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Um dado interessante se refere aos autores e obras que as matérias da revista exploraram. Observou-se uma preferência por trabalhar com autores ou já consagrados, ou que detém algum tipo de reconhecimento.

As seções mais importantes da Cult são “Entrevista” e “Dossiê”. Além de possuírem um número maior de páginas em relação a outras seções da revista, elas geralmente recebem

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A noção de hibridização, proposta por Canclini (1996, p.2), surge como “uma palavra mais versátil para dar conta das mesclas ‘clássicas’ como os entrelaçamentos entre o tradicional e o moderno, e entre o culto, o popular e o massivo”, uma vez que “uma característica de nosso século, que complica a busca de um conceito mais includente, é que todas essas classes de fusão multicultural se entremesclam e potencializam entre si”. Trata-se de um recurso explicativo, através do qual se tem procurado analisar as manifestações que brotam do cruzamento entre culturas, ou em suas margens – interações que significam também contradições e conflitos.

destaque na capa e no sumário. Pelos entrevistados e pelos temas dos dossiês, constatou-se uma tendência maior em afirmar e sacralizar o cânone literário e cultural do que em romper com suas regras.

A seção de entrevistas cedeu lugar a personalidades culturais que já desfrutam de certo reconhecimento dentro de sua respectiva área de atuação. Foram os casos de: Décio de Almeida Prado, Boris Schnaiderman, Nadine Gordimer, Bárbara Heliodora, Nelson Ascher, Dias Gomes, Hilda Hilst, Ricardo Piglia, Manoel de Barros, Augusto de Campos, Lygia Fagundes Telles, Régis Bonvicino, José Arthur Giannotti, Marilena Chauí, Fernando Henrique Cardoso, Hermano Viana, Hector Babenco, Ruy Castro e muitos outros intelectuais que apareceram na seção.

Da mesma forma, o “Dossiê” confirmou a tendência de afirmação dos nomes “piramidais”, pois a maioria dos escritores e intelectuais tratados nesta seção também já são consagrados pela crítica, como padre Antônio Vieira, Dostoiévski, Clarice Lispector, Cruz e Souza, Emilio Villa, Antonio Candido, Albert Camus, Stéphane Mallarmé, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Eça de Queirós, Oscar Wilde, Franz Kafka, Bertolt Brecht, Graciliano Ramos, Alcântara Machado, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, James Joyce etc.

Outro espaço de destaque da estrutura de Cult é a sua capa (ver anexo 1). Um termômetro bastante eficaz para medir a importância dada a determinados temas.

As capas sempre trazem uma imagem (que na maioria das vezes são fotos, mas também houve casos de caricaturas, reprodução de obras e ilustrações) relacionada ao tema cultural ou a um escritor consagrado. Elas funcionam como uma espécie de “chamariz”, o que talvez justifique, nas 93 capas analisadas, a predominância de imagens de escritores consagrados.

Dentre as matérias de capa que se destacaram, notou-se a presença de personalidades, principalmente nacionais, mas também estrangeiras, da literatura, história e arte: Che Guevara, Ferreira Gullar, Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto, Luís Fernando Veríssimo, Arnaldo Antunes, Theodor Adorno, Baudelaire, Clarice Lispector, João Ubaldo Ribeiro, José Saramago, Fernando Pessoa, Umberto Eco, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Ignácio de Loyola Brandão, Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Jim Morrison, Caetano Veloso, Jorge Amado, Cecília Meireles, Chico Buarque e muitos outros.

Entretanto, não se pode deixar de considerar os dois lados da questão. Como se viu,

Cult destaca os “velhos valores”; por outro lado, a publicação não descarta a nova geração de

editoriais. A seguir, três passagens que comprovam a intenção de Cult em ampliar a reflexão para além dos cânones tradicionais:

[...] Na maioria das vezes (e das edições), isso significa dar espaço a autores consagrados ou tentar descobrir, em autores novos, aqueles elementos de permanência que nos permitem incluí-los nesse cânone sempre provisório com o qual lidamos cotidianamente. Entre clássicos como Dostoiévski, Fernando Pessoa ou Mallarmé, nomes obrigatórios das letras contemporâneas como José Saramago, Haroldo de Campos ou Ricardo Piglia, e “revelações” como João Inácio Padilha ou Nelson de Oliveira, pode-se dizer que a revista tem conseguido apresentar em suas páginas um grande número de autores que integram e integrarão nosso repertório fundamental de leituras (PINTO, Manuel da Costa. “Ao leitor”. In: CULT. São Paulo: n.23, p.2, jun.1999).

