RESULTATS: CONNAISSANCES DES ELEVES, DES ENSEIGNANTS ET
CHAPITRE 8 ÉTUDE DES PRATIQUES EFFECTIVES DE
8.2. Description et analyse de la séance de mise en œuvre de la loi d’Ohm de l’enseignant P1
8.2.1. La structure de l’action de l’enseignant P 1
O segundo modelo, apresentado no segundo capítulo, tem como referência a colaboração das famílias em atividades realizadas na escola constituindo uma forma de aproximação da comunidade. Na proposta apresentada nesse modelo teatral, festa e colaboração podem ser considerados como um avanço nas relações entre escola e comunidade quando nessa relação é permitido aos pais, família e vizinhos que vivem no entorno das unidades escolares, que participem também das decisões ali tomadas.
Um sentido de colaboração que foi tomado pela Escola Tecnicista, e que ainda é mantido em muitos estabelecimentos de ensino, é a ajuda da comunidade com aquilo que foi decidido dentro da unidade escolar. A comunidade colabora com a escola, mas isso não significa necessariamente que esteja tomando parte das decisões. Um exemplo disso é o pai
ser chamado para ajudar a fazer o quentão da festa junina ou a vendê-lo, ou ser solicitado à mãe que faça o figurino que seu filho irá usar na peça organizada pelo professor dentro da escola. O pai comparece na festa, colabora com o que pode, e a mãe faz o figurino e vai assistir à peça de que o filho faz parte. A função exercida por esses pais é muito importante para o andamento das atividades escolares, porém parece limitada em vista do tipo de colaboração que vimos acontecer no Canto da Lagoa.
Antes de serem desenvolvidas as experiências teatrais em análise, os pais já colaboravam nas atividades do NEI. Eram assíduos freqüentadores de reuniões e ajudavam nas festas e mutirões. A família também ajudava na preparação do figurino das crianças quando tinha uma apresentação teatral. Diz Valdir: “Eu ia [nas reuniões] porque gostava de falar, dar opiniões. Naquela época, às vezes, tinha pais que iam conversar com os professores sobre os filhos. Eu ia lá para conversar com a Mari [diretora], ia ajudar. Quando começou o NEI todos os pais ajudavam, cortavam a grama, limpavam, faziam a horta.” (Valdir, entrevista pessoal concedida em 17-05-2006). Nesse ambiente de colaboração evidencia-se “a confiança e a credibilidade” (JELLICOE, 1987). Os membros internos do NEI confiaram e acreditaram naquilo que os pais podiam fazer pela instituição, e os pais se dispuseram a participar ativamente das atividades ali realizadas. A relação construída entre escola e comunidade, sob tais princípios, mobilizou os pais para a construção da peça teatral Uma
história da Ilha. A partir desse episódio, escola e comunidade passam a viver uma
experiência inédita. Nado comenta que:
Naquele período, de 1994 a 1997, implementou-se uma política de permitir que a escola estivesse aberta para a comunidade. Tanto é que muitas pessoas da comunidade tinham acesso à escola, mesmo não sendo aluno ou pai. Tinha crianças que estudaram ali, cresceram e voltavam depois de grandes, para fazer atividades na escola. (Nado, entrevista pessoal concedida em 06- 06-2006)
As conquistas da comunidade, APP e direção do NEI, nesse período de 1994 e 1997, se confirmam principalmente na doação da Escola do Canto para o município, na construção de uma casinha de estuque em 1995 no pátio da escola, e na intensa participação dos pais no NEI. Daniel afirma que: “A escola ali do Canto era uma loucura, era uma família, ia todo mundo, todo mundo fazia mutirão, fazia teatro. As pessoas tinham gosto.” (Daniel, entrevista pessoal concedida em 30-09-2005). Mais tarde os pais estiveram presentes na construção da brinquedoteca na Escola do Canto, que atende também as crianças do NEI, na confecção das
figuras do Boi-de-Mamão das crianças, e as conquistas continuaram. Ainda hoje os pais participam das decisões tomadas sobre as instituições de ensino.
