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LES DONNÉES RELATIVES À MES COMPORTEMENTS RELATIONNELS INTÉGRÉS

5.1.3 Case 3 – La courtepointe

5.1.3.3 Je me sens transparente

Como dito anteriormente, tanto em Las memorias del Baruni como em El basurario del Baruni, o escritor Leandro Urbina se representa no protagonista do romance, isto é, o escritor Leandro Urbina se projeta na figura do personagem principal, Baruni. Mas, também podemos interpretar que o escritor, além de se representar e de se projetar na figura de Baruni. Ele mesmo resolve entrar na textualidade, Leandro Urbina assim se textualiza como o editor que escreve as memórias deixadas por Baruni. Ou seja, Leandro Urbina escritor cria uma personagem que também se chama Leandro Urbina, que é o autor das memórias do amigo.

Podemos observar na trama as experiências vitais do escritor Urbina, podemos observar dados da biografia do próprio autor como, por exemplo, o bairro e seus arredores onde se dão os relatos coincidem com o bairro onde Urbina cresceu e viveu sua mocidade no Chile.

83 O escritor Leandro Urbina se oculta apenas através do anagrama Baruni / Urbina, usando uma máscara ficcional de editor das memórias do gordo Baruni, trata-se de uma figuração explícita do autor. Porém, também podemos compreender que o escritor Urbina na pessoa do personagem chamado Leandro Urbina (o editor) se mostra ainda mais abertamente, este faz questão de prefaciar ambos os livros, explicando que é o editor responsável por organizar as memórias de Baruni. Verificamos na narrativa um interessante jogo de espelhos.

Na terceira parte do livro Autobiografia como autofiguración. Estrategias discursivas del yo y cuestiones del género (2007), Amícola abordando sobre o tema da figuração do autor manifesta que os textos de Victoria Ocampo aparecem marcados por um afã de autofiguração, no sentido de uma representação autobiográfica que se esmera em coincidir com um ideal introduzido de si mesmo. Sylvia Molloy também observa a autofiguração de Victoria Ocampo vinculada de maneira absoluta ao ato de um sair a escena, pois:

La presencia de lo teatral en la escena de lectura de Ocampo a partir de la niña que posa con un libro, pasando por el deslumbrante autoreconocimiento de L‟Aiglon, hacia la incesante búsqueda de su propio argumento y su propio personaje, pone de manifiesto la obsesiva preocupacíon de Ocampo con la autorepresentación, preocupación que guia su obra y refleja la difícil problemática del género dentro de la cultura de una época (apud Amícola, 2007, p. 253).

Assim como Ocampo, os textos de Leandro Urbina também estão marcados pelo afã de autofiguração no mesmo sentido proposto pela autora de uma representação autobiográfica coincidente com um ideal de si próprio. Tanto em Ocampo como em Leandro Urbina há uma preocupação em se auto-representar. Leandro Urbina introduz na sua saga dados de sua própria biografia se auto-representando e mantendo a ficcionalidade da narrativa.

José María Pozuelo (2010) em Figuraciones del yo en la narrativa: Javier Marías y Enrique Vila- Matas, considera em suas análises que um eu figurado é um narrador que tem enfatizado precisamente os mecanismos irônicos, em seu sentido literário mais nobre, que marcam a distância de quem escreve até tornar a converter a

84 voz pessoal em uma voz fantasiada, figurada e intrinsecamente ficcionalizada. Para Pozuelo, é essencial vincularmos o conceito de figuração “con la idea de dibujo imaginativo, fantasía de algo o bien su representación, algo que sin serlo, o sin ser de una manera determinada, lo suplanta o figura, esto es, representa imaginariamente como tal” (POZUELO, 2010, p.23).

