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Set t ing [main] Opt ions

7.4 . Working wit h T ransact ion Hist ory

7.5. Configuring Yum and Yum Reposit ories

7.5.1. Set t ing [main] Opt ions

Como já explicitado, dentre as funções de Cult não se encontrou a de divulgar propostas homogêneas de determinado grupo estético. Não houve intenção em divulgar apenas uma única corrente crítica ou teórica. Entretanto, os textos publicados estiveram relacionados a linhas teóricas hegemônicas73 na intelectualidade ocidental, difundidas por pesquisadores vinculados a universidades.

A partir da análise dos autores explorados pela revista, deparamo-nos com referências constantes a Dostoiévski, Walter Benjamin, Marx, Paul Valéry, Borges, James Joyce, Adorno, Heidegger, Foucault, Camus, Maquiavel, Baudelaire, Kafka, Nietzsche, Wittgenstein, Proust, Kant, Sartre, Derrida etc. Neste panthéon, encontramos intelectuais que questionaram a história, a verdade, o romance, a língua, o ser, o tempo, o poder, como sistemas totalizantes. Seus escritos proporcionaram a emergência de uma nova ordem (ou da própria desordem) do discurso e seus questionamentos foram emblemáticos em algum momento da história para ilustrar a derrubada de fronteiras.

Outro dado que chamou atenção foi a freqüente circulação de textos baseados em idéias marxistas e em publicações com espírito contestatório, identificadas com a produção

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Para Raymond Williams (apud RIBEIRO, 2004, p.26), em toda sociedade, em qualquer tempo histórico particular, há um “sistema central de práticas, significados e valores” que é efetivo, dominante, organizado e vivido. Trata-se, portanto, de uma formulação mais flexível, algo que não exclui e não se reduz à noção de classe dominante. Ao descrever a dinâmica de uma hegemonia cultural, Raymond Williams afirma que é preciso entendê-la fundamentalmente como um processo, e não como um sistema ou estrutura estáticos; como algo processual e intencional, que exerce pressões e estabelece limites. O conceito de hegemonia não pode ser confundido com a idéia de totalidade; por mais que seja dominante, “jamais o é de um modo total ou exclusivo”.

underground e a literatura de vanguarda. Posturas relacionadas com a contracultura, que

visavam a inadequação e/ou crítica perante visões estáticas de mundo.

Neste sentido, vale ainda lembrar que, apesar de ser criada como uma revista de cunho literário, a primeira capa de Cult não apresentou um ícone da literatura, mas sim um líder revolucionário: Che Guevara.

Desta forma, pode-se dizer que a publicação se constituiu a partir de uma produção cultural militante, de esquerda, relacionada a movimentos que se utilizaram da arte e da crítica como instrumentos de manifesto.

Para compreensão desse fato, algumas observações precisam ser feitas: primeiro, há uma tradição por parte dos intelectuais em serem atraídos pela ideologia dos sistemas políticos revolucionários; segundo, atualmente a maior parcela da intelectualidade está concentrada na universidade.

Assim, é compreensível que uma publicação cultural – feita com a colaboração de intelectuais ligados à academia – tenha traduzido o universo de preocupações, propostas e concepções daqueles que dela participaram, transformando-se num lugar de referencialidade simbólica.

Grande parte dos dossiês foi resultado de pesquisas que professores e alunos desenvolveram em suas respectivas áreas de atuação. Sobretudo neste espaço, encontraram-se contribuições de nomes expressivos da intelectualidade brasileira.

O corpo de colaboradores (ver anexo 4) constituiu-se a partir de áreas de atuação, de influências e de legitimação bastante definidos, com predominância de grupos ideológica e institucionalmente nítidos, em grande parte representados, profissionalmente, por professores, escritores e jornalistas; e, na esfera acadêmica, por instituições públicas, com avassaladora presença de nomes ligados à Universidade de São Paulo (ver anexo 5).

A revista contou com a colaboração de profissionais concentrados na área de humanidades (Letras, Jornalismo, Filosofia, Artes, Sociologia, Antropologia, Psicologia, História, Teologia, Educação etc.), geralmente pós-graduados ou, no mínimo, graduados especializados. Dos 428 autores identificados (no período de oito anos), 52% possuíam alguma titulação (mestrado, doutorado, pós-doutorado) e 53 % tiveram ao menos um livro publicado pelas mais diversas editoras do país e do exterior.

