4. Description et analyse des résultats
4.3. Simulation et fiction
Carlos Alberto Steil
Joe Marçal G. Santos1
Num mundo de materiais, nada está terminado para sempre: tudo pode ser alguma coisa, mas ser alguma coisa é estar sempre no caminho de tornar-se algo mais. Em nossa visão objeto-centrada do mundo, nós chamamos isto reciclar. Mas, do ponto de vista dos materiais, é simplesmente a vida.
(INGOLD, 2011, p. 3)
No galpão de separação de resíduos sólidos do Porto Novo estavam envolvidos, no período do trabalho de campo, em torno de 20 pessoas.2
1 Pesquisa desenvolvida com fomento PDJ-CNPq (2013).
2 Gostaríamos de chamar a atenção do leitor para dois aspectos significativos associados à remoção da Vila Dique para Porto Novo. O primeiro é a versão oficial da Prefeitura de Porto Alegre, no site do Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB) sobre o projeto de remoção “Vila Dique — Reassenta- mento de 1.476 famílias no Conjunto Habitacional Porto Novo, em construção na av. Bernardino Silveira Amorim, 1915. A transferência da vila deve-se às obras de ampliação do Aeroporto Internacional Salgado Filho. Dentro do pro- jeto de remoção, o trabalho social está sendo desenvolvido pela mobilização e organização da comunidade, cursos de capacitação profissional e oficinas de educação ambiental”. O segundo é para o nome escolhido para o novo bairro: Porto Novo, que remete necessariamente às obras do aeroporto Salgado Filho, associadas à Copa do Mundo, usadas como justificativa para a remoção.
A maioria era de mulheres entre 25 e 42 anos e alguns rapazes entre 13 e 18, filhos e/ou netos de integrantes da equipe.3 Todos estavam liga- dos pela linha de produção que implicava receber o lixo, selecionar os materiais recicláveis, processá-lo em fardos e comercializá-lo. As pes- soas que aí trabalhavam haviam sido removidas para este bairro, na Zona Norte de Porto Alegre, há menos de dois anos. A remoção deveu- -se ao projeto de ampliação do Aeroporto Internacional Salgado Filho de Porto Alegre, cuja pista deveria avançar sobre a Vila Dique, onde elas viveram por quase três décadas.4 O Estado participou ativamente das negociações que viabilizaram a desocupação do terreno e a remo- ção daquela população para uma área urbanizada, de casas populares.5 O desenraizamento territorial, no entanto, não desfez os vínculos familiares dos indivíduos que tiveram que migrar compulsoriamente, nem as redes religiosas que os congregavam em diferentes igrejas e grupos, nem os laços de trabalho construídos nas atividades de produ- ção de renda por meio do processamento do lixo. Ao contrário, estas redes são entrelaçadas numa nova teia de relações que, ao mesmo tempo em que reproduz a organização da vida que manteve a ocupa- ção da Vila Dique por todos esses anos, também se refazem para incor- porar novos atores e/ou antigos que redefinem suas posições na con- figuração da comunidade no espaço reterritorializado do Porto Novo.
Disponível em: <http://www2.portoalegre.rs.gov.br/demhab/default.php?p_ secao=104>. Acesso em: 13 set.
3 Na cidade de Porto Alegre há 16 “unidades de triagem” para onde se destinam o material recolhido pela coleta seletiva de lixo. Disponível em: <http://www2. portoalegre.rs.gov.br/dmlu/default.php?p_secao=113>. Acesso em: 26 Jul. 2014. 4 O nome da vila remete à ocupação às margens de um dique de vazão do sis- tema de contenção de água do lago Guaíba. A ocupação ocorre nos anos de 1980 em função da proximidade ao aterro sanitário e a atividade de coleta de materiais para comercialização e reciclagem. (TROLEIS, 2009)
5 É importante esclarecer o leitor de fora do Rio Grande do Sul que a palavra “vila” é usada no estado para designar favela, ou seja, todo espaço urbano de ocupa- ção irregular, sobre o qual os moradores não possuem documento de posse ou propriedade. Usaremos, portanto, neste artigo, vila como sinônimo de favela.
