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Structure de la chaîne de valeur du cacao-chocolat

Percebemos que a construção do anticomunismo católico está permeada pelo pensamento conservador do século XIX e pelas transformações nas práticas e estratégias em prol de aumentar sua atuação na sociedade. A Igreja Católica no Brasil no século XX se colocou em posição junto ao Estado como legitimadora da articulação do ideal anticomunista, responsável pela disseminação e articulação no papel de doutrinadora da sociedade na década de 1930, principalmente após a Constituição de 1934, que reconhece ganhos da Igreja e estabelece premissas que vão levar sua doutrina a vários setores da sociedade.

Como bem analisamos, a História Local requer darmos continuidade a pesquisa compreendendo os ditames da política local para perceber as diretrizes tomadas pelos grupos políticos norte-rio-grandenses em consonância às demandas ao nível regional e nacional.230 Portanto, parte da documentação utilizada para a elaboração deste capítulo são os jornais oriundos do levantamento de nossa base de pesquisa, reunidos e digitalizados em pesquisa do grupo sobre a formulação do anticomunismo por parte da Igreja e do estado do Rio Grande do Norte. São jornais que remetem ao tema anticomunismo mesmo antes da grande ‘onda anticomunista’ de 1935, os jornais A Ordem e A República e, às diferentes construções e definições atribuídas à categoria anticomunismo por cada um destes produtores e do ideário anticomunista no estado.

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PEIXOTO, Renato Amado. Creio no espírito cristão e nacionalista do Sigma: Integralismo e Catolicismo nos escritos de Gustavo Barroso, Padre J. Cabral e Câmara Cascudo. In: RODRIGUES, Cândido et al. (Org.). Manifestações do pensamento católico na América do Sul. São Paulo: Fonte Editorial, p. 80-104, 2015.

230 PEIXOTO, Renato Amado. Duas Palavras: 'Os Holandeses no Rio Grande' e a invenção da identidade católica norte-rio-grandense na década de 1930. Revista de História Regional, 19, 35-57, 2014.

118 O jornal A República foi fundado em 1889 sendo representante do órgão oficial do estado do Rio Grande do Norte. Neste período, como jornal diário, possuía a direção de Anphiloquio Camara e na gerência João Cirineu.

Portanto procuraremos compreender a formulação do pensamento católico norte-rio- grandense ao lado da construção do discurso anticomunista das organizações familiares, por meio do exame da imprensa local, pois entendemos que nosso exame demonstra a existência de diferentes construções desse discurso, a da identidade católica e a das oligarquias locais.231

Especificamente, compreendemos que esse discurso faz parte de uma estratégia de produção de espacialidade da Igreja norte-rio-grandense, ligada a uma estratégia nacional e que exige sua leitura a partir de fontes que ancorem essa percepção, por isso trabalharemos também a revista A Ordem, do Centro Dom Vital e, procuraremos reconhecer traduções e colagens do ideário anticomunista católico nacional no recorte estadual. 232

Em relação à produção do discurso anticomunista tradicional podemos verificar em um dos artigos do jornal A República233 que remete a importância de publicar quais seriam os motivos que levariam a Ação Integralista no estado a participar das eleições de 14 de outubro de 1934. Neste artigo fica clara a importância de demonstrar o posicionamento político de seu propósito de “salvar o Brasil da anarchia” por isso clama a todos participantes que cumpram a fidelidade “a Deus, á Pátria e á Família” como condição indispensável para o cumprimento para o ordenamento da sociedade.

Dessa maneira, evidencia quais são seus posicionamentos contrários à defesa perante o inimigo que não compactua com a ideia da defesa de “Nação”, “Religião” e o “Deus onipotente”. Por esse caminho que identificam quais são os alvos para o combate. Um desses é o comunismo que pretende aniquilar as nações para se tornar em um “Estado universal” que ficará a Rússia a responsabilidade de toda a dominação a este Estado. Outro inimigo é a liberal-democracia, pois foi a partir do seu surgimento que fez germinar os males acarretados do capitalismo e dos partidos políticos, pelos valores de desintegração disseminaram a

231 PEIXOTO, Renato Amado. Espacialidades e estratégias de produção identitária no Rio Grande do Norte no

início do século XX. In: Renato Amado Peixoto. (Org.). Nas trilhas da representação: trabalhos sobre a relação

história, poder e espaços. Natal: EDUFRN, 2012, v. 1, p. 11-36; 232

PEIXOTO, Renato Amado. Creio no espírito cristão e nacionalista do Sigma: Integralismo e Catolicismo nos escritos de Gustavo Barroso, Padre J. Cabral e Câmara Cascudo. In: RODRIGUES, Cândido et al. (Org.). Manifestações do pensamento católico na América do Sul. São Paulo: Fonte Editorial, p. 80-104, 2015.

233 Porque a Acção Integralista Brasileira concorre ás eleições de 14 de outubro. In: A República, 5 de outubro de 1934. p. 6.