O que se percebeu, portanto, não só nos tipos de textos que prevaleceram (ensaios e resenhas), mas também na escolha dos assuntos e autores do periódico, foi o tom predominantemente acadêmico de Cult, que pode ser confirmado pelo próprio perfil de seus colunistas (ver anexo 6).

Essa constatação, aliada ao fato da revista privilegiar produções mais elaboradas e autores reconhecidos, a direciona, enquanto objeto cultural, ao consumo de um público específico, permitindo sua classificação no que Bourdieu considera “campo cultural erudito”.

Aqui, vale a pena retomar alguns aspectos apresentados pelo sociólogo na definição desse campo específico e que se enquadram perfeitamente no perfil de Cult: público restrito próprio; agentes especializados; instâncias de consagração particulares; criação de uma tradição de conhecimento própria; delimitação de uma área de jurisdição formal e estética exclusiva; afirmação, por oposição ao crescimento de um mercado de bens culturais industrializados, de uma irredutibilidade de suas práticas e obras à condição de mera mercadoria; singularização da condição de intelectual e artista na sociedade, baseada na “ideologia” da “arte pela arte” ou da criação desinteressada e “inata”.

CONCLUSÕES

Poucos duvidam de que os vários meios de comunicação tenham desempenhado e continuarão desempenhando um papel crucial na formação de um sentido de responsabilidade pelo nosso destino coletivo.

Há, no entanto, neste início de século, uma perspectiva negativa em relação a esse panorama. Muitos teóricos já apontaram que em nossa época o central parece ser o fluxo, o movimento – seja de capitais, produtos, pessoas e imagens. Privilegia-se a circulação ao conteúdo. Uma visão apocalíptica da cultura e da comunicação acompanha tais críticas.

Marcondes Filho (1993, p.110), por exemplo, acredita que “a vida das sociedades [...] na entrada do século XXI é marcada por um ritmo cada vez mais veloz nas relações sociais”.

Como conseqüência surge a precedência do volátil, do descartável, da troca rápida de várias coisas, desde objetos até relacionamentos sociais, passando por empregos, atividades das mais diversas, viagens, posse de bens móveis ou imóveis, tudo se torna mais rapidamente cambiável (MARCONDES FILHO, 1993, p.110).

De acordo com o autor, o jornalismo sofre influência dessa realidade. Num ambiente cada vez mais “fragmentado, difuso e indeterminado”, a mídia “restringe-se a poucas palavras que passam a ser trabalhadas amplamente em todas as editorias e em todos os cadernos”. As notícias longas devem ser suprimidas e as matérias não devem ter mais do que três parágrafos (MARCONDES FILHO, 1993, p.112).

Como justificar, então, a existência de Cult nesse universo?

Como vimos, a revista dedica-se à análise de uma ampla diversidade de temas, dando lugar à multiplicidade interpretativa de assuntos. Suas matérias caracterizam-se pela extensão e profundidade do tratamento. Por ser uma publicação mensal, livre das imposições que o ritmo acelerado impõe a um jornal diário, seus textos não se prendem à factualidade da notícia, são menos efêmeros e servem de fonte de pesquisa e referência.

Assim, Cult não se enquadra nesse conceito de “jornalismo fin-de-siècle”,

comprovando que, mesmo em meio a uma cobertura cultural cada dia mais padronizada, uma única definição não basta para traduzir o rico universo das instituições de comunicação.

O tempo de permanência do periódico no mercado editorial, por si só, já seria uma vitória e uma prova de que publicações culturais podem manter a qualidade de seu trabalho sem sucumbir às exigências dos processos de industrialização.

Por outro lado, um argumento que poderia contestar o êxito de Cult é o de que a revista é dirigida aos pares, a um público restrito, o que limitaria sensivelmente o alcance de sua produção.

Não há dúvida de que se trata de uma publicação acadêmica, isto é, seus organizadores e colaboradores são, em sua maioria, ligados à academia e sua “seleta audiência” também é de extração nitidamente universitária.

