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: SUBSTITUTS DE PEAU HUMAINE

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O afeto é percebido como indicativo de como vai a relação, porém, ao ser expresso, os interlocutores reconhecem que há diferentes formas de sentir e expressá-lo. A advogada Malibu, o juiz Nelson e Mayara, entendem que há diferenças biológicas e construídas socialmente entre homens e mulheres, nas formas de dar e receber afeto, e as mulheres/mães são constituídas discursivamente como "mais

preocupadas", "mais cuidadosas", "mais atenciosas" e engajadas em demonstrar afeto. Já para o desembargador Luciano e a juíza Marise, não há diferenças entre homens e mulheres nesse sentido. Dr Luciano procura qualificar o afeto como "do humano", tentando demonstrar que não há diferenças no sentir e expressar, em se tratando de homens e mulheres: "fazem igualmente". A juíza Marise centra seu posicionamento no ato de dar afeto, sobretudo se tratando dos filhos: "O

que a criança precisa é aconchego, afeto de perto, dar afeto, independente de quem seja [...]", referindo-se, a pais e mães adotivos ou biológicos, homoafetivos ou não.

Diferenças individuais também foram trazidas pelos sujeitos, pautadas em aspectos religiosos, experiências sociais e experiências de gênero. Daiane explicita que as pessoas são diferentes, mesmo sendo criadas sob o mesmo teto. Tal compreensão centra-se nas diferenças entre ela (demonstra mais facilmente o afeto) e o irmão (mais retraído), o que atribui mormente às suas diferentes experiências. Seu irmão, além de suas características singulares, viu e viveu situações difíceis, como as brigas entre seus pais, é "mais fechado", o que não significa que não ama. O advogado Erick também aponta para características pessoais nas vivências afetivas, trazendo a questão espiritual. As experiências afetivas estariam submetidas às vivências religiosas: "Eu acho que têm

pessoas mais predispostas a amar, a se doar, a gostar, outras pessoas mais egoístas; acho que são valores espirituais que vêm, coisa de religião". A predisposição para amar aloca-se na religião, não na biologia.

Para Malibu: "Têm pessoas que não conseguem dizer que

gostam; elas até gostam, mas não sabem demonstrar [..].", o que seria uma característica principalmente masculina. Menciona o exemplo de seu ex-marido, que tinha dificuldades para demonstrar que gosta, bem

como sentia-se incomodado com tantas mulheres opinando em sua vida: ela, as três filhas e as duas netas. Com a chegada da "velhice", compreende que o ex-marido "entendeu que pior que uma mulherada

incomodando é a solidão", o que acarretou mudanças em seu comportamento, resultando em mais momentos com as filhas, netas, conversas e carinho. O entendimento de Malibu sobre gostar e não demonstrar representa bem a forma como Alucard vivencia o afeto. Ele procura diferenciar sua postura com a da mãe, extremamente afetiva: "A

mãe é muito carinhosa, ela vem me aperta, pede beijo, e dá beijo, eu não faço isso, mas não quer dizer que eu não tenho afeto por ela". Vivencia uma masculinidade que não demonstra afeto por meio de beijos e abraços, o que não quer dizer que não tenha afeto pela mãe, apenas não condiz com sua experiência de eu. A imagem de homem que não expõe sentimentos, que é correto, paga as contas em dia, leal a princípios de honestidade, prevalece sobre a de homem afetivo. O afeto está, sobretudo, no cumprimento dos compromissos com a família. Pode-se dizer que o afeto é visto como aproximando as pessoas, existindo, porém, características diferentes para as experiências afetivas. É preciso, pois, atentar para as formas como as pessoas vivenciam e demonstram afetividade.

4.3. “Amor em atitudes”: Experiências afetivas nas configurações familiares

Durante os encontros etnográficos, os sujeitos construíram em seus discursos práticas que encarnam o afeto nas experiências de relatedness. A mãe de Mayara, dona Adriane, mostra que as permutas de objetos entre elas vão além de simples trocas: "Mãe, vou em tal lugar,

empresta uma blusa? Carrega uma blusa [...] domingo passado ela queria ir num show, porque não me ligasse? A sandália que tu queria ta lá secando". Além das festas surpresas que planejam uma para outra, os empréstimos e compras de presentes também representam uma forma de comunicação e nutrição da relação, gerando proximidade, significando cuidado e afeto: "Tudo que ela precisa, que eu posso, eu dou [...] uma

blusinha de natal, eu dei pra ela. Tu faz assim, vai na loja escolhe, eu autorizo e tu pega o que tu quiser, mas não exagera [...]". Mayara também usa essa linguagem para falar da relação com a mãe: "Às vezes

