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Ao analisar os temas pautados pela revista, verificou-se que, pela própria proposta inicial da publicação, houve um maior investimento na área de literatura e filosofia, o que não quer dizer que Cult não tenha aberto espaço para outras especialidades culturais.

Na primeira fase do periódico, esta abertura deu-se muitas vezes no próprio domínio da literatura – caso dos dossiês sobre Ficção Científica Brasileira (CULT 6), Futebol e

literatura (CULT 11), Literatura de testemunho (CULT 23) ou Literatura e gastronomia

(CULT 29) –, mas também esteve presente no diálogo estabelecido entre a linguagem escrita e outros códigos criativos e reflexivos – como no dossiê sobre a Bienal Antropofágica (CULT 15), na matéria de capa sobre Jim Morrison (CULT 48) e nas entrevistas com a roteirista de cinema Suso Cecchi d’Amico (CULT 19) e com os artistas plásticos Rosângela Rennó (CULT 6), Vik Muniz (CULT 16) e Cildo Meireles (CULT 31).

Na segunda fase, com a mudança de nome da revista, essa mescla de assuntos culturais ficou ainda mais evidente. Para citar alguns exemplos: na área de cinema, o dossiê sobre Glauber Rocha (CULT 67) e a matéria de capa sobre o filme Carandiru (CULT 68); na área musical, o dossiê sobre os Beatles (CULT 65) e a reportagem sobre blues (CULT 71); na área teatral, o perfil de Plínio Marcos (CULT 27) e a matéria sobre Paulo Autran (CULT 61); na área de fotografia, o dossiê sobre Antonioni (CULT 93); na área de antropologia, a reportagem sobre Claude Lévi-Strauss; na área de sociologia, a matéria sobre Pierre Bourdieu (CULT 76); na área da pintura, o artigo de Harold Rosenberg (CULT 84); na área da comunicação, a matéria sobre jornalismo literário (CULT 93); na área de moda, o dossiê sobre a linguagem das roupas (CULT 82), e assim por diante, numa lista que seria bastante extensa.

A palavra que melhor define a abordagem de Cult é, portanto, pluralidade. A concepção de cultura empregada, mesmo que associada à idéia de cultivo e enobrecimento do espírito por meio das artes e das letras, é a mais abrangente possível. Assuntos como política,

educação, economia, comportamento e futebol apareceram em perfeita sintonia com as chamadas “sete artes”.

Trata-se de uma concepção de cultura arraigada ao que Renato Ortiz (1995) define como “moderna tradição brasileira”, ou seja, a consolidação de um mercado de bens simbólicos que começou a se estabelecer desde o final da década de 60.

Grosso modo, ao escrever acerca da problemática da cultura no Brasil, Ortiz verifica os rumos tomados pelos projetos modernistas de construção da identidade nacional, busca avaliar o alargamento semântico que o conceito de cultura sofreu e, ainda, até que ponto é possível se ter em mente a idéia de nacionalidade.

Descrevendo a mudança das taxas de consumo cultural no país ao longo do século XX, o sociólogo aponta para a consolidação de um mercado de bens simbólicos que, mesmo precário, já se configura como cultural e, concomitantemente, estabelece câmbios nessa cultura. Assim, ele mostra que “as contradições entre uma cultura artística e outra de mercado não se manifestam de forma antagônica”, pois “a literatura se difunde e se legitima através da imprensa” (ORTIZ, 1995, p.29).

Essa ampliação da noção de cultura é, portanto, o que permite a convivência entre gêneros distintos. Nas páginas de Cult, foi possível identificar a utilização tanto de gêneros jornalísticos (editoriais, resenhas, ensaios, notas, entrevistas, reportagens, fotografias etc) quanto literários (poesia, romance, ficção, conto etc).

Da mesma forma, percebeu-se um distanciamento daquela atitude predominante nas produções culturais de anos anteriores, que se faziam sobretudo em torno de “movimentos”62, como foi o caso do modernismo, da bossa nova, do cinema novo, do tropicalismo, do concretismo e tantos outros.

Cult manteve uma postura diferente das revistas literárias propriamente ditas, ou seja,

não se apresentou como um veículo de exteriorização de princípios poéticos e estéticos de determinado grupo, nem de divulgação de determinado tipo de produção literária. A multiplicidade predominou em sua composição, isto é, a revista estabeleceu-se como um meio capaz de abrigar variadas produções artísticas, formando um quebra-cabeça de referências63. É o que reforçou um de seus editoriais:

62

Como apontado no capítulo sobre revistas culturais, uma das funções exercidas pelas revistas literárias no início do século XX estava relacionada à divulgação dos trabalhos de artistas reunidos em torno de um valor estético comum.

63

É interessante pensar este resultado como indício da emergência de transformações na cena cultural

contemporânea. A pluralidade, fragmentação, o fim das vanguardas trazem consigo um esfacelamento de valores e de conceitos, lido por alguns críticos como indícios de uma era pós-moderna.

[...] E se as seções “Criação” e “Gaveta de Guardados” são espaços de visibilidade para a produção literária que surgiram graças a sugestões ou mesmo cobranças dos leitores, eis mais uma prova de que é a pluralidade – e não credos estéticos excludentes – que talvez um dia possibilite fazer da literatura um bem compartilhado por uma grande comunidade de leitores, modificando empiricamente suas vidas como nenhuma vanguarda jamais conseguiu fazer (PINTO, Manuel da Costa. “Ao leitor”. In: CULT. São Paulo: n.24, p.2, jul.1999).

Além disso, apesar de ser identificada como uma produção da “alta cultura” e de haver preponderância do cânone na revista, ela não deixou de abrir espaços para novos temas.

Ensaios eruditos como os de Dostoiévski (CULT 2), Clarice Lispector (CULT 5), Hilda Hilst (CULT 12), Machado de Assis (CULT 24), João Cabral de Melo Neto (CULT 29), Manuel Bandeira e Mário de Andrade (CULT 33), Kafka (CULT 36), Graciliano Ramos (CULT 42), Proust (CULT 52), Wittgenstein (CULT 60), Baudelaire (CULT 73) e García Márquez (CULT 87) conviveram com análises sobre futebol (CULT 11 e 85), poesia marginal (CULT 51), literatura de cordel (CULT 54), Lenine (CULT 57), telejornalismo (CULT 62), James Bond (CULT 63), Paulo Coelho (CULT 70), Jô Soares (CULT 81) e Harry Potter (CULT 92).

Houve, assim, a inclusão tanto de áreas da tradição popular, quanto de assuntos de grande apelo popular, sempre por meio de um tratamento diferenciado e reflexivo. A respeito dessa “hibridização”64 de universos culturais distintos, são válidas as considerações de Luyten (2003, p.3), que mostra como a partir de exigências próprias da indústria cultural (os fatores

exigüidade do tempo e necessidade de boa recepção, por exemplo) pode-se perceber o grato

uso que a mídia faz de elementos oriundos de outros extratos culturais e comunicativos, isto é, a utilização de elementos da cultura erudita e popular pelos meios de comunicação de massa.