Isso não chega a ser uma novidade. Historicamente, o gênero destinou-se a grupos específicos. Conforme destaca Sirinelli, as revistas são antes de tudo um lugar de fermentação de idéias e de relação afetiva de microcosmos intelectuais:

As revistas conferem uma estrutura ao campo intelectual por meio de forças antagônicas de adesão – pelas amizades que as subtendem, as fidelidades que arrebanham e influência que exercem – e de exclusão – pelas posições tomadas, os debates suscitados, e as cisões advindas (SIRINELLI, 1996, p.249).

Entretanto, a questão do público não está circunscrito às revistas. Trata-se de um problema maior, nacional, de acesso à cultura.

O INAF (Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional) indica que, entre os brasileiros que têm de quatro a sete anos de estudo, só a metade atinge o nível básico de domínio da língua necessário para a leitura de um texto de jornal. Nada menos do que um terço dos que estudaram de um a três anos continuam analfabetos absolutos. Pela pesquisa, 30% dos alfabetizados lêem apenas frases soltas, como as dos outdoors. E outros 37% conseguem apenas ler textos curtos. Só 25% dos alfabetizados no Brasil teriam pleno domínio da língua. Ou seja, apenas um em cada quatro brasileiros é leitor potencial de literatura ou jornal. Os outros 75% da população estariam excluídos do mundo letrado (COSTA, 2005, p.339)74.

Deste modo, não é apenas o público das revistas culturais (ou o público de Cult) que é restrito, mas sim o universo de consumidores de cultura no Brasil. Segundo Mandaji (2003, p.57), este universo representaria aproximadamente 5% da população se contarmos

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Esses números, publicados pela autora no livro Pena de aluguel, foram extraídos de uma reportagem do Jornal do Brasil (“Só 25% têm domínio pleno da leitura”, 9/9/2003, p.A7) que se baseou em informações do relatório (2003) do Instituto Paulo Montenegro. A consulta ao último levantamento do instituto (2005) revela que os dados se mantiveram. Fonte: www.ipm.org.br. Acesso em: 10 de fevereiro de 2006.

os economicamente ativos, e com somente 2% se levarmos em consideração a população total.

Na opinião da pesquisadora, o consumo da produção cultural no país é estratificado e segmentado porque passa, em primeiro lugar, por um processo de seleção econômica e social.

[...] os estratos sociais que possuem maior poder aquisitivo terão um acesso mais irrestrito a uma quantidade maior de produtos, enquanto os grupos com menor poder econômico ficarão condicionados a um produto que é muitas vezes rejeitado por aqueles que possuem mais recursos econômicos (MANDAJI, 2003, p.63).

Para Cacá Diegues, a questão da cultura no Brasil não é, e provavelmente nunca será, um problema de produção. É basicamente uma dificuldade de circulação dos produtos culturais.

O que falta no país em termos de cultura é o que falta de um modo geral no país: redistribuição da riqueza. É surpreendente que, em todas as regiões, em cada lugar que se vai, encontra-se produtores de cultura absolutamente anônimos, conhecidos talvez apenas nas suas ruas, que estão produzindo cultura de certa qualidade e que não circula (DIEGUES apud MANDAJI, 2003, p.90).

Neste ponto, chegamos ao seguinte: a relação entre o indivíduo e a participação na cultura de sua sociedade não é feita de forma aleatória, mas principalmente pela sua posição no quadro social e pela instrução anteriormente recebida para ocupá-la.

Em termos gerais, pode-se dizer que a definição do campo intelectual se traduz no “fortalecimento de suas próprias instâncias de seleção e consagração”. É no âmbito de mercados como o sistema de ensino, a indústria cultural, o setor artístico etc., que sucede a legitimação das diferenças sociais, ou seja, neles se constitui o valor desigual das formas disponíveis de capital – títulos e diplomas, postos e cargos, padrões de gosto – de que se apropriam os diversos grupos e classes segundo as posições que lhes cabem na estrutura social.

Nesse processo, a questão do consumo, enquanto símbolo de status, caminha paralela à construção de identidades e de diferenças que, paulatinamente, passam também a definir-se pelo poder de aquisição. Segundo Canclini (2001, p.83), “o consumo é um processo em que os desejos se transformam em demandas e atos socialmente regulados”.

