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6.2 Conceptual Model

6.2.1 Service Description

O polo Juazeiro-Petrolina floresce político-economicamente a partir dos fins do século XIX e início do século XX, mediante a ocorrência de fatos que despertaram a atenção dos meios sociais de outras regiões. O movimento de resistência pós-república, liderado por Antônio Conselheiro (em Canudos-BA, próximo a Juazeiro e a Paulo Afonso-BA), e ascensão de Luiz Viana, originário do município de Casa Nova (também vizinho a Juazeiro), que veio a ocupar, na Bahia, a presidência dos três poderes (judiciário, legislativo e executivo) (1896- 1900), chamaram a atenção pela representatividade política que ali se formara.

O processo de transição da república velha para a república nova não fez com que velhos hábitos característicos do coronelismo se perdessem, uma prática do exercício do poder por lideranças de determinadas localidades que, às vezes, se estendia a outros domínios. De acordo com Leal (1975), o coronelismo conceitua-se como resultado da superposição de formas desenvolvidas do regime representativo a uma estrutura econômica e social inadequada; uma forma peculiar de manifestação do poder privado; um compromisso entre o poder público, progressivamente fortalecido, e o poder privado, cada vez mais decadente, dos chefes locais.

As limitações do governo português para a ocupação das grandes extensões brasileiras também contribuíram para o acontecimento da prática de ceder o poder público aos grandes proprietários, os coronéis, recebendo, em contrapartida, a sua fidelidade política e a garantia do pagamento de impostos, como o observado no trabalho de Burstyn (1984).

No polo Juazeiro-Petrolina, a movimentação político-social também se evidenciava com a constituição de lideranças político-econômicas em razão da expansão comercial e do crescimento populacional das duas cidades. Em Juazeiro, a melhor infraestrutura urbana do que Petrolina (há época) atraía maiores movimentos econômicos, culturais e políticos, destacando-se lideranças político-empresariais, como José Ignácio da Silva, Aprígio Duarte (que a governou por mais de 20 anos), Adolpho Viana, Miguel Lopes da Siqueira e Edson Ribeiro, todos que exerceram o cargo de prefeito da cidade baiana, entre os anos 1900 e 1955 (DUARTE, 1985).

No lado pernambucano, a movimentação social registrava a atuação de lideranças como José de Rabelo Padilha, João Barracão e Clementino Coelho, comerciantes de significativa representatividade. Outros nomes importantes são identificados nos registros históricos do município, como Otacílio Nunes de Souza, Pacífico Rodrigues da Luz e Manuel

Francisco de Souza Filho, todos com profissões de destaque e provenientes de famílias tradicionais (AQUINO, 2011).

O destaque maior é, no entanto, para a família Coelho, chefiada pelo seu patriarca o coronel Clementino Coelho (1885-1952). O coronel “Quelê”, como era conhecido, era neto de Ana de São João, por sua vez uma das netas do capitão Valério Coelho Rodrigues, este dos tempos remanescentes dos movimentos da colonização do interior nordestino, com a expansão dos domínios de Garcia D’Ávila, ainda em meados do século XVII.

A família Coelho migrou do Piauí para as margens do rio São Francisco (atual Petrolina), em fins do século XIX, em meio aos movimentos decorrentes da pecuária e do comércio, quando se encontrava, nessa região, ponto estratégico para o deslocamento de boiadas e o comércio de couros, peles e outras mercadorias, na denominada “passagem do Juazeiro” (LIMA, 2010).

Clementino Coelho, patriarca da família, nasceu em 1885, quando também estava por se emancipar o município de Petrolina, e dedicou-se ao comércio, revelando grande tino para negócios. Constituiu família com Josepha, que viria a ser reconhecida matriarca, quando ficou viúva, tendo 17 filhos, dos quais cinco deles faleceram. No início do século XX, em pleno auge do coronelismo, teve experiências com a política, ocupando cargo de vice-prefeito de Petrolina, mas os negócios lhe demandaram mais atenção, juntamente com os filhos Paulo Coelho (que viria a se transformar em grande empresário da indústria, e candidato a vice- governador de Pernambuco em 1990), e José Coelho (da mesma forma, se transformando em grande empresário industrial, mas também sendo vereador, prefeito e até vindo a ocupar cadeira no senado no início dos anos 2000), constituindo importante grupo de empresas do comércio e da indústria (LIMA, 2010; AQUINO, 2011).

As circunstâncias da economia da época, ao mesmo tempo em que proporcionavam condições para prosperar no comércio, também registravam dificuldades na região de sequeiro, em decorrência das secas que se revelavam como um grande flagelo. O quadro social que se apresentava em povoados e comunidades nas áreas do interior impôs às lideranças empresarias locais a necessidade de buscarem apoio às autoridades da capital pernambucana e a tomarem atitudes como a indicação de nomes locais como representantes políticos (LIMA, 2010; PIRES; LUZ, 1999)).