Ao longo desses mais de trinta números de CULT, temos procurado mesclar harmoniosamente esses dois ingredientes. Além de dedicarmos dossiês a autores por assim dizer “canônicos” (Machado de Assis, Dostoiévski, Mallarmé, Fernando Pessoa, James Joyce, Gilberto Freyre, Drummond, João Cabral de Melo Neto), tentamos também trazer para as páginas da revista alguns nomes e temas que ampliem a “biblioteca” pessoal de nossos leitores. Foi o caso dos dossiês sobre dois poetas contemporâneos – o italiano Emilio Villa (CULT 9) e o catalão João Brossa (CULT 19) – e do dossiê sobre “Literatura de Testemunho” (CULT 23). E é também o caso, na presente edição, do dossiê sobre o escritor argentino Roberto Arlt, que, no Brasil, foi injustamente obscurecido pelo prestígio de talentos literários como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Adolfo Bioy Casares, Manuel Puig e Ernesto Sábato – mas que certamente é um dos grandes nomes da grande tradição literária argentina (PINTO, Manuel da Costa. “Ao leitor”. In: CULT. São Paulo: n.33, p.2, abr.2000).

[...] é importante notar a importância que publicações literárias como a CULT assumiram nos últimos anos. Reunindo críticos e jornalistas que na maior parte do tempo divulgam e analisam autores consagrados seja pela tradição literária, seja pelo próprio meio editorial, a CULT nunca deixou de oferecer espaço para autores inéditos (como demonstra o “Radar CULT”) (PINTO, Manuel da Costa. “Ao leitor”. In: CULT. São Paulo: n.39, p.2, out.2000).

Além dos eventuais dossiês e capas, as seções que mais abriram espaço para a divulgação de novos autores foram “Criação” e “Gaveta” (reunidos posteriormente no caderno “Radar Cult”), onde foram publicados textos literários inéditos de autores pouco reconhecidos, simplesmente desconhecidos ou estreantes na área de ficção e poesia.

Dezenas e mais dezenas de nomes circularam pelas páginas de Cult no período analisado, numa média de cinqüenta colaborações ao ano, sendo um despropósito, portanto, listar aqui alguns nomes que em nada representariam a variedade de perfis e estilos dos autores que tiveram seus textos publicados pela revista.

Mais oportuno talvez seja dizer que poetas, ensaístas, ficcionistas, contistas de diversas cidades dos vários estados do país (Pará, Pernambuco, Paraíba, Minas Gerais, Bahia, Brasília, Goiás, Tocantins, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Santa Catarina, Rio Grande do Sul etc.) e de diferentes áreas profissionais (estudantes, médicos, jornalistas, engenheiros, artistas, psicólogos, advogados, historiadores, professores, publicitários, funcionários públicos e muitos outros) encontraram neste espaço um lugar para partilhar suas produções.

Deste modo, mesmo assumindo uma posição de conservação da tradição, ou seja, “consagrando os consagrados”, Cult não descuidou da produção recente e remanescente, estando também aberta às novas perspectivas.

Coerentemente com o princípio da divulgação de novos autores e com o objetivo de formar e ampliar o público, a revista promoveu e apoiou vários eventos e concursos literários.

Avaliando esses resultados a partir das idéias defendidas por Pierre Bourdieu (2002) a respeito das estratégias de produção de sentido das instâncias de consagração cultural, é possível afirmar que, na derrubada de fronteiras geográficas, temporais, disciplinares e hierárquicas, a mixórdia de nomes consagrados e desconhecidos fez com que a revista funcionasse como instância legitimadora de um posicionamento teórico, operando na garantia de determinado capital simbólico e visando a inserção de alguns nomes na esfera do campo intelectual ao lado de autores que já desfrutam de reconhecimento.