4. Description et analyse des résultats
4.2. Le débriefing
4.2.2. Analyse
Sobre eficácias terapêuticas e agenciamentos religiosos
Observações sobre as práticas religiosas, notadamente aquelas de cunho terapêutico, podem limitar a análise dos dados, sendo muitas destas associadas às dimensões fluidas de agenciamentos híbridos, por sua vez ambiguamente relacionadas ao recente crescimento das linguagens de conversão evangélica na BTS. É provável que somente
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No entanto, o fato de que certas eficácias rituais (“rezas” popula- res que viram orações evangélicas, por exemplo) se deslocam ou se acomodam, de forma mais ou menos bem-sucedidas, às represen- tações de novas configurações religiosas, indica como estas “con- taminações” são possíveis por um compartilhamento de busca de efeitos (terapêuticos). Dito de outra forma, os eventos e os efeitos (as mordidas da cobra, os poços “mágicos”, os chás e as rezas) parecem voltar à superfície (DELEUZE, 2009) e embaralhar os estriamentos das linguagens da conversão religiosa. Todavia, paradoxalmente, os mesmos efeitos terapêuticos sofrem remodelações enquanto são inevitavelmente coexistentes ao devir destas novas linguagens. De fato, eles parecem acontecer, mostrando as próprias vulnerabilida- des ontológicas, nas “fronteiras das coisas”. (DELEUZE, 2009, p. 17)
Sobre agenciamentos religiosos e vulnerabilidades
Fazendo dialogar nossas observações sobre agenciamentos religio- sos-terapêuticos na BTS com as questões apresentadas pelo texto de Carlos Steil e Joe Santos (2015), incluído nesta coletânea, podemos indicar, por um lado, pequenas diferenças nas formas do uso do con- ceito de vulnerabilidade e dos fluxos dos agenciamentos religiosos, e, por outro, uma convergência acerca da importância de se compre- ender os efeitos da conversão evangélica nas sociabilidades comuni- tárias de populações vulneráveis.
Com relação ao conceito de vulnerabilidade, no caso do nosso trabalho este foi tomado de forma mais difusa, assinalando um con- texto de precariedade dos sistemas públicos de saúde, buscando considerar a diversidade de agenciamentos terapêuticos no vasto ambiente das populações da BTS. Já no trabalho de Steil e Santos (2015), temos uma discussão sobre grupos sociais cujas condições de
trabalho geram uma relação ambígua com o Estado, permanecendo ora “fora”, ora “dentro” do campo das iniciativas e interesses polí- ticos e econômicos do poder público. A especificidade dessa situa- ção visibiliza a relação entre a vulnerabilidade de um grupo social e a dinâmica dos agenciamentos religiosos.
Outro ponto a ser destacado refere-se às diferenças de fluxo nas relações entre pertenças comunitárias e religiosas, embora a direção da mudança seja a mesma: a crescente presença dos pentecostais. No caso de nossa pesquisa, as tensões recaem primordialmente sobre as relações entre filiações religiosas afro-brasileiras e pentecostais; no caso deles, entre católicos e pentecostais (embora também apareçam as filiações afro-brasileiras).
Como questão central desse exercício comparativo, destacamos a importância dos agenciamentos religiosos para a compreensão das dimensões associativa e comunitária entre populações vulneráveis. Em especial, a importância crescente do pentecostalismo como um vetor de força que vem promovendo rearranjos nas relações comu- nitárias em ambientes onde tradicionalmente interagiam católicos, no caso da pesquisa de Steil e Santos (2015), e afro-brasileiros no caso de nossa pesquisa.
Chamando a atenção para as interpretações sobre as transforma- ções das identidades religiosas a partir dos dados dos censos, Clara Mafra (2013) propõe a substituição da metáfora cartográfica — de topografia unidimensional — para a do holograma, com interpreta- ções mais flexíveis, identificando linhas de força e fluxos na inter- pretação dos processos e “estabilizações” das identidades religiosas contemporâneas. Na interpretação dos dados para o conjunto do país, a autora sugere uma importante linha de força que,
[...] se movimenta a partir do catolicismo em direção aos evan- gélicos pentecostais. Cada vez mais os pressupostos de uma religiosidade cristã “em fluxo” — cujo vórtice está na religio- sidade pentecostal — se tornaram referentes do senso comum, atravessando divisões de classe, de gênero, de idade, de religião,
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de centro e de periferia [...] Ao contrário do que tem sido afir- mado, penso que o catolicismo não é a única alternativa de reli- gião, nem algo inevitável, mas continua a ser uma referência muito difícil de quebrar nos ancoradouros de ordem deste país. (MAFRA, 2013, p. 22)
Essas diferenças entre mapa e holograma, que ao invés de captar “identidades” estabilizadas, buscam visibilizar fluxos e movimen- tos, podem ser úteis para compreendermos o impacto das identi- dades evangélicas nas práticas comunitárias entre populações vul- neráveis. Em nossa pesquisa, nas movimentações terapêuticas que produzem identidades religiosas híbridas e ambíguas no entrecruza- mento com as tradições religiosas afro-católicas; na pesquisa de Steil e Santos (2015), a importância das identidades religiosas evangélicas no gerenciamento de práticas de auto-organização: novas formas de fraternidade no enfrentamento da pobreza, diferenciando-se das práticas tradicionais de filantropia.
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