O coronel Quelê, o patriarca da família Coelho, destacou-se nesse movimento, junto a outras lideranças de municípios, como Ouricuri, Araripina e Santa Maria da Boa Vista, indicando, inicialmente, os filhos Nilo e Gercino a disputarem cargos políticos, vindo a ter significativo êxito nessa empreitada. A partir de então, a família Coelho notabilizou-se como

uma das que mais revelaram lideranças políticas no Nordeste e possivelmente no Brasil (DAMIANI, 1999; CHILCOTE, 1991).

A partir dos anos 1940 e até os dias atuais, vários foram os movimentos nesse sentido, com candidaturas exitosas de integrantes da família:

1 – Nilo Coelho viria ser deputado estadual no final dos anos 1940, deputado federal por 4 mandatos entre os anos 1950 e 60, governador de Pernambuco entre os anos 1967 e 1971, e senador entre 1979 e 1983, quando presidiu o Senado da República; 2 – Gercino Coelho foi deputado estadual na Bahia nos anos 1940;

3 – José Coelho foi vereador e prefeito de Petrolina nos anos 1950 e 60, e senador entre 2001 e 2002;

4 – Paulo Coelho foi candidato a vice-governador de Pernambuco em 1992;

5 – Geraldo Coelho foi vereador e prefeito de Petrolina, nos anos 1970 e deputado estadual por seis mandatos;

6 – Osvaldo Coelho foi deputado estadual por três mandatos, secretário estadual de fazenda no governo Nilo Coelho (1967-71) e deputado federal por nove mandatos; 7 – Augusto Coelho foi prefeito de Petrolina entre os anos 1982 e 1988;

8 – Adalberto Coelho foi vereador em Petrolina, mas dedicou-se à vida empresarial; 9 – Fernando Bezerra Coelho, filho de Paulo, foi deputado estadual, federal, prefeito

de Petrolina por dois mandatos, secretário de Estado nos governos Miguel Arraes, Roberto Magalhães e Eduardo Campos, e Ministro da Integração do governo Lula. Atualmente é Senador da República para o mandato 2015-2022;

10 – Clementino Coelho, filho de Paulo Coelho, foi deputado federal entre os anos 1999-2003;

11 - Guilherme Coelho, filho de Osvaldo Coelho, foi prefeito de Petrolina por dois mandatos;

12 - Ciro Coelho, filho de José Coelho, foi vereador em Petrolina e deputado estadual; 13 - Nilo Moraes Coelho (homônimo do tio), filho de Gercino Coelho, foi prefeito da cidade de Guanambi, na Bahia, deputado federal e governador da Bahia, entre os anos 1989 e 1991.

14 - Fernando Filho, filho de Fernando, neto de Paulo, é deputado federal pelo 2º. Mandato;

15 – Miguel Coelho, também filho de Fernando, é deputado estadual para o mandato 2015-2018.

Com a morte de Clementino Coelho em 1952, a viúva Josepha de Souza Coelho assumiu a liderança política da família, e o filho Nilo Coelho se transformou em um dos principais representantes do Nordeste no cenário nacional, vindo a ser deputado estadual, federal, governador e senador. A continuidade da liderança dos Coelho em Petrolina e região estava, assim, assegurada, e, não bastasse toda a atuação de Nilo Coelho, os demais irmãos também passariam a assumir importantes cargos públicos.

Assim, entre meados dos anos 1950 e o início dos anos 2000, a família Coelho elegeu os prefeitos de Petrolina, ainda que, no final dos anos 1980, após a morte de Nilo Coelho, tenha havido a separação do grupo em quatro ramos: o de Osvaldo, com apoio de Geraldo e Adalberto; o de Paulo e seus filhos; o de José e filhos; e ainda o de Maria Tereza, viúva de Nilo Coelho. Com a morte da matriarca Josepha, em 1990, essa divisão familiar ocorreu explicitamente e novas disputas passariam a acontecer, inclusive entre ramos da mesma família, notadamente entre os grupos de Osvaldo e o dos filhos de Paulo, liderados por Fernando (SANTOS, 2013).

Convém registrar para esta pesquisa que o ex-deputado Osvaldo Coelho, grande liderança política do sertão nordestino, contribui diretamente para este trabalho concedendo entrevista a este pesquisador e, meses depois, por agravamento de quadro de saúde viria a falecer, deixando importante legado à cena político-econômica da região.

No lado baiano, também são observadas importantes revelações de lideranças políticas, notadamente nas últimas décadas, originárias de diversos segmentos, como do empresarial, do ensino superior, em quadros técnicos que passaram a ocupar cargos públicos, revelando-se nomes que exerceram mandatos no legislativo estadual e federal, assim como no executivo estadual, a exemplo dos ex-prefeitos Jorge Khoury, Misael Aguilar e Joseph Bandeira, que atuaram efetivamente na cena política nos anos 1980 e 1990, e ainda nos anos 2000, embora com menor intensidade.