No rastro do lixo | 195 Quando estivemos no Porto Novo, as lembranças que os morado- res guardavam da Vila Dique eram acionadas com frequência como um recurso que lhes permitia reposicionar-se num novo espaço sem as marcas do vivido. A perda desta referência existencial é compen- sada pelo fluxo contínuo dos materiais que estabelecem uma ponte entre a experiência do vivido e o território a ser ocupado. Entre estes materiais, vamos destacar, neste texto, o manuseio do lixo pelo grupo que recria a Associação de Catadoras de Lixo Santíssima Trin- dade ao mudar para Porto Novo. Ainda que a remoção da Vila Dique possa ser associada a uma ação de limpeza e higienização urbana, o lixo não deixou de entrar cotidianamente na comunidade. Agora, não mais apenas transportado dos bairros de classe média por carro- ças puxadas por tração animal ou humana, mas também despejado em reservatórios no novo galpão por potentes caminhões da prefei- tura ou terceirizados. Ao mudar para o Porto Novo, as pessoas leva- ram consigo a sua profissão, assim como o fluxo dos materiais que lhes confere sua identidade profissional: o lixo.
O lixo constitui um elemento de interligação numa diferenciada rede de proteção social que envolve diversos atores institucionais que estão presentes na Vila Dique e que reaparecem no Porto Novo. Do emaranhado de linhas que tecem a malha das relações sociais neste contexto, vamos destacar três campos que, embora possam ser pen- sados como autônomos, um olhar mais detido sobre as intensas inte- rações que eles estabelecem entre si vai apontar para fronteiras poro- sas e para múltiplas possibilidades de arranjos e alianças. Os campos a que nos referimos são primeiramente o da religião, com sua diver- sidade interna — católicos, evangélicos e afros — e suas lógicas e con- figurações específicas. O segundo é o mercado de trabalho, mesclado com a organização social e cooperativa, que se instaura na comuni- dade como uma atividade de produção de renda por meio da associa- ção dos catadores e recicladores de lixo. O terceiro é o Estado, espe- cialmente por meio da prefeitura, que se faz presente na Vila Dique primeiramente como agente da remoção e, depois, no Porto Novo,
como parceiro na construção do novo galpão e no processo de coleta, transporte e processamento do lixo.
Nosso foco, contudo, não se dirige para estes campos em si, mas para as redes de proteção social que as religiões, as transformações na organização social do trabalho e o Estado estão criando, em articu- lação com as organizações familiares e associativas locais, para res- ponder à situação de vulnerabilidade desta população. Para efeitos de análise, vamos definir a situação de vida da população na Vila Dique e no Porto Novo como de vulnerabilidade social. Esta categoria será aqui pensada especialmente a partir das redes de proteção social criadas pelos vínculos de pertencimento religioso em contextos de margina- lização. Como afirma Almeida, “a vulnerabilidade social não deve ser entendida como exclusão absoluta, mas como um processo de perda econômica e de vínculos sociais”. (ALMEIDA, 2006, p. 118) Ao lançar mão desta categoria, no entanto, não pretendemos propor nenhum atalho explicativo para a situação de pobreza que desconsidere o ponto de vista dos próprios moradores sobre a sua experiência de ter habi- tado um mundo de objetos e coisas que foram deixadas para trás ao serem removidos para um espaço sem os traços deixados pelo vivido.
Neste sentido, buscaremos situar as transformações de cada um desses campos nos territórios locais e, assim, chamar a atenção para as formas como as linhas do que definimos como geral ou glo- bal tecem as sociabilidades desses moradores e vizinhos. Ao mesmo tempo, queremos chamar a atenção do leitor para o fato que aquilo que chamamos de global não existe acima ou fora da experiência vivida de pessoas e grupos sociais.