Institui-se, assim, um complexo sistema de trocas simbólicas onde o produto cultural (neste caso, a revista), ao mesmo tempo em que confere um certo status a seus consumidores, recebe deles uma legitimação, ou seja, torna-se o resultado de um “ato mágico que nada seria [...] sem o universo dos celebrantes e crentes que lhe dão sentido e valor por referência a uma determinada tradição” (BOURDIEU, 2002, p.28).

Retornando à questão da audiência, acredita-se que não seja objetivo da publicação restringir seu público, pelo contrário, Cult funciona como um canal de expressão de um grupo de intelectuais que busca um público externo a suas próprias áreas de atuação. De qualquer forma, é também preocupação do veículo manter a qualidade, e até mesmo a complexidade, de seu conteúdo, o que acaba inevitavelmente “selecionando” seus leitores.

Em outras palavras, se por um lado não é intenção da revista afugentar o leitor desprevenido, mas de boa vontade, que consegue preencher as lacunas de sua formação cultural em seções mais didáticas; por outro, o periódico não apela para o “vale tudo” tendo em vista sua inserção mercadológica, isto é, não é pretensão da publicação vulgarizar o nível de sua produção para obter uma maior penetração no mercado. A lógica é simples: não se deve “baixar” a qualidade, mas “elevar” a condição dos cidadãos para que eles possam consumir produtos mais sofisticados. Como dito anteriormente, há uma proposta iluminista por trás da linha editorial de Cult, que se baseia no princípio de que não há vida intelectual sem um mínimo de esforço e disciplina.

Mais uma vez a noção de cultura é vinculada a estudo, educação, escolaridade. São esses os elementos que determinam o prestígio, a legitimidade e a posição dos agentes na estrutura do campo cultural. São estratégias coletivas adotadas (conscientemente ou não) pelos intelectuais que participam desse universo para fazer valer seus interesses e sua contribuição enquanto categoria social específica.

Atualmente, vive-se sob o poder dos meios de comunicação de massa e os intelectuais, assim como outras categorias, têm consciência da importância da divulgação de suas obras nestes espaços. Na era da sociedade da informação, a influência da mídia passa a ser determinante na produção, seleção e divulgação de bens simbólicos.

Tratando-se do imbricamento entre a cultura erudita e os meios de comunicação de massa, Bosi (1992, p.317) relembra que pensadores como Adorno e Umberto Eco aprofundaram o tema da “institucionalização das vanguardas”. Ou seja, “a crítica que se transforma em mercadoria, que vira moda, e é diluída pelo abuso verbal, integrando-se afinal na boa consciência dos bem pensantes, perdendo, enfim, o seu alvo modificador do status

A cultura de massa, a indústria de objetos simbólicos em série, vale-se da cultura erudita, lança mão dela, para transformar em moda e consumo não poucas de suas representações. É o fenômeno do kitsch, estudado por Abraham Moles, que consiste em divulgar junto aos consumidores das classes alta e média, palavras, gostos, melodias, enfim, bens culturais produzidos inicialmente pela chamada cultura superior.

Para Bosi, a neutralização de todas as possíveis dissidências em um amplo e flexível processo modernizante parece ser um recurso quase fisiológico das sociedades neocapitalistas que às vezes punem, aleatoriamente, algumas expressões ou atitudes mais inconvenientes, isto é, mais capazes de despertar ou aguçar a consciência das contradições.

Segundo ele, a universidade, por sua vez, é chamada a colaborar para – com as devidas adaptações ou concessões a um presumível gosto médio – fornecer imagens, palavras e idéias para fascículos de grande venda ou para jornais e revistas de classe média ou alta. A indústria cultural, principalmente nas suas faixas de consumo mais exigentes, virou divulgadora, diluidora ou exploradora do trabalho universitário crítico e criador. Algumas figuras universitárias, antes circunscritas à vida acadêmica e à produção para reduzidíssimo público, viraram, em pouco tempo, personagens do consumismo cultural (BOSI, 1992, p.317).