eu deixo de comprar as coisas pra mim e dou pra mãe”. A mãe é uma referência central, e Mayara coloca em segundo plano seus desejos para agradá-la e demonstrar seu amor. O ato de "dar, receber e retribuir" (MAUSS, 2003), em uma dinâmica de reciprocidade, de prestações e

contraprestações, nesse caso, é em função do vínculo consanguíneo e afetivo entre mãe e filha. Apesar de haver afeto alimentando essa relação, Adriane não se sente satisfeita como mãe, sente-se culpada por ter trabalhado demais quando os filhos eram menores, mas, por outro lado, sempre incentivou as experiências da filha: "Poderia ter feito mais,

ir ao circo, Beto Carreiro, nunca fui, mas deixei ela ir, 8ª série, fui buscar, fui levar [...]". Dentro do contexto de uma vida difícil, com muito trabalho, tempo compartilhado reduzido e baixa remuneração salarial, as duas encontraram formas de alimentar a relação e expressar o amor mútuo. Através da troca de objetos, o afeto se constitui, é expresso e se mantém produzindo vínculos e sustentando a relação.

Os discursos de Daiane e sua tia Jô, mostram que afeto, amor e cuidado cadenciavam suas práticas cotidianas: "Nós plantávamos amor

nas crianças [...]", essa fala de Jô refere-se às atitudes dela e da irmã em

"proteger as crianças" dos sofrimentos advindos com a separação do casal e ausência do pai. A intensa relação de afeto e intimidade entre as irmãs Jô e Ana Maria, as dificuldades que viveram juntas e o apoio mútuo, firmavam um compromisso de lealdade e responsabilidade uma em relação à outra, e principalmente em relação aos filhos. Jô lembra da irmã de forma emocionada: "Era meu ídolo [...] eu admirava ela, a

coragem dela, o desapego da matéria, era muito risonha [...]". Tal admiração engendra práticas de proteção mútua e se estende aos filhos, a quem dizem amar muito, pois "são pedaços”, não de seu corpo, mas de alguém que ama e possui seu sangue, significando também parte de si. Ligadas pelo sangue e no enfrentamento das dificuldades, procuravam amenizar a "dor das crianças". Ana Maria lia "ao contrário" cartas que o pai enviava, segundo Jô, provavelmente ditadas pela madrasta, o que significava uma maneira de demonstrar que amava os filhos: "Isso é

amor, em atitudes". Para ela, apesar do sofrimento ao ler o conteúdo das cartas, preservar a imagem do pai representava, naquele momento, que os filhos eram cercados por amor, que poderiam ser felizes, pois eram amados também pelo pai, mesmo distante.

Jô, nas palavras de Daiane e sua prima, sempre foi muito engajada em acolher, dar amor para elas e para seu filho caçula. Saía muito cedo para trabalhar e voltava muito tarde, às vezes sequer os via, mas costumava deixar sinais que demonstravam afeto, sinais que nutriam a relação:"A tia saía cedo, mas o que ela fazia pra se

comunicar? Amo vocês, um baton no espelho do banheiro, bem grannnnde, sempre dexava um recadinho". Ou ainda, deixava docinhos na mesa, pois trabalhava em organização de festas. Jô explica: "Era uma

de Jô entende que era "uma coisa pequena, mas pra gente era muito", o que indica que os sinais eram lidos, comunicavam amor e fabricavam proximidade. Não havia apenas comunicação, mas constituição de subjetividades ancoradas no amor, na valorização do outro, na construção de intimidade.

O amor pelos filhos, bem como pela família em geral, ficava claro nas datas comemorativas. Além de irmãs consanguíneas, Jô e Ana Maria eram grandes companheiras, elas que organizavam as festas de Natal e Páscoa: contavam histórias para as crianças dormirem cedo, pretexto para arrumar os presentes, ou na Páscoa, colocar as pistas para encontrar os ovos. Os ovos e presentes eram, digamos, simetrizados, pois reuniam um orçamento e compravam "tudo igual". As crianças da família formavam duplas para encontrar os ovos. Para a filha de Jô, representava "a maneira de amor delas, essas coisas assim". Os discursos explicitam que a cumplicidade e a proximidade entre os membros da família continua, porém atualmente não são mais realizadas festas nessa configuração, até porque estão associadas à falta de Ana Maria, falecida em um acidente de automóvel. Essas práticas mostram o lugar das crianças para essa família, o quanto eram amadas (e são), bem como criavam proximidade entre seus membros, pois, todos esperavam pelos encontros, conversas e comidas gostosas, que contribuíam para união familiar e investimento nas relações .

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