NaS MalhaS da rElIGIão: CatólICoS, lutEraNoS E pENtECoStaIS
As narrativas sobre a origem da Vila Dique, ouvidas dos moradores que migraram para o Porto Seco, assim como aquelas registradas nos textos escritos, estabelecem uma associação estreita da ocupação da
No rastro do lixo | 197 área e da formação da vila com a presença da Igreja Católica. Na cole- tânea Memórias da Vila Dique, organizada por Carmen Zeli Gil, esta referência é frequente nos depoimentos transcritos para os textos que compõem o livro. (GIL et al., 2012) Os primeiros moradores que ocu- param este território são apresentados como migrantes que, nos anos 1980, foram compelidos pelas transformações econômicas e políticas a abandonar o campo em direção à cidade, onde esperavam encon- trar um trabalho digno e uma vida melhor. Sua integração à cidade, no entanto, foi incompleta e periférica. Neste novo território, coube- -lhes criar espaços habitáveis, desprovidos de equipamentos urba- nos mínimos, à margem do sistema formal de propriedade. Assim, enquanto moradores da cidade, vivem num estado de exceção e de vulnerabilidade social que os posiciona à margem da lei e da cidadania plena. É neste vácuo de legalidade e de cidadania que a Igreja Católica se insere e funda uma capela na vila, a partir da qual ela vai operar a sua rede de proteção social. A capela torna-se, assim, um ponto de referência tanto para a sua missão religiosa, de oferta de bens simbó- licos sacramentais à população local, quanto para a sua função vicá- ria, de prover equipamentos e recursos institucionais de promoção humana. A missão religiosa e ação social, no entanto, sobrepõem-se, borrando as fronteiras entre a comunidade católica e o conjunto da população que mora na vila.
Conforme relata a irmã Cristina, agente religiosa que esteve pre- sente desde o início da Vila Dique, a capela surgiu do trabalho de um “grupo de mulheres [da paróquia] que recuperava roupas para
doação e costurava acolchoados para as famílias mais pobres”.
A proximidade com as pessoas da vila, estabelecida por esta prá- tica assistencial, permitiu ao grupo de mulheres identificar, para além das necessidades materiais, uma demanda por bens simbóli- cos sacramentais. Segundo a irmã, foi a constatação desta demanda que motivou o apadrinhamento do projeto da construção da capela pela Paróquia Cristo Bom Pastor. A capela foi erguida na vila para que as crianças pudessem ser “batizadas e catequizadas” e os adultos
pudessem ter acesso aos demais sacramentos. Sua função religiosa, no entanto, logo incorporou o desenvolvimento de projetos sociais, que contou com a mediação da Arquidiocese de Porto Alegre através de recursos dos seus fundos de ação social, bem como outros recur- sos junto a agencias católicas de cooperação internacional para via- bilizar uma rede de proteção social na Vila. Neste horizonte católico, cabia à instituição, por meio de suas pastorais, atender esta popu- lação de migrantes do campo tanto em termos religiosos e sacra- mentais quanto sociais. Esta dupla função segue a lógica institucio- nal católica que define a unidade paroquial em termos territoriais e não congregacionais. Ou seja, a Vila Dique, ainda que uma ocupação urbana plurirreligiosa, era vista como uma extensão da paróquia, englobada no território diocesano. Portanto, uma responsabilidade dos seus agentes da pastoral que fizeram da Vila um campo para o exercício da caridade cristã.
Este procedimento pode ser observado em muitos outros contextos paroquiais católicos em que os seus agentes religiosos atuam na cons- tituição e implementação de redes de proteção que associam direta- mente a ação social com a dispensa dos bens religiosos. No caso da Vila Dique, a capela, na medida em que se torna um ponto de articulação da rede de proteção social e de solidariedade entre agentes externos e moradores, transcende o seu propósito inicial e sua marca identi- tária católica. A urgência das demandas sociais e a situação de vul- nerabilidade em que vive esta população estimulam a diversificação das linhas religiosas que convergem para este espaço de socialidade, tecendo uma malha densa de relações ecumênicas e inter-religiosas.6 Assim, foram realizadas outras parcerias locais com órgãos ecumêni- cos e agências internacionais de desenvolvimento social que possibili- taram a construção de outros equipamentos urbanos na vila. Entre os
6 É preciso ter presente desde o seu início, a construção da capela não atendeu a princípios dogmáticos e eclesiásticos, uma vez que reuniu católicos e pro- testantes (luteranos) não somente em suas atividades, mas na própria dire- ção da comunidade.