Retornando ao período em que aconteceram as experiências que estamos analisando, verificamos que além dos pais e membros da família das crianças, que eram atendidas no NEI, muitas pessoas do bairro foram tocadas pelo processo teatral. Durante as pesquisas realizadas para a composição de Uma história da Ilha houve um grande movimento no bairro em busca de objetos, roupas, histórias. Mari diz que:
As roupas dos personagens, conseguimos tudo emprestado, era uma coisa muito legal. Porque eles [as crianças] foram nas casas pedir as roupas das avós com aquelas saias compridas. Foram pedir as roupas da Dona Chiquita que era benzedeira aqui do Canto. As crianças foram nas casas para saber como eram as roupas, fizeram pesquisas. As rendeiras falaram que antigamente usavam espinho de bergamoteira para fazer renda, no lugar do alfinete. Então [pais e alunos] saíram pelo Canto da Lagoa para arrumar espinhos de bergamoteira para fazer as rendas.” (Mari, entrevista pessoal concedida em 30-08-2005)
Quando os objetos, as roupas e as histórias dos moradores do bairro foram para o palco já não cabia mais dizer que o processo teatral tinha sido construído por um grupo de pais e membros internos da instituição. O processo era de todos, dos que atuaram e dos que colaboraram. Muitas pessoas se sentiam contando aquela história, contando a sua própria história. Nado conclui que: “A peça, fez a escola se movimentar e movimentar a comunidade. O pai que foi buscar coisas no mato pra fazer o cenário. Cada um arregaçou as mangas, montaram comissões, e se lançaram para que a peça acontecesse.” (Nado, entrevista pessoal concedida em 06-06-2006)
Ambas as peças elaboradas no NEI com a participação dos pais e amigos da escola e apresentadas para os moradores do Canto da Lagoa tornaram-se um evento festivo. Percebemos que os projetos teatrais em análise pertencem a duas categorias de festa, indicadas por Giacalone (1998): festas do calendário da escola , fim de ano e festa junina, comemorando um tempo cíclico, promovido pela escola e esperado pela comunidade; e festas que apresentam conexão com elementos fundantes, ou seja, celebram a história da localidade. Isso, consoante Giacalone, assegura a sobrevivência das instituições. Porque de tempos em tempos reavivam a memória dos moradores e reforçam o contato das novas gerações com os hábitos e costumes da localidade.
Um aspecto que ao longo da pesquisa pareceu-nos inquietante é o fato de que havia indivíduos com hábitos e crenças diferentes, pois tinha os “nativos’ e os “de fora”. Havia a
dona de casa, o pedreiro, o jardineiro, o professor da universidade, a diarista discutindo as temáticas das peças.
Sobre esse tema Fonseca (2000) justifica que a festa se fez necessária a fim de que fossem construídos códigos interpretativos dos significados culturais para que tivessem uma raiz possível de universalização e comunicação.
A tarefa de universalizar os saberes, os significados culturais locais, foi assumida pelas instituições locais. No caso do NEI – Canto da Lagoa, este compromisso era resultado da intenção de ampliar a participação, princípio do Projeto Político Pedagógico. Um dos caminhos encontrados foi a utilização da festa como um espaço pedagógico de participação. (FONSECA, 2000, p.89)
Portanto a intenção dos membros internos da escola era de unir a todos, os “nativos” que podiam se identificar com os costumes e crenças da localidade com os “de fora” que passavam a compreender melhor a formação desses costumes e crenças.
Quando nos encontramos diante de um espaço “outro”, somos tomados por aquilo que De Martino chamava de ‘angústia territorial’, isto é, a dificuldade de movimentar-se e administrar uma dimensão espacial, corporal e lingüística da qual nos escapam os códigos de orientação dos diversos conceitos de limite, como na situação de emigração e perda das raízes. (GIACALONE, 1998, p.131)
Diz Fonseca que a escola não permanece estática com a diversidade social das famílias, essas mudanças, ao contrário, fazem com que a escola sofra influências, ao mesmo tempo que interfere na nova ordem social e cultural que ali se forma.
Do ponto de vista dos pais “de fora” observamos o respeito em relação à cultura local. Fonseca (2000) afirma em sua pesquisa que, na fala de muitos entrevistados, aparece um contentamento por parte dos pais “de fora” em vencerem certa resistência aos hábitos locais e passarem a aprender com as diferenças. Na fala de uma mãe, entrevistada por Fonseca, é possível identificar como esse movimento acontece:
Na escolinha, eu conheci melhor o povo daqui, porque se não fosse no NEI, eu só me relacionava com eles quando ia no comércio. Porque a gente que chegou meio de pára-quedas se juntava com aqueles que também tinham vindo de fora. Acho que tanto nós que viemos de fora, quanto aqueles que já viviam aqui estão aprendendo. Estamos conhecendo as diferentes culturas e assim a gente para de pensar que a nossa é a melhor e respeita mais até o jeito devagar do ‘nativo’. No início, eu me incomodava muito, reclamava até da lerdeza que me atendiam no mercado da esquina, porque estava acostumada com outro ritmo de vida. Depois, eu comecei a ver que o tempo deles é que era diferente do nosso (Cibele, paulista, apud FONSECA, 2000, p.39)
Giacalone (1998) diz que:
Diferença significa descoberta, reapropriação da própria especificidade, particularidade. Diferença não é, e não pode ser, igual a desigualdade, porque o conceito de igualdade jurídica e social das democracias ocidentais se realiza exatamente quando existe o respeito às diferenças: mulheres, crianças, pobres, imigrantes (...) A festa [e o teatro] se transmite com qualquer forma de linguagem, verbal e não verbal; a cada qual pode ser dada a oportunidade de se expressar na modalidade mais correspondente e aprender outras através da relação e da troca. (GIACALONE, 1998, p. 143)
Em resumo, a escola pode se tornar um ponto de encontro de culturas diversas e dependendo do tipo de relação que ali é construída proporcionar-se-á um exercício de cidadania. Teatro, festa e colaboração nas situações que temos analisado demonstram ser um meio para ampliar esse exercício.