Para aprofundar nesta questão do autor nas obras estudadas, recorro ao filósofo italiano Giorgio Agamben, na sua visão de gesto de autor. Agamben em seu livro de ensaios Profanações (2007) assume de maneira evidente a tarefa de alargar o trabalho de Michel Foucault. Os ensaios reunidos nesta obra são dedicados ao deus latino Genius, este deveria proteger cada homem desde o seu nascimento. Agamben expõe que Genius jamais pode ter forma de um eu e muito menos de um autor. Diz Agamben:

“Escrevemos para nos tornarmos impessoais, para nos tornarmos geniais e, todavia, ao

escrever, identificamo-nos como autores desta ou daquela obra, afastamo-nos de Genius, que nunca pode ter a forma de eu e, muito menos, de um autor” (AGAMBEN, 2007, p. 16).

No ensaio O autor como gesto, Agamben logo no início do texto, menciona a citação de Beckett - o que importa quem fala, alguém disse, o que importa quem fala – utilizada por Foucault para formular a indiferença a respeito do autor como mote ou princípio fundamental da ética da escritura contemporânea. Foucault através desse recurso fundamenta a distinção entre duas noções que constantemente se confundem são elas: o autor como indivíduo real que ficará fora de campo, e a função-autor, que centralizará as análises de Foucault (AGAMBEN, 2007, p.49).

No entanto, Agamben expõe que a citação de Beckett apresenta uma contradição em seu enunciado. Segundo Agamben, existe alguém que proferiu o enunciado ainda que anônimo e sem rosto, alguém sem o qual a tese, que nega a importância de quem fala, não poderia ter sido formulada. O mesmo gesto que nega qualquer relevância à identidade do autor afirma, contudo, a sua irredutível necessidade (AGAMBEN, 2007, p.49).

Agamben destaca ainda a obra de Foucault intitulada A vida dos homens infames, um prefácio de uma antologia de documentos de arquivo, registro de

85 internação. Para Agamben, é possível que este texto de 1982 assemelhe-se com a chave de leitura da conferência sobre Foucault, que a vida infame constitua de alguma maneira o modelo da presença- ausência do autor na obra. Agamben afirma:

Se chamarmos de gesto o que continua inexpresso em cada ato de expressão, poderíamos afirmar então que, exatamente como o infame, o autor está presente no texto apenas em um gesto, que possibilita a expressão na mesma medida em que nela instala um vazio central. O gesto nesse sentido aparece como instrumento que articula o pensar e anula a intenção (AGAMBEN, 2007, p. 52).

De acordo com Agamben: “o autor nada pode fazer além de continuar, na obra, não realizado e não dito. Ele é o ilegível que torna possível a leitura, o vazio lendário de que procedem a escritura e o discurso” (AGAMBEN, 2007, p. 55). Para Agamben, “tão ilegítima quanto a tentativa de construir a personalidade do autor através da obra é a de tornar seu gesto a chave secreta da leitura” (AGAMBEM, 2007, p 56).

Agamben examinando o lugar do autor, da escrita e do leitor exprime ao evocar a poesia que o lugar, melhor dizendo, o ter lugar do poema não está no texto, nem no

autor, tampouco no leitor. Está no gesto no qual autor e leitor se põem em jogo no texto e, ao mesmo tempo, infinitamente fogem disso. O autor não é senão a testemunha, o

fiador da própria falta na obra em que foi jogado; e o leitor não pode senão voltar a soletrar esse testemunho, não pode senão, por sua vez, deixar de tornar-se fiador do próprio inesgotável ato de jogar de faltar, de não se ser suficiente (Agamben, 2007, p. 56).

Enfim, Agamben manifesta que assim como o autor deve seguir não expresso na obra e, no entanto, precisamente dessa forma testemunha a própria presença inflexível, igualmente a subjetividade se mostra e resiste mais fortemente no ponto no qual os dispositivos a capturam e põem em jogo. Uma subjetividade gera-se onde o sujeito, ao encontrar a linguagem e se pondo sem reservas nela, mostra em um gesto a própria irredutibilidade a ela (AGAMBEN, 2007, p.56-57).

O gesto constitui-se o meio pelo qual o sujeito consegue se expressar. Pode-se dizer também que o gesto atinge o que a linguagem não atingiu. O gesto de Giorgio Agamben em Las memorias del Baruni e em El basurario del Baruni aponta a ficcionalidade da narrativa. Essa maneira como a narrativa foi construída, evidenciando

86 um caráter ficcional, nos permite fazer a afirmação de que a obra é apresentada como uma paródia do gênero autobiográfico, também como uma paródia do gênero memórias literárias. Ainda mais, podemos também afirmar que essa intenção de fazer paródia é um gesto que José Leandro Urbina procura instituir no romance.

87 CONCLUSÕES

Após a análise da obra de José Leandro Urbina, em seus romances Cobro revertido (2003), Las memorias del Baruni (2009) e El basurario del Baruni (2011), tentarei desenvolver um raciocínio conclusivo. Para isto, proponho responder a seguinte indagação: Como caracterizar a escrita de Leandro Urbina, partindo dos romances Cobro revertido (2003), Las memorias del Baruni (2009) e El basurario del Baruni (2011), vinculando essa produção artística a uma poética do deslocamento?

Um conjunto de elementos sobressai e recircula nas obras estudadas, que analisados sistematicamente podem colaborar para uma caracterização de uma poética do deslocamento no âmbito da literatura hispano-candense. Em primeiro lugar se destaca o trabalho com a memória. O escritor que produz sua obra em condições de deslocamento cultural manifesta uma extraordinária criatividade na atividade mnemônica. Digamos que a distância produz um distanciamento dos fatos narrados que permite ricos jogos de esquecimento e lembrança, apagamento e rememoração, mas, sobretudo, invenção fictiva sobre os fatos rememorados. Leandro Urbina instaura a memória do personagem principal de Cobro revertido no jogo dialético de lembrar-se e de esquecer-se de seu país de origem, de seus amigos, de sua história. Além disso, pudemos verificar a memória se entrelaçando ao espaço narrativo. Urbina vincula as lembranças do personagem Baruni ao bairro onde nasceu, cresceu e viveu antes do seu exílio ao Canadá. O autor também vinculou as recordações a sua rua Maruri e aos arredores do bairro Independencia em Santiago do Chile. Propenso aos jogos de ambiguidade e deslocalização, Urbina apela ao deslocamento genérico em seus textos. Romances que lembram autoficções, autobiografias romanceadas, falsas memórias, se entrecruzam e se interpelam nos textos estudados. O simulacro e o paródico, como gêneros da duplicidade, enriquecem o trabalho lúdico com o gênero. Nessa desestabilização se perdem também os limites entre a realidade e a ficção. O escritor quebra qualquer compromisso de veracidade, instaurando um mundo sem margens definidos entre a ficção e a vida.

Parece que Urbina brinca com as coisas mais caras a um escritor: sua própria vida, sua memória, a escrita, o gênero literário e finalmente, a própria autoria. Se a pós- modernidade instaurou a exposição da pessoa no texto, Urbina transcende esse

88 pressuposto e se expõe, se auto-representa, mas no jogo paródico e inventivo da criação da figura de um editor, no caso da saga de Baruni ou nas pistas autobiográficas deixadas em Cobro revertido, que precisam da ativa participação do leitor.

A desconstrução dos lugares mais estáveis do texto (autor, editor, personagem), a ambiguidade genérica, os jogos de lembrança e esquecimento na reconstrução memorial, a ruptura de fronteiras entre o mundo da ficção e mundo da vida, enfim, a preferência pelo entre-lugar na escrita são elementos na obra de Urbina que podemos vincular ao intento de caracterização de uma poética do deslocamento.

Através desta pesquisa acredito ter colaborado para o trabalho coletivo que se desenvolve em torno ao projeto Deslocamento cultural e processos literários nas letras hispânicas contemporâneas: a literatura hispano-canadense do Programa de Pós- graduação de Letras Neolatinas da UFRJ referido à caracterização das poéticas do deslocamento na literatura produzida por uma comunidade emigrada de origem hispânica no âmbito do Canadá, cumprindo assim com os objetivos pretendidos nessa dissertação.

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