sacristán (2001, p. 92) defende que “a diversidade dos sujeitos deve ser respondida com a diversificação da pedagogia”. Mesmo assim, aponta para limites do seu desenvolvimento pela rigidez estabelecida no processo educativo.
Diversificar ritmos de aprendizagem, propor atividades variadas, trabalhar em torno de projetos adequados às possibilidades de cada um, implantar qualquer outra medida que amplie a norma ideal de progresso estabelecida de forma rígida é difícil quando dispõe de curto espaço de tempo (SACRISTÁN, 2001, p. 92).
Para ocorrer a inclusão, com uma escola para todos, “precisamos de uma pedagogia da complexidade, de forma que as tarefas acadêmicas possam ser atraentes e desafiadoras para todos, sem que todos sejam obrigados a fazer as mesmas coisas” (SACRISTÁN, 2001, p. 93).
As diferenças individuais precisam ser consideradas e potencializadas para que a singularidade seja respeitada. O grande desafio é fazer no encontro de tantas singularidades algo que as equilibre dentro do processo de amadurecimento individual. Nesse sentido, acredito que a possibilidade do diálogo deve ser a base para uma convivência harmoniosa mediante o entendimento.
3.4.2 Processos Metodológicos que Caracterizam e Orientam Professor e Aluno na Educação Física
O que se deve ensinar e as formas de realizar este ensino são perguntas recorrentes, em especial, na Educação Física. No presente trabalho apresentamos discussões a partir de uma perspectiva crítica sobre os propósitos da Educação Física na escola, os conteúdos trabalhados e o tempo de execução de cada prática. Como pode ser a mediação em sala de aula para que aconteça aprendizagem pelos alunos? Qual a melhor forma de ensinar? Vamos trazer alguns apontamentos sobre método de ensino em Educação Física escolar.
De acordo com Coletivo de Autores (1992, p. 87), “o método deve apontar o incremento da atividade criadora e de um sistema de relações sociais entre os homens”. Conforme a perspectiva crítico-superadora, a metodologia de ensino
[...] implica um processo que acentue, na dinâmica da sala de aula, a intenção prática do aluno para apreender a realidade. Por isso, entendemos a aula como um espaço intencionalmente organizado para possibilitar a direção da apreensão, pelo aluno, do conhecimento específico da Educação Física e dos diversos aspectos das suas práticas na realidade social (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 87).
Os autores afirmam que “a aula, nesse sentido, aproxima o aluno da percepção da totalidade das suas atividades, uma vez que lhe permite articular uma ação (o que faz), com o pensamento sobre ela (o que pensa) e com o sentido que dela tem (o que sente)” (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 87).
Percebe-se a necessidade de proporcionar ao aluno uma forma de ensinar que contemple a participação em experiências pontuais e também garanta aprendizagem mínima do que se trabalha. Neste sentido, mais importante de o que fazer, é como fazer. Para exemplificar a forma de trabalho proposta para o ensino da Educação Física, Kunz (1994) define como “transcendência de limites” e apresenta três (3) passos para o desenvolvimento de uma aula. Conforme o autor (1994, p. 123), “o aluno é confrontado com a realidade do ensino e seu conteúdo em especial, a partir de graus de dificuldades”:
– a forma direta de “transcender limites”, no sentido da manipulação direta da realidade pelo simples explorar e experimentar possibilidades e propriedades dos objetos, bem como as próprias possibilidades e capacidades e, ainda vivenciar possibilidades comunicativas, descobrir e experimentar relações sócio-emocionais novas, entre outras;
– a forma aprendida no âmbito das possibilidades de “transcender limites” pela imagem, pelo esquematismo, pela apresentação verbal de situações do movimento e do jogo e que o aluno reflexivamente deverá acompanhar, executar e propor soluções;
– a forma criativa ou inventiva de uma “transcendência de limites”, em que a partir de duas formas anteriores da representação de um saber, o aluno se torna capaz de, “definida uma situação”, criar/inventar movimentos e jogos com sentido para aquela situação.
As perspectivas críticas da Educação Física e o movimento renovador têm inspirado, nos últimos anos, a produção de materiais que servem de referência para muitos professores na difícil tarefa de ensinar. Assim como outros Estados do Brasil, o Rio Grande do Sul produziu o referencial “Lições do Rio Grande”, e a Educação Física se fez presente junto com outras áreas do conhecimento. Neste material, González e Fraga (2009, p. 160) propõem estratégias para o desenvolvimento das competências nas aulas. “É apresentada uma série de estratégias e sugestões com o objetivo de ajudar a pensar como algumas competências propostas no referencial podem ser abordadas nas aulas de Educação Física”. Mesmo sendo formas muito pontuais relacionadas a cada tema desenvolvido, o que parece bastante comum em todas as estratégias propostas é a oportunidade de os alunos assumirem um papel de protagonismo nas aulas.
Em publicação recente no Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte (Combrace), foi apresentada uma pesquisa que sintetiza as contribuições acadêmicas da literatura brasileira sobre metodologias de ensino em Educação Física escolar nos últimos dez anos (SOUSA; MOURA, 2015). Foram pesquisados 79 artigos em revistas científicas da área e constatou-se a busca de diferentes teorias no debate sobre métodos de ensino. Isso tem criado dificuldades para construir um consenso sobre o ensino em Educação Física escolar. Foram constatadas algumas características em comum nos artigos que apontam para o rompimento com o paradigma tradicional de ensino em benefício de uma pedagogia crítica na Educação Física.
Deste modo, Sousa e Moura (2015) apresentam seus resultados organizando os apontamentos por categorias. Mesmo os artigos sendo baseados em referenciais diferentes, procurou-se mostrar o que eles tinham em comum. As categorias de interação e contextualização foram as mais encontradas na literatura. Depois, em ordem decrescente, apareceu a valorização das dimensões dos conteúdos, a valorização das experiências dos alunos e, por último, a categoria que cuida de possibilitar a diversidade de vivências.
É importante destacar como foram definidas as duas categorias que prevaleceram na pesquisa. A categoria da interação significa que as aulas, nesta lógica, devem garantir a “participação efetiva no planejamento e no desenvolvimento das atividades. As atividades devem estimular a inclusão de todos. Na interação, as aulas devem proporcionar o debate e diálogo entre os pares” (SOUSA; MOURA, 2015, p. 5-6). A categoria da contextualização tem, como definição, “atribuir significado ao conteúdo através de debates acerca de questões conceituais e sociais. Articular o conteúdo ensinando com o cotidiano do aluno e com o conhecimento das demais disciplinas escolares”.
No total foram 11 categorias encontradas nos artigos analisados. Na ordem da maior para a menor, ficaram assim distribuídas as categorias: Interação, contextualização, dimensão dos conteúdos, valorização das experiências dos alunos, diversidade de experiências, problematização, autonomia e criatividade, ludicidade, compreensão e transferência de habilidades, modificação estrutural do conteúdo e utilização de recursos tecnológicos (SOUSA; MOURA, 2015).
Percebo que as formas como é pensado o como ensinar na Educação escolar têm um grau de alinhamento com as da Educação Física, sendo a diversidade de possibilidades trazidas pelos autores da Educação algo também presente na nossa área. Em particular, a sistematização dos autores da Educação Física neste tópico de como ensinar e as estratégias usadas pelos autores, têm marcas em todas as Unidades Didáticas que desenvolvo.