Não concordamos, entretanto, com esta visão do autor. O fato de os intelectuais estarem cada vez mais envolvidos com os sistemas midiáticos e institucionais não impede que suas produções assumam um caráter questionador. Para Nussbaumer (1997, p.78):

As formas de demonstrar que o poder simbólico dos artistas pode resistir às concessões exigidas pelo mercado podem ser diferentes de acordo com cada momento ou movimento cultural. Na contemporaneidade, alguns artistas já consagrados começam a investir de forma mais evidente no marketing, sem que essa atitude os coloque na posição de ‘integrados’ mas, ao contrário, permita a produção e divulgação de uma obra que pode ser, inclusive, ironicamente anti status quo.

Deste modo, já não é mais possível pensar o erudito de maneira isolada, é preciso enxergá-lo em sua imbricação conflitiva com a indústria cultural, procurando descobrir os papéis que o massivo assume na produção e reprodução da hegemonia, e no que estes papéis se diferenciam do que os círculos intelectuais realizam, como ocorre a luta pela hegemonia na época da cultura de massa e como se pode defender os interesses eruditos não mais contra a cultura massiva, mas dentro dela.

Com base em Habermas (1984), acreditamos que o surgimento de uma imprensa vinculada aos movimentos artísticos e intelectuais é revelador da supremacia do que essencialmente caracteriza sua natureza e finalidade, qual seja, ser um lugar de referencialidade simbólica para os indivíduos e para a sociedade. É bastante significativo o fato de os movimentos culturais de uma época recorrerem à imprensa como forma apropriada à sua expressão. O recurso a ela como instrumento concreto destinado à promoção de suas idéias e criações decorre da compatibilidade de sua estrutura institucional com a natureza e finalidade desses movimentos.

Do ponto de vista da instituição jornalística, as idéias e práticas criadas por esses movimentos culturais emergentes também são compatíveis com a especificidade da prática jornalística. Suas temáticas concernem à construção de um novo conjunto de normas, valores, comportamentos e regras de sociabilidade, baseado em critérios correlatos aos princípios e procedimentos próprios das sociedades modernas.

A emergência de uma imprensa de crítica literária e intelectual corresponde à expansão do universo de referencialidades simbólicas criadas no processo de desenvolvimento dessas sociedades. É coerente com a natureza institucional da imprensa expressar a expansão dessa referencialidade cotidianamente atualizada pelo exercício público da crítica, nos confrontos entre correntes, grupos e indivíduos.

A imprensa não poderia manter-se à margem desse processo dinâmico de auto- reflexividade da sociedade e dos indivíduos, sob pena de alienar-se da sua própria condição institucional socialmente reconhecida, pois “la información es un servicio a la sociedad, un presupuesto para al democracia y algo perfectamente implicado en el ambiente social circundante” (BENITO, 1968, p.34).

Com a imprensa de crítica de arte e intelectual criada na esfera desses procedimentos emancipatórios, o exercício da crítica torna-se um atributo do seu discurso, ou, mais propriamente dito, a imprensa assimila essa nova forma de tratamento ou expressão dos fatos da natureza, da sociedade e da condição humana, por um lado, admitindo novos tipos de escritura (filosófica, científica etc.) e, por outro, desenvolvendo, a partir desses tipos, novos gêneros informativos próprios (jornalismo opinativo e interpretativo, crônicas etc.).

Com a criação desses novos gêneros, ocorre uma mudança qualitativa, de forma e conteúdo, no conceito de informação, cuja diversidade explica a origem do deslocamento da posição central da notícia para a condição de um gênero particular, e não necessariamente o mais apropriado à construção do discurso jornalístico como um todo.

Importa, sobretudo, destacar o fato de que, a partir da convivência com discursos produzidos pelos movimentos culturais, artísticos e intelectuais, a imprensa vai, posteriormente, depreender das estruturas discursivas desses diferentes movimentos elementos que sejam capazes de remeter aos respectivos campos de conhecimento nos quais eles foram elaborados, sujeitando-os, entretanto, aos princípios e regras discursivas do próprio campo jornalístico.

O jornalismo cultural não se fundirá com a escritura intelectual e artística, mas irá compartilhar os tipos de racionalidade respectivos a elas. Paralelo à pluralização dos tipos de publicação intelectual e artística, com maior e menor grau de sofisticação e de interesse lucrativo, pluralizam-se também os tipos de imprensa, num diálogo permanente com a dinâmica e crescente complexidade dessas esferas públicas culturais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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