119 discórdia entre os membros de uma mesma nação. Nota-se que se definem não como um partido, porém em algo superior a qualquer partido político:

Duas forças nos distinguem de qualquer partidos políticos, pois nos colocam fora e acima de todos eles: o espírito de rígida disciplina e a expressão espiritual. Nós somos uma milícia e temos uma Fé. Luctamos, acima de tudo, por uma idéa.234

Defendem o posicionamento por não se pronunciarem como partido, não estão de acordo com essa formação política, pois não aderem a movimentos que possam desintegrar a nação, e um desses movimentos é visto como a formação de partidos que em vez de unir, desagrega o país em forças antagônicas. Afirma a falta de confiança no voto, “a mentira do voto universal”, mesmo sendo secreto. Para os integralistas o voto é utilizado pela democracia liberal apenas uma forma de como “infiltração doutrinária”. Por isso o voto é considerado apenas uma objeção aos integralistas e por eles será derrotado. “O voto integralista será um protesto contra o voto liberal”. 235

Como se colocam como um “movimento regenerador” cada voto adquirido nessas eleições será uma forma de demonstrar a simpatia a essa causa. As eleições de 14 de outubro serviriam como uma maneira de propagar os ideais integralistas pelo estado tanto na área urbana como nos municípios. Cada voto conquistado seria uma maneira de expressar o descontentamento “um protesto” em busca de um país melhor.

Prevalece no voto integralista a inserção de valores espirituais, neste caso se referindo ao catolicismo, o que chama atenção para uma relação de colaboração entre os valores católicos e a política. Mesmo tendo sido conseguido pela Constituição de 1934, o integralismo se encarregará de concretizar esses valores na política do país. Para eles, o estado liberal estava impossibilitado de concretizar as “reivindicações religiosas” e, seria por meio do Estado Integralista que fornece a base da “espiritualidade”.

O jornal A República mostrava que uma das medidas em andamento na Câmara era a promulgação da Lei de Segurança Nacional236 com o objetivo de proteger a nação contra “a qual elementos dissolventes, ou os que a elles se associam por interesses inconfessáveis, vêm

234 Idem. 235 Idem. 236

120 deblaterando improficuamente”. 237

O jornal salientava que, era um assunto que já apresentava respaldo de toda a nação, por isso a importância de criar uma lei de defesa contra os males externos que ocasionavam a desordem do país.

Mas o que nos chama atenção é que, ao noticiar o andamento para a aprovação no Senado dessa lei se ressalta ser ela de interesse de todos os representantes da nação, para “a sua própria defesa, e das instituições”, pois se definirá e identificará o inimigo a ser combatido, para, dessa forma, manter a proteção e a ordem da nação. Seria neste aspecto que entraria a importância do surgimento da lei para combater os princípios e ações comunistas, fazendo alusão aos “apóstolos vermelhos”, atitudes inerentes ao pensamento e atitudes da esquerda no Brasil:

Os que a impugnam estão, declarada ou veladamente, no número daquelles cujas actividades terão que ser reprimidas a todo custo por nocivas aos interesses nacionaes em momento tão grave como o que o paiz atravessa, envolvido pela propaganda extremista. Dos que cultivavam ideologias estranhas por desporte intelectual, por desfastio ou por snobismo possamos á exhibição quotidiana de sectarios mais praticos, cujas sementes começam a medrar. As greves futeis ficaram no cartaz. Manifestações subversivas de toda ordem entraram a apparecer nos pontos mais diversos do território nacional como signal de que da indisciplina dos espíritos aos poucos vamos resvalendo para a propria anarchia no ambiente ambicionado pelos apóstolos vermelhos para a implantação das suas experiencias revolucionarias. 238

Um importante aspecto que chama a atenção para não a demora na aprovação da lei, era a de ser entendido que este já era um dos perigos reais no país. Seria necessária a implantação da lei para a “organização social e política”, pois esse mal se verificaria em todas as regiões e são coagidos pelos mesmos inimigos. Por meio da Lei de Segurança Nacional se restabeleceria a ordem combatendo “os maus brasileiros que o assediam” para tirarem seus princípios inerentes a tradição da nação.

É neste contexto que Otto de Brito de Guerra, um dos membros da Congregação Mariana e também um dos principais líderes integralistas do estado, escreveria o artigo

237 Idem.

238 Idem.

121 “Ensaio sobre o Homem” 239

como forma de chamar a atenção do mal do comunismo e do socialismo, suas formas e maneiras de agir na sociedade. Inicia com a pergunta “Quem é o homem?”. Otto Guerra explana respostas formuladas pelos filósofos da Grécia Antiga e ao mesmo tempo refuta que a melhor explicação cabe aos ensinamentos do catecismo “o homem “composto de corpo e alma, dotado de razão”. Assim, inicia seu artigo defendendo a formação filosófica do catolicismo para poder rebater os ideais do comunismo. Faz a ressalva das mudanças inerentes ao ser humano e suas diversidades do bem e do mal, porém, não a uma mudança onde prevalecesse o valor científico da modernidade. Rebate o pensamento filosófico do comunismo, quando Lenine e Trotsky argumentam a favor da mudança ocorrida da subjetividade humana para melhor na fase de transformação do socialismo ao comunismo.

O comunismo não tem o dom de vibração das almas. Fica na superfície, do lado de fora da vida, ou melhor, para ser absolutamente fiel á orthodoxia de sua doutrina, penetra em parte e atravez de portas escusas. 240

Nesse sentido contesta a filosofia comunista ao apontar que o comunismo não traria mudanças positivas ao homem, não o modificaria, afinal, se o comunismo quisesse transformar o homem utilizaria de outros princípios, pois não há novidade em seus preceitos, o que Otto Guerra vê é uma ação embasada nos ideais do capitalismo. O comunismo seria da mesma origem ideológica do capitalismo e se verificaria seus aspectos apenas voltados ao materialismo “É o próprio conceito individualista, burguez, capitalista, provam-no á sociedade os espíritos mais illustres. É o mesmo espirito de ambição, de vida fácil, de goso material”.241

Assim, o autor aponta que o capitalismo só poderia ser combatido por meio de “um grande movimento politico, que